Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 30

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

A sobrancelha de Pavo, que recuou para o lado, se torceu por um momento. Chamando seu mestre de forma displicente, ofendia o coração do leal cavaleiro.


"Marquês."


Pelliot, que lançou um olhar de relance para Pavo, imediatamente fingiu reconhecer o Marquês Pardus como se nada tivesse acontecido. O Marquês Pardus se sentou ao lado do assento vazio.


"Não imaginei que fosse encontrá-lo aqui."


Disse que não fazia ideia alguma, mas, na verdade, Pelliot sabia que o Marquês Pardus viria. Isso porque, primeiramente, obteve a lista de convidados do chá através do Visconde Kerata. Era uma forma de garantir que não houvesse alguém que pudesse prejudicar Leônia.


"Há quanto tempo! A última vez que nos vimos foi na capital?"


"Não faz muito tempo. Nos encontramos no Palácio Imperial como se estivéssemos cansados de se ver."


"Haha! O duque fala coisas engraçadas."


A risada foi tão alta que as crianças que brincavam com os nobres ao redor se viraram surpresas.


'… Que coisa é aquela com aquele homem?'


Quem foi que ousou fingir estar tão próximo na frente do meu pai?


Leônia estreitou os olhos e observou o senhor misterioso. Até onde ela sabia, o único amigo que podia ser amigável com Pelliot era o Conde Carnes Rênée. Ele era como um campo em um dia de primavera radiante, que sabia como lidar com o temperamento de Pelliot, como uma brincadeira de criança.


"Quem é ele?"


Esse personagem apareceu no romance?


Leônia murmurou enquanto olhava para o velho senhor, cujas cores branca e cinza lembravam as montanhas do Norte.


"É meu avô."


Foi um menino que, ansioso, comia a bala que Leônia lhe dera para responder à sua curiosidade.


"Seu avô?"


O menino, com bochechas rechonchudas e nariz redondo, acenou com a cabeça. Mesmo sendo neto de um senhor idoso, não havia muita semelhança. A criança era atrevida, mas o velho tinha uma expressão amarga.


"Quem é seu avô?"


"Ele é o Marquês Pardus."


Leônia abriu bem a boca.


* * *


O conflito entre o Norte e o Império era profundo.


Sua origem remonta à história, desde os primórdios da fundação do Império.

Naquela época, já existiam poderes estabelecidos não apenas na região Norte, mas também em outras regiões, e a dinastia imperial os conciliou e concedeu títulos de nobreza. A parte norte arrogante e expansionista, que crescia em território, era como um espinho no olho da Família Imperial.


Especialmente, a Família Imperial tinha medo de 'feras' de cabelo preto e olhos negros. Não por magia ou habilidade com a espada, mas por uma habilidade estranha que se assemelhava às presas da besta, eles facilmente derrotaram as tropas de elite da Família Imperial e os guerreiros e magos considerados os melhores de sua época.


Então, a certa altura,

As feras do Norte estenderam primeiramente as mãos. A razão era desconhecida, mas as Feras Negras receberam o título do Império e, nominalmente, passaram a fazer parte dele.


Autonomia absoluta no Norte e proibição de casamentos entre as duas famílias.


Condições essas duas.


O Império foi forçado a aceitar ambas as condições. Sem isso, não poderia tomar controle do Norte. Como as presas das feras iam além do reino humano, era natural que a vitória fosse sua, mesmo que não pudessem ser derrotadas. Se continuassem a confrontar-se, provavelmente o Império seria tomado pelas feras do Norte.


Em troca, o Império colocou uma condição.


Aceitar uma família nobre com sangue real no Norte.


"Meu neto faz oito anos este ano. É o filho mais velho, não é fofo?"


Essa era a família do Marquês Pardus, cujo bigode estava caído de tanto se vangloriar do neto ao lado de Pelliot.


"Você gosta muito do seu neto."


Pelliot apenas assentiu de forma rude enquanto segurava o chá.

"É meu primeiro neto, por isso ele é mais interessante."

"Entendo."


A conversa unilateral continuava à mesa, com o Marquês Pardus rindo alto e Pelliot ouvindo silenciosamente e respondendo de forma simples. Mas, por alguma razão, a atmosfera estava mais fria e cortante do que cristais de gelo que permaneciam apenas no lugar onde os dois estavam.


Só a Viscondessa Kerata, que preparava o chá diligentemente, teve que engolir suas lágrimas sozinha. Os sentimentos patéticos da organizadora do chá não adiantaram diante dos dois homens.


"Pai."


Foi então.


"Leo."


O olhar que observava o Marquês diminuiu. Sua expressão, fria e cortante como um pedaço de gelo, se derreteu.


"Vou ver os renas agora."


Leônia disse, estendendo sua sacola de balas. De repente, as crianças que se reuniam perto da porta receberam a atenção das criadas e criados da família da Viscondessa, vestidos com suas roupas de sair, prontos para irem embora. Da mesma forma, Leônia usava seu manto com confiança.


"Leve e coma com seus amigos."

"Não acho que posso comer vendo as renas."

"Por quê?"

"Só…."

Agora, na cabeça de Leônia, algo quente tremia de forma insalubre.

'Será que o pai sabe?'

A verdade é que, graças ao ovo quente e redondo, sua inocência infantil, pequena como uma ervilha, foi completamente secada e distorcida.

Balas redondas e ovos redondos.

"… Eu não vou comer de qualquer jeito."

Um sorriso constrangedor cruzou os lábios de Leônia, que murmurou que seu apetite tinha desaparecido. No jantar daquela noite tinha ensopado de frango com creme, mas também ficou fora de questão.

"Hoo, essa criança…"


Nesse momento, o Marquês Pardus interveio entre o pai e a filha.

"Você é a filha do duque Voreotti, não é?"

"… Famoso?"

"Ah, desculpe. O duque era sensível a rumores."

O Marquês deu uma risada boa ao cometer um erro. Pelliot o ignorou e pegou a sacola de balas de Leônia. Depois de garantir que a criança vestia sua roupa de sair, deu um aviso para que ela cuidadasse.

"Olha lá, filha do duque."

Primeiro, o Marquês Pardus se apresentou.

"… Olá."

Leônia, que tinha encarado o Marquês de forma rude, o cumprimentou com um leve atraso.

"Leônia Voreotti. Sou filha do pai."

"Haha! Você é uma pessoa muito fofa. Por isso o duque parece que brinca nos seus braços."

"Será? Sou mais forte que os braços do meu pai…"

"Não vai ver as renas?"

Pelliot, que interrompeu suas palavras antes de ela falar besteira, chamou Pavo.

"Leve o Sir Gavert."

"Sim."

"Vai com cuidado."

"Sim."

Leônia assentiu, pegou a mão de Pavo e foi até o grupo das crianças.

"Você se divertiu com seus amigos?"

"Ummm, de certa forma? Aprendi muita coisa."

"O que foi? Pode me ensinar também?"

"Você sabe por que o nariz da rena é vermelho?"

Leônia não é a única quem sofre. Com coração travesso, Leônia sorriu de forma maliciosa e sussurrou no ouvido de Pavo.

Aaaacckk!


Logo, um grito claro e radiante, que não combinava com o tamanho confiável de Pavo, ecoou. Era uma voz que lembrava um pássaro. Leônia e as crianças ao redor riram da estranheza.


O que aquele sujeito estava fazendo? Foi só um momento em que o olhar indevido de Pelliot se voltou para Pavo.


"… Não há tempo a perder."


Assim que o neto desapareceu, o Marquês Pardus parou de rir.

"Tenho certeza de que é normal."

O Marquês baixou seus olhos pontudos e resmungou com um tom triste. Com a outra mão, Pelliot segurou seu pulso, que queria jogar chá no Marquês, e o empurrou para baixo.

"Haha, isso é excessivo."

Quem você estava tão ocupado?

Olhar pela janela, onde o jardim tranquilo coberto de neve pura podia ser visto, o Marquês lançou um olhar desdenhoso para o chá frio. Logo, o criado que servia veio e despejou mais chá.

"Estou bem velhinho agora."

Após ver o vapor quente subindo, os lábios do Marquês relaxaram.

"Os invernos no Norte são rigorosos. Quero me aposentar."

"Então, volte para a capital."

"Só reze para que eu leve um raio."

Depois, o Marquês Pardus bebeu seu chá.

"Mesmo que não queira ver aquele idiota por toda a capital, vou ficar aqui pelo resto da vida. Assim é melhor para todos. Em particular, nossa família tem uma posição."

"Quando foi que o Marquês se importou com isso?"

"Claro que me importo. Então, foi por isso que trouxe meu neto precioso aqui hoje?"

"Que velho irritante."

"Essa é a melhor elogio. Parece que, quando eu morrer, fecharei meus olhos sem arrependimentos, se me tornar um incômodo para o nosso duque."

Dizendo isso, o Marquês sorriu sardonicamente.

Pelliot não respondeu. Apenas olhou a paisagem lá fora, na direção do que o Marquês observava.


* * *


"Uwaa, que cheiro estranho!"

"Meu nariz dói!"


Assim que entraram na grande jaula das renas, as crianças cobraram o nariz e deram risadinhas.


"Olha ali! É uma rena!"

"Muito grande! Maior que um cavalo!"


No entanto, assim que viram a rena enorme que o Visconde Kerata trouxera para a cerca, comemoraram como se tivessem esquecido o cheiro horrível do animal. Apesar do barulho alto, a rena aguardava pacientemente, seguindo a orientação da mão do Visconde.


"Esse aqui se chama Tutu."

As crianças ouviam a explicação do Visconde Kerata do lado de fora da cerca.

"Esta é uma rena de dois anos."

"Tem dois anos? É muito alta."

Um menino de rabo de cavalo curto perguntou, surpreso. A rena, que ultrapassava a altura de um adulto, piscava para as crianças que olhavam para ela com olhos deslumbrados. Seus olhos azul-marinho lembravam o céu pouco antes do amanhecer.

"Renas são boas em seguir as pessoas. Dá para montar nela como em um cavalo."

As crianças ouviam a explicação do Visconde Kerata. Era fácil de entender para todos, pois Flomus já lhes ensinara sobre a rena há algum tempo. Na verdade, algumas até levantaram a mão e se gabaram de saberem o mesmo.


"…."


Porém, as orelhas de Leônia não prestaram atenção na explicação. Seus nervos se voltaram para o Marquês Pardus, que ela tinha acabado de conhecer.


'Aquele avô é o Marquês.'


O Marquês Pardus era um personagem de um romance que Leônia lera em outro mundo, que ela lembrava. Apesar de não ser o personagem principal, era um velhinho que deixou uma impressão considerável como ajudante de Pelliot.


Ele é astuto, mas bem informado.

Mesmo que fosse um pouco irritante, suas habilidades eram comprovadas.

Assim, Leônia ficou surpresa ao ver o Marquês Pardus.

Originalmente, a família Pardus media o conflito entre o Norte e o Império na Família Imperial. Eram uma família colateral enviada pela Família Imperial para simbolizar a união das duas forças. Contudo, na prática, agiam como espiões enviados pelo Império com um plano de devorar completamente o Norte, criando conflito ao alienar seus habitantes.


Mas havia um problema.

'A família Pardus gosta de poder.'

O motivo pelo qual eles se mudaram para o Norte, segundo a vontade do Império, era porque o próprio Império era uma entidade muito forte. Eram pessoas que acreditavam e seguiam quem fosse forte, reconhecendo a força e tornando-a seu mestre. No entanto, as feras negras do Norte, que até então só conheciam por rumores, eram mais fortes que o próprio Império.

A família Pardus se fascinou por um poder extraordinário que transcende os humanos.

'No fundo, eles se voltaram.'

A família Pardus se ajoelhou diante das feras negras e jurou lealdade. Traindo o Império, tornaram-se voluntariamente informantes da família do Duque Voreotti, servindo como agentes duplos há muito tempo.

'E a família do tio Luperto.'

O Marquês Pardus era o pai biológico do Visconde Luperto Ricos.

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