
Capítulo 27
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Leonia, que logo foi capturada, ficou completamente devastada.
— …Por que você está olhando assim pra mim?
Os olhos de Pelliot, ao olhar para Leonia, estavam cheios de determinação misturada com uma afetuosa pena.
— Leo.
— …Por quê, pai?
— Você precisa brincar como uma criança normal.
As palavras excessivamente cuidadosas eram desconfortáveis demais. Pelliot não era do tipo que tratava os outros com tanta cautela. Claro que Leonia sabia que havia uma exceção há bastante tempo. Mesmo assim, ela odiava esse tipo de consideração.
Especialmente agora, ao ler esse convite.
— Você ainda é jovem. Não há necessidade de se esforçar para parecer uma adulta.
— Que est*****...
Leonia, surpresa com a palavra que quase escapa, rapidamente tentou se recompor. Ainda assim, ela não conseguiu dizer "bestas". Diante do pai preocupado, ficou sem jeito.
— …Bem, pai.
Primeiramente, ela decidiu convencer Pelliot de que estava indo bem.
— Prefiro ficar sozinha, lendo um livro, do que brincando com brinquedos. E, como você sabe, sou bem madura.
— Mas isso não era o que você queria.
— Por que esse senhor de repente está fazendo isso?
No final, Leonia não aguentou e chamou Pelliot de “senhor” depois de muito tempo. Seria apenas uma ilusão, mas suas sobrancelhas desfiguradas e seus lábios apertados pareciam, por algum motivo, patéticos. Ela desejava que ele não fosse tão compreensivo com ela.
Mas todos os presságios ruins se confirmaram.
— Leo.
Uma mão grande acariciou suavemente a cabeça da criança.
— …O que foi com essa atmosfera?
Os olhos arredondados não conseguiram conter o que sentiam. Ela nunca imaginou que uma atmosfera em que empatia e tristeza coexistissem fosse tão estranha.
— Agora você pode fazer boas amizades e brincar como uma criança da sua idade...
— Eu tenho amigos! Você viu no orfanato!
Leonia mencionou o orfanato onde foi recentemente. Os irmãos de lá eram companheiros, família, amigos preciosos que enfrentaram os momentos difíceis juntos.
A família do orfanato, que ela reencontrou após alguns meses, chorou de alegria ao ver Leonia. Graças a ela, foram salvos do infernal orfanato, e foram transferidos para o Orfanato Voreotti, onde receberam proteção calorosa. Agora não passavam fome, as roupas que recebiam eram quentinhas e podiam estudar.
— Isso não é um amigo.
No entanto, os pensamentos e memórias de Pelliot daquele dia eram bem diferentes das de Leonia.
— Protetor e guardião.
Até Pelliot não negava que as crianças do orfanato acolhiam Leonia. Elas eram tão íntimas que se abraçavam e choravam por um bom tempo.
Mas era só por aquele momento que pareciam ser seus amigos.
'Como você está? Não está com fome, né?'
'Olha só, uau, como você cresceu!'
'Você chorou? Não chore, vem cá. A irmã vai limpar isso pra você.'
'Ei, seu pirralho! Quantas vezes tenho que te falar pra não implicar com os mais bobos?!'
'Irmã, já decorou todas as letras? Que orgulho!'
Leonia estava tão acostumada a cuidar da antiga família do orfanato uma a uma. Começou com uma criança menor do que ela, e os irmãos mais velhos, bem mais velhos, também pareciam bebês diante dela. E ela absorvia esse cuidado com facilidade demais.
No antigo orfanato, ninguém cuidava ou se preocupava com as crianças. Então, a responsável e esperta Leonia assumia o papel dos adultos e cuidava de todos. Essa infância quase mágica era apenas um luxo em um orfanato destruído.
A responsável pela criança. Nem era graça. Pelliot se arrependeu pela primeira vez. Se ele tivesse se interessado um pouco mais, mostrado mais empatia pela sua prima que fugira. Se tivesse procurado um pouco mais naquela época, ela não teria tido uma vida tão difícil.
'Havia várias feridas nas costas da menina. Como um chicote ou uma cinta de couro….'
Pelliot lembrou do relatório de Melles após examinar o corpo de Leonia. Uma criança muito menor que as outras ainda não mostrava suas dificuldades locais.
Engolindo a raiva crescente, Pelliot cuidadosamente observou ao redor dos olhos de Leonia. A criança ficou assustada ao perceber a leve trepidação na mão de seu pai, enquanto acariciava sua bochecha.
— Leo.
— Sim.
— Você é minha única família.
— Pai…
Os olhos de Leonia se encheram de lágrimas diante da confissão inesperada.
— Não esperava que você fosse uma presença tão grande.
— …Você está brigando?
Leonia reclamou logo de cara.
— Então quero que faça o que quiser.
Mas o pai não vai deixar....
Leonia engoliu as palavras que não tinha coragem de dizer. Ele a surpreendeu com brinquedos capazes de devolver sua inocência infantil. Também confiscou o livro de Leonia, 'A Vida é Toda Vã.',' e deu para ela, no lugar, 'Contos de Sonho e Fantasia.'
Leonia realmente queria evitar ser tratada como uma criança, por mais jovem que parecesse.
— Sua inocência infantil é preciosa.
Mas, quando Pelliot chegou a esse ponto, ela não podia mais negar que gostava. Ela ficou comovida, de verdade. Sentiu tanta emoção que, por um momento, lágrimas quentes congelaram seu nariz. Assim como ela o considera seu verdadeiro pai e o segue, Pelliot também valoriza Leonia e cuida dela com sinceridade.
— Eu sabia que meu pai gostava de mim, mas…
O que ela sabia, via e sentia eram claramente diferentes.
— Uhhhhhh!
Envergonhada, Leonia se cobriu com as mãos.
— Acho que vou!
Leonia cerrando os dentes, falou.
— Se eu for, não vou morrer!
— É um convite, não uma aposta.
Pelliot disse, acariciando curiosamente o cabelo da filha.
* * *
O inverno no norte é mais longo e mais escuro do que em qualquer outro lugar.
O visconde Kerata retornou de uma visita à grande fazenda de renas fora da propriedade. Como era tão espaçosa, passou meia-dia só olhando pra ver se precisava de reparos. Felizmente, verificou tudo antes do pôr do sol, e não encontrou nada errado.
— Você voltou?
— Pai! Você voltou!
— Voltou sim?
Quando o visconde chegou à mansão, foi recebido pela família e terminou o dia feliz.
E quando todos estavam dormindo...
— …Querido.
Primeiro, a viscondessa, deitada na cama, olhou com expressão preocupada para o marido.
— Como você disse, enviei o convite ao duque, mas ele realmente virá?
— Você está preocupada com isso?
O visconde, deitado ao lado, deu um tapinha no ombro da esposa e sorriu suavemente. A viscondessa confirmou e soltou um suspiro. Nunca imaginou que chegaría o dia em que enviaria um convite à residência do duque. E ainda não consegue acreditar nessa realidade.
— Eu não menosprezo nossa família.
A família Kerata, junto com a Voreotti, era uma linhagem antiga, que existia antes mesmo do Império. Assim, mesmo tendo apenas o título de visconde, os nobles do norte não tratavam a Kerata com desdém.
— Mas é o duque.
O Mestre do Norte e a Fera Negra.
— Se fosse usar o convite como queimar de lareira, eu ficaria contente. Pelo menos, não seria desperdício de papel.
O visconde Kerata caiu na risada com a preocupação exagerada da esposa. A viscondessa então estreitou os olhos. Para ela, aquilo era muito sério.
— Humm humm, não precisa se preocupar com isso.
O visconde Kerata olhou nos olhos da esposa.
— Porque o próprio duque pediu pessoalmente pra fazer isso.
— Eu nem acredito nisso.
— Amiga, confie no seu marido.
Seus dedos grandes brincavam nas laterais da esposa. A viscondessa torceu o corpo, sorrindo de leve. Depois de dizer que acreditava nele, o visconde recostou um pouco atrás dela.
— Espero que tenha preparado bem a festa do chá.
— Isso…
Se o verdadeiro pai e filha do duque Voreotti aparecessem, ela não poderia dar nenhum passo em falso. A Fera Negra do Norte era de tal força.
— Aliás, você disse que viu a Senhora Voreotti pessoalmente.
— Ela era uma garotinha muito fofa.
O visconde Kerata, ao se lembrar de Leonia, sorriu calorosamente. Sua linguagem selvagem e olhos negros brilhantes eram inesquecíveis. Além disso, ela havia chamado Flomus de "bebê", mesmo sendo bem mais alto do que ela?
— Não sei se posso usar essa expressão, mas ela era como uma criança de leitor mais velho.
— Oh, meu?
— Ela olhou pro nosso Flo e disse: “Ah, você ainda é um bebê”.
— Meu Deus!
A viscondessa explodiu em risadas. O visconde Kerata, acompanhando a esposa, também sorriu. Por outro lado, ele sentia pena de Leonia.
Embora Flomus fosse mais alto que os colegas, Leonia era muito pequena pra sua idade. Na primeira vez que viu Leonia, o visconde Kerata achou que ela tinha uns cinco anos. Ela parecia uma criança bem mais nova que a idade real. Isso não era por acreditar na sua posição ou menosprezar alguém, mas sim por ela ter crescido demais cedo demais, parecendo não ser uma verdadeira companheira da mesma idade.
'Talvez a vida no orfanato fosse difícil.'
Não era na propriedade Voreotti, mas disseram que outros orfanatos em outros patrimônios nem sequer funcionavam direito.
'O duque quer cuidar de uma dama assim.'
Ele quer apenas fazer o bem para sua filha, que encontrou tardiamente. O visconde Kerata, com dois filhos, compreendia totalmente esses sentimentos. O duque Voreotti, que entrou em contato para enviar o convite para o chá com crianças, também era um pai na sua maneira.
— Afinal, boatos são só boatos.
A viscondessa lembrou-se dos nobres que espalharam rumores inúteis.
— O duque vai querer que a Senhora conheça sua amiga neste chá.
— Então, para garantir, escolhi cuidadosamente os convidados.
A viscondessa Kerata excluiu da lista de convites todos os nobres que tinham sido chamados recentemente à mansão do duque Voreotti. Eles tinham cometido grandes e pequenas faltas durante a estadia do duque na capital e espalhado rumores maliciosos sobre Leonia. Alguns deles eram amigos da família Kerata. Por mais que questionassem por que foram excluídos, ficaram calados ao ouvir que a filha e o pai do duque Voreotti viriam.
— Você pensou na nossa Flo?