Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 20

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Apesar de o pai, que retornara após um mês, estar agora bem na sua frente, a filha não conseguiu responder. Leonia expirou lentamente, apenas com o hálito sufocado, e estava bastante cansada. Isso porque ela não conseguiu conter e controlar corretamente a explosão de sua força.


A luz em seus olhos negros, que estavam sem foco, possuía um brilho dourado deslumbrante.


"Como esperado, dá muito trabalho."


Em breve, suas presas vermelhas surgiram.


Pelliot olhou nos olhos de Leonia. A luz dourada que havia perturbado a preto desapareceu à medida que os grandes e maduros caninos lentamente envolviam e trituravam as impiedosas presas jovens. Ao mesmo tempo, o ar frio ao seu redor começou a aquecer-se.


"…Puha!"


"Gasp, gasp!"


Pavo e Connie, que estiveram congelados, finalmente conseguiram respirar novamente.


"Senhor Gabel, o que aconteceu?"


Pelliot perguntou, confirmando que ela havia se acalmado.

"…Sinto muito por não ter conseguido proteger a Senhorinha. Não consigo sequer imaginar o que ela pretendeu, mas acredito que a Condessa Tedross a tenha ofendido."


Seus olhos de um vermelho escuro se voltaram para Cerena, que estava sentada no chão.


Prisioneira nos espinhos de gelo, Cerena estava completamente atordoada. Sua aparência atual, enquanto emitia um estranho gemido como se revelasse sua verdadeira essência, fazia qualquer um questionar se seu magnífico passado como governante do mundo social não passava de uma farsa. Uma crosta horrenda endurecera sobre as feridas em seu corpo.


"Parece que a senhora fez um comentário excessivo em relação à sua Senhoria."


Pavo relembrou a conversa entre Leonia e Cerena enquanto tentava recordar.


No entanto, ao ouvir a situação, Pelliot não respondeu.


'Seria melhor se ele empunhasse uma espada…'


Pavo tremeu, conhecendo há anos o significado do silêncio de Pelliot. Ao contrário das presas de Leonia, que agiam de forma selvagem, essa versão mais afiada e assustadora dos caninos da besta era mais controlada e contida, dominando lentamente e firmemente o salão.


Na verdade, a besta observava apenas o filhote que carregava nos braços. Leonia, que já havia acalmado suas presas, começava a ferver após a súbita explosão de poder. Um suor frio formava-se na sua testa redonda, e até os presentes sofriam ao ouvir sua respiração pesada.


"…É surpreendente."


Pelliot, que cuidava de sua filha doente com mais atenção, entregou a caixa de profiteroles a Pavo. Enquanto isso, a caixa permanecia intacta, sem uma única ruga.


"Enquanto eu estava fora do Norte,"


Com essas palavras, Pelliot passou por ela sem sequer olhar para Cerena. No salão silencioso, apenas os passos de uma besta negra subindo as escadas ressoavam claramente.


Então, a besta parou e mostrou suas presas.

"Seus sonhos de futuro de repente se tornaram sonhos de suicídio?"


Cerena, perfurada pelos caninos, se agachou. Pelliot olhou para ela indiferente e subiu as escadas como se não tivesse interesse.


"Então, faça o que desejar."


De verdade, vá em frente. A besta, que murmurava, voltou a caminhar.


"……"


Pavo, segurando a caixa de profiteroles que lhe fora entregue, olhava fixamente para as escadas por onde Pelliot subira. Não conseguia esquecer o som de seus passos, cada vez mais distante. Era como uma substituição pelo grito agudo e aterrorizante que Cerena, que havia sido perfurada pelos caninos, não conseguiu emitir.


A entrada fria de repente recuperou sua temperatura original.


No entanto, ninguém conseguia se mover facilmente mesmo após a besta negra ter desaparecido.


Assim, Cerena, que havia desmaiado no centro do hall, só foi retirada muito tempo depois.


* * *


Uma noite escura, tingida pela luz da lua, saudou Leonia.


"……."


Sem perceber o que havia acontecido, Leonia cambaleou e se sentou. Assim que seus olhos começaram a girar ininterruptamente, ela caiu para trás, vítima de uma súbita tontura.


A coisa que tocou sua cabeça não foi uma almofada macia.


"Tsk."


Uma mão grande e firme sustentou a cabeça de Leonia.

"Você ainda está com febre, deite-se."


Ela ouviu uma voz suave, porém indiferente. Sua cabeça, levantada até a metade, logo se acomodou lentamente na almofada. Leonia suportou a dor de cabeça e virou levemente a cabeça para a esquerda. Lá estava Pelliot, que tinha arrastado sua cadeira até o lado da cama e se sentava.


"Senhor…"


Pelliot segurou a mão estendida dela, que relutantemente se aproximava. Sua voz, que antes parecia estar no fundo, era completamente diferente da sua habitual, enérgica.


Leonia não sabia quando Pelliot estivera ali. Mas, de suas mangas folgadas ou seu cabelo arrumado calmamente, ela deduziu que ele ficara ao seu lado por algum tempo.


"Você chegou quando?"


"Há dois dias."


"Dois dias…"


"E tem estado dormindo o tempo todo."


"…Por causa das presas?"


Além de suas memórias vagas e fragmentadas, Leonia chorou ao lembrar o que fizera. Então, ela puxou o cobertor sob os olhos e pediu desculpas com uma voz quase inaudível.


"Desculpe…"


"De que está falando do nada?"


"Mas, eu fiz alguma coisa errada…"


"O que foi que você fez de errado?"


Pelliot perguntou, puxando o cobertor de volta até o queixo dela. Seus olhos negros olhando para ela pareciam não compreender ao certo do que Leonia falava.


"Um acidente…"


Leonia puxou o cobertor, mas Pelliot não soltou a peça que ele mesmo segurava.


"Qual acidente?"


"……"


"Usei as presas?"


"Hum…"

Uma sombra escura caiu sobre o rosto da criança. Parecia mais séria do que quando ela atravessou o portal de teletransporte e sofreu uma forte indisposição. Ao menos naquela época, ela não prestava tanta atenção a Pelliot quanto agora.


"Você usou de propósito?"


Pelliot perguntou, limpando a testa de Leonia. Ela ainda tinha uma febre leve.


"Não, na verdade…"

A tremenda temperatura corporal, um pouco mais baixa que a dela, fez as lágrimas escaparem. Sua brisk, que esfriava na testa, parecia tão delicada que a fez chorar ainda mais. Logo, um nariz choroso soou tristemente.


"…Fiquei com raiva."


Leonia, que agora não queria ser vista, enfiou a cabeça no travesseiro.

"Deveria saber qual é meu lugar."


Mesmo escondendo o rosto, ao contrário, sentimentos de injustiça e frustração transbordaram. O ombro pequeno e frágil da criança tremeu incessantemente, e seus olhos ficaram molhados com uma intensidade incontrolável de emoção.


"Qual é o seu lugar?"


Era uma pedra no coração de Leonia que ela não conseguia se afastar nem por um momento.


"Eu, não sei…"


A criança estava confusa sobre tudo.


Quando abriu os olhos um dia, viu que havia mudado para outra pessoa. Como uma criança muito jovem e fraca. Sua família familiar, os lugares que costumava visitar tantas vezes que ficava cansada, e as coisas que sempre carregava, tinham desaparecido completamente.


Ela tinha medo da mudança repentina, mas durou pouco. Logo, uma violência inexplicável e maus-tratos atingiram a criança.


O objetivo vago de voltar para seu lar original, a um certo momento, foi desaparecendo gradualmente, e ela apertou os dentes com a única vontade de sobreviver ali. Toda noite, ela tremia, jurando se vingar daqueles que lhe fizeram mal.


"Senhor."


Então, ela encontrou uma besta negra.


"Quem sou eu?"


Milagrosamente, ela conheceu a protagonista do romance e recebeu o nome de "Leonia". Enquanto era tratada com uma hospitalidade indescritível por essas pessoas bondosas, ela se esqueceu de uma verdade importante por um breve momento.


De que ela não tinha uma "identidade" completa para nenhum deles.


"Órfã sem memória? Criança adotada por sorte? Filha de uma mulher louca que fugiu com alguém?"


Não.


'Ela' não era assim.


Existiam nomes que nunca poderiam ser ditos aqui, pessoas nostálgicas que ainda vívidos vinham à sua mente e lugares que eram exaustivamente familiares. Tudo que ela deixou lá era precioso e cheio de afeto.


A pergunta sarcástica de Cerena sobre sua "posição" feriu brutalmente suas feridas, as quais Leonia vinha tentando ignorar e evitar. Por mais que tentasse, ela não poderia se tornar filha do Duque, nem ser Leonia Voreotti.


Este não era seu lugar.


"Sniff, hiccups…"


Lágrimas que ela nem conseguiu gritar encheram o quarto colorido da pequena menina. Uma criança muito pequena, chorando, se encolhia sozinha na cama ampla. Ela não sabia para onde ir, e após vagar por um tempo, perdeu o caminho e caiu, parecendo uma criaturinha chorando.


Como se estivesse refletindo sobre a estranha completamente desconhecida, Pelliot olhou para a criança com expressão vazia, com esse pensamento na cabeça.


Ele prendeu a respiração diante das emoções que surgiam das profundezas do peito.


"Leonia."


Sua grande mão, que pairava no ar, pousou silenciosamente ao lado da menina.


"Leonia."


Pelliot moveu suavemente os dedos para tocar a mão da criança, que segurava firmemente o edredom.


"Leo."


Os dedos, que acariciaram cuidadosamente as costas da mão dela, rapidamente se transformaram na mão grande e a abraçaram. Depois de chorar por um tempo, a menina, com o rosto vermelho ando os olhos molhados, baixou a cabeça.


Pelliot parou de rir.


"…Uwaaaaaaahhhh!"


Leonia finalmente desabou em lágrimas ao ver aquilo. Achara que ele estivesse rindo de seus sentimentos.


"Por quê, por que você está rindo! Por que está rindo!"


"Eu não ria."


"Você riu! Você riu de mim por parecer tão idiota!"


"Então, sabe como você fica agora?"


Ela tentou dar um soco na direção dele, mas Pelliot a envolveu em um cobertor e a colocou no colo. Surpresa, Leonia parou de chorar, deu um soluço e ficou sem fala.


"É uma preocupação tola."


Pelliot limpou as lágrimas e o nariz escorrendo da criança com a manga.


"Você parece uma tola."


"……."


"Você é como uma filha tola."


Depois dessas palavras, Pelliot ficou em silêncio. Leonia, que fungou, também permaneceu calada, olhando fixamente para Pelliot. Então, ao fixar o olhar na carícia constante que sentia, Pelliot bateu nas costas dela e puxou o corpo de Leonia para seu peito.


Cavou seu peito, tocando sua cabeça, como antes. Era igual ao momento em que cruzara o portal e sofreu enjoos. O peito daquele homem estranho era um músculo quente e forte, que não se encontrava em mais lugar algum no mundo.


"Músculos…"


"…Você é um caso perdido. Mesmo nesta situação, essas palavras saem."


"Como posso eu, com algo tão bom…!"


"Não há ninguém como você."


Uma risada, cansada dos lamentos, foi ouvida de cima. Os dois passaram a noite assim, e de repente, uma luz tênue surgiu sob a cortina.


A criança dormiu nos braços do pai, que então acariciou a filha dormindo, ainda em seus braços.

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