Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 19

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Ela logo percebeu que os funcionários da mansão Voreoti estavam alinhados no hall de entrada, e desacelerou os passos. Então ela desceu com graça, como se nada tivesse acontecido, e ficou diante de Leonia.


"Senhora Tedros."


Pavo avisou em tom sério.


"Já basta."


O cavaleiro de escolta não permitiu que Cerena se aproximasse mais de Leonia. Connie também ficou bem cautelosa, escondendo Leonia por trás do comprimento de sua saia.


"Não é nada. É que ela parece ter entendido alguma coisa de forma errada…"


"Entendido errado?"


Os olhos inocentes e bem-intencionados da criança se estreitaram por um instante.


"Acho que eu, sem querer…"


"Sem querer?"


"…Acho que acabei magoando seus sentimentos."


"Magoar meus sentimentos?"


Para Leonia, as palavras de Cerena eram apenas perturbadoras. Cerena olhava nos olhos da criança.


'Não, isso é…'


Mais precisamente, Cerena ficou assustada.


Na mesma hora, percebia tardiamente—o interior do hall começou a esfriar lentamente. Uma névoa dourada subia lentamente nos olhos escuros de Leonia, que mal tinham se calmado.


'Droga!'


Pavo percebeu uma mudança na criança. Os caninos dela se ativaram novamente.


"Senhorita Connie! Afaste-se imediatamente…!"


Ele tentou indicá-la para se apressar e sair, mas já era tarde.


"Ah, ahh…!"


Connie sentou-se como se fosse perfurada pelos dentes da besta, e todo o corpo dela tremeu. Ela não foi a única. Os funcionários comuns, que nunca haviam visto dentes de perto, ficaram assustados com os caninos ainda em desenvolvimento da criança e desmaiaram ou não conseguiam respirar.


Cerena, que estava bem na frente de Leonia, estava ainda pior.


Passo, passo.


A senhorita se aproximou da dama, que estava ajoelhada como se tivesse sido castigada.


" Não te avisei antes?"


A voz doce e fria sussurrou no ouvido dela.


"As palavras da senhora ficarão sempre gravadas no meu coração."


Leonia apontou o dedo para o peito de Cerena.


"No primeiro dia, você me disse que eu preciso preencher os muitos espaços onde ainda sou insuficiente. No segundo dia, que devo trabalhar ainda mais duro para retribuir a benevolência do Duque, que me recebeu. Depois, você se preocupou dizendo que seria difícil abandonar os velhos hábitos que estavam grudados no meu corpo."


Seus dedos subiram lentamente, parando sob o queixo tremente de Cerena.


"Você acha que eu não sei o que essas palavras realmente significam?"


Você é uma filha ilegítima. Precisa saber o seu lugar. Deve reconhecer que foi apenas por sorte. Por mais que tente, sua origem baixa não desaparecerá.


Como se estivesse recitando um poema, a interpretação de Leonia revelou seus pensamentos ocultos, enquanto os olhos azuis de Cerena ficavam cada vez menores. Ela já não via mais a criança ingênua que apenas escutava a professora. A filha do Duque Voreoti, que tinha na sua mão a vida daquela nobre arrogante, não sorria mais.


Os olhos negros tingidos de dourado não eram nada humanos.


"E o que você me disse hoje?"


"Mis...under...st..."


"Hein?"


"Que, que, quer dizer, que foi um mal-entendido…"


"Ah. Mal-entendido."


Leonia assentiu suavemente com a cabeça.

"Você olhou para mim hoje e disse que eu devia saber o meu lugar? Que eu não deveria mais ser um incômodo para o Duque? Então, o que quis dizer com isso hoje? Desta vez, ao contrário do que antes, você não conseguiu esconder suas verdadeiras intenções."


Leonia acariciou a face de Cerena.

"Para mim, soou como uma expressão de que eu sou simplesmente um incômodo para a família do Duque…"


Leonia tinha uma expressão sem emoção, como se estivesse demonstrando desapontamento.


"Para você, que tipo de lugar eu tenho aqui, senhora?"


Por onde as mãos suaves da criança passavam, elas ficavam quentes, como se estivessem sendo queimadas com uma ferro quente. Cerena tinha medo e dor, mas não conseguiu sequer gritar—e, aterrorizada, only lágrimas escorreram de seus olhos.


"Uma filha ilegítima imunda? De um orfanato sem mãe?"


As lágrimas escorreram pelo queixo dela, penetrando na bainha da saia.

Pavo resmungou, observando de trás.

'Isso é ruim…!’

As presas da besta ficaram selvagens. Do dorso de Leonia, a energia dourada que lentamente surgia tremia de forma instável. Era porque ela ainda não havia treinado bem as presas, então elas não tinham uma forma adequada.

Por isso, ela era perigosa.

Uma jovem besta não consegue controlar essa força corretamente.

O ar, que começava a congelar lentamente ao redor de Leonia, agora se espalhava por todo o hall. Não importava quão frio estivesse, havia geada dentro da mansão, que tinha uma sensação acolhedora, e as janelas ficavam frágeis e até rachavam. Além disso, a cada desculpa de Cerena, grandes e afiadas espículas de gelo surgiam ao acaso do chão, cercando as duas.

Como se fosse uma expressão das intenções de uma fera, os espinhos de gelo quase perfuraram Cerena ao passarem por ela.

Lágrimas de sangue se formaram na ponta do gelo ao passar por ela. Sangue vermelho escorria do corpo da nobre, cujo tecido e bainha se rasgaram, e a bainha da saia que ela usava foi tingida de vermelho profundo lentamente.

Ela tinha medo, e não era estranho que desabasse de repente e congelasse.

Mas Leonia não permitiu nem isso.

Clac. As bochechas brancas de Cerena, que Leonia acariciava, ficaram cobertas por gelo frio.

'Vamos, pare com isso!’


No entanto, Pavo também foi atingido pelas presas e nem conseguiu agir. Claro, ele estava em uma posição melhor do que Cerena, que estava bem na frente de Leonia, além dos empregados que não resistiam aos efeitos. Mas, na melhor das hipóteses, só conseguiu levantar um dedo.


'Se only o Senhor estivesse aqui…!’


Se ao menos ele estivesse, seria o único capaz de subjugar aquelas pequenas presas!


Pavo pensou internalmente, desesperado.

"…Que confusão."


Nesse momento.

"Você disse que ia fazer uma bagunça, mas eu não posso acreditar que realmente está fazendo isso."


Que filha sem modos.

Apareceu a única salvadora capaz de superar essa situação.

Com um pacotinho de “Sonho de Nuvem Macia” numa mão.


* * *


À medida que os cavaleiros retornavam de uma expedição longa, assistindo a aproximação cada vez maior do Ducado Voreoti, seus olhares se emocionaram. Alguns até fungaram e limparam as lágrimas com as mangas.


"Finalmente de volta…!"


"Esta é nossa casa! Bem, não exatamente, mas mesmo assim…!"


Queriam relaxar no banho quente, ou acompanhar uma bebida gelada com um petisco oleoso. Ou até desejavam ficar sozinhos.


Pelliot, que observava silenciosamente os servos agitados, baixou o olhar.

'Algo delicioso ao chegar…'


No braço, ele carregava uma caixinha fofa com seis “Sonho de Nuvem Macia”, comprada na praça da cidade. Uma combinação destoante da aparência desleixada, por não ter tomado banho por um mês.


"……."


Mono olhou com compaixão para a caixa de sonho de nuvem.

"Por que o Senhor não pediu para seus subordinados comprarem?"

"Fui eu quem pediu para comprar, então tenho que fazer isso."


Pelliot manuseou cuidadosamente a caixa. Ainda assim, Mono achou que era um presente, e que a Senhora devia saber que Pelliot escolheu pessoalmente as decorações de fita na embalagem.

'O dono do sonho de nuvem não vai dormir essa noite.'

Mono não conseguia esquecer a expressão de medo do proprietário da padaria.

Como ele não poderia estar com medo? Cavaleiros armados com espadas e armaduras vieram à loja como se fosse normal.

Aparentemente, criaram uma atmosfera assustadora por estarem desabrigados e após um mês caçando monstros. Além disso, Pelliot, que os liderava, não era pessoa comum.

'Sonho de nuvem fofinho, para levar.'

Pelliot se virou com um pacote de sonhos coberto de sangue de monstro e parecia um herói raro, que confiantemente derrotava os inimigos.

"…A Senhora ficará encantada."


A padaria ficaria fechada por um tempo, mas Mono ficou muito contente com o cuidado de Pelliot com Leonia. Como alguém que a acompanhou de perto desde a infância, ficou bastante satisfeito com a mudança.


"Fico feliz que você não reclamou."


Fingindo não notar, Pelliot abriu os lábios.

"Talvez a Senhora esteja te esperando na porta da frente."


"Agora é hora dela tirar uma soneca."


"A Senhorita deve estar esperando o Senhor ficar pronto há bastante tempo."


Era uma certeza absoluta, disse Mono com sinceridade. Não houve palavras em resposta, mas Mono percebeu que Pelliot fez um leve aceno de cabeça. Pelliot também esperava encontrar Leonia de alguma forma.


Mono ficou satisfeito. Essas duas bestas selvagens, reunidas por adoção impulsiva, tornaram-se uma verdadeira família.


'Senhor!'


Era fácil imaginar Leonia correndo em direção a Pelliot ao voltar.


No entanto, o que os recebeu não era uma cena tão calorosa.


Os passos dos cavaleiros que voltaram para a mansão tão esperada pararam por um momento. Era porque sentiram uma energia incomum ao redor da mansão Voreoti, na qual retornaram após um mês. Os Cavaleiros de Gladigo congelaram ao perceberem a atmosfera implacável que ameaçava todas as formas de vida ao redor. Uma energia bruta, selvagem e assassina.


"…Presas da besta?"


O rosto de Mono, que tentava negar sua murmuração como uma bobagem, ficou incerto por um instante.


Na mansão Voreoti, havia uma outra besta negra além de Pelliot.

"Senhor!"


Mono exclamou. Pelliot já estava fixo na mansão. Os reflexos vermelhos em seus olhos negros eram a prova de que ele reagia às presas desajeitadas e instáveis que podiam ser sentidas na mansão.


"Todos se afastem."


"Senhor! Vamos com—!"


"Serão um entrave."


Pelliot afastou frio os cavaleiros que tentaram segui-lo e partiu sozinho em direção à mansão.


Ele rapidamente compreendeu a situação, sentindo o poder de Leonia ficando mais claro.

'O poder está instável. Está bastante descontrolado.'

Leonia ainda não consegue manejar bem suas presas. A jovem besta, sem treinamento, não conseguiria controlar o próprio ímpeto. No máximo, só mostraria as pontas de suas presas. Se uma criança ativasse seus caninos com tanta energia a ponto de envolver toda a mansão, só poderia concluir uma coisa:

'Fúria.'

Pelliot baixou a voz. Era uma situação urgente que poderia ferir grave não só Leonia, mas também todos na mansão.

"…Que confusão."


Pelliot entrou na mansão e ficou impressionado ao ver a cena diante dos olhos.

Os funcionários, atingidos de surpresa pelas presas de Leonia, estavam caídos aqui e ali, tremendo de frio e energia assassina. Energia bruta atacava todos de forma indiscriminada. Por causa do ar pesado, havia até picotes de gelo espalhados por diversos lugares.

"Você disse que ia fazer uma bagunça, mas não posso acreditar que realmente esteja fazendo isso."

Enquanto caminhava rapidamente, com a respiração saindo como vapor, estendeu o braço.

"Leonia."


A criança que ele carregava no colo após um mês estava muito mais pesada do que lembrava. Ela se alimentou bem e se divertiu, por isso suas bochechas estavam bastante gordinhas.

"Seu pai voltou, mas você nem veio me cumprimentar."

No entanto, a criança estava numa condição tão precária que não percebeu Pelliot. Apesar do pai ter voltado após um mês, ela não conseguiu responder.

Exalando lentamente com uma respiração presa, Leonia estava bastante exausta. Não conseguiu reprimir sua raiva nem controlar direito a explosão de força que vinha de dentro dela.

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