
Capítulo 18
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Leonia não gostava exatamente das aulas em si, mas tinha prazer em aprender algo novo. Era uma alegria que ela nunca tinha pensado na outra dimensão que lembrava.
Ardea era um avô nerd, mas era gentil e inteligente. Cerena não era.
"A jovem se parece muito com o duque, por isso é tão madura e bonita. É por isso que você precisa preencher as lacunas onde está faltando."
No primeiro dia, ela zombou de Leonia como uma filha ilegítima.
"Você precisa se esforçar ainda mais para retribuir a benevolência do Duque por ter trazido a Senhorita."
Depois, ela sarcasticamente disse que tinha sorte de ter sido trazida pelo Duque. Ela até fingiu virar a cabeça de propósito nessa hora e olhou Leonia de cima a baixo.
"Seria muito difícil se livrar de hábitos que ficaram enraizados no seu corpo por tanto tempo."
No último dia em que se encontraram, a Condessa desconsiderou seus esforços dizendo que, por mais que ela se esforçasse, não mudaria o fato de que ela era de origem humilde. Se Leonia tivesse ouvido essas palavras sem interpretar por trás, a Condessa teria falado de maneira tão ousada que poderia confundir com uma gentilidade de uma dama que realmente se preocupa com os filhos. Por isso, Leonia ficou ainda mais chocada.
"O que você viu nessa mulher?"
Ela disse que ela não era burra nem ignorante.
Enfuçando as bochechas, insatisfeita, Leonia soprou o ar de suas bochechas. Se ela pensasse bem, Cerena, como Pelloit disse, não era burra nem ignorante. Por isso, ela tinha uma maneira tão inteligente de se comunicar.
Mas vai acabar amanhã.
Mesmo que a caça aos monstros seja longa, será só um mês. Depois da aula de etiqueta de amanhã, Pelliot e os Cavaleiros de Gladigo voltariam na semana seguinte, e Leonia planejava contar tudo o que aconteceu com Cerena e mandar uma grande e bela “sabiam” para ela.
"É assim que vai parecer…"
Era uma besteira que poderia entrar por um ouvido e sair pelo outro.
Claro, as palavras ainda eram terríveis de ouvir. A razão de Leonia não expressar abertamente sua indignação com Cerena era porque era mais eficaz contar tudo ao Pelliot do que ficar irritada sozinha.
A Besta Negra que dominava tudo no norte.
E ela era sua filha.
"Mesmo sendo apenas uma filha adotiva…"
Leonia sabia que Pelliot a amava muito. E ela também o seguia e gostava dele. Por isso, não tinha dúvidas de que ele puniria Cerena.
No entanto, hoje, a realidade de ser uma "filha adotiva" lhe atravessei o peito, especialmente mais do que antes.
Leonia pegou a garrafa de vidro.
"Um coração ferido por palavras não cicatriza facilmente."
Ela se lembrou do que Ardea tinha dito.
"Eu fui magoada?"
Leonia se questionou. Mas não soube que resposta dar a si mesma.
Acreditava que estava bem.
Sua mão gaguejou perto do peito.
Parecia que tinha sido apunhalada profundamente.
* * *
No dia seguinte.
Leonia praticou seu passo para combinar com os aplausos de Cerena. O objetivo dessa aula era tentar não deixar cair um livro fino na cabeça dela.
"Sim, você está indo bem."
Como os elogios de Cerena, Leonia fez um bom trabalho. Seus passos ao longo da linha traçada previamente eram leves como uma borboleta, e o vestido branco balançando junto aos passos suaves era literalmente o bater das asas.
Ela estava impecável.
"Incrível!"
Contrariando o sorriso radiante e os doces elogios por fora, o coração de Cerena era tão sujo quanto a água espremida de uma flanela molhada. Seu coração imundo continuava a guardar rancor contra Leonia. Ela não queria ver Leonia, que estudava com dedicação diante de seus olhos.
"Como isso pode…!"
Quando ela ouviu os rumores de que Pelliot tinha adotado uma criança de um orfanato, ela, subconscientemente, achou que não era verdade.
A reputação de Pelliot era notável na capital. Rumores diziam que ele até escrevia um memorando antes de dormir, caso a criança fosse ameaçada.
No entanto, a criança era descendente do incomparável Voreoti. A única herdeira de Pelliot, que possuía a cor negra que só as bestas negras do norte possuem.
"Que tipo de mulher era ela…!"
Cerena sabia muito bem que ela mesma era bonita. Repetidamente, ela se aproximava de Pelliot com confiança, mas o que recebia era rejeição fria e indiferença.
Depois, ela escolheu o jovem com as melhores condições entre aqueles homens que lhe agradavam e se casou com ele. Mas, ao ouvir o boato de que havia surgido uma filha ilegítima de Pelliot e confrontar a evidência de frente, seus olhos ficaram vermelhos e sua inveja insaciável cresceu.
Para a mulher que deu à luz aquela criança.
Para Pelliot, que teria abraçado aquela mulher.
E para a criança, que tinha recebido toda a ternura de Pelliot, algo que ela nunca tinha visto antes.
"…Madame."
"……."
"Senhora Tedross."
Cerena, que estava em um delírio tão terrível que nem conseguia colocar em palavras, voltou a si tardiamente.
"Fiz as dez tarefas de caminhada como a senhora mandou."
"É mesmo? Não foi difícil, né?"
"Sim. Foi divertido."
Que olhos arregalados e sorridentes podiam ser tão nojentos? Cerena desejava cuspir naquela expressão.
"Então, vamos encerrar a aula por aqui hoje?"
Ela tentou esconder ao máximo seus sentimentos, e com um sorriso, disfarçou seu interior. Leonia, como aprendera, segurou o sobe da saia e fez uma reverência educada. Felizmente, no momento em que a criança se curvou, Cerena mal conseguiu respirar.
'Ela faz isso de novo.'
Após a saudação, Leonia levantou a cabeça e, de forma sarcástica, pensou internamente.
Ela percebeu no primeiro dia de aula que Cerena revelava seus sentimentos por um instante sempre que abaixava a cabeça. O sorriso de Cerena ao receber a saudação da criança era mais sombrio que a pele de uma serpente nua. Era assustador.
No entanto, Leonia tentou conter suas emoções ao máximo, dizendo a si mesma que tudo acabaria naquele dia.
Ela prometeu contar tudo ao Senhor quando ele retornasse.
"Você sempre deve se lembrar do que eu disse."
Cerena colocou uma mão em um dos braços de Leonia e a encarou com uma expressão preocupada. Os olhos de Leonia se arregalaram de surpresa com o toque repentino.
"Um erro seu pode afetar muito o Duque."
Leonia se perguntava se ainda ouviria a tentativa de suicídio divina e terrível de Cerena naquele dia. Por algum motivo, ela nunca simplesmente saía sem dizer uma palavra uma única vez. Se ela permanecesse calada, seria como se um espinho brotasse de sua boca.
Por outro lado, ela queria aplaudir essa persistência.
"A Senhorita está aprendendo muito bem."
"Obrigada pelo elogio, Senhora."
"Então, deve ficar mais atenta à sua posição."
Os olhos negros piscaram por um instante.
"…Posição?"
Cerena, sem perceber, assentiu lentamente e disse ‘sim’. Houve um brilho dourado nos olhos da criança, enquanto o ar no cômodo ficou tão frio que ela nem percebeu o calafrio que percorreu o ambiente.
"Você deve sempre agradecer ao Duque por permitir que viva uma vida tão luxuosa. É graças ao Duque que você pode fazer tudo isso."
Se não fosse pelo Duque.
"Graças a isso, pude conhecer a Senhorita."
Se não fosse pelo Duque.
"Então, precisa trabalhar mais duro do que agora, Senhorita, para não se tornar um incômodo maior para o Duque."
"Condessa Tedros."
Leonia,ouvindo em silêncio, levantou discretamente os lábios em um pouco de sorriso.
"Suas palavras ficarão sempre gravadas no meu coração."
As mãos pequenas repousaram sobre o vestido branco puro, coberto de renda. Ela pressiou as palmas contra o peito, e, com força, conseguiu ouvir seu coração batendo forte.
"Eu sempre escuto com atenção o que você fala."
"Obrigada por reconhecer minha sinceridade."
"Então, não volte aqui mais."
"Sim, claro…"
Cerena, que tinha a reação instinctiva de responder que sim, ficou hesitante. Os olhos da senhora observavam a Senhorita lá embaixo, com uma expressão que lentamente se endurecia. Leonia, ficando de pé como aprendeu na aula de etiqueta, lhe deu um sorriso leve.
"Não há necessidade de uma pessoa que não consegue entender sua própria posição e continua agindo de boba no Ducado de Voreoti."
Com Leonia virando de costas, a bainha do vestido rapidamente se virou.
"Eu não vou te despedir. Avisarei aos funcionários com antecedência, para que você possa sair sozinha."
Pavo e a empregada Connie, que esperavam lá fora, se aproximaram de Leonia, que tinha saído sozinha do cômodo.
"Senhorita!"
"A aula acabou?"
Connie e Pavo cumprimentaram Leonia com sorrisos amistosos. Mas logo perceberam os olhos de Leonia e pararam no local. A luz dourada nos olhos negros da criança brilhou de forma sinistra.
"Senhorita, aconteceu alguma coisa?"
Pavo escondeu Connie, que não estava acostumada às presas das bestas, atrás de si e olhou para Leonia. A criança devia estar bastante agitada, e seu peito arfava para cima e para baixo, respirando fundo por um longo tempo.
Só após se acalmar, Leonia abriu a boca.
"…Condessa Tedros vai sair sozinha."
Pavo percebeu que Leonia estava irritada com alguma coisa e, subconscientemente, ativou as presas da besta. E o gatilho deve ter sido a Condessa Tedros, que estava sozinha naquela sala.
"Tudo bem. Posso te carregar?"
Pavo se ajoelhou e Leonia se esticou, deixando-o segurá-la nos braços. A temperatura do corpo dela, ainda com um brilho dourado nos olhos, era fria como gelo. Pavo não mostrou muito, mas sorriu de forma amistosa, como sempre.
Por sorte dele, já tinha encontrado as presas de Pelliot algumas vezes, então as presas mais fracas de Leonia eram toleráveis.
"Quero dar uma volta."
"Você está chateada?"
Leonia assentiu sem dizer uma palavra.
"Então, já vou buscar seu casaco!"
Enquanto Connie percebeu algo estranho nela, ela correu para a sala. Leonia desceu até o hall de entrada no primeiro andar nos braços de Pavo. Justo na hora, Connie trouxe um manto de inverno quente e botas de pele.
"Está voltando."
Pavo olhou nos olhos da criança e ficou aliviado. Os olhos dourados estavam voltando a ficar pretos. As presas, que foram disparadas pela agitação repentina, se acalmaram e rapidamente afundaram. Connie, que tinha sido dominada pela força das presas, agora vestia as roupas ao lado de Leonia.
"Se tudo tivesse sido completamente ativado."
Foi quando os ombros de Pavo tremeram, pois a própria imaginação era aterrorizante.
"Por favor, espere!"
Cerena, que correu escada abaixo, gritou.