
Capítulo 10
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
Quando o pai e a filha entraram na sala de estar, sentaram-se lado a lado em um sofá próximo à lareira, onde havia lenha queimando.
— Que tal lermos um livro de histórias? — sugeriu Felio ao receber o livro da empregada. O título da obra era 'A Vida Não Vale Nada'.
Obviamente, ele comprou uma cópia completa do livro de contos mais popular entre crianças e a colocou no quarto dela, mas Leonier protestou que achava tudo muito entediante.
— É infantil.
— Isso é o que crianças da sua idade deveriam ler.
— Eu já li tudo mesmo.
Leonier resmungou e abriu o livro.
Felio levantou uma sobrancelha surpreso. Era difícil acreditar que ela tivesse lido tudo aquilo, considerando sua idade e seu histórico como órfã, mas Leonier parecia fazer isso com facilidade.
— …De onde você conseguiu esse livro?
— Do escritório do tio. Você me disse que podia ler.
— Por que pegou esse livro?
— Pela minha experiência, a vida é uma perda de tempo.
'Mesmo vivendo arduamente, se se machucar em um momento, tudo acaba', a criança suspirou como um velho sábio.
— …Você sente falta dos seus pais biológicos?
Felio interpretou mal o suspiro e perguntou cautelosamente. Leonier pisqueou com os olhos redondos ao ser questionada de repente, e virou a cabeça para longe do livro.
— Tio.
Foi logo que ela respondeu de forma inesperada.
— Não faço ideia de quem são meus pais biológicos.
Os olhos de Felio relaxaram preguiçosamente até ouvir sua resposta — eles se arregalaram e se contraíram de tensão.
— Não me lembro de nada antes de ir para o orfanato.
Sentindo o peso do assunto depressivo, Felio encostou-se no sofá. Deu uma olhada cuidadosa no rosto de Leonier.
A Face magra da criança ganhava peso a cada dia, e parecia muito mais saudável do que na primeira vez que a viu, o que lhe deixou satisfeito.
— Então, quer ver seus pais?
— Não.
A criança recusou sem hesitação.
— Meu pai agora é o tio.
— E…
Leonier fechou os lábios sabiamente, refletindo. Ela não tinha qualquer memória de seus pais de verdade, que geraram seu corpo.
Era cruel com os pais biológicos originais, mas ela, agora, não sentia amor ou pena por eles.
— Uma, ela sentia tanta falta dos "pais" que decidiu manter isso "secreto".
— Mas nunca poderia contar ao Felio, porque era seu segredo que nunca mais os veria. E, de muitas maneiras, ela se sente culpada por Felio.
Enquanto ambos mergulhavam em seus pensamentos complexos, um silêncio melancólico se instalou de forma involuntária.
— …Devo lembrar?
Leonier lançou um olhar rápido para a expressão de Felio. Ela percebeu que ele a encarava com olhos ansiosos, como sempre fazia.
— Não faz diferença se você não lembrar.
Felio colocou Leonier no colo, achando que a criança estava nervosa.
Depois, pegou uma bala do bolso e colocou na boca dela. A bala se misturou aos seus pequenos lábios.
— Mas você tem que lembrar que eu sou seu pai agora.
Leonier ficou mordiçando a bala por um bom tempo, até levantar a cabeça.
O pensamento de Felio estava inquieto com a "e" e o que estaria por trás dela. Contudo, decidiu não se aprofundar demais e deixar as coisas seguirem naturalmente.
O que importava agora era que o tutor de Leonier fosse ele mesmo, de fato e de direito, e que os dois mantinham uma relação pai e filha razoavelmente harmoniosa.
— Pensei que ia morrer sem ouvir você me chamar de 'Pai'. E logo esquecer que eu sou."
— N- ainda não caiu na minha cabeça, então…
— Você tem muitas desculpas.
— Ah, mais uma briga! — exclamou ela, zangada, ergueu o braço curto. Claro que o punho de Leonier não atingiu seu alvo, nem mesmo tocou a barra da roupa de Felio.
Era tão insignificante quanto um pedaço de algodão, uma tentativa inútil para Felio — o Duque de Voreotti e comandante dos Cavaleiros de Gladigo.
— Leonier.
Leonier cruzou os olhos, frustrada por não ter conseguido acertar nenhum golpe.
— Quer que eu mordê-lo no peito se você começar uma briga de novo?
— Deixa eu olhar nos seus olhos.
— …Olhos?
Assustada com a surpresa, ela deu de ombros levemente e colocou o livro ao lado.
'Não os evade,' disse Felio, encarando os olhos negros da criança.
— Por favor, tire as mãos do meu peito.
Enquanto isso, ele segurou a mão da garota, que descansava levemente sobre o próprio peito.
— Por que você é tão atrevida?
— Acho que você não vai revelar isso se alguém ver o tio,
— Não abra a boca — ele alertou. — Parece carne de verdade.
— Fui eu quem te alimentou!
O pai e a filha continuaram discutindo de forma infantil, mas ela não se afastou do olhar sério do pai, que a encarava com atenção.
Leonier pensou que aquilo era uma espécie de batalha de olhares e, antes que percebesse, seus olhos estavam brilhando, cheios de energia.
Felio achou que o sussurro em seu ouvido era um efeito da luz.
Ele não tinha olhado nos olhos dela há muito tempo — até então.
— …O que exatamente você está fazendo?
Leonier, que parecia estar percebendo o que acontecia, franziu a testa.
Os olhos negros de Felio começaram a ficar vermelhos.
O vermelho, que parecia uma pequena mancha, começou a crescer e logo cobriu metade da íris negra.
Leonier olhou como se estivesse possessa. Mas, estranhamente, aquilo não parecia assustador.
— Ah
Os olhos redondos da criança pareciam queimados, como se tivessem sido tingidos de vermelho na hora.
Felio se afastou lentamente enquanto Leonier, assustada, farejava o ar.
O vermelho em seus olhos negros tinha desaparecido.
— O-que…
Leonier pressionou as costas da mão contra os olhos. A dor ardente que a atingira há algum instante desapareceu como se fosse mentira.
Quando cuidadosamente pressionou a mão ao redor dos olhos, tudo que sentiu foi uma leve pressão,
— Tio.
A criança olhou desconcertada para Felio, esperando uma explicação.
— Todo mundo, saia daqui.
Felio, que voltou a mostrar seus olhos pretos habituais, comandou as pessoas ao redor. Os funcionários saíram da sala de estar e fecharam a porta, silenciando os passos.
— Leonier.
Felio falou.
— Detesto rodeios.
— Hein?
— Dizer as coisas assim é como fingir que existem assuntos que não vêm depois.
— Uhm…
— Você tem o pé atrás de repetir tudo?
Leonier olhou para Felio com uma expressão estranha. Felio continuou, acariciando lentamente os cabelos da filha com os dedos.
— Vou ser direto.
Seus dedos, que estavam ajeitando os cabelos dela há bastante tempo, tocaram na faixinha amarela na cabeça dela.
— Tenho medo que você seja minha sobrinha.
A mandíbula de Leonier caiu ao ouvir aquela frase.
******
Leonier, sem conseguir pensar em mais nada devido ao turbilhão de emoções, ficou completamente perdida.
'Ele tem uma sobrinha?'
'O que, não, espera!'
Felio observava a expressão da criança, esperando, em silêncio e com atenção, por sua reação.
Graças à sua consideração, Leonier lembrou apressadamente do enredo que se recordava.
'A Varia da Besta Negra.'
Era um romance que Leonier gostava de ler na sua antiga vida.
O título do livro já estava definido.
O romance tratava do Duque Voreotti, senhor do Norte, e seu eterno companheiro, o Conde Varia Erbanu. Era interessante, apesar de clichê.
As palavras da família do duque gravadas na carruagem grande que chegou ao orfanato fizeram Leonier perceber que o mundo novo em que ela havia reencarnado era o mesmo cenário do romance.
A capa do livro exibia o brasão da família Voreotti, com um leão negro entalhado na armadura.
'No começo, eu queria ser empregada!
Ao acordar um dia, ela descobriu que era órfã, arriscando sua vida para escapar do orfanato doente que a maltratava, e, por sorte, foi adotada pela família Voreotti.
'Mas… sou sua sobrinha?'
Por mais que tentasse recordar o conteúdo do romance, não havia menção alguma de Felio ter uma sobrinha.
— Não, antes disso,
Ela não conseguia acreditar que ele havia revelado um segredo tão importante sobre seu nascimento logo após o café da manhã.
'Normalmente, as pessoas contam esses assuntos sérios após refletirem bastante, não é?'
Menos de um mês desde que foi adotada, ela não conseguia entender como ele poderia ter revelado o segredo de seu nascimento tão rápido.
Leonie ficou ainda mais chocada com Felio, que parecia nem pensar nessas coisas.
É claro que ela não era uma criança comum de sete anos, então não iria chorar por saber desses segredos.
— Fui criada como órfã. E você também me trouxe do orfanato.
Ela, por outro lado, resistia à ideia de que o sangue do Duque de Voreotti corria em suas veias.
— Mas você tem o símbolo de Voreotti no seu corpo.
— Talvez seja só coincidência.
— O preto é uma característica que só pode ser herdada da linhagem Voreotti.
— N-isso é…
Leonier sabia disso melhor do que ninguém.
— No começo.
Felio ajeitou os cabelos, desviando lentamente o olhar da filha.
— Eu achava que você era uma feiticeira.
— …Ah?
— O que você está olhando?
A primeira vez que se encontraram, como Leonier lembra, não poderia ter sido sem sentido.
A pressão despropositada assustou uma órfã miserável que parou o precioso duque.
— No orfanato, seus olhos brilharam para mim.
Por um breve momento, os olhos de Leonier brilhavam sob os dentes vermelhos de Felio, que haviam sido deliberadamente ativados para assustá-lo.
Felio então interpretou os olhos brilhantes da criança como fluxo de mana.
Juventes feiticeiros pouco instruídos frequentemente liberam Mana de seus corpos para se protegerem, e Felio assumiu que Leonier era uma delas.
Mas não era o caso.
— Você entende o que são presas, não é?
— É só para Voreotti.
Quando as presas de um predador se ativam, os olhos pretos mesclam cores únicas, conforme a descrição que ela leu no livro.
Por isso, Leonier ficou chocada há pouco, quando os olhes pretos de Felio se tornaram vermelhos.
Por que ele de repente mostrou as presas para ela?
E por que, ao contrário de quando ela o viu no orfanato, ela não sentiu aquela sensação de excitação desta vez?
— O brilho nos seus olhos ressoa com minhas presas.
O fenômeno de os olhos de Leonier brilharem, que Felio presenciou no orfanato, não era uma liberação de Mana, mas sim o reflexo das presas que ela possuía, de forma delicada.
Ela seguiu Felio em resposta às presas vermelhas dele.
— É por isso que eu, hum, fiz a ressonância?
— As presas reagem às presas.
As presas de uma criatura são as únicas habilidades que levam a vínculos de sangue, e cada pessoa tem uma onda semelhante, diferente de mana ou aura, que varia de um para outro.
Por isso, ele frequentemente é atraído e invoca as presas de outras pessoas.
Recentemente, o que Felio fez com Leonier foi uma ressonância. Por isso, ela não se sentiu ameaçada.
Porque as presas vermelhas que apareceram desta vez foram feitas para ressoar, não para ameaçar.
— Então, eu realmente sou Voreotti.
Ela ficou gaguejando, uma mão pequena apertando as bochechas que começam a ficar mais inchadas.
'Dói.'
Foi tudo como um sonho.
Ela acordou um dia órfã, sem pais, sofrendo abuso em um orfanato infernal, conheceu Felio, percebeu que tudo era como um cenário de romance, e agora faz parte de uma família que realmente tem vínculo sanguíneo com ela.
— Então…
Por mais idílico que fosse o cenário, havia algo que ela não conseguia entender.
— Quem foi que me deu à luz?
Ela não podia deixar passar esse detalhe importante, especialmente considerando que leu o livro.
Felio era o único membro da família Voreotti e era uma personagem típica do cenário do romance.
Seus pais faleceram cedo, e ele nem mesmo tinha irmãos.
Então, uma expressão de irritação passou pelo rosto de Felio.
— …Eu sou seu primo.
Felio acrescentou que a mãe dela era filha de sua tia — sua expressão de irritação era algo para se guardar na memória.
— Ela era a mulher mais irritante do mundo.