
Capítulo 2
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
"A razão pela qual o duque Ferio Voreoti decidiu adotar uma criança de repente foi algo extremamente banal."
"Meu filho falou ontem!"
Era um comentário casual do seu único amigo.
Há dois anos, o Conde Carnis Rinne, que havia recebido seu segundo filho, aproveitava qualquer oportunidade para elogiar o quanto seus filhos eram adoráveis e preciosos. Ferio sempre achou estranho que seu amigo fosse tão fanático por seus filhos toda vez que se encontravam, e, apesar de falar tanto, ele nunca parecia ficar sem voz.
Mas esse era apenas o jeito de Carnis.
O Conde Carnis Rinne era uma das poucas pessoas que podiam se aproximar de Duke Ferio Voreoti sem hesitar e ter uma conversa honesta com ele. Se Ferio fosse uma montanha imponente e implacável coberta de neve, então Carnis era um prado aquecido pelo sol. Apesar de suas personalidades completamente opostas, eles simplesmente se davam surpreendentemente bem.
"Então, quando você vai se casar?"
"Quando você morrer."
"Quero muito que sejamos familiares!"
Carnis vivia falando sobre as alegrias do casamento e a fofura das crianças. Os bumbuns gordinhos de fraldas, os braços fofos, a forma como sua filha mais velha corria para recebê-lo toda vez que voltava exausto—ele não estava apenas se gabando; era quase como um evangelho.
Normalmente, Ferio fingiria que não tinha ouvido e deixaria passar, mas por algum motivo naquele dia ele não conseguia ignorar as palavras de Carnis. Talvez ele tivesse escutado tantas vezes que aquilo tinha se gravado permanentemente em sua mente.
"Um pai é uma existência realmente nobre."
Porém, quem dizia isso não parecia nada nobre. Seu lábio superior se esticava em um sorriso bobo, tão exagerado que chegava a ser quase nojento. Antes do casamento, ele fazia essa mesma expressão toda vez que falava da noiva, e agora usava sempre que elogiava seus filhos.
"Eles são realmente adoráveis! Por que você não acredita em mim?!"
Ferio bufou, aconselhando-o a olhar no espelho antes de dizer besteiras, e então subiu na carruagem.
Aquele dia, as ruas estavam incomumente cheias de famílias. Por toda parte, via pais e filhos rindo juntos. Todos pareciam... felizes.
Será que era realmente tão maravilhoso assim?
Encostando a cabeça na janela da carruagem, Ferio fechou os olhos.
***
“… Portanto, foi por isso que você me adotou?”
Leonia ficou atônita.
Embora a adoção tivesse acontecido tão repentinamente, a carruagem ainda estava estacionada na frente do orfanato. Lupe tinha entrado para preencher a papelada da adoção enquanto os cavaleiros ficavam de guarda ao redor do veículo. Nesse meio tempo, Ferio decidiu contar à sua nova filha o motivo pelo qual a havia adotado.
Ele adotou uma criança... por causa de alguma coisa que o amigo dele disse?
Durante os dois anos que passou no orfanato, Leonia viu muitos adultos virem procurar crianças para adotar, cada um com seus próprios motivos. Alguns tinham dificuldades para engravidar há anos. Outros apenas amavam crianças. Alguns vinham como voluntários e não conseguiam partir sem levar uma criança consigo. Outros haviam perdido seus próprios filhos e queriam preencher esse vazio.
Porém, independente do motivo, todos demonstraram algum tipo de afeto ou interesse pelas crianças.
Ferio não.
"Você é um idiota, não é?"
Ela nunca tinha ouvido uma justificativa tão absurda para adoção antes. Leonia o desprezou abertamente.
"Que maneira adorável de minha única filha falar."
Ferio rangeu os dentes, mas na verdade ele não ficou realmente incomodado. Na verdade, ele preferia aquela atitude audaciosa e desafiadora dela a das crianças que se escondiam e choravam na sua frente.
"De qualquer forma, isso não era o que você queria? Se não, não teria ficado no meu caminho."
"...Sim."
Leonia relutantemente admitiu.
Ela escolheu aquele homem porque queria escapar do orfanato miserável. Mas foi mais um risco do que uma decisão certeira. Surpreendentemente, a sorte estava ao seu lado.
Mesmo assim, ela ainda não se sentia completamente à vontade.
"Ei."
Ao olhar para o prédio do orfanato, Leonia falou. Nesse momento, Lupe apareceu, saindo do prédio, com o diretor do orfanato se arrastando atrás dele. Os olhos de Leonia se estreitaram.
"...Tenho um pedido."
O diretor olhou desconfortável. Os demais professores estavam na mesma situação.
"O diretor e os professores estão desviando fundos."
"Suspeitava disso."
"Eles também nos maltratavam. E, recentemente, têm mantido contato com um cafetão."
Ferio, que observava de maniera desagradada as mangas rasgadas dela, de repente parou.
"...Você sabe o que é um cafetão?"
"Claro que sei! Eles vendem pessoas para bares e prostíbulos."
Leonia rangeu os dentes.
"...Eles estavam planejando vender uma das garotas mais velhas para ele."
"......"
"Então, você pode puni-los?"
"Todos eles?"
Ao ouvir a pergunta de Ferio, Leonia se corrigiu rapidamente.
"Exceto a Professora Connie. Ela foi a única que cuidou de nós."
"A mulher de cabelo castanho e dedo machucado. É isso, certo?"
"Sim!"
Como ela sabia disso? Leonia ficou surpresa.
Ferio não se incomodou com a admiração de olhos arregalados dela. O jeito como ela o encarava fazia seu peito sentir uma sensação estranha, como se um fio solto tivesse ficado preso dentro de suas roupas.
"Ela foi a única que se preocupou com vocês."
Ao contrário do diretor e dos outros professores, que se arrastavam ou observavam com cautela, Connie ficava de olho no duque. Cada vez que uma criança chorava, ela lhe lançava olhares repletos de ressentimento.
Ela era a única naquele lugar que realmente se importava com as crianças.
"Sempre que ele ficava bêbado, nos batia."
"O diretor?"
"Sim."
Ferio olhou para o braço de Leonia, onde um leve hematoma se escondia sob as mangas curtas.
"Ele fez isso mesmo?"
"Não, foi outro professor."
Leonia puxou a manga discretamente, escondendo o hematoma.
"As marcas que o diretor me deu estão nas minhas costas."
Ela falou de maneira casual, como se estivessevarrendo a poeira de suas roupas.
Depois, ela começou a relatar todas as crueldades que suportou no orfanato.
Enquanto ouvia em silêncio, seus olhos vermelhos escuros ficaram mais afiados.
"Então, puna-os."
"Como?"
Deveria simplesmente matá-los?
Ferio perguntou sem hesitar.
Mas Leonia balançou a cabeça.
"Torturá-los até que peçam pela morte."
Seus olhos negros brilhavam intensamente.
Ferio os observava atentamente, como se eles cintilassem como pó de ouro disperso.
'...Ela é realmente uma criança?'
A primeira imagem que veio à mente foi a de Ufikla, a filha mais velha de Carnis.
"A menininha, que se parecia com uma raposa vermelha, teve a coragem de encarar Ferio Voreoti sem derramar uma única lágrima. Se bem me lembro, Ufikla, a filha mais velha do seu amigo Carnis, tinha seis anos este ano. Mas Leonia era ainda menor que ela."
Mesmo levando em consideração as condições precárias do orfanato, ela era extremamente magra. À primeira vista, parecia ter no máximo cinco anos. Mas, em contrapartida, a forma como falava era muito mais madura do que a de crianças da mesma idade. Palavras como 'desvio de verbas' e 'tortura' não eram coisas que uma criança tão jovem deveria sequer conhecer."
"Vossa Graça."
Neste momento, Lupe voltou com os documentos de adoção. Ferio não elogiou, apenas gesticulou com os dedos para que ele entregasse. Os papéis continham os dados pessoais de Leonia.
Ela tinha sete anos.
"Lupe."
"Sim, Vossa Graça."
"Você vai ficar aqui."
"...Com licença?"
Justamente quando ele começava a relaxar, pensando em retornar ao território, Lupe levou uma pancada devastadora. Leonia, com pena de seu desespero, percebeu, mas Ferio permaneceu indiferente. Parecia não se importar nem um pouco.
"Aqui está um esterco. Você deveria pelo menos limpar bem."
Lupe tentou falar algumas vezes, mas acabou deixando os ombros caírem. Sua pele ficou pálida, tão branca quanto seu cabelo.
"Certifique-se de limpar a fundo. Não deixe nem uma poeira."
"...Entendido."
"Rapaz!"
Leonia deu um entusiasmo a Lupe.
"Enquanto você estiver limpando, quebre os braços e as pernas deles! Punha a bunda deles com uma cinta de couro! Mergulhe a cabeça na água do louça! Sacuda até toda poeira sair! Faça eles nunca mais se levantarem."
A face de Lupe ficou azul como seu cabelo. Ferio, por sua vez, ficou bastante satisfeito com o espírito fervoroso dela.
"Ah, mas deixe a Professora Connie em paz! Ela foi boazinha conosco."
"A prova de desvio de fundos está atrás do quadro, na cômoda de segurança!"
A carruagem começou a se mover. Lupe, junto com dois cavaleiros que ficaram para trás, ficou em silêncio assistindo a carruagem desaparecer ao longe. Leonia continuou com a cabeça para fora da janela, acenando até o orfanato ficar completamente fora de vista.
"...Vossa Graça, ela não é realmente sua filha secreta, é?"
O Cavaleiro Manus perguntou hesitante. Será que ele vasculhou orfanatos tão minuciosamente porque procurava sua filha escondida? Era assim que Leonia causava impacto. Sem falar, ela tinha cabelo e olhos negros iguais aos de Ferio.
"Você fala uma coisa bastante absurda com uma cara séria," respondeu Probo, outro cavaleiro, concordando com o colega.
"...Enfim."
Lupe parecia completamente exausto. Os cavaleiros o estavam comovendo de pena.
"Vamos começar."
Se eles quisessem voltar ao território rapidamente e descansar, primeiro precisariam cumprir a ordem de Ferio — "limpar a sujeira." Os olhos de Lupe se aguçaram. Havia uma montanha de sujeira para ser eliminada.
***
Dois dias após deixarem o orfanato, Leonia finalmente se livrou da sujeira grudada em seu corpo.
Durante uma parada em uma pousada, ela se lavou três vezes em água morna antes de ficar completamente limpa. Meleis, a única cavaleira feminina entre a escolta de Ferio, a ajudou.
Depois de ficar limpa, seu corpinho pequeno revelou estar coberto de cicatrizes. Arranhões e hematomas por toda parte, e nas costas, diversas marcas vermelhas brilhantes, como se tivesse sido espancada com chicote de couro. Meleis imediatamente relatou tudo isso a Ferio.
Ao ouvir a notícia, Ferio ordenou que um cavaleiro voltasse ao orfanato e trouxesse todos que tinham tocado nas crianças. Ele mesmo cuidaria deles.
No dia seguinte, Leonia foi vestida com um vestido azul suave e com uma capa de pele longa e espessa que Ferio conseguiu de algum modo. Seu cabelo preto, grosso e desgrenhado, foi cuidadosamente arrumado com um laço vermelho, graças à ajuda de Meleis.
"Nunca tinha usado algo assim antes!"
Empolgada, Leonia girou e perguntou ansiosa como ela estava. Até ela achava que tinha ficado bem.
"Fica ótimo em você."
Meleis, que a ajudou a tomar banho, sorriu calorosamente.
Por dentro, ela se sentia com o coração partido. Não só aquela criança tinha sofrido em um orfanato, como nunca tinha sequer usado roupas decentes antes. Meleis tinha um irmão mais novo perto da idade de Leonia, o que tornava tudo ainda mais difícil de aceitar.
Enquanto isso, Ferio permaneceu em silêncio por um longo tempo.
"...Agora você realmente parece uma pessoa."
Quando finalmente falou, sua expressão carregava apenas sarcasmo.
"Eu sempre fui uma pessoa," respondeu Leonia.
Ela claramente esperava um elogio.
"Nem é bonita. Pra quê te elogiar?"
"Você está sendo duro demais? Agora você é meu pai."
"E ainda assim, você me chama de ‘Senhor’."
"Porque ‘Pai’ ainda não soa natural para mim!"
"Pois é, eu também não estou acostumado a elogiar."
Ferio sorriu zombeteiramente, sem remorsos.
Leonia, irritada, inflou as bochechas de frustração. Mas, por ser tão magra, o efeito era mais pena do que fofura. Ferio franziu a testa. A leveza do humor que tinha até então desapareceu imediatamente.
"Se quer ouvir elogios, engorde um pouco."
A única criança que Ferio conheceu foi Ufikla, filha de Carnis, e Leonia era tão magra em comparação que não dava nem para comparar. Uma onda repentina de irritação subiu nele. Claro que a ameaça não era de Leonia — era da equipe do orfanato, que ele logo encontraria nas masmorras subterrâneas da propriedade Voreoti.