Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 3

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Por causa disso, as refeições de Leonia sempre tinham carne.


Depois de garantir que Leonia comesse o suficiente para a barriga ficar um pouquinho maior e ela pudesse arrotar sem controle, Paul seguiu rumo ao Ducado.


"Eu estou satisfeita……."


Leonia se deitou no assento da carruagem, exausta de tanto comer. Pequenos arrotos continuavam a sair de sua boca.


"E se eu vomitar?"


"Tudo bem."

Paul respondeu de forma desinteressada enquanto folheava alguns documentos.


"A carruagem é cara. Seria um desperdício. Além disso, quem faz a limpeza vai ter trabalho duro também."


"Por que você está se preocupando com isso?"


Paul estava genuinamente curioso. Leonia ergueu o tronco.


Seu vestido vermelho, capa e o laço vermelho que amarrava o cabelo combinavam tão bem nela que pareciam pertencer a ela desde sempre.


'Tenho muitas coisas para comprar.'


Nada do que uma criança precisava existia no Ducado de Voreoti.


As únicas coisas eram coisas de Paul de quando era criança, mas tudo estava enferrujado por ficar guardado durante tanto tempo, então não dava para usar de verdade.


E Paul não queria dar algo daquele tipo para sua filha.

……


Paul deixou escapar os papéis em mãos ao recordar memórias indesejadas.


A criança ainda olhava para Paul.


"Você agora é uma dama do Ducado de Voreoti."


Paul falou, olhando de volta para a criança.

"Não tenha medo de deixar a carruagem se perder. Mesmo enquanto respira, estou ganhando dinheiro suficiente para comprar outra carruagem para você, então faça o que quiser."


Uau! Leonia deu um suspiro exagerado.


"Velho, você é meio legal, não é?"


Leonia deu gargalhadas, comentando que dinheiro era o melhor de tudo, afinal.


Paul sentiu como se um pão duro estivesse sentado na frente dele.


Ele se perguntou se ela gostava tanto de dinheiro por ser uma plebeia, mas, considerando sua idade, aquilo também não parecia ser o caso.


Na verdade, ela agia como uma adulta que já tinha passado por todas as altos e baixos da vida.


A criança não tinha nada de infantil.


Isso irritava Paul, como se fosse uma verruga em seu dedo.


"Ainda assim, eu não quero vomitar."


Olhando pela janela, Leonia murmurou que doeria se ela vísse que ia vomitar.


O olhar de Paul acompanhou Leonia pela janela.


As árvores estavam coloridas, pois era o fim do outono.


"E as pessoas precisam ter um coração generoso, não um coração rico em dinheiro."


"Que conversa furada."


"Você tem razão, é mesmo."


Leonia acrescentou que era coisa de pobre pra se sentir melhor.


"Você entende mesmo das coisas, velho."


O pai e a filha, com apenas um dia de diferença, estavam realmente ligados, de muitas formas diferentes.


Paul estava extremamente satisfeito com a família que formou após sua mudança de ideia repentina.


Alguns instantes depois, um cavaleiro bateu na janela da carruagem. Quando Paul olhou para fora, Meles avisou que estavam quase chegando ao destino.


Leonia sorriu brilhantemente e acenou com a mão quando reconheceu o rosto familiar.


"Meles!"


Leonia cumprimentou. Meles respondeu com um sorriso e um aceno de cabeça.


"Gosto dela."


"Meles é uma boa cavaleira."


Paul percebeu que também precisaria de cavaleiros para proteger sua filha.


Ele não só precisava comprar bens materiais, mas também reunir pessoas. Precisava de professores, uma empregada e cavaleiros.


E Meles ali mesmo já tinha feito a lista dos guarda-costas pessoais da jovem.

"Certo, Leonia."


Paul perguntou, depois de organizar as coisas que precisava fazer ao voltar para casa.

"Você já montou em altura de portão?"


* * *


"Uwaaaack!"


Leonia vomitou ao segurar uma árvore magra.


Ao invés das folhas de outono que tinham visto pouco tempo antes, uma pilha enorme de neve tinha tomado seu lugar.


Mas Leonia sofreu com enjôo depois de usar o portão para vir direto ao território de Voreoti.

"Senhorita, você está bem?"

Meles deu tapinhas em suas costas pequeninas.

"Que fraqueza."

Paul fez cara feia.

Quando os cavaleiros lhe informaram que haviam chegado perto do portão, Leonia abriu os olhos e perguntou o que era aquilo.

Paul explicou que permitiria viajar uma longa distância em um instante, e que quem usasse pela primeira vez poderia sentir enjôo, embora não fosse algo comum.

'Deve ser como um túnel.'

Leonia assentiu, murmurando algo que Paul não conseguiu entender.

'Nunca fui, mas acho que vai ficar tudo bem.'

Porém, o resultado foi péssimo. Leonia foi uma das poucas que sentiu náuseas extremas pela primeira vez ao usar o portão.

"Vou morrer……."

Leonia parecia uma planta morrendo nos braços de Meles.

"Nunca vi ninguém morrer de náusea."

Paul ficou irritado ao ver a criança.

A menina já era extremamente magra, mas agora parecia ainda mais doente por estar sem energia.

Porém, era diferente da irritação que ele costuma sentir. Era uma sensação semelhante à que teve ao encontrar a marca roxa no braço da criança.

"Velho, você é cruel……."

Porém, sua mente parecia estar bem, já que ela falava de volta.

"Olha, você ainda não morreu."

Paul tirou a capa e, com cuidado, envolveu Leonia nela ao tirá-la de Meles.

Alguma massa espessa se formou em poucos minutos.

"Ufa……."

Leonia respirou aliviada. Paul olhou para ela por um instante, e bateu de leve em suas costas.

"Ahhh, não precisa me bater……."

Paul parou rapidamente quando Leonia disse que ia vomitar de novo.

"Você fala demais."

Paul pediu que ela parasse de falar se estivesse se sentindo mal.

Leonia apenas fazia barulhos, pois estava sem energia.

"Posso vomitar na sua roupa……?"

"Você é uma piada pra mim?"

Paul franziu a testa. Mas suas mãos ainda eram cuidadosas ao acariciá-la.

Logo, Paul ouviu uma respiração suave. Leonia havia adormecido nos braços de Paul.

"……Que feia."

Paul comentou enquanto olhava para o rosto adormecido da criança.

Porém, seus lábios normalmente indiferentes tinham se curvado.

Paul fez silêncio, ordenando que os cavaleiros se preparassem para partir, e esperou até que Paul e Leonia entrassem na carruagem antes de começarem a se mover.

Os cavaleiros ficaram horrorizados com o que Paul acabara de fazer.

"……Você viu aquilo?"

"Sim, vi."

"Achei que estivesse vendo coisas."

"Ele deve ter machucado a cabeça……."

"Deve realmente ser a filha dele, que ele escondia."

Todo mundo na família Voreoti era famoso por serem frios e indiferentes, e Paul Voreoti era o pior de todos.

Mas agora, ele dedicava toda a atenção a uma criança que trouxe do orfanato ontem.

Ele até abaixou a voz para que a criança não acordasse.

Isso causava mais medo nos cavaleiros de Paul do que os monstros nas montanhas do Norte.

"A senhora também não é normal."

Meles, que cuidou de Leonia no hotel, acrescentou.

Meles já considerava Leonia como a dama do Ducado de Voreoti, e a tratava com respeito.

Desde que Paul disse que Leonia seria sua filha, seus cavaleiros fiéis tinham que seguir sem questionar.

"Ela até deu um chute no Duque ontem, quando ele não estava olhando."

"Uau!"

"Que coragem dela!"

Os cavaleiros ficaram pálidos, como se tivessem visto um fantasma.

Meles, que explicava, também estava pálido.

"Ele disse ‘Você ainda é feia, mesmo depois de lavar’ quando ela saiu do banho. Então, ela respondeu que ele devia fazer algo para contribuir com sua aparência, e fingiu que ia chutá-lo."

Todos os cavaleiros coçaram suas orelhas, achando que estavam ouvindo coisas.

Mas, ao ver a expressão séria de Meles, ficaram maravilhados.

Haviam dois motivos para isso.

O primeiro era a coragem de Leonia.

Outro era o fato de que Paul tinha feito uma piada para a criança.

……Ela deve ser sua filha de verdade."

Não haveria como a pequena agir assim se não fosse verdade.

Todos os cavaleiros concluíram que só poderia ser por ela ser parente de sangue dele.

É raro um cavaleiro falar assim do seu senhor, a quem jurou lealdade.

Porém, desta vez, todos estavam comentando sobre o relacionamento estranho de pai e filha que tinham visto, e passaram a acreditar fortemente que Leonia era a verdadeira filha de Paul.


* * *


O Ducado de Voreoti.


O único nome para o continente do Norte severo, mas ele tinha vários apelidos.


Cova dos monstros, terra da neve eterna e lar das bestas negras.

As bestas negras referiam-se à família do Ducado de Voreoti, que dominava a região.

A família, cuja força superava a de humanos comuns, tinha cabelos pretos, algo incomum no império, e o apelido surgiu por causa do respeito e medo que inspiravam.

O brasão de armas com um leão negro também veio desse apelido.

"Você teve muita sorte."

Paul disse a Leonia, que tinha acordado.

A criança encarou o pai e começou a fazer movimentos de mastigar com a boca, ainda meio sonolenta.

"Já que você tem a cor preta, igual a mim."

"Hmm."

Leonia olhou pela janela, ainda enrolada na capa e nos braços de Paul.

O sol estava alto no céu.

"Tem bastante neve."

"Na Ducado de Voreoti neva até a primavera."

"É muito frio?"

"Fica tranquilo, se você se acostumar."

"Eu também gosto do frio."

Leonia sorriu. Paul também abriu um pouco os lábios.

"Nunca viu neve antes?"

"Não."

Leonia balançou a cabeça.

Seus olhos tinham um brilho de saudade que não combinava com sua idade.

Paul observou silenciosamente sua filha.

Desde que se encontraram, ele já tinha percebido, mas a criança era excessivamente madura.

Ele lembrou do documento de informações pessoais do orfanato, que estimava sua idade em sete anos.

Na aparência, parecia ter no máximo cinco.

Mesmo que fosse mesmo sete, as palavras difíceis que não condiziam com sua idade e o rosto calmo surpreendiam Paul.

'Ela pode não ser uma plebéia.'

Seus olhos negros fixaram-se nela.

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