
Capítulo 4
Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.
No começo, ele achou que ela era meramente uma plebéia. Sua postura e o hábito de responder tinham poucos exemplos entre crianças de famílias nobres.
Mas, após passar o dia inteiro junto dela, ele começou a notar algumas coisas estranhas.
A criança tinha modos de mesa excelentes e comia sem fazer sujeira.
E embora respondesse, ela nunca passara dos limites. Era possível que fosse filha de uma família nobre e tivesse recebido uma educação adequada lá.
'…Mas agora ela é minha filha.'
Mesmo que os pais da criança fossem nobres, Paul não tinha intenção de devolvê-la para eles.
Pelo contrário, ele se irritava ao pensar que deixaram sua própria filha sofrer do jeito que foi.
Além disso, Paul gostava mais de Leonia do que imaginava. O tempo que passava com ela nunca era entediante.
Ela também não tinha medo dele.
Ela o lembrava de uma criaturinha selvagem, e isso era perfeito se ela fosse se tornar a dama da família Voreoti.
Finalmente, ele conseguiu entender um pouco mais Canis, que tanto se gabava.
"Velho."
"O quê?"
"Estou com fome."
Paul soltou uma risada.
Mesmo tendo vomitado e passado dificuldades há pouco tempo, ela já estava completamente bem de novo.
"Só mais um pouquinho, aguenta aí."
Ele a tranquilizou, dizendo que já estavam quase chegando na mansão.
Embora estivesse morrendo de fome, após vomitar tudo o que tinha comido, Leonia apenas assentiu com a cabeça.
"Velho."
"O que foi agora?"
Apesar de estar com fome, a criança ainda tinha bastante energia.
Seus olhos brilhavam ao ouvir que estavam quase chegando. Leonia sorriu.
Paul conseguiu ouvir uma risadinha inconveniente de seu peito.
Pela primeira vez na vida, Paul foi assediado sexualmente, e a responsável foi sua própria filha.
Ele ficou perplexo.
* * *
"Uau."
Leonia olhava ao redor da paisagem do Ducado, com o nariz grudado na janela do carruagem.
Apesar de seus nomes assustadores, como ‘Covil das Feras’ e ‘Terra do Inverno Mais Frio’, a terra era pacífica.
E, mesmo isolada ao norte, era extremamente bem desenvolvida.
Era possível ver ruas cheias de barracas de comida, além de praças de mercado grandes de vez em quando. E também havia algumas luminárias de rua.
Leonia imaginava as luzes brilhantes que iluminariam quando a noite caísse.
"Isso é demais! Nunca tinha visto antes!"
"Ainda é bem menor que a capital."
"Nunca fui lá, então não posso saber."
"……."
Por isso, esse lugar é perfeito pra mim.
Empurrando o rosto pra fora da janela, Leonia sorriu. Paul achou aquilo uma beleza inútil.
Mas, claro, isso não o deixou se sentir mal.
A carruagem logo chegou à mansão.
Quando a porta se abriu, Leonia saiu primeiro, pulando para fora. Então, Paul, que a seguia, a pegou novamente no colo.
"Já não estou mais doente."
"Sei disso."
Mesmo assim, Paul não soltou Leonia.
Por que ele viu as pernas dela bambalharem quando ela saiu saltitando com energia da carruagem.
Quando entraram na mansão, todos os empregados que aguardavam deram as boas-vindas ao retorno do mestre.
Mas logo ficaram chocados ao ver a garota desconhecida que estava nos braços de Paul.
"A mansão é enorme!"
A criança, que tinha o mesmo cabelo preto do seu mestre, admirava a residência.
"Mas sempre tem alguma história de assassinato nesses lugares assim."
Um clima sinistro se formou pela expressão séria da menina. Paul inclinou a cabeça.
"Como você soube disso?"
"Sério? Alguém morreu aqui mesmo?"
"Tem uma adega no porão."
Leonia fez uma careta de espanto enquanto tossia de surpresa.
"Uau, tortura!"
"Quer ver?"
Não. Provavelmente tem insetos lá embaixo.
Os empregados, ainda assustados, apenas escutaram a conversa estranha.
Foi nesse momento que alguém se aproximou de Paul e Leonia.
Era o mordomo Kara, que cuidava da mansão enquanto Paul estava na capital.
"Seja bem-vindo de volta."
O mordomo teve que reprimir a curiosidade e cumprimentar o mestre.
"Você cuidou bem da mansão enquanto eu estive fora."
Após elogiá-lo, Paul mandou chamar costureiros e artesãos renomados para virem à mansão.
O mordomo não conseguiu entender a ordem de Paul, que saíra do nada, mesmo anos de servir a ele.
"…Desculpe,"
Pela primeira vez, Kara não conseguiu compreender a ordem de seu mestre.
E também foi a primeira vez que precisou perguntar a razão por trás dela.
"Por que você quer chamá-los?"
"Porque não há lugar nesta mansão onde uma criança possa ficar."
"Criança…"
O olhar de Kara se voltou para a menina nos braços do mestre.
Aquela menina, que tinha cabelo e olhos negros como seu mestre, olhava com olhos brilhantes e acenava com a mão.
"Olá."
Depois, ela fez uma reverência.
"Sou Leonia."
"Não."
Paul corrigiu sua confusão.
"O nome que eu te dei não é mais longo que isso? Já esqueceu?"
"…Posso falar esse então?"
"Bem, daqui pra frente, vai só dizer metade do seu nome?"
Paul pediu que ela se apressasse e dissesse o nome completo.
Leonia concordou várias vezes com a cabeça.
Paul viu que as orelhas dela estavam ficando vermelhas.
Pela primeira vez, ela parecia uma criança da sua idade.
"Eu sou Leonia Voreoti."
Depois, uma grande mão desceu sobre a cabeça de Leonia, que Paul estava acariciando.
Leonia cobriu o rosto com as mãos e balançou a cabeça, envergonhada.
"……."
Kara ajustou as lentes.
"…Vou pedir para a cozinha preparar outra porção de comida."
Depois de esconder a expressão confusa, Kara voltou ao trabalho.
Após mandar uma criada próxima preparar uma refeição para a menina, ele seguiu Paul.
* * *
"Eu juro que é verdade!"
"O mestre voltou com uma criança!"
"Ela tinha cabelo preto!"
"Ele esteve com ela o tempo todo, segurando nos braços."
As funcionárias mais jovens, as cozinheiras, as jardineiras e até os cocheiros.
Todos os empregados do Ducado Voreoti estavam comentando sobre a mesma coisa há dias.
A menina que seu mestre trouxe.
"Será que o mestre tem uma amante?"
"Provavelmente. Como ele pode não ter, com aquele jeito?"
"Fala sério. Você tá testando um novo método de suicídio?"
"Mas a aura dele faz todo mundo tremer."
"Só que a mocinha não ficou assustada."
Uma das empregadas, que tinha conhecido a menina pelas fofocas, foi quem a viu de perto. Era uma sobrinha do mordomo Kara que ela tinha sido designada temporariamente.
A empregada, com cabelo castanho bem preso, descreveu a menina com tom de pena.
"Ela é muito magrinha."
Não conseguia esquecer as marcas de maus-tratos no corpo dela, tão magro, tampouco o cabelo sujo.
Mesmo assim, a criança saudavelmente cumprimentava todos que conhecia.
Até o mordomo tinha criado apego e pediu que ela cuidasse bem da menina.
Os empregados não disseram mais nada.
Sabiam que ela vinha de um orfanato e deduziram o tipo de vida que ela tinha levado até ali.
Alguns até amaldiçoaram o orfanato, dizendo que era um lugar terrível.
"Mas os olhos dela eram redondos e fofos."
A empregada rapidamente acrescentou.
"Todos os pequenos são fofos, aliás."
"Então ela deve ser… a filha secreta do mestre…"
Quase todos os empregados presumiam que a criança que Paul trouxe era sua 'filha secreta'.
Mas ninguém sabia, de fato, quem era a mãe dela.
Por isso, começaram a especular desconfiados sobre quem poderia ser a mãe.
"Quem sabe aquela moça que ele recebia cartas de amor o tempo todo? Sabia, aquela da família Conde Hienia…"
"Ou da família Caper."
"Ou até a filha do Conde Linette, que também parecia interessada."
"Ei, aquela menina só tem seis anos!"
Enquanto vários boatos circulavam, Paul chamou três pessoas para sua sala.
Kara, o mordomo; Mono, vice-comandante do Exército Gladigo; e Meles, que iria se tornar chefe da guarda pessoal.
Paul explicou suas razões para adotar a criança.
"…Você adotou uma criança por causa disso?"
Os três ficaram boquiabertos ao ouvirem a justificativa.
Não só a desculpa foi impulsiva, como também irresponsável e descuidada. Kara, especialmente, ficou irritado pelo comportamento inconsequente.
Mas Paul apenas se recostou na janela, olhando para fora.
"Uma criança não é um animal de estimação."
Kara criticou Paul, dizendo que o que ele fez era tão idiota quanto pegar um cachorro ou gato na rua.
"Você acha que eu não consigo distinguir?"
Incomodado, Paul o olhou com raiva. Sentiu-se irritado ao comparar Leonia a um cão ou gato.
Porém, Kara continuou a culpar Paul. Sua atitude impulsiva certamente não teria efeito positivo na criança.
Quem quebrou o clima foi o vice-comandante Mono, que tentou descontrair.
"Vocês dois realmente não têm parentesco?"
Mono coçou o queixo.
"Mas essa cor…"
Qualquer pessoa com características negras era extremamente rara no Império. Somente quem tinha sangue Voreoti poderia ter qualquer traço escuro assim.
Por isso, era natural desacreditar que Leonia fosse filha amada de Paul.
Paul também não negava essa hipótese.
"Primeiro, vamos dar uma engordada nela."
Mas a magreza da criança vinha antes de algo assim.
Kara suspirou, parecendo desistir.
"Mestre, o que pretende fazer?"
"O que eu vou fazer? Obviamente, criá-la."
O olhar de Paul se voltou novamente para fora.
"Isso é óbvio."
Kara não podia dizer algo cruel como devolver a criança ao orfanato.
A criança não tinha feito nada de errado. Paul era o responsável por tudo.
Porém, apesar de sua decisão impulsiva, Paul realmente se esforçava para tratar bem a menina.
Nos últimos dias, várias lojas e comerciantes visitavam a mansão, tudo para decorar e mobiliar o quarto de Leonia.
Havia uma cama macia, de acordo com o gosto dela, e a sala de recreação ao lado tinha uma estante cheia de livros e uma coleção enorme de bichinhos de pelúcia fofos.
O armário do outro lado era para roupas e acessórios caros.
'Melhor do que não se importar com ela.'
Kara decidiu pensar assim.
"As fofocas sobre a pequena já devem estar circulando por todo o Ducado."
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