Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

Capítulo 1

Me tornei a filha adotiva do protagonista masculino.

......Waaaah!


Os olhos da adorável criança de laço vermelho no cabelo se encheram de terror, e logo as lágrimas começaram a escorrer. No instante seguinte, ela se entregou a soluços desesperados e altos, como se tivesse visto um monstro.


Duque Ferio Voreoti franziu as sobrancelhas, claramente irritado, e fez um gesto de desdém com a mão. Um funcionário da instituição, que observava ansiosamente de trás da porta, rapidamente entrou e levou a criança que chorava.


Enquanto os soluços da criança lentamente diminuíam—


“Até quando vou ter que fazer isso?”

Com um suspiro breve, seus cabelos negros moveram-se levemente. Seus olhos opacos, pretos como breu, estavam cheios de tédio, e enquanto essa expressão cruzava seu olhar, ele olhou brevemente para o lugar onde a criança tinha estado antes de desviar o olhar para outro lado. Uma garrafa de uísque descansava na mesa usada pelo diretor da instituição.


“Foi sua decisão, Sua Alteza,” respondeu sua secretária, Lupe, que estava logo atrás dele.


“É um novo recorde,” acrescentou Lupe.


“O quê?”


“As crianças começam a chorar assim que veem seu rosto.”


Esta era a quinta instituição que Ferio Voreoti visitava.


“Assim que te veem, ficam apavoradas...”


“Pense bem, minha espada nem há tempos provou sangue.”


“...Que grosseria, de verdade. É exatamente por isso que crianças ignorantes agem assim.”


Nem reconhecendo a grandiosidade do Duque.


Lupe, que rapidamente ajustou sua postura, também estava exausto. Embora precisassem voltar ao território Voreoti o mais rápido possível, estavam constantemente parando em orfanatos pelo caminho, tornando a viagem desnecessariamente cansativa.


Lupe olhava com visão nostálgica para Ferio Voreoti, que se sentava à sua frente. Como Duque de Voreoti, ele governava as terras mais ao norte — uma região conhecida por sua natureza severa e perigosa. Desde pequeno, tinha características marcantes — tanto na beleza quanto na presença intimidadora.


Seu cabelo e olhos eram de um preto profundo, infinito. Seus lábios, levemente tingidos, eram bem delineados e moderadamente volumosos. Um nariz afiado e uma mandíbula marcada completavam seus traços definidos, sob eles, uma linha doce e masculina. Seu corpo forte e musculoso, resultado de anos de treinamento rigoroso, era visível mesmo sob as roupas. Como uma das duas casas ducais do império, ele era sem dúvida o solteiro mais cobiçado.


Porém, apesar de sua aparência notável, Ferio Voreoti exalava uma presença dominante que ofuscava sua beleza. Ele nasceu carregando o título de sua família — a “Fera Negra do Norte.” Era um exemplo vivo do que significava matar apenas com um olhar.


Até Lupe, que lhe servia há bastante tempo, às vezes franzia o cenho. Quanto mais difícil devia ser para essas crianças?


‘Mas por que ele de repente está procurando uma criança...?’


Lupe rememorou o momento em que tudo começou, poucos dias antes.


"Vou adotar uma criança."


Após retornar do palácio imperial, Ferio Voreoti jogou casualmente seu casaco ao criado, como se aquelas palavras nada significassem. Agora, ele viajava pessoalmente de orfanato em orfanato, fazendo cada uma das crianças chorar.


‘Não seria mais fácil simplesmente se casar?’


Se fizesse isso, em alguns anos, teria seu próprio filho biológico. Lupe não conseguia entender a lógica do mestre. Por mais intimidador que fosse, ainda era o marido mais desejável do império. Nunca faltaram mulheres e famílias nobres querendo casamento com a linhagem Voreoti.


De repente, Lupe lembrou do inverno passado. Naquela época, rumores de que Ferio Voreoti considerava casamento causaram correria entre as famílias nobres. Enviaram inúmeras cartas, procurando apresentar suas filhas aptas para casamento. Graças a isso, a mansão manteve-se aquecida ao longo da estação.


“Foi a última criança?”


Enquanto recordava das lareiras crepitantes, a voz do Duque o trouxe de volta à realidade.


“Sim, essa foi a décima oitava e última criança.”


Lupe sinalizou para um cavaleiro próximo. Entendendo a mensagem, o cavaleiro saiu para preparar a partida. Quando o carrinho imponente de Voreoti estava quase pronto, Ferio e Lupe saíram do orfanato.


“Vocês já vão embora?”


O diretor do orfanato correu atrás deles, esfregando as mãos com ansiedade. Mesmo com o frio do inverno se aproximando, sua face estava vermelha pelo suor e graxa.


“Sinto muito por não termos podido recebê-los de forma mais adequada,” disse ele, fingindo pesar.


Seu tom era de decepção, mas sua expressão claramente transmitia alívio. Ao mesmo tempo, uma faísca de ganância brilhava em seus olhos.


“As crianças aqui são realmente bonitas e bem comportadas. Conhecer Sua Graça pelo menos uma vez é uma sorte única na vida. Mas... o inverno já está chegando, e tenho medo de como essas crianças pobres vão conseguir sobreviver...”


Lupe questionou-se com ceticismo. Os outros orfanatos que haviam visitado também estavam financeiramente em dificuldades. Mesmo assim, garantiam roupas quentinhas de inverno e instalações bem cuidadas.


Este, contudo, era diferente. O equipamento do parquinho estava há muito quebrado, os vasos de flores decorativos escondiam janelas estilhaçadas, e rachaduras percorriam as paredes. Estava claro que o diretor não tinha interesse em administrar a instituição de forma adequada.


As crianças também reagiam de maneira diferente. Nos outros orfanatos, elas buscavam conforto nos professores. Aqui, elas se encolhiam com o simples toque dos funcionários que as levavam embora.


No momento, Ferio Voreoti avaliava o orfanato, procurando uma criança para adotar sob a justificativa de apoio financeiro. Este orfanato também receberia o financiamento de Voreoti em breve. Mas, ao ver as mãos gananciosas do diretor, Lupe sentiu, pela primeira vez, que era um desperdício da riqueza do Duque.


‘Embora, comparado à fortuna de Voreoti, seja só poeira.’


Então—


“Nia!”


Uma voz aguda chamou de trás deles.


Todos se viraram para ver quem ousava ser tão mal-educado na presença do Duque. Uma professora assustadíssima segurava uma criança pequena, repreendendo-a.


“Solte!”

A criança mordeu ferozmente a mão do homem.


“Argh!”

Com um grito de dor, o homem largou a mão, e a criança não perdeu tempo, saiu correndo e parou bem na frente do Duque.


Ferio Voreoti, que era o único que não tinha se virado antes, observou lentamente aquela pequena rebelde que se postava com braços e pernas estendidos, como se quisesse bloqueá-lo.


O primeiro detalhe que notou foi seu cabelo desgrenhado, oleoso, e suas roupas sujas. Todas as outras crianças que tinham visto naquele dia estavam pelo menos limpas. Mas essa estava por toda parte, sem lavar, e suas roupas eram tão ruins quanto trapos usados por empregadas da mansão.


No entanto, apesar de sua aparência, seus olhos brilhavam como ouro escondido na lama.


“Senhor!”

Suspiros tomaram o ar.

Lupe e os cavaleiros ficaram pálidos diante de sua ousadia. Ferio Voreoti, um mero “senhor”? Era um crime sem desculpa. Alguns cavaleiros pareciam que seus próprios cabeças rolariam.


“...Meu Deus.”

Lupe, pouco recuperando a compostura, ficou impressionado com a audácia da criança. Ela foi a primeira que não chorou ao ver Ferio Voreoti. Mas isso não era o mais chocante.


‘Os cabelos e olhos dela...!’


O cabelo e os olhos da criança eram do mesmo preto absoluto de Ferio Voreoti.


“Des-desculpe! Vou cuidar disso imediatamente—”


O diretor do orfanato tentou avançar desesperado, mas Ferio Voreoti levantou a mão, interrompendo-o. O diretor parou no ato, tremendo sob o frio olhar negro do Duque.


“Lupe.”


Ao chamado do Duque, Lupe revisou rapidamente os registros do orfanato.


“Ela não está na lista.”


O diretor rapidamente tentou explicar.

“A-Aquela criança é travessa e está sempre aprontando —”


“Então você ignorou as ordens do Duque? Disseram claramente que Sua Graça quer ver todas as crianças do orfanato.”


“S-Sinto muito! Por favor, me perdoe!”


O diretor e os demais funcionários imediatamente ajoelharam, com as cabeças baixas, tremendo de medo. Já a criança apenas os observava com indiferença.


“E qual,” disse Ferio Voreoti com voz séria, “é o seu nome?”


“Não tenho.”

“Até os órfãos têm nomes.”


“As pessoas aqui me chamam de ‘Nia’. Mas eu odeio esse nome.”


Costumavam gritar só ‘Hein!’ para ela, mas toda vez que a batiam, de repente, se lembravam de chamá-la de ‘Nia’. Quando descobriu que aquele nome tinha vindo de uma prostituta de um romance sujo que o diretor gostava de ler, ela ficou horrorizada.


Ferio Voreoti olhou nos olhos negros e cheios de brilho da criança.

“...Você não tem medo.”


Seus olhos negros se estreitaram, e uma ferocidade rubra cintilou neles. Uma pressão indescritível encheu o ar do orfanato. A criança instintivamente encolheu os ombros — mas não recuou, nem baixou os braços estendidos.


“Você tem noção de quem está bloqueando?”


Ferio intensificou um pouco sua mensagem, e por fim, os braços da criança começaram a tremer. Pela primeira vez, o medo cruzou o rosto que antes mostrava tamanha ousadia. Seus olhos escuros brilharem com lágrimas prestes a escorrer.

“Se quiser, posso te arrancar a cabeça agora mesmo, e ninguém questionaria.”


Enquanto Ferio avançava, a criança recuou ligeiramente. Mas ela ainda assim não quis desistir. Com os dentes cerrados, permaneceu firme, por pura teimosia.


......


Então, Ferio Voreoti parou.


Observou a criança, cujos olhos negros eram iguais aos seus. Por um momento, seu olhar brilhou—como poeira de ouro dispersa na escuridão.


“...Um filhote de besta.”


As palavras saíram antes mesmo que ele percebesse.


Um filhote de besta.


Ele passou a mão pelo maxilar, refletindo sobre a pequena criança que mal alcançava seu joelho. Corajosa e sem medo — ou melhor, com medo, mas que se recusava a recuar. Era... bastante interessante.


“Esse nome, definitivamente, não combina com você.”


‘Nia’ era nome demais para um filhote de fera tão selvagem e destemido.


O brilho vermelho perigoso nos olhos de Ferio dissipou-se e retornou ao seu preto profundo, puro. Ele decidiu lhe dar um nome que a descrevesse muito melhor.

“Leonia Voreoti.”


A boca da criança se abriu levemente, surpresa.

“...Essa é longa demais.”

“Leonia, esse é seu nome, seu idiota.”


“Eu não sou idiota!”

“Quando voltarmos ao território, precisarei chamar uma tutora.”

Resmungando que havia muita coisa a ensinar, Ferio levantou sem esforço Leonia e a jogou dentro do carrinho.


Ela caiu pesada numa poltrona confortável e soltou um grito de protesto.


Por trás deles, Lupe e os cavaleiros ficaram paralisados, encarando a cena como se tivessem perdido a cabeça.


“S-Sua Graça!”


Recuperando-se do choque, Lupe correu até a porta do carrinho.


“Espere um momento! O que—?!”

Mas, justo quando Lupe tentou alcançar, foi surpreendido por uma cena ainda mais absurda.


O infame Fera Negra do Norte, Ferio Voreoti, segurava casualmente a pequena e frágil Leonia com um dedo pressionado na testa dela. E ele sorriu de canto.


“Você—!”

Leonia, cheia de raiva, olhou fixamente para ele, a besta em sua expressão.

“Você gosta de brincar com crianças? É isso que te diverte?”

“Mais divertido do que imaginei.”

“Ugh, que pervertido!”

“Assim que fala...”

Era por isso que todos os velhos suspiravam cada vez que comentavam sobre seus ◈ Nоvеlіgһt ◈ (Continuar lendo) crianças.


Leonia estreitou seus grandes olhos redondos e bufou na direção dele — como uma fera.

“Leonia.”

Pela primeira vez, Ferio Voreoti a chamou pelo nome.


Na lateral do carrinho, o brasão da Casa Voreoti brilhava na luz serena do entardecer — um leão negro rugindo.

Um leão que ruge (Ferio).

Um filhote de leão (Leonia).

Nenhum nome poderia ser mais adequado para a filha da Casa Voreoti.

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