O Estalajadeiro

Capítulo 1686

O Estalajadeiro

A teleportaçãao entre reinos foi perfeita, então, se tivesse acontecido em qualquer outro lugar, Jack talvez não tivesse percebido de imediato. Mas assim que foi teleportado para o reino do Desafio, ele soube exatamente o que tinha acontecido, e seus olhos se abriram de surpresa.

A razão era simples. O odor fétido e rançoso que infestava sua sorte desapareceu. Jack não esperava que isso acontecesse, mas assim que aconteceu, ele caiu de joelhos e as lágrimas começaram a se acumular em seus olhos. Tão sobrecarregado que ficou, que demorou um momento para se recompor.

Jack não tinha certeza do que esperar de sua prova, principalmente porque, pelo que entendia, todas as provas eram personalizadas e não seguiam um padrão previsível.

Por exemplo, Jack viveu uma vida curta, mas cheia de acontecimentos, embora provavelmente não estivesse usando seu poder ao máximo de sua potencialidade. A forma como as fadas utilizavam a energia espiritual era tão poderosa que, para Jack, parecia um pouco quebrada, e mesmo depois de viver como fada por tanto tempo, ele frequentemente descobria que subestimava a extensão de suas habilidades.

Basicamente, a maior parte do seu poder vinha do poeira das fadas, que vinha de suas asas. Desde que ele tivesse a intenção de fazer algo, podia produzir poeira de fada com as propriedades adequadas para realizar essa coisa. Essa ideia era tão abrangente que, às vezes, Jack não conseguia lidar com ela.

Por exemplo, como humano, antes de Lex poder teleportar, ele precisava estar atento ao espaço e aprender a usá-lo. Precisava desenvolver afinidade com ele e, então, usar várias técnicas espirituais que lhe permitissem manipular o espaço de múltiplas formas.

Como fada, não existia tal coisa como afinidade com o espaço ou qualquer outra coisa. Desde que ele desejasse, sua poeira de fada poderia adquirir as propriedades do espaço, e o modo como usasse essa poeira limitava suas habilidades. As possibilidades eram infinitas.

Para ele, com habilidades tão assustadoras, as fadas deviam ser uma das raças mais reverenciadas do universo, pois essa versatilidade de vontade era estranhamente semelhante à de um dragão queFlexiona o universo à sua vontade.

Mas a diferença era que isso era o que as fadas eram capazes de fazer após sofrerem uma maldição cármica severa, que destruía qualquer chance de elas se tornarem mais fortes e de viverem vidas geralmente opressivas ou de escravidão. Nem sequer conseguia imaginar até que ponto as fadas podiam chegar no auge de suas forças.

Jack olhou ao redor e se viu sozinho numa trilha de concreto, sem qualquer ambiente ao redor. Não era como se estivesse na escuridão total, mas sim como se tudo ao seu redor tivesse sido arrancado. Na verdade, até a trilha diante dele parecia serpentear, encontrando um caminho, por mais estreito que fosse, entre tudo o que fora destruído ao seu redor.

Com uma expressão séria, ele deu seus primeiros passos, pois tinha uma teoria sobre o que estava vendo. Sua teoria não vinha dele mesmo, mas parecia emanar do ambiente, como se a ausência de coisas estivesse tentando se comunicar com ele. Ou talvez fosse o instinto inerente de uma fada.

Jack sentiu como se as qualidades que deveriam cercar uma fada — todas as coisas às quais a raça deveria ter direito ou das quais nasceu — tivessem sido arrancadas dele na essência de sua existência. Sua força, sua singularidade, tudo havia sido destruído, deixando-o com nada.

Não, não exatamente nada. Restava menos que nada, pois uma maldição cármica parecia pesar sobre ele, como uma âncora, garantindo que nunca pudesse se erguer novamente e reivindicar aquilo que era seu por direito.

Desde o mais profundo de seu ser, Jack sentiu a crueldade sem precedentes da ausência que o cercava. Até mesmo o caminho pelo qual caminhava existia apenas de relance — se é que podia ser chamado de caminho —, pois o universo não permitia que ele desaparecesse completamente.

Ele não sabia se seguir esse caminho contava como sua prova, pois não era difícil. Ou talvez, na verdade, ele não estivesse realmente caminhando por ele. Talvez estivesse apenas tomando consciência de que seu caminho para o progresso ainda existia — só que como uma pouquíssima sobra.


Assim que pensou nisso, seu entorno mudou, e ele deixou de caminhar pela trilha estreita. Em vez disso, estava sentado com as pernas cruzadas diante de um fada muito, muito velho — pelo número de rugas no rosto, podia se notar a idade avançada.

"Você está pronto?" perguntou o velho fada.

"Sim, estou," respondeu Jack. "Espera, pronto para quê?"

O velho fada olhou para ele como se fosse um idiota.

"Para o seu casamento, é claro. Você vai se casar com o velho Simons."

Jack congelou. Que tipo de prova era essa?

O velho fada pegou seu cajado de madeira e deu um tapinha na cabeça de Jack.

"Idiota, eu estava falando da sua prova. Está pronto para ouvir os detalhes? O que mais esperava do reino do Desafio?"

"AH! Ah, quero dizer, sim, sim. Estou pronto para saber os detalhes da prova," disse Jack, sentindo-se incrivelmente aliviado por o velho fada estar só brincando com ele.

"As fadas são uma das raças mais antigas que existem, e nossa afinidade com o Caminho da Ordem é tão grande que fomos um dos membros fundadores," explicou o velho fada, seu rosto suavizando de volta ao estado original. "Mas isso já é coisa do passado, e não adianta viver de glórias passadas. O que você precisa entender é que nada ressoa mais com uma fada do que a alegria. Nada. Por isso, a maldição que nos pesa foi especialmente concebida para nos privar dela, e da nossa capacidade de criar alegria. Na sua jornada, você deve se importar profundamente com a alegria. Ela é mais do que tudo para a gente, mais do que qualquer outra coisa, e enquanto existirmos, essa verdade nunca mudará."

Jack assentiu, memorizando cada palavra do velho. Talvez esse fosse o seu caminho no futuro. Ou talvez fosse uma dica para sua próxima prova.

"O que você vai enfrentar não é uma ilusão, nem algo artificial de qualquer modo. A dificuldade do desafio pode parecer completamente injusta, mas é proporcional ao grau de aprimoramento do seu reino de cultivo."

Jack deu de ombros.

"Já estou acostumado com as coisas difíceis. Tranquilo."

O velho fada concordou com a cabeça.

"Existe outra fada chamada Tinker. Ela é uma das três Fadas Imortais da Terra que existem em toda a existência. Sua prova é resgatá-la de sua prisão e ajudá-la a encontrar alegria novamente. Assim que fizer essas duas coisas, sua prova estará concluída. Há uma porta atrás de você. Depois de passá-la, você entrará na cela dela. Aviso: essa prisão foi feita especificamente para aprisionar fadas, portanto sua poeira de fada não funcionará lá."

Jack ficou… diante de um grande dilema. Embora soubesse que as provas não seguiam um padrão fixo, a dele parecia um pouco diferente.

"Existe mais alguma coisa que possa me dizer?" perguntou Jack.

"Não, não posso. Vá quando estiver preparado."

Jack olhou para o velho fada e, depois, ao redor. Parecia estar dentro de uma cabana de madeira.

"Obrigado pela orientação, então," disse Jack, fazendo uma reverência ao fada e levantando-se. "Vou vê-lo depois que concluir a prova?"

"Depois que concluir? Essa demonstra muita confiança na sua fala, rapaz. Acho que isso é uma coisa boa. Mas pode se preocupar com isso só depois de realmente terminar a prova."

Jack assentiu, virou-se e seguiu em direção à porta. Não fazia sentido esperar mais. Entrou nela sem hesitar e se viu no inferno.

Não era exagero. Ele estava literalmente no inferno, e soube disso no instante em que entrou. Felizmente, embora o corredor de pedra em que se encontrava tivesse canais finos de lava, servindo de fonte de luz, o ar não estava em chamas, nem havia hordas de demônios para torturá-lo.

Isso não significava que tudo estivesse bem. Assim como o velho fada tinha afirmado, Jack sentia que era incapaz de produzir poeira de fada. Algumas rochas do corredor — feitas de um material que funcionava como um inibidor — impediam sua magia. Felizmente, suas asas ainda funcionavam.

Fadas normais não conseguiam voar apenas com as asas, pois na verdade era a poeira de fada que lhes permitia voar, não as asas.

Mas isso não funcionava para Jack — a fada mais poderosa que existia.

"Você até levanta peso, irmão?" disse Jack, começando a bater suas asas frágeis. A força de cada bater de asas o impulsionava para o ar. "Sim, eu peso."

Jack não conseguiu evitar rir do trocadilho enquanto explorava o corredor enorme, sem saber que havia uma aparição invisível de um espectro infernal logo atrás dele, prestes a tentar possuí-lo. Sua piada, no entanto, foi tão embaraçosa e tão torturante que o espectro literalmente entrou em um tipo de possessão fetal, balançando para frente e para trás.

De repente, o espectro passou a duvidar de quem estava ali para torturar quem, pois a brincadeira do fada tinha feito um trabalho melhor em uma única linha do que o espectro conseguiria fazer o dia todo com uma possessão real.

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