
Capítulo 261
O Estalajadeiro
Na calada da noite, ou seja, na porção do dia bem iluminada e bastante movimentada em que Lex geralmente dormia — já que nesta floresta nunca escurecia — Lex ficou sozinho diante do penhasco Deadfall.
Faziam-se três dias desde sua última visita ao túnel, e essa foi a primeira oportunidade que conseguiu para ter um pouco de privacidade — principalmente porque todo mundo estava bastante focado no túnel, Ptolemy incluído. Claro que, por toda movimentação causada pela sua descoberta, Lex aprendeu bastante sobre poços espirituais, o que lhe causava uma frustração enorme!
Algumas pessoas no acampamento começaram a chamá-lo de talismã da sorte, mas ele não se sentia nem um pouco sortudo!
Após verificar que realmente estava sozinho, e que não havia animais ou bestas por perto, Lex pegou uma das muitas bolotas na mochila e a esmagou contra a parede do penhasco. Pouco tempo depois, uma raiz magra e fraca emergiu da rocha.
"Tá tudo bem, irmão? Você me contactou bem mais cedo do que eu esperava. Não me diga que o Goli te descobriu?"
"Não, Goli não me encontrou. Mas por que você não me falou do poço espiritual? Isso teria ajudado ainda mais do que uma mina! Porque eu não sabia o que era, acabei contando para o acampamento, e agora nem eu nem você vamos poder aproveitar isso!"
A raiz ficou imóvel por um momento, tentando processar o que tinha ouvido. A energia espiritual geralmente fluía de uma área para outra, e tinha correntes muito parecidas com as correntes oceânicas ou de ar. Claro que, por sua vez, o fluxo não se baseava apenas em ir de regiões de alta concentração para baixas, uma vez que essa energia tinha seus próprios padrões de comportamento — mas isso não vinha ao caso.
Às vezes, essas correntes enfrentavam um obstáculo, e em vez de fluírem, a energia espiritual começava a se acumular em pontos com concentração crescente. Nesse momento, havia várias formas de se formar pedras espirituais, e a maneira como elas se formavam determinava sua pureza e concentração.
Porém, o que mais importava para Lex era o fato de que, mesmo após a criação da mina de espírito, a concentração de energia não caía, mas continuava a aumentar, indicando chances de um poço espiritual ser formado.
Se cientistas da Terra estudassem esse fenômeno, seu interesse maior recairia sobre o fato de que, seguindo essa lógica, a energia espiritual contida em um líquido — a água espiritual — tinha uma concentração maior do que na fase sólida de uma pedra espiritual.
A verdade por trás dessa ocorrência era que a energia espiritual era bem mais complexa do que parecia à primeira vista, envolvendo muitas variáveis, mas, no nível de Lex, isso não precisava ser de seu conhecimento.
Tudo o que importava era que um único poço espiritual era melhor do que várias minas espirituais juntas. Se ele soubesse disso antes, teria usado diretamente o método que Karom lhe deu para escavar subterrâneo — ignorando o Druk.
Por fim, Karom falou hesitante: "Estive lá quando o Goli se instalou. Examinei toda a região sozinho, não lembro de ter visto nenhuma mina de espírito."
"E quanto tempo faz isso?" Lex perguntou, claramente frustrado. Percebeu que sua principal falha havia sido tratar um Trelop igual aos humanos, mesmo lembrando que, por sua fisiologia diferente, eles viam o mundo de forma distinta. Especialmente os Trelops...
"Acho que foi há cerca de 60 mil anos," disse Karom, contando os anos em sua cabeça.
Lex soltou um suspiro derrotado, pois sua suspeita tinha se confirmado. Os Trelops tinham uma noção de tempo completamente diferente, já que suas vidas eram infinitamente mais longas que as dos humanos. O período que Karom menciona era mais do que suficiente para uma mina de espírito se transformar em um poço espiritual, sem falar nas mudanças nos marcos e pontos de referência que poderiam indicar a localização das minas.
Não adiantava tentar explicar para Karom que ele tinha se enganado; Lex preferiu passar para o próximo assunto.
"Ouça, Karom, a situação mudou. Não dá para saber se as minas de espírito que você conhece ainda existem, muito menos encontrá-las. Além disso, se descobrirem um poço espiritual de verdade, é questão de tempo até a academia tomar conta."
"Quando isso acontecer, não poderei mais obter minas de espírito e você também não poderá mais absorver as terras da floresta dos seus primos. Então, se você for seguir seu plano, precisamos pensar numa solução e agir nos próximos dias — no máximo uma semana."
Karom ficou quieto por um tempo, até responder:
"Entendido, irmão. Vou pensar em algo, volto em breve."
"Antes de fazer qualquer coisa, confirme comigo," avisou Lex, desconfiado da sensatez do Trelop. No final, embora Karom concordasse, Lex decidiu não depender apenas dele.
"Ei, Lotus, se havia um poço espiritual lá, por que você não conseguiu detectar?" perguntou Lex, dando tapinhas nas costas dela.
"Senhor, eu só consigo detectar energia espiritual se a sinto fisicamente. Com minas e poços, a energia está completamente protegida, bloqueada para escapar, e é isso que faz uma mina se formar. Caso contrário, nem eu nem ninguém conseguiria detectar facilmente as minas."
"Faz sentido," murmurou Lex, enquanto voltava para o acampamento. A viagem até o penhasco não foi tão simples assim; precisou se esconder e fugir de alguns predadores algumas vezes, mas, mesmo retornando com a roupa bastante machucada, ninguém se incomodou.
Pelo contrário, quem viu Lex comemorou com entusiasmo. Ele era o protagonista do momento, o talismã da sorte, até chamavam-no de príncipe nobre. Lex, é claro, manteve a brincadeira com todos, mas não ficou por muito tempo, pois precisava descansar em sua tenda. O plano de contingência que tinha preparado era bastante simples.
Já tinha mostrado a todos onde ficava o túnel, mas ainda não o exploraram, afinal um Druk não era uma ameaça fácil de enfrentar, mesmo que fosse o único que Lex viu — ou uma família inteira.
Mesmo tendo seus próprios motivos para duvidar, Lex decidiu, contra seu bom senso, acompanhá-los na exploração do túnel, pois, mesmo que descobrissem um poço espiritual, ninguém perceberia se ele acabasse absorvendo um pouco de energia também. Certo?
Sua lógica era que, enquanto o poço não estivesse completamente esvaziado, ele ficaria tranquilo.
Por outro lado, Ptolemy interpretou a insistência de Lex em acompanhá-los como uma forma de desconfiança, como se ele negasse o papel de Lex na descoberta do poço se não estivesse ali com eles.
Isso o deixou tão frustrado que, por um momento, até desejou que o poço nem existisse.
Enquanto tudo isso acontecia, de volta ao seu domínio, uma pequena massa humanoide formada de folhas, que mais parecia Lex, caminhava de um lado para o outro, tentando entender algo. Karom havia ficado tempo demais na adolescência, e, a menos que encontrasse uma maneira de expandir seu território, ficaria preso assim.
"Irmão! Eu consegui!" de repente gritou, uma ideia vindo à sua cabeça. Se os humanos estavam tão ocupados procurando o poço, isso daria mais tempo para Lex encontrar minas de espírito e plantar suas sementes.
Por que ficar tão preocupado com uma questão tão pequena? Tudo o que precisava era distrair os humanos, talvez até prendê-los por alguns anos — isso garantiria bastante tempo para Lex procurar.
Tão empolgado com sua nova ideia, ele esqueceu completamente do aviso de Lex para não fazer nada sem consultá-lo.
'Querida titia Jeena,' começou a escrever numa pedra, preparando-se para enviar uma carta. 'Você nem vai acreditar no que acabei de ver. O Goli tem se encontrado com humanos...'
Karom anotou sua versão do 'último babado' sobre como Goli tinha decidido se aliar aos humanos. A maneira mais rápida de os Trelops ficarem mais fortes era absorver partes de outros Trelops — por isso eles eram tão poucos, além do fato de que muitos nunca permaneciam próximos uns dos outros.
Karom não fez acusações específicas, mas seu tom indiferente ao fato de Goli ter decidido fazer alianças com humanos indicava que ele mesmo não era o alvo dessa cooperação — muito pelo contrário.
Como sua querida titia reagiria a essa notícia, ele não se preocupou em imaginar. Logo depois, uma enorme rocha começava a ser puxada por centenas de raízes através da floresta, sua superfície toda coberta de inscrições.