
Capítulo 33
O Estalajadeiro
Lentamente, Falak aproximou-se do hospedeiro, usando seu sentido espiritual para investigar a área. Sentido espiritual era uma habilidade alcançada por aqueles em um nível cultivacional superior, que lhes permitia perceber detalhes com a maior precisão, tudo coberto por sua percepção espiritual.
Eles podiam extrair e retirar seu sentido espiritual, usando-o para cobrir tudo que estivesse dentro de seu alcance espiritual. É claro, havia outras utilidades para o sentido espiritual, mas essa era a mais comum.
Ele ficou surpreso ao notar algumas mudanças na Mansão do Estalajadeiro, além de pessoas novas — algo que não havia percebido de seu quarto. Essa, juntamente com o fato de não conseguir determinar a força do hospedeiro, tornava a Pousada da Meia-Noite extremamente misteriosa.
No entanto, isso pouco importava para Falak; ele não estava ali para fazer inimigos com o homem, portanto sua força tinha pouca relevância, somente sua capacidade como anfitrião era importante.
Quanto aos outros dois convidados, eram fracos demais para esconder qualquer coisa dele, e ele logo percebeu suas verdadeirasuras. Na verdade, desde o momento em que Falak nasceu, ele já era muito mais forte do que os dois soldados, então nem sequer tinha um conceito do que era o reino do Treinamento de Qi. Em termos de força, eles eram praticamente indistinguíveis dos mortais que não cultivavam de jeito nenhum para ele.
"Hospedeiro," disse Falak com tom de reconhecimento. "Houve algumas mudanças na pousada enquanto eu dormia. Surpreende-me você ter conseguido fazer isso sem que eu percebesse."
Lex sentiu como se, se o Traje do Anfitrião não estivesse ajudando a controlar suas expressões faciais, seus lábios teriam tremido. O homem tinha estado dormindo o tempo todo?
"Claro," respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo. "Todos os nossos quartos possuem uma matriz isoladora para que ninguém de fora perceba o que acontece dentro, enquanto quem está lá dentro permanece intacto às influências externas. Naturalmente, se desejar desligar a matriz, é só avisar que posso providenciar isso para você."
Aquela declaração surpreendeu Falak. Ele não havia percebido nenhuma matriz em seu quarto!
"Não é de se admirar que eu não tenha conseguido contactar a jovem pelo talismã de comunicação, os quartos são isolados. Nesse caso, por favor, remova as matrizes ao redor do meu quarto. Seria uma pena se a moça tentasse me contactar e não conseguisse."
Lex assentiu e usou seu controle sobre a pousada para desativar o poder de isolamento ao redor dos quartos. Na verdade, não havia matrizes cobrindo os quartos — a própria pousada mantinha eles isolados, mas era mais fácil explicar assim aos hóspedes.
"Está feito," disse Lex, enquanto sua mente passava por um milhão de pensamentos. Por um momento, considerou perguntar a Falak sobre a Terra do mesmo jeito que fizera com os dois soldados, mas logo descartou a ideia. Quanto menos ele revelasse a Falak e Bastet, mais fácil seria manter a fachada na frente deles.
"Esses dois jovens amigos," disse Falak, voltando-se para Chen e Blane, "posso sentir a aura do Sistema Vegus em vocês. Faz bastante tempo que não estou por lá. Poderiam me contar o que tem acontecido recentemente? Tenho estado bastante desligado do universo."
As palavras do homem sobrecarregaram e intimidaram os dois soldados, mas não era só isso. Ele era infinitamente mais forte do que eles e emanava uma aura natural que deveria tê-los dominado por estarem tão próximos.
Não era algo que ele precisaria fazer, a força daquele homem, só por existir diante deles, deveria esmagar suas almas — embora eles não soubessem disso, só sabiam que deveriam estar opressos e que algo os impedia de sofrer. Era a própria pousada, protegendo naturalmente seus convidados, mas os dois soldados atribuíam isso ao hospedeiro ajudando-os.
"Senhor, não sei quando foi sua última visita, mas há quase trezentos anos, Vegus Minima foi invadida por zumbis. Quanto aos outros dois planetas, perdemos contato há muito tempo e não sabemos qual o seu status. Provavelmente estão na mesma situação, ou pior."
"Zumbis?" Falak repetiu o termo desconhecido, um pouco curioso.
"Demônios do nível mais baixo," explicou Lex, reiterando as informações que havia recebido da pousada.
"Ah, demônios do nível mais baixo!" Falak fez uma careta por um instante, mas logo sua expressão voltou ao normal. "Desculpem, meus jovens amigos, gostaria de ajudar vocês — os demônios são realmente repulsivos — mas, de acordo com a Convenção de Henali, não posso interferir. Vocês terão que resolver isso sozinhos."
Os dois soldados sorriram de forma resignada — já não esperavam qualquer ajuda. A própria pousada já lhes havia informado que o destino deles estava em suas mãos e só poderia mudar com esforço próprio.
"Agradecemos pelo cuidado, senhor," disse Chen, "embora tenhamos sofrido, não perdemos a esperança. Reivindicaremos nosso planeta com nossos próprios esforços."
Chen tentava apenas passar uma imagem heroica, mas suas palavras realmente causaram uma boa impressão em Falak.
"Venham, jovens amigos, contem-me um pouco mais sobre esses zumbis."
Falak conduziu os dois soldados até o restaurante, onde se sentaram para discutir zumbis e tudo mais sobre o mundo deles, enquanto pediam uma quantidade realmente enorme de comida. Falak acabou descobrindo que era vegetariano, mas, ao invés de saladas, pediu uma lista de comidas indianas enquanto os dois soldados comiam um bife.
Como um ajudante confiável, Velma cuidaria do preparo das refeições, assim como fazia para Lex até então.
Lex deixou-os à vontade para conversarem — mas, na verdade, não! Como poderia abandonar essa oportunidade de aprender coisas interessantes com eles — principalmente com Falak, já que tinha entrevistado os soldados anteriormente.
Por exemplo, essa Convenção de Henali, embora Lex não soubesse exatamente do que se tratava, ele sabia que era algo que impedia Falak de ajudar os dois soldados — talvez essa informação fosse útil algum dia. Sentado confortavelmente no jardim, usou o poder do Traje do Anfitrião para ouvir secretamente tudo o que seus três convidados estavam dizendo.
*****
Upstate Nova York, Mansão de Will Bentham
O velho Will estava sentado numa cadeira de rodas, observando o jovem mercenário ajoelhado na sua frente. Ele vinha pensando em soluções para seu problema ultimamente e, de repente, lembrou-se de um rumor que ouvira uma vez. Soldados da morte. Soldados treinados para se sacrificarem por uma causa. Muitas famílias e organizações cultivavam esses soldados, e eles eram leais somente a elas.
Porém, havia outra forma de alguém conseguir um soldado da morte: por meio do poder infinito e incomensurável do dinheiro!
Ok, colocar assim foi uma exagero, mas às vezes, cultivadores desesperados aceitavam se vincular a outros em troca do que precisavam. Essa ligação era feita por meio de um contrato de alma, que, por si só, era um item raro e bastante útil, pois dava ao vinculador o poder de vida ou morte sobre a pessoa vinculada. Ainda assim, uma situação dessas era rara.
Will ligou para alguns velhos amigos para divulgar que procurava um soldado da morte. Inicialmente, achava que teria que esperar pelo menos alguns meses por uma resposta, mas quem poderia imaginar que receberia uma ligação apenas um dia depois. Na sua frente estava um jovem mercenário que já tinha feito um nome em expedições na lua.
Infelizmente, o mundo cultivacional não é pacífico e alguém havia matado a família do soldado enquanto ele estava fora numa de suas expedições.
Fazem alguns anos desde aquele incidente, mas, por mais que tentasse, o mercenário não conseguiu descobrir quem foi o culpado e qual foi o motivo. Na lua, as coisas eram muito mais caóticas do que na Terra. Por exemplo, enquanto a Bluebird fazia o possível para manter a paz e investigar crimes em suas áreas de controle, não havia nenhuma organização policial no satélite.
Lá, cada um só cuidava de si mesmo e de seus interesses. Por isso, o homem finalmente recorreu a medidas desesperadas. Concordou em se tornar o soldado da morte do velho Will, contanto que ajudasse a investigar a morte de sua família e ajudasse na sua vingança.
"Dei a ordem. A família Bentham começou oficialmente a investigar a morte da sua família — de forma discreta, para não atrair atenção. Avisarei assim que houver novidades."
"Obrigado, meu senhor," respondeu o mercenário ajoelhado. "Cumprirei minha parte do acordo."
Will sorriu ao ouvir as palavras do jovem. Acenou com a cabeça, e um homem de terno trouxe o que parecia ser uma seringa vazia até o mercenário ajoelhado, entregando-lhe o objeto. Sem hesitar, o mercenário enfiou a agulha no peito e puxou o êmbolo para fora.
Porém, a seringa não extraiu sangue algum, ao contrário, estava cheia de um material translúcido prateado. O processo parecia doloroso e o homem grunhiu algumas vezes, mas não parou. Quando terminou, o mercenário devolveu a seringa ao homem de terno, que a apresentou a Will.
Will pegou cuidadosamente o objeto e injetou o material prateado na própria mão. Quando terminou, um pequeno símbolo similar ao do mercenário apareceu nas costas da mão de Will. O contrato de alma estava completo, e o mercenário tinha entregado uma pequena parte de sua alma ao velho Will.
Naturalmente, Will não tinha controle total sobre a alma do mercenário, pois as condições do contrato estavam impregnadas na seringa que foi usada para extrair e entregar a alma. Se tentasse forçar o mercenário a fazer algo fora do que foi acordado, perderia o controle sobre a pequena parte de alma, que se dissiparia.
Da mesma forma, se o mercenário tentasse quebrar sua palavra ou agir contra Will, o contrato de alma imediatamente alertaria o velho, que poderia puni-lo.
"Então, agora," disse Will, com entusiasmo, "acho que você já sabe qual é sua missão."
Ele apresentou a chave de ouro ao mercenário, que imediatamente a quebrou. Não houve hesitação ou medo nos olhos dele. O homem estava disposto a fazer qualquer coisa para vingar-se. Num piscar de olhos, o ambiente se enegreceu e o mercenário desapareceu.