Flores São Iscas

Capítulo 107

Flores São Iscas

Havia muitas cordas e pedaços de tecido de cores variadas amarrados à árvore dos espíritos. Uma dama lançava facas e dançava graciosamente ao seu redor. Sob a sombra da árvore, a dança acompanhada pelo som estrondoso de gongos hipnotizava a multidão. Era a dança do xamã.

A árvore tinha cerca de 500 anos. Era grande o suficiente para que até dez pessoas tivessem dificuldade de abraçar toda a sua circunferência.

“Nem sei por que os funcionários da cidade vêm participar do ritual do xamã.” Choo-ja empinou o queixo na direção das pessoas de terno que se destacavam entre a multidão como espinhos.

O diretor do Hospital Mi entrou casualmente, segurando um leque nas mãos. Lee-yeon olhou de baixo de seu chapéu de palha para reconhecê-lo.

“Está melhor, senhor?”, perguntou ela.

“O deslizamento de terra não nos afetou tanto quanto poderia ter acontecido,” ele respondeu. “Quem teve que lidar com a maior parte foi o senhor, diretor So. Fui só um pouco afortunada. Seu hospital também veio ver o ritual?”

Lee-yeon examinou os rostos de Choo-ja e Kwon Chae-woo. A presença de Kwon Chae-woo a tranquilizava, então, quando falou, sua voz soou confiante. “Só vim aqui para dar uma passada antes do torneio,” ela disse.

“Aliás, queria conversar com você.” Ele limpou o suor da testa e sorriu para Lee-yeon. Ela se sentiu desconfortável.

“Me disseram, há algumas semanas, quando fomos tomar um drinque, que eles se sentiriam azarados se tivessem que encarar o Hospital Árvore de Cipreste,” continuou. “Naquele dia, só rimos disso, mas parece que virou realidade. Essa história da árvore dos espíritos é bem chata.” Ele ainda estava distraidamente abanando-se com o leque.

Ele olhou nos olhos dela: “Diretora So, por acaso, fez alguma coisa para irritar os chefes? Assim, de repente?”Finalmente, ele perguntou a Lee-yeon.

“Desculpa?”

“Quer dizer, primeiro você sobe numa árvore de 30 metros, depois encara um deslizamento, e agora essa história da árvore dos espíritos? Não acha tudo isso meio estranho?” O diretor do Hospital Mi sorriu inocentemente.

“Diretora So, pense bem,” ele falou com sinceridade e preocupação. “Talvez tratar a árvore dos espíritos não seja a melhor saída.”

“Como assim?” Lee-yeon respondeu nervosa ao questionamento do diretor do Hospital Mi.

Ela se lembrou dos detalhes do torneio. O objetivo era cuidar da árvore dos espíritos moribunda, e o plano mais promissor ganharia a chance de tentar a intervenção. Mas tratar a árvore nunca foi o problema.

“Você está me dizendo isso por causa das histórias assustadoras que me contou?” ela insistiu.

O diretor deu de ombros. “Não sei. Tenho mais medo de dinheiro e fantasmas.”

A dança do xamã no palco atingiu seu ápice e terminou. Mesmo enquanto as pessoas começavam a se retirar, Lee-yeon não desgrudava os olhos de suas pequenas lunetas. Ela observava o local e verificava o estado da árvore. Pensava nas partes que precisava tratar, marcando mentalmente os galhos e pontos específicos. Mas quanto mais ela checava, menos confiante se sentia.

Um homem idoso bateu com a bengala nos sapatos de Lee-yeon.

“Oh, olá, senhor,” ela cumprimentou nervosa.

“Imagino que você também seja uma espécie de médico de árvores ou algo assim,” ele disse, olhando para ela com olhos agressivos. “Os humanos não podem consertar Deus. Não seja tola. Vá embora!”

“Senhor, essa árvore está sendo maltratada de verdade,” ela afirmou. “Ela precisa de cirurgia.”

Mas assim que falou, as narinas do idoso se dilataram de raiva. “O quê? Cirurgia?”

As pessoas começaram a olhar para eles enquanto passavam.

“De jeito nenhum!” o velhote prosseguiu. “Você sabe que árvore é essa?”

“Para mim, é uma paciente grave,” respondeu Lee-yeon.

“Como é que ousa?”

Lee-yeon tampou os ouvidos enquanto o homem começava a gritar.

“É uma árvore magnífica, que salvou inúmeras pessoas da cidade,” ele falou. “De acordo com os registros, durante a guerra, colocaram um grande tambor naquela árvorezinha e bateram nele com todas as forças. Todo mundo evacuou ao ouvir o som, e a única coisa que sobreviveu nesta cidade foi essa árvore! Ela tinha apenas 10 anos. Carregava um tambor maior que ela e tinha que suportar o som, por isso cresceu curvada assim!”

“Sim, parece até que ela tem uma hérnia de disco,” comentou Lee-yeon.

“O quê?” o velho exigiu.

Ela apenas o encarou. Então, pensou em algo. “Se essa árvore é tão preciosa quanto você diz, por que ela está coberta de musgo e terra? Você já tentou escová-la ou lavá-la com água?”

O idoso se assustou. “Por que isso importaria? Você está dizendo que devíamos dar banho nessa árvore?” ele rosnou. “Se tocar nela e cortá-la de qualquer jeito, vamos mostrar o que acontece com quem mexe com ela!” O velho bateu com a bengala com raiva e se foi.

Choo-ja reclamou do velho, mas Lee-yeon apenas sorriu.

“Acho que entendi,” ela disse.

“Entendeu o quê?” perguntou Choo-ja.

Mas Lee-yeon a ignorou e perguntou: “Cadê o Chae-woo?”

Ela ficou na ponta dos pés, olhando ao redor. O homem que normalmente não conseguia ficar longe dela havia desaparecido repentinamente. Quando começava a roer as unhas de ansiedade, seus olhos cruzaram com os do xamã, que acabara de concluir o ritual.

O modo como o xamã vestia fazia parecer que ele vinha de outra época, e isso a assustou. Ela tentou desviar o olhar rapidamente, mas sentia que ele ainda a encarava.

“Lee-yeon, está com calor?”

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