
Capítulo 108
Flores São Iscas
Naquele momento, uma mão enorme enxugou o suor de sua nuca. Uma bebida gelada tocou sua bochecha quente. Lee-yeon ficou mais surpresa com o toque da mão do que com a bebida. Ela se virou.
“Você ficou muito tempo no sol.” Kwon Chae-woo estava suando bicas enquanto falava com ela.
“Não vejo nenhuma loja por perto.” Lee-yeon franziu a testa. “Você correu para pegar isso?” Lee-yeon encarou o homem que estava procurando, atônita. Ele não disse uma palavra, apenas sorriu e abriu a garrafa. Lee-yeon pegou a garrafa e roçou o alumínio nas laterais. A maneira como ele a encarava não havia mudado. Isso só fez Lee-yeon se sentir culpada.
“Aconteceu alguma coisa enquanto eu estava fora?” Kwon Chae-woo perguntou quando viu o rosto de Lee-yeon ficar sombrio por uma fração de segundo.
“Bem...” Lee-yeon achou infantil dizer que estava ansiosa porque não conseguia encontrar Kwon Chae-woo, então disse outra coisa. “Um modelo famoso foi transportado para cá por acidente.”
Kwon Chae-woo olhou para ela de forma estranha diante de sua resposta esquisita.
“Eles consertaram os ossos dele, trataram a ferida e, mais tarde, removeram suas cicatrizes e mandaram o modelo embora”, disse ela, mudando de assunto. “Mas este paciente continuou piorando. Por que você acha que é?”
“O paciente provavelmente tinha alguma outra doença.” Kwon Chae-woo franziu a testa diante do tópico estranho. “Outra doença que não foi causada pelo acidente, algo que o estava comendo vivo por dentro.”
Enquanto Lee-yeon assentia, o homem tocou seu rosto com sua mão macia. “Mas para melhorar completamente, ouvi dizer que tiveram que raspar sua cabeça e até cortar ambos os braços.” Enquanto ela olhava para a árvore tristemente, duas vozes falaram de repente.
“O que podemos fazer? Ainda é melhor estar vivo do que morto”, disse Kwon Chae-woo.
“E daí se tiver que tirar os dois braços? Eu manteria o paciente vivo, não importa o que aconteça.”
Eram respostas semelhantes, mas a segunda era um pouco estranha por alguma razão. Lee-yeon balançou a cabeça e tentou se concentrar. “Mas isso é uma árvore.”
Choo-ja finalmente pareceu perceber o que Lee-yeon estava dizendo e olhou para a árvore seriamente.
“É até uma boa árvore”, disse Lee-yeon. “É a protetora da cidade e tem uma história tão comovente. Muitas pessoas vêm vê-la. E se essa árvore de repente parecesse tão mal de repente? O que eles pensariam disso?”
Choo-ja balançou a cabeça como se tivesse muito em que pensar e Lee-yeon abaixou ainda mais a voz. Uma cigarra que começou a cantar sobrepujou sua voz.
“O hospital provavelmente não queria fazer parte disso”, disse ela. “Eles a deixaram em paz por tanto tempo que ela teria morrido se fizessem algo errado, mesmo que fosse leve. Eles provavelmente não queriam mais tentar consertá-la e serem culpados por coisas além do seu controle.” Ela suspirou. “Há uma boa chance de que eles apenas pegaram um pouco de dinheiro e a trataram bem o suficiente para manter sua aparência como está.” Lee-yeon bebeu a bebida em sua mão e arregaçou as mangas. “Acho que foram os médicos de árvores que inventaram aquelas histórias de terror sem sentido também.”
“O quê?”
“Eles provavelmente não queriam ser responsáveis por deixar uma árvore histórica de 500 anos morrer.” Sua voz ficou mais baixa. “Esta é uma batalha de inteligência entre a cidade, os moradores, o xamã e os médicos de árvores.”
Eles realmente não se importavam se a árvore espiritual morria ou não. Os moradores se importavam mais com sua aparência, os médicos estavam com muito medo de serem responsáveis por qualquer coisa, e a cidade e o xamã apenas pegavam o dinheiro que podiam.
Lee-yeon respirou fundo e franziu a testa. “Eu... vou virar tudo de cabeça para baixo.”
***
Kwon Chae-woo abraçou Lee-yeon antes mesmo que ela pudesse terminar de falar. Lee-yeon não conseguia ver nada além de seus ombros enquanto ele a envolvia em seu abraço. Ao olhar para baixo, ela podia ver o vermelho do hanbok [1] do xamã de uma distância próxima.
“Como isso aconteceu?”
Lee-yeon ouviu uma voz desconhecida. Era bem firme, mas também soava como uma língua chutando para Lee-yeon.
“Parece que o galho de salgueiro também vai cair em breve. Vai doer muito.”
Lee-yeon tentou olhar por cima do ombro de Kwon Chae-woo. Embora ela pudesse ver principalmente a camisa branca de Kwon Chae-woo, ela vislumbrou o rosto do xamã.
O galho de salgueiro...
Lee-yeon mordeu a língua. Ela não sabia por que se sentia presa quando ouviu o tal xamã dizer isso.
“Lee-yeon.” Kwon Chae-woo notou que sua respiração havia mudado ligeiramente e olhou para baixo. Lee-yeon agarrou a camisa de Kwon Chae-woo e tentou se acalmar. Lee-yeon apenas encarou o xamã sem hesitação.
Parecia que ela tinha levado um tapa na cara. O xamã estava certo. Lee-yeon se sentiu mais magoada do que zangada, então enterrou o nariz no ombro de Kwon Chae-woo para tentar respirar.
Ele apenas colocou a mão na cabeça dela. “Devemos ir para casa?”
“Sim”, disse ela. “Sim. Vamos para casa.”
Uma árvore sempre dava respostas claras, mas, sempre que Kwon Chae-woo estava envolvido, as coisas ficavam confusas. O que mais a incomodava era sua culpa, o fato de que ela estava escondendo a verdade. Lee-yeon enxugou a testa e escondeu suas mãos trêmulas.
Parecia que era hora de parar de fugir. Se ela não se livrasse de sua culpa, então o relacionamento morreria no final. Era como se todos e tudo estivessem empurrando Lee-yeon para dizer a verdade. Ela queria ser compreendida. Ela queria ser aceita. Lee-yeon se forçou a dar um passo em direção à verdade que estava evitando.
“Chae-woo.” Ela pigarreou. “Eu... eu tenho algo para te contar depois da competição.”
“O que é?”
“Só... o passado.”
Ela se sentiu tonta e sufocada mesmo ao dizer isso. Era hora de descarregar todas as mentiras. Era o momento mais terrível que ela teria que enfrentar. Era algo que ela tinha que superar.
“Quando te conheci há 2 anos, havia algo que eu não te contei.”
Um galho de salgueiro caindo significa que você está se despedindo de um ente querido.
***
[1] - Hanbok é o traje tradicional coreano.