Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 814

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Neo estava ajoelhado no chão de pedra fria.

Esse era um castigo chamado fa gui, ajoelhar-se como disciplina.

Ele não sabia o nome exato nem as regras por trás disso, mas havia visto com frequência na Seita.

Quando as crianças erravam, os anciãos as punham assim e as obrigavam a ficar até que suas pernas tremessem.

No começo, Neo não deu muita importância.

Agora, após horas, ele reconsiderava.

"Você sabe o que fez de errado?" Elizabeth perguntou.

Ela estava sentada numa cadeira à sua frente, postura ereta, expressão calma, porém afiada.

Seus olhos olhavam para ele sem calor.

Estavam dentro da residência de Elizabeth, no salão principal onde ela geralmente encontrava os anciãos da Seita.

Paul ainda estava inconsciente em um dos quartos internos, sendo atendido pelo Espírito de Técnica dela.

Neo olhou para cima levemente.

"Nada?" ele disse, fingindo uma expressão inocente.

As pálpebras de Elizabeth tremularam.

Aquela única palavra quase fez ela perder o controle.

"Nada", ela repetiu lentamente. "Essa é sua resposta."

Neo assentiu como se realmente acreditasse.

Elizabeth inspirou fundo, depois soltou o ar, tentando se acalmar.

"É assim que você deve falar com Paul? Ele vai ser seu filho. E, antes de tudo, vocês dois têm milhões de anos. Por que ficam discutindo como crianças?"

Neo abriu a boca.

"Não me interrompa", ela acrescentou.

Ele fechou novamente.

Elizabeth continuou: "Você o provoca. Ele te provoca de volta. E aí ambos agem como se fosse surpresa quando a coisa escala. Você acha que eu não percebo?"

Neo ficou quieto.

"Paul é uma criança comparado a você. Você sabe disso. E, ao invés de agir como adulto, decidiu provocar até ele explodir."

"Eu não—"

Seu olhar se tornou mais afiado.

Neo engoliu o resto da frase.

A palestra seguiu.

Minutos viraram uma hora. Depois de mais um pouco.

Neo permaneceu de joelhos o tempo todo.

Por ser mortal naquele momento, seu corpo não conseguia ignorar o esforço.

Sua força lentamente foi ficando dormente.

Depois, veio a dor.

Primeiro, era uma sensação difusa, depois aguda, como agulhas perfurando músculos e ossos.

Seus joelhos pareciam travados, e cada pequeno movimento enviava um choque pela coluna.

Ele queria se mexer.

Mas não podia.

O olhar frio de Elizabeth nunca suavizou.

Depois de algum tempo, passos ecoaram pelo corredor interno.

Paul saiu, completamente acordado agora, os ferimentos já quase curados. Ele caminhou até parar ao lado de Elizabeth, com os braços cruzados, olhando para Neo.

Havia um sorriso arrogante no rosto dele.

Era sutil, mas Neo percebeu.

Elizabeth também viu.

Sem nem olhar para Paul, ela disse: "Ajoelhe-se."

Paul piscou. "O quê?"

"Disse para se ajoelhar", ela repetiu calmamente.

O sorriso dele congelou.

"Você estava assistindo com uma satisfação excessiva. Como está claramente cheio de energia para ficar aí de sorriso, então pode se juntar a ele."

Paul hesitou.

Depois, relutantemente, abaixou-se até o chão e ajoelhou-se ao lado de Neo.

Neo olhou de lado e sorriu ironicamente.

Elizabeth levantou a mão.

Seu Espírito de Técnica se agitou.

Um instante depois, a expressão de Paul mudou.

As sobrancelhas se franziram, e a mandíbula se cerraram.

O chão sob ele não mudou, mas a pressão sobre seu corpo aumentou várias vezes.

Para ele, parecia que uma montanha estava pressionando seus ombros.

Elerangiu os dentes.

Elizabeth finalmente virou a cabeça e o olhou. "Você é um Artista Marcial. Se eu não aumentar o peso, isso nem conta como punição."

Paul permaneceu calado.

O sorriso de Neo se expandiu um pouco.

Paul percebeu.

Os olhos deles se encontraram.

Paul encarou.

Neo desviou o olhar, claramente satisfeito.

Elizabeth massageou as sobrancelhas, pinçando a ponte do nariz.

"Eles realmente estão brigando como crianças", ela murmurou.

Ela se recostou novamente na cadeira.

Por um breve momento, sua expressão suavizou só um pouco.

"Gostaria que Clara estivesse aqui", ela disse quieta.

Seu olhar se perdeu, sem foco.

"Ela seria mais sensata do que esses dois."

Porém, Clara estava longe.

Ela não sabia dos planos de Paul nem de suas ações.

Ela vivia normalmente em outro universo, graças a Julie e Ultris.

A punição terminou horas depois.

Neo mal conseguia ficar de pé quando Elizabeth finalmente dispensou ambos.

Paul não parecia muito melhor.

Semanas se passaram após aquele dia.

Elizabeth deliberadamente designou Neo e Paul para as mesmas tarefas.

Eles ensinavam as crianças da Seita juntos. Ia ao mercado com ele. Cuidavam de pequenas tarefas, inspeções e trabalhos de supervisão lado a lado. Elizabeth se certificava disso.

Ela esperava que a proximidade os ajudasse a se aproximar e se tornar mais amigáveis.

Ela desejava que a responsabilidade compartilhada aliviasse as tensões.

Mas, ao contrário, o que aconteceu foi o oposto.

Eles discutiam por coisas triviais. Métodos de ensino. Disciplina. Até como organizar os suprimentos.

As conversas nunca eram explosivas, mas eram cortantes, cheias de provocações pequenas e hostilidade não dita.

Elizabeth tinha que ficar de olho neles o tempo todo.

Sinceramente, ela não sabia quando um deles poderia cruzar a linha e tentar eliminar o outro de vez.

E ambos eram totalmente capazes disso.

E assim se passaram dois anos.

Nesse período, Elizabeth terminou de herdar tudo que a antiga Feiticeira do Orgulho deixou para trás.

O conhecimento, os Espíritos de Técnica, os vestígios de poder. Tudo finalmente era dela.

Depois disso, ela criou um conselho para administrar as operações diárias da Seita.

Estava estável agora.

Mesmo que ela saísse, a Seita continuaria funcionando sem interrupções.

Isto era importante.

Numa tarde silenciosa, Neo estava preguiçosamente esticado numa cadeira na residência de Elizabeth, comendo chips que ela havia feito para ele. Migalhas espalhadas sobre a mesa.

Paul tinha retornado à mansão de Apollyon.

Oficialmente, servia como servo. Não oficialmente, ainda atuava como espião.

Com ele desaparecido, Neo não tinha alguém para incomodar, e desfrutava de paz.

"Você está pronto para entrar no meu Cosmos?" Neo perguntou casualmente.

Elizabeth levantou os olhos dos documentos que revisava.

"Sim", ela respondeu.

"Ok. Fale com Amelia. E…"

Ele sorriu amargamente.

"Diga a ela que peço desculpas por tudo."

Elizabeth levantou uma sobrancelha. "Por que não fala isso diretamente para ela?"

"Hahaha."

Neo apenas riu, tentando disfarçar como de costume.

Dessa vez, Elizabeth não deixou passar.

"Você também não falou com seus amigos da academia. Sei que pensa que todo sofrimento deles foi sua culpa. Mas isso não é verdade."

"Está bem—" Neo começou.

"Esse é seu vício. Em vez de conversar e resolver as coisas, você simplesmente foge."

Ela se levantou, foi até ele e parou bem na frente.

Olhou nos olhos dele.

"Você também não falou com seus pais, não é? Se não falou, quando eu entrar no Cosmos, vou perguntar ao Hades por que ele te abandonou na sua primeira vida, e vou—"

"Você não vai fazer nada com ele."

Neo a interrompeu.

Seu tom era calmo, mas firme.

Elizabeth parou.

"Deixe isso pra lá", ele disse.

Anos atrás, Elizabeth entrou na Grande Rede da Vida—o Mar de Toda Consciência—por seus próprios motivos.

Lá, ela acumulou vasto conhecimento antes de voltar.

Um desses conhecimentos dizia respeito à vida do Demônio da Tirania.

Naturalmente, ela sabia como Neo havia sido tratado pelo pai dele, o Demônio da Serenidade.

"Então não posso atacá-lo? Por que você ainda se importa com ele?"

"Ele deve ter tido seus motivos", Neo respondeu.

O olhar de Elizabeth ficou mais duro.

Ele se recusou a encontrar Hades.

Rejeitou confrontá-lo.

Rejeitou liberar sua raiva.

Ele estava fugindo.

"E quanto à sua mãe? Ela se importa com você. Você vai ignorá-la também?"

Neo não respondeu.

Silêncio se alongou.

"…Então essa é sua resposta", Elizabeth falou com calma. "E quanto a Moraine?"

Neo congelou.

A peça pausou na metade perto da boca dele.

Aquele nome não era falado entre eles há muito tempo.

Na verdade, era a segunda vez que Elizabeth o dizia desde o dia em que se encontraram na Terra dos Santos Verdadeiros.

Até então, era um acordo não dito. Um tópico deliberadamente evitado.

O olhar de Neo mudou.

A expressão descuidada desapareceu.

Seus ombros ficaram rígidos, e a postura relaxada que tinha nos últimos dias se endireitou sem que ele percebesse.

"Você vai encontrar a Moraine dentro do meu Cosmos?" ele perguntou.

"Sim."

"Então não posso deixar você entrar", Neo disse imediatamente. "Vou tirar a Amelia ao invés."

Elizabeth franziu a testa. "Por quê?"

"Porque você vai tentar matar a Moraine."

"Eu não vou."

"Você acha que eu vou acreditar nisso, com esse punho cerrado assim?"

Elizabeth baixou o olhar.

Foi então que ela percebeu.

Gotejava lentamente sangue de sua palma, vermelho escuro contra a pele pálida.

Ela nem tinha percebido quando começou a apertar tão forte a mão.

Mas agora, observando, ela entendeu.

Foi no momento em que disse o nome Moraine.

Ela fechou novamente a mão, sem se importar com o ferimento.

"O que você vai fazer sobre Moraine e sobre mim?" Elizabeth perguntou direto.

Ela não tinha mais intenção de evitar o assunto.

Neo não respondeu.

Em vez disso, finalmente levou o chip à boca e mastigou lentamente, os olhos fixos em algum lugar distante.

A ação casual quase parecia uma ofensa.

Elizabeth soltou uma risada curta, sem humor.

"Hah. Então vai ficar em silêncio. Claro que vai. Tudo que sabe fazer é fugir de problemas que não quer enfrentar."

Ela pressionou novamente sua mão ferida, ignorando a dor.

Elizabeth queria fazer as pazes com Moraine.

Não porque fosse fácil. Não porque não sentisse ciúmes ou ressentimento.

Mas porque amava Neo, e não queria que ele sofresse mais.

Mas ao vê-lo agora—incapaz de sequer dizer o que sentia, de reconhecer qualquer uma delas de verdade—feito seu peito apertar.

"Você vai só nos manter separados e passar tempo com cada um de nós? O que somos para você, Neo? Suas amantes?"

Neo não respondeu.

"Diga alguma coisa", Elizabeth ordenou.

Sua própria voz a surpreendeu.

Não costumava perder o controle assim.

Normalmente, ela reprimia suas emoções, analisava a situação e fazia o que era certo.

Era assim que sempre viveu.

Mas agora, a tampa de todas essas emoções guardadas foi aberta de repente.

E elas saíram sem controle.

Por fim, Neo falou.

"Eu… não sei o que fazer."

Ele levantou a cabeça e olhou diretamente nos olhos dela.

"Eu amo vocês duas."

Elizabeth o encarou.

"Ambas? Você se escuta?"

Ela não tinha planejado dizer nada disso. Não tinha planejado confrontá-lo assim.

Mas, uma vez que começou, não conseguiu parar.

"E se eu te disser que também amo outra pessoa? Você aceitaria?"

"Eu mataria aquele cara."

A resposta veio instantaneamente.

Elizabeth riu, cortante e amarga.

"E mesmo assim você me diz que ama outra pessoa também. Eu sinto o mesmo que você. Quero matar a Moraine. Realmente quero. E… e…"

Sua voz quebrou.

Elizabeth parou de falar.

Os lábios tremiam levemente, e seus olhos se encheram de lágrimas.

Ela virou o rosto, tentando recuperar o controle.

Depois de alguns segundos, falou novamente, mais quieta desta vez.

"Não. Eu não vou matá-la. Não se preocupe."

Neo ficou tenso.

Ele nunca tinha visto Elizabeth assim antes. Nem uma vez.

Ela sempre foi composta.

Ver seus olhos vermelhos, a voz instável, fazia alguma coisa apertar dolorosamente no peito dele.

Antes que percebesse o que estava fazendo, seu corpo se moveu.

Ele se levantou e a puxou para seus braços.

Elizabeth congelou por um instante.

Depois, retribuiu o abraço, enterrando o rosto no seu peito.

Sua pegada foi forte, como se temesse que ele desaparecesse se ela soltasse.

"Apenas… apenas seja feliz, Neo. Não quero que sofra mais. Se compartilhar você com a Moraine for o que precisa, tudo bem por mim", ela disse suavemente.

Neo acariciou suas costas delicadamente.

Ele sentia ela lutando.

Ela estava forçando a si mesma a aceitar algo que a machucava profundamente, tudo pelo bem dele. Essa compreensão doia no peito dele.

Ao mesmo tempo, ele se sentia patético.

Elizabeth tentava enfrentar o problema de frente, até oferecendo-se para fazer as pazes com Moraine.

E ele aqui, fazendo o que sempre faz—fugindo.

"Elizabeth," ele falou cuidadosamente. "Se quiser, posso usar o Severant."

Ela recuou um pouco.

"…O quê?"

"O 'eu' que você conhecia estava no Tartarus. Naquele tempo, eu não tinha memórias da minha primeira vida. Então, mesmo se eu me dividir em duas partes—uma que você conhece, Neo, e outra que vive no Nono Éon, Sem Nome—eu ainda seria—"

Nunca diga isso novamente."

A voz de Elizabeth cortou-o abruptamente.

Ela levantou a cabeça e o encarou com raiva.

"Nunca diga algo tão horrível de novo."

Neo piscou.

Só então percebeu o quão próximos eles estavam. Quase tocando os narizes.

Elizabeth, alguém que mantinha uma expressão fria, o encarava com lágrimas ainda nos cantos dos olhos, os braços apertados ao redor dele.

Uma ideia estranha passou por sua cabeça.

'Fofinho.'

Antes que pudesse impedir-se, um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

"Não se preocupe. Eu estava brincando."

Elizabeth bufou. "Suas piadas são terríveis."

Ela deu um passo para trás, limpou os olhos e recuperou sua compostura surpreendentemente rápido.

"Agora, abra seu Cosmos. Preciso encontrar Amelia, Moraine e todo mundo."

Neo assentiu.

Ele ainda estava preocuparam com Elizabeth encontrar Moraine, então instintivamente pensou em deixar o Registro Celestial para espioná-los secretamente.

Como se ela pudesse ler seus pensamentos, Elizabeth falou novamente.

"Eu encontrarei a Amelia primeiro. Depois, a Moraine. Não escute minha conversa com ela."

"…."

"Entendido?"

"…Ok."

Neo hesitou por um momento, então decidiu deixar sua mãe lá, ao invés de usar o Registro Celestial.

Com ela presente, pelo menos alguém podia ficar de olho nos dois.

Enquanto Elizabeth se preparava, ela fez uma pausa.

"Além disso, encontre Hades."

Neo não respondeu.

Ele ativou a Ignição, queimando brevemente sua Chama da Vida, e enviou Elizabeth ao seu Cosmos.

Enquanto o espaço se fechava, as palavras dela ecoaram em sua mente.

Ela tinha razão.

Ele precisava parar de fugir.

'Só fazer isso.'

Percebeu que sua mão tremia.

'Droga, faz logo.'

'Não pense nisso.'

Neo abriu outro portal, agora direcionado a Hades.

Hades estava dentro do Cosmos de Neo, caminhando por um dos reinos construídos, a caminho de estudar algo.

Pela primeira vez, ele não era acompanhado por cinco versões diferentes de Perséfone.

Ele percebeu o portal imediatamente.

Seu olhar permaneceu calmo e indecifrável.

Depois de observar por um instante, atravessou.

No próximo momento, apareceu do lado de fora, na frente de Neo.

Pai e filho se encararam.

Neo imaginou esse momento inúmeras vezes.

Pensou no que diria, como agiria, que perguntas faria.

Mas agora que Hades estava realmente ali, todas essas ideias sumiram.

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