
Capítulo 813
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Visão de Neo
Neo observava a cena com uma expressão insatisfeita.
Ele estava encostado na porta, com os braços cruzados.
"Então é por isso que o número 'Quatro' é especial. Para os Guerreiro, é considerado o número da calamidade. Eles morrem ao atingir o Quarto Reino."
"Para os Cultivadores, é o número da Bênção."
"Quando alcançam o Quarto Degrau, eles renascem como seres superiores e recebem a bênção do Dao."
"Coincidentemente, eles também conseguem ouvir a voz do Dao a partir desse nível," explicou Veydran.
Ele estava ministrando uma aula.
As crianças sentadas à sua frente ouviam atentamente e com prazer.
Veydran continuou ensinando com calma.
"O que eu te expliquei é como funciona o 'renascimento' para pessoas como nós que vivem no Mundo Verdadeiro."
"Aqueles que vivem no Cosmos dos Cultivadores são diferentes."
"Eles seguem o Caminho do Cultivador. Geralmente, esse Caminho dessas 'seres inferiores' é dividido em Nove Estágios," disse Veydran.
"Professor, Professor!" uma criança levantou a mão.
"Sim, qual é a sua dúvida?" perguntou Veydran educadamente.
"Por que 'Nove Estágios'? Ou pode ser qualquer número de etapas?" perguntou a criança.
"Só pode ser nove," respondeu Veydran. "Nove é o número do 'Verdadeiro Renascimento'. Então, quando um 'ser inferior' completa todos os nove estágios—nove passos de renascimento—ele renasce como um 'Ser Verdadeiro' e consegue sair do Cosmos e entrar no Mundo Verdadeiro."
"Os 'seres inferiores' que passam pelo Verdadeiro Renascimento começam sua jornada a partir do Quarto Degrau como Cultivadores."
"Isso porque acredita-se que, ao atingir o Nono Estágio, o Dao aprova seu esforço e permite que passem pelo renascimento."
"Como conseguem ouvir o Dao, eles chegam diretamente ao Quarto Degrau," explicou Veydran.
"Professor, você não disse que o 'Quatro' era o número do renascimento? Então, como o 'Nove' também é o número do renascimento? Ou será que pessoas como nós, do Mundo Verdadeiro, e seres inferiores de um Cosmos têm números diferentes para o renascimento?"questionou uma criança.
"Li Wei, você precisa de permissão para fazer perguntas," repreendeu Veydran levemente, depois explicou. "Nono é o número do 'Verdadeiro Renascimento', enquanto o 'Quatro' pode ser considerado um 'Renascimento Menor'."
A criança, Li Wei, que já estava de pé, perguntou: "Então, se os Guerreiros e os Cultivadores alcançarem o Nono Reino e o Nono Degrau, também passarão por um 'Verdadeiro Renascimento'?"
"Talvez," respondeu Veydran. "O que você disse é possível em teoria, mas nenhum Cultivador alcançou o Nono Degrau na história registrada, e Guerreiros não podem passar do Terceiro Reino."
"Portanto, não sabemos ao certo o que acontece quando eles chegam ao número Nove e vão além."
"Já é suficiente pela aula de hoje. Todos podem ir embora."
Contrariando as expectativas, as crianças começaram a reclamar, pedindo por mais tempo de aula.
Todos gostavam do Veydran e queriam passar mais tempo com ele.
Neo, que observava tudo da porta, cruzou a língua.
Isso o irritava: ver alguém que odiava —e considerava inimigo— receber tanto afeto dos outros.
Claro, também havia o fato de Veydran ter destruído incontáveis universos e ser o que a maioria chamaria de Encarnção do Mal.
Mas Neo tinha parado de dividir as coisas em bem e mal.
Pelo contrário, ele amava Moraine, que havia destruído ainda mais universos do que Veydran.
Sabendo que apoiar Moraine era considerado mau, Neo deixou de julgar as pessoas e rotulá-las assim.
Agora, ele apenas as categorizava como amigos ou inimigos.
"Sabia que também passei por muitos 'Pseudo-Renascimentos'?" disse Veydran, aproximando-se de Neo enquanto as crianças saíam.
Neo não respondeu.
Veydran continuou: "Subir de estágio a cada nível pode ser considerado um 'Pseudo-Renascimento', enquanto alcançar o Quarto é um 'Renascimento', e o que vem depois do Nono é o 'Verdadeiro Renascimento'."
"Pensando nisso, você entenderia por que um mortal que chega ao Estágio 1 de Deus é equivalente ao Quarto Nível dos Semideuses—o Demigod Paragon. E por que os Semideuses sobem de nível de três em três e atingem o Quarto Nível a partir de seu Caminho do Despertar, ao se tornarem Deus e avançarem para o Caminho do Deus Elemental."
"Isso ocorre porque os Deuses Elementais transcendem a existência dos Semideuses, e, portanto, é necessário um renascimento—Quatro—para alcançá-los," explicou Veydran.
"O que você quer dizer?" perguntou Neo.
"Nada. Só estava refletindo sobre o significado dos renascimentos e como todos os Caminhos se relacionam," respondeu Veydran.
Neo o observou, e os dois saíram do prédio.
Eram para encontrar o espião que trabalhava na Floresta de Apollyon.
Esse espiona, chamado Paul, foi quem ajudou Elizabeth a esconder-se de Apollyon.
Veydran também era um espião, mas chegou depois.
Paul estava lá desde o começo.
Por alguma razão, Elizabeth tinha pedido para Neo buscá-lo naquele dia, quando chegasse à Seita.
Ela também tinha dito para ele não lutar, o que deixou Neo confuso.
Por que ele atacaria alguém que ajudava eles?
Enquanto Neo e Veydran caminhavam até o portão da Seita, Neo de repente perguntou,
"Como você conheceu o Daniel?"
"Hmmm…"
Veydran fez um som pensativo e olhou para o céu.
Seu olhar ficou distante ao falar.
"Eu era uma cobra venenosa normal, sem consciência na época."
"Eu me movia pela floresta como de costume, quando encontrei um homem ferido—mestre."
"Eu o mordi e, por coincidência, o veneno fez o homem enfraquecido gritar de dor."
"Depois, ele me contou que, ao sentir a dor e gritar, percebeu que o grito era uma reação instintiva."
"Era a prova de que ele não queria morrer."
"Foi assim que ele, que já tinha decidido desistir de tudo, recuperou a vontade de viver."
"Ele sentiu que eu o ajudei a chegar nessa percepção."
"Então ele me ajudou—uma cobra comum—a se tornar um Deus, e eu me tornei seu primeiro discípulo," disse Veydran com um sorriso melancólico.
Ele claramente se lembrava de como Ouroboros ficava animado e comemorava cada vez que ele subia de estágio.
Do Estágio 1 ao Estágio 9.
Duelo (Pequena Serpente)
Lingchi (Lagarto Espírito)
Chanshe (Serpente Moulting)
Tengshe (Serpente Voadora)
Jiaomang (Serpente de Inundação)
Jiao (Proto Dragão)
Yinglong (Dragão do Vento)
Lóngmǐng (Dragão da Fonte)
E por fim: Veydran / Wei-Long (Dragão Perigoso)
Veydran ainda se lembrava das palavras de Ouroboros naquela época.
"Hahaha! Já no Nono Estágio! Veydran, você é a pessoa mais talentosa que já vi! Se continuar treinando, talvez supere até Hades! Quem diria que a cobra aleatória que conheci se tornaria a maior gênio? Realmente sou a pessoa mais sortuda! Hahaha!"
Veydran sorriu ao recordar seu professor narcisista.
"Ele costumava me chamar de verdadeiro gênio. Uma vez, até olhou para meu futuro e disse que, entre todos os discípulos que algum dia pegaria, eu era o mais talentoso."
Ele lançou um olhar para Neo enquanto dizia isso.
"Mas mesmo assim, acabei sendo inferior a você, que tem uma persistência de cachorro para continuar na jornada," acrescentou Veydran.
Neo não respondeu imediatamente.
Por um breve momento, o ambiente ao seu redor pareceu desaparecer de sua atenção.
Ele se lembrou de Daniel.
Era apenas um fragmento.
Mas mesmo assim, ele passara dezenas de milhares de anos ao lado dele. Orientando-o. Discutindo com ele. Confortando-o. Falhando junto, repetidamente, tentando salvar a Terra.
A persistência era algo que definia Neo em seu núcleo. Talvez ele se orgulhasse disso. Talvez odiasse.
Mas era a única coisa que lhe restava quando tudo mais falhava.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, eles chegaram ao portão.
Os olhos de Neo se desviaram imediatamente.
Alguém estava lá.
O homem que deveria ser Paul.
Neo desacelerou um pouco. Algo nele parecia... familiar.
'Por que sinto que o conheço?' pensou Neo.
Paul se virou e o viu.
No instante em que seus olhares se cruzaram, a expressão de Paul torceu de raiva.
Seu rosto se contorceu de fúria, e ele marchou na direção de Neo sem hesitar.
"Seu bastardo! É verdade que dormiu com minha mãe?!" gritou Paul.
Neo piscou.
"Ei, calma—"
"Cale a boca, Veydran!" interrompeu Paul sem sequer olhar para ele. "Essa é minha questão familiar! Não se intrometa!"
Neo permaneceu em silêncio enquanto Paul se aproximava.
De perto, a familiaridade ficou ainda mais desconfortável.
Paul parou bem na frente dele e segurou Neo pelo colarinho, o aperto tremendo de raiva.
Nesse momento, Heavenly Records interveio.
[Mestre, a intenção dele combina com a de Paul de Beaufort. Ele foi o filho do feitiço de Elizabeth que tentou assassiná-la—]
Neo não esperou a frase terminar.
Ignition ativada.
Potência inundou seus membros instantaneamente.
Seu punho atingiu o estômago de Paul.
O impacto fez Paul voar para trás, seu corpo batendo na parede de pedra que cercava o portão da seita.
Rachaduras se espalharam pela superfície enquanto ele escorregava e caía.
"Percebi que havia algo estranho com os fios temporais de você e sua irmã ao pegá-los. Eram falsos? Como alguém consegue falsificar Fios Temporais—não, isso não importa."
Neo falou com uma voz gelada.
"Já que você está aqui, acho que estava em conluio com aquela vadia da Julie? Isso explicaria como seu Traço, quando estava no nível despertado, conseguiu enganar até Elizabeth, que era exaltada."
"Porra. Esse bastardo não era um idiota. Era alguém que sabia de tudo e ainda assim tentou matar a própria mãe."
"Cale a boca!" gritou Paul.
Ele se expulsou da parede, veias pulsando enquanto energia surgia ao seu redor.
Um Espírito de Técnica começou a arder ao seu redor.
Era um Espírito de Combate, aparentando estar no Segundo Reino.
"Tudo tinha sido perfeito!" gritou Paul. "A mãe morreria, e Julie reencarnaria nossa família em outro universo! Um universo pacífico! Longe de toda essa loucura!"
O chão sob seus pés desmoronou enquanto ele se lançava em direção a Neo.
"Mas então você apareceu!" continuou Paul, a voz tremendo de raiva. "Você interferiu! Salvou ela! E agora veja a vida dela! Perigo sem fim, sofrimento sem fim! E ela ainda não te odeia!"
O punho de Paul avançou.
Neo o enfrentou de frente.
Justo antes de seus punhos se enfrentarem, um vento congelante varreu a área.
Ambos ficaram congelados no lugar.
O ar ficou dolorosamente frio.
Uma voz tranquila então falou.
"Não lutem. Ambos."
Elizabeth.
Paul e Neo falaram ao mesmo tempo.
"Mãe! Não posso seguir suas palavras agora! Ele deve ser punido pelos seus crimes!"
"Elizabeth, não me importo se você deixou ele viver naquela época! Vou matar esse filho da puta com minhas próprias mãos!"
Elizabeth suspirou.
Eles pareciam crianças discutindo por algo irreconciliável.
Ela sabia que, se não resolvesse a situação agora, esses dois ficariam decididos a se matar um ao outro.
"Paul," disse Elizabeth com firmeza, "ele vai ser seu pai. É assim que você fala com seu pai?"
"Que?! Prefiro sufocar com minha própria saliva e morrer do que chamar esse bastardo de pai!"
"Tudo bem. Então morra. Vá acalmar a cabeça e volte depois."
Instantaneamente, uma camada de gelo cobriu o corpo de Paul.
Seu rosto ficou congelado no meio da fúria.
Neo percebeu.
Paul tinha 'morrido'.
Antes que Neo pudesse analisar melhor, o frio também o atingiu.
Ele penetrou seu corpo, forçando a desligar o Ignition completamente.
A potência se esvaiu, deixando-o mortal.
A voz de Elizabeth chegou até Neo.
"Quantos anos você tem? Você deveria saber que não é bom deixar suas emoções tomarem conta."
Neo mordeu os dentes, mas permaneceu em silêncio.
"Só pelo que Paul disse, você deve entender que o que ele fez na época foi por minha causa. Ele queria me tirar daquele lugar sufocante. Queria recomeçar, em outro lugar."
A voz dela suavizou, embora carregasse uma amargura.
"Por isso ele trabalhou com Julie. Por isso tentou me matar, mesmo destruindo seu próprio coração. Apesar do trauma."
Falou diretamente com Neo.
"Você realmente vai guardar isso contra ele?"
Neo abriu a boca.
Depois a fechou.
Por mais que dissesse algo, nada mudaria o fato de que Elizabeth já tinha perdoado Paul.
Ela tinha trabalhado com ele aqui. Confiança nele.
"Então," Neo finalmente perguntou, com a voz carregada de tensão, "você não vai me deixar matá-lo?"
"Não."
Neo apertou e relaxou a mão.
"...Tudo bem. Não vou matá-lo. E não vou atacá-lo, já que você o perdoou."
Elizabeth observava de sua sala de mediação.
Ela franziu a testa.
Sempre soube que Neo era teimoso demais para mudar de ideia assim tão rápido.
Mas também sabia que ele não mentiria para ela.
"Elizabeth, você pode derreter o gelo do Paul? Quero pedir desculpas pelo que fiz e disse."
Elizabeth estreitou os olhos.
"O que você está planejando?"
"Eu? Nada."
Silêncio tomou conta.
Elizabeth o olhou fixamente.
Esse homem claramente estava planejando algo, mas usava uma expressão de santo benevolente sem vergonha.
"...Tudo bem. Vou remover o gelo que congelou a Chama de Vida dele. Mas se vocês duas começarem a lutar de novo, na próxima vez vou congelar vocês dois."
"Certo," respondeu Neo de forma simples.
Elizabeth estalou os dedos.
O gelo se quebrou.
Paul caiu de joelhos, tossindo violentamente.
Seu corpo tremia, seja por frio ou raiva, não se sabia ao certo.
Ele olhou para cima, encarando Neo com olhos vermelhos e inflamados de raiva.
Neo se agachou até ficar no mesmo nível dele.
Sorrindo suavemente.
"Elizabeth me contou por que você tentou matá-la. Sinto muito. Deve ter sido difícil para você também. E mesmo assim, tratei você como um inimigo."
Ele estendeu a mão e bagunçou gentilmente o cabelo de Paul.
"Peço desculpas pelos meus atos e palavras anteriores. Espero que você possa me perdoar, e que possamos formar uma boa família. Ah, e você não precisa me chamar de padrasto. Pai está ótimo," acrescentou Neo alegremente.
"Toss—! Toss! P… esse filho da puta!" engasgou Paul.
Seu rosto ficou completamente vermelho.
Neo sorriu como se não tivesse escutado nada e deu um tapinha no ombro de Paul.
"De qualquer forma, ouvi dizer que você veio aqui com urgência. Já sabia que teria uma irmãzinha?"
"Q-que?" Paul congelou.
Dentro da sala, Elizabeth quase cuspiu seu chá.
Antes que pudesse impedi-lo, Neo continuou falando.
"Espera, você não sabia?" perguntou Neo inocentemente. "Mas você disse que veio aqui porque sabia que sua mãe e eu estávamos juntos. É só uma questão de tempo até ela ter uma irmãzinha logo."
"Você—! Você—!"
"Está bravo porque não contamos antes? Não se preocupe. Você vai poder dar o nome a ela."
Paul desmaiou de tanta raiva.