Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 812

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

As palavras pesaram no ar.

Neo ficou em silêncio por um longo momento.

Sua mente viajava de volta à vila que havia visto quando chegou às Terras Abençoadas Verdadeiras.

O cântico. A imobilidade.

O jeito como cada corpo parecia errado, como se o próprio mundo tivesse sido drenado até o esgotamento.

Dao está corrompido.

Essas palavras ecoaram novamente.

Quando viu aquele lugar, não havia sobreviventes. Apenas cadáveres e mais cadáveres.

"Bem," disse Veydran após uma pausa, "mesmo que o Deus da Máquina não tivesse descoberto esse método, alguém acabaria descobrindo eventualmente. Os cultivadores estão desesperados. A falta de Qi os sufoca. Todo mundo na Seita Celestial está procurando uma solução."

"De qualquer forma, eles querem te capturar por causa disso. Querem entender como você consegue criar Qi (Energia do Mundo) por conta própria."

O humor de Neo piorou ainda mais, e ele não fez mais perguntas enquanto chegavam ao terreno da seita.

As pessoas os cumprimentaram nas portas.

Alguns acenaram com respeito. Outros conversaram informalmente com Veydran, claramente familiarizados com ele. Ficou evidente que ele vinha aqui regularmente, muito antes de Neo chegar.

Neo respondeu quando foi abordado, mas sua mente não estava realmente ali.

Quando a noite chegou, ele mal lembrava do jantar. Mal se recordava de voltar ao quarto que dividia com Elizabeth.

Deitou-se ao lado dela, olhando para o teto, seus pensamentos embaraçados e pesados.

Se esse mundo fosse realmente uma cópia do mundo do Valoroso Celestial, então o que viu há muito tempo na vila poderia….

Poderia ser o estado atual do mundo do Valoroso Celestial.

Esse mundo já teria desmoronado?

Seus habitantes se mataram para reduzir o consumo de Qi?

Teriam descoberto um método de gerar Energia do Mundo sacrificando a própria consciência?

'Não tínhamos Raízes Espirituais. Então, fomos forçados a criar Energia do Mundo por conta própria.'

O pensamento apertou seu peito.

'Será que foi isso que o Valoroso Celestial buscava?'

'Um modo de criar Energia do Mundo sem Raízes Espirituais?'

Todos os indícios apontavam para essa direção.

E, ainda assim, algo parecia errado.

Havia uma peça faltando, e Neo conseguia senti-la como uma pedra presa em seus pensamentos.

'Como o fato da Dao estar corrompida se encaixa nisso?'

'E por que exatamente todos estavam mortos? Quem os matou?'

'Quem teria crueldade suficiente para massacrar um mundo inteiro?'

Ele se perguntava se estava fazendo suposições demais.

A cena apocalíptica que testemunhara talvez não representasse todo o mundo do Valoroso Celestial.

Havia uma chance—por menor que fosse—de que ainda estivesse vivo em algum lugar.

Enquanto Neo se perdia em seus pensamentos, Elizabeth tinha aberto as embalagens que trouxe do mercado.

"Neo," ela disse, segurando algo, "o que é isso?"

Ele virou a cabeça e viu o que ela segurava.

Meias brancas.

Seus lábios se contorceram.

Só então a compreensão se fez nela.

Ela finalmente entendeu por que ele insistiu em ir ao mercado mais cedo, por que parecia estranho, apesar de tudo o que acontecia.

Para alguém que tinha agido como se odiasse o que aconteceu na noite anterior, ele tinha sido surpreendentemente proativo.

Neo piscou, depois olhou novamente para o que ela segurava.

"Ah, aquilo. Só achei que ficariam bem em você."

Não havia ironia ou implicância em seu tom. Nem vergonha.

Elizabeth franziu o cenho.

Sua expressão era séria e distante. Claramente, sua mente estava em outro lugar.

Antes que pudesse dizer algo, Neo se levantou.

"Vou para a sala de treinamento," disse.

"Nessa hora? E o que exatamente pretende treinar?" ela perguntou.

"Sim, nessa hora. Vou meditar. Preciso tentar alcançar o Iluminamento."

Elizabeth o olhou fixamente. "Iluminamento?"

"Temos dez anos até enfrentarmos Apollyon. Se possível, quero compreender o Caos Primordial antes disso," explicou Neo.

Ele não sabia por que a urgência o invadira tão repentinamente.

Talvez fosse a informação que tinha aprendido naquele dia.

Talvez fosse a imagem daquele mundo morto.

Ou talvez fosse a ideia de que alguém, em algum lugar, já tinha resolvido o problema da pior forma possível.

Tudo que sabia era que o tempo parecia curto.

Mais curto do que deveria.

A sensação de que o tempo estava se esgotando passou a assombrá-lo de repente.

Por isso, ele decidiu treinar em vez de dormir.


"…Ok," disse Elizabeth, despedindo-se dele.

Depois que ele saiu, ela mordeu os lábios.

"Está acontecendo de novo," murmurou.

Hoje, ao contrário do que Neo pensava, Elizabeth enviara secretamente um Espírito de Técnica para protegê-lo.

Foi esse Espírito de Técnica que Veydran tinha em cautela quando Neo o ameaçou.

Se não fosse, Veydran, que odiava Neo porque a última esperança de Daniel desaparecera depois que Neo tomou seu fragmento final de autoridade, provavelmente teria usado a força para subjugar Neo por um tempo.

E, por meio desse Espírito de Técnica, Elizabeth tinha visto Mu De.

Neo não percebeu, mas Mu De ficara encarando o Espírito de Técnica de Elizabeth enquanto falava sobre seu [Destino].

Elizabeth sentiu que Mu De tinha vindo adverti-los sobre o futuro de Neo.

Sobre o que aconteceria se ele não parasse de buscar força.

"Inferno sem fim. Significa que ele nunca descansará?"

O coração de Elizabeth tremeu ao pensar que ele poderia sofrer mais no futuro. Que seu sofrimento pudesse ser sem fim.

Neo não sabia, mas Elizabeth já tinha se encontrado com a Bruxa da Ganância e averiguado toda a informação sobre o que vinha acontecendo no Cosmos.

Ela sabia o quanto ele tinha sofrido.

Sabia que sua morte em Tártaro quase o enlouqueceu.

Sabia que ele lutou como um louco para destruir o Tártaro por vingança.

E, mesmo após Neo vencer, seu sofrimento nunca cessou.

Somente aumentou.

"Preciso fazê-lo feliz."

O que Neo faria depois de derrotar Apollyon?

Elizabeth suspeitava que ele tentaria buscar mais força.

E, pelo que disse o Valoroso Celestial, todo o destino de Neo estava interligado.

Contanto que ele — Transcendente Eterno — continuasse buscando força, seu Inferno Sem Fim nunca teria fim.

Elizabeth mordeu os lábios.

Seu sangue foi puxado.

"Eu… preciso encontrar Moraine."

Morrigan tinha ajudado Neo a procurar Elizabeth por sua felicidade.

Para uma bruxa ajudar seu amante a encontrar outra mulher, Elizabeth podia sentir o quanto ela amava Neo.

Pois só de pensar em dividir Neo com Moraine, ela enlouquecia.

Para Morrigan ajudar Neo a encontrar Elizabeth, ela devia ter amado Neo o bastante para ficar louca por ele.

E Elizabeth sabia que Neo amava Moraine tanto quanto ela.

"Só se Neo estiver com toda a sua família é que ele será realmente feliz," ela afirmou, mordendo os lábios ainda mais forte.

Seu plano era simples.

Quando Neo derrotasse Apollyon, ela tinha que fazê-lo tão feliz que ele se acomodasse a passar o tempo com a família, em vez de buscar mais força.

Claro que pensar em dividir Neo com Moraine a deixava louca.

Mas ela repetia para si mesma que era para a felicidade de Neo.

E Morrigan decidiu entregar Neo a Elizabeth enquanto o ajudava a procurá-la, não foi?

Se ela conseguisse vencer sua possessividade, Elizabeth também conseguiria.

Seu orgulho não permitiria que ela fosse inferior a ninguém.

Claro que, neste momento, Elizabeth usava conscientemente várias Espíritos de Técnica para se acalmar.

E ela não sabia exatamente como agir ao se encontrar com Morrigan.

Havia uma grande chance de ela tentar matá-la.

Mas…

'Não, não devo lutar contra ela.'

Pois Elizabeth temia a possibilidade de perder Neo.

Se ele não se resolvesse com sua família, se continuasse buscando força, ela sentia que iria perdê-lo para sempre.

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