
Capítulo 817
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Morrigan balançou a cabeça.
"Não. Mesmo sem a Semente das Trevas, a Feiticeira da Gula ainda tem várias maneiras de matar Neo. Ela não hesitará. Ela sabe que ele reinará e já perdeu a maioria da sanidade."
Os dedos de Elizabeth se apertaram.
"No entanto," Morrigan continuou, após uma breve pausa, "se estiver dentro da Terra da Bênção Verdadeira, onde a influência de todos é fortemente suprimida…"
Ela não terminou a frase.
Ela não precisava.
Elizabeth entendeu perfeitamente.
Seus lábios se abriram, mas nenhuma palavra saiu.
Por um momento, ela olhou fixamente para a mesa, tentando se recompor.
Então, forçou a fala.
"Então… você deveria sair do Cosmos e encontrar Neo."
…
Ponto de vista de Perséfone
Perséfone caminhava rapidamente pelos corredores, com uma expressão incomumente séria.
"Cadê o querido?" ela murmurou para si mesma.
Uma de suas manifestações, que havia seguido Hades silenciosamente mais cedo, enviou-lhe as coordenadas.
Ela mudou de direção imediatamente, deslizando pelos vastos halls do palácio.
Hades tinha retornado do exterior do Cosmos há alguns meses.
Ele tinha dito que foi encontrar Neo.
Na época, Perséfone ficou animada, quase vibrando ao perguntar sobre o que eles conversaram.
Só para ouvir que não tinham conversado sobre nada nenhum.
Desde então, Hades continuava saindo do Cosmos de tempos em tempos.
Mas, mesmo assim, o pai e filho ainda não tinham tido uma conversa de verdade.
"Querido!"
Ela abriu as portas de uma só vez, sem hesitar.
As portas se quebraram contra as paredes, fragmentos espalhando-se pelo chão.
Hades, que estava ao lado de uma mesa, lentamente virou a cabeça para olhar para ela.
Depois, olhou para as portas quebradas.
Voltou o olhar para ela.
Perséfone ignorou e foi em direção a ele.
Ela rapidamente explicou tudo que Elizabeth tinha contado, a reunião com o Digno Celestial, o destino estranho, o aviso.
Hades ouviu quieto, com a expressão inalterada.
"Então é assim que é o [Destino] do Neo," ele murmurou.
Perséfone franziu a testa. "Destino… não. Você disse algo diferente agora. O que exatamente é isso?"
Hades fez uma pausa, escolhendo as palavras. "Considere [Destino] como algo que nasce das escolhas de uma pessoa. Envolve as decisões em si, as consequências dessas decisões, e o que acontece quando elas interferem no [Destino] de outras pessoas."
"…Huh?"
Perséfone inclinou a cabeça, claramente não entendendo.
Ao perceber sua confusão, Hades suspirou e decidiu simplificar para o nível dela.
"Vamos supor que você escolheu comer bastante no café da manhã. Por causa dessa escolha, te chamamos de gulosa. Então, seu [Destino] vira 'Gulosa.'
"Depois, por ter comido demais, você fica com dor de barriga. Essa consequência também faz parte do seu [Destino].
"E, por estar doente, eu cuido de você. Isso também faz parte do seu [Destino] de Gulosa."
Perséfone olhou fixamente para ele.
Seus lábios se contorceram.
A explicação fazia sentido.
O que a incomodava era o exemplo.
"Eu não sou gulosa!" ela exclamou, batendo no braço dele e segurando-o forte, sabendo que ele estava falando sobre quanto ela comeu de manhã.
Hades sorriu com um riso raro e sincero.
Depois, ele explicou mais.
Que esse [Destino] não era algo absoluto.
Por ser criado a partir de escolhas, poderia ser facilmente evitado ou mudado.
"Contanto que Neo pare de buscar força, seu [Destino] mudará. Um [Destino] como o dele, que faz a vida ficar um inferno mesmo quando ele está descansando, nunca se manifestará."
Perséfone assentiu lentamente.
"Ele não tem vivido pacificamente desde que chegou na Seita da Feiticeira do Orgulho? É porque ele parou de buscar força, pelo menos por enquanto."
Ela começou a entender.
Ela tocou delicadamente seu ombro. "Vou explicar para as crianças. Elas estão preocupadas."
Hades percebeu algo sutil quando ela tocou nele. Uma leve flutuação de algum feitiço desconhecido.
Ele franziu a testa brevemente, depois decidiu que não valia a pena insistir.
Perséfone não faria nada prejudicial.
Depois que ela saiu, Hades ficou sozinho na sala, perdido em pensamentos.
"Então Neo não tem o [Destino] da Crueldade. Isso… é bom."
A palavra permaneceu em sua mente.
Crueldade.
Ele não conseguia lembrar por que isso importava tanto.
A memória parecia estar à distância.
Ainda assim, saber que Neo não possuía esse Destino lhe trouxe uma sensação de alívio que não conseguia explicar.
Ele não sabia que Elizabeth tinha, inadvertidamente, omitido o [Destino] temporário de Crueldade de Neo.
Ela achava que mudaria logo, já que o Digno Celestial disse que era temporário.
…
Ponto de vista de Perséfone
Perséfone passou a caminhar pelos corredores enquanto cantava baixinho, seu humor claramente melhorado.
Ela olhou para a palma da mão.
Uma marca sutil brilhava lá, quase invisível.
Era uma 'conexão' com Hades.
Se ela conectasse essa ligação a Neo, Neo poderia ver as memórias de Hades.
Ele entenderia por que Hades o tratou da maneira que fez na sua primeira vida.
Segundo Hades, a razão era simples.
"Quando Neo ver as memórias, ele finalmente poderá se abrir para o querido. E aí podemos ser uma família feliz de novo," Perséfone sussurrou para si mesma, sorrindo.
Ela poderia ter contado a Neo o motivo pessoalmente.
Mas acreditava que Hades deveria contar a ele direto.
Ou, se isso não fosse possível — o que parecia cada vez mais provável — Neo deveria ver por si próprio.
Assim, entenderia tudo corretamente.
Perséfone virou-se e voltou para o quarto de Morrigan.
Quando entrou, a atmosfera lá dentro estava rígida.
Perséfone olhou entre eles.
Ver que não tinha havido briga a tranquilizou.
"Vocês vão sair?" ela perguntou.
"Sim," Elizabeth respondeu.
"Vocês dois?" Perséfone acrescentou, olhando para Morrigan.
"Sim," Morrigan confirmou.
Perséfone assentiu uma vez. "Eu vou também. Preciso conversar com Neo. Faz séculos que ele não fala comigo."
Elizabeth suspirou e balançou a cabeça.
Era exatamente o que ela esperava de Neo.
Morrigan abriu um sorriso amarelo, sem dizer nada.
"Registros Celestiais, abram passagem para fora," disse Elizabeth.
[Entendido.]
Uma tela translúcida apareceu diante dela.
Momento depois, o espaço se dobrou e um portal se abriu na frente das três.
Sem hesitar, Elizabeth entrou, seguida por Morrigan e Perséfone.
Uma ventania quente os atingiu no instante em que saíram.
Gritos ecoaram de todos os lados.
As sobrancelhas de Elizabeth franziram enquanto ela observava a cena.
Estavam na entrada da área de arquibancada do arena.
Cada assento estava cheio. Discípulos, anciãos, até alguns instrutores, todos inclinados para frente com expressões de animação.
"Tá bem barulhento," comentou Perséfone alegremente.
Elizabeth ignorou e focou na plataforma central.
"Huh?" uma voz familiar soou lá de baixo. "Minha energia do mundo foi ativada? Alguém saiu do Cosmos?"
Ela imediatamente localizou Neo.
Ele estava na plataforma da arena, vestido com equipamentos leves de combate, com seu aura mal contida.
Adversário era… Paul.
Ele estava girando os ombros, como se estivesse aquecendo para mais uma rodada.
Elizabeth fechou os olhos brevemente.
"Esses dois…" ela murmurou, com cansaço na voz.
Neo a percebeu um instante depois.
Seu rosto ficou completamente tenso.
De repente, ele percebeu que Elizabeth tinha visto tudo. Ele lutando com Paul. Todo o Seita assistindo. Os bilhetes de apostas. O barulho. A empolgação.
Paul notou Neo congelar e franziu a testa. Seguiu o olhar de Neo.
No instante em que viu Elizabeth, seu rosto ficou pálido.
"Ah," Paul falou baixinho. "…droga."
Os espectadores perceberam a situação a seguir.
Suspiros se espalharam como fogo.
"S-Sectária? Você voltou já?"
"Isso não é jogo, Chefe da Seita! Estávamos só… observando."
"Eu não queria vir aqui! Me puxaram!"
Desculpas voaram de todos os lados.
Os mais inteligentes reagiram instantaneamente.
Vivi, que estava sentada perto da frente, virou-se ao ver Elizabeth.
Ela já estava quase saindo do recinto antes mesmo de Elizabeth olhá-la.
Demorou demais.
Elizabeth estalou os dedos.
Um som agudo ecoou.
No instante seguinte, uma camada espessa de gelo se espalhou pelos assentos do arena.
Todos os espectadores ficaram congelados no lugar, em pleno movimento, expressões fixas em vários graus de pânico e arrependimento.
"Fiquem assim durante um dia. Essa é a punição por violar as regras da Seita e apostar nos arredores da Seita."
Depois, ela virou o olhar para a plataforma da arena.
"Vocês dois, venham para minha residência."