
Capítulo 816
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Ela não se incomodou em rodear a questão.
Ela conhecia-se bem o suficiente para entender que, se atrasasse, sua determinação poderia vacilar.
"Estou bem se Neo…" Elizabeth começou.
Ela fez uma pausa, apertando os lábios.
Por um breve momento, o orgulho dela resistiu.
Ele gritou para ela parar, retirar as palavras, dizer qualquer outra coisa.
Mas ela seguiu em frente.
"Se Neo estiver com ambos."
Morrigan congelou.
Por alguns segundos, ela sequer piscou. A xícara de chá na mão permaneceu suspensa no ar, esquecida.
As bruxas eram possessivas por natureza.
Morrigan não era exceção.
O instinto de reivindicar, de segurar firmemente, estava gravado em sua existência.
E mesmo assim, ela tinha vivido tempo suficiente para compreender o que Neo tinha suportado.
Ele havia sofrido por milhares de anos.
Usara a Técnica de Transferência de Talento para ajudá-la, pagando um preço muito além da imaginação.
Ele sacrificou-se repetidamente, silenciosamente, sem jamais pedir reconhecimento.
Ele fez tudo por ela.
Para Morrigan, a felicidade de Neo importava mais do que tudo. Por isso, ela decidiu entregá-lo a Elizabeth.
Quando ela entrou na guerra ao lado de Ouroboros, foi alertada.
Disseram-lhe que um dia poderia salvar Neo, mas não conseguiria ficar com ele.
Mesmo sabendo disso, ela continuou em frente.
Neo havia um dia sacrificado tudo por ela.
Então, ela decidiu que poderia sacrificar tudo por ele.
Era assim que ela o amava profundamente.
Por isso, suportou em silêncio. Por isso, escondeu-se. Por isso, ajudou Neo a procurar pela reencarnação de Elizabeth, mesmo que isso partisse seu coração.
'Não pensei que ela diria isso,' Morrigan pensou.
Elizabeth era a Feiticeira do Orgulho.
Entre todas as bruxas, ela deveria se considerar superior a todos.
O orgulho não era apenas uma emoção para ela.
Era sua base.
E no entanto, aqui ela estava.
Diminuindo esse orgulho.
Compartilhando Neo.
Morrigan lentamente abaixou sua xícara de chá de volta à mesa.
"Por quê?" ela perguntou.
Era uma palavra só, mas carregava inúmeras perguntas. Por que aceitar isso? Por que fazer concessões?
Elizabeth não respondeu imediatamente.
"Eu… vi o Queixoso Celestial," ela disse finalmente.
Tanto Morrigan quanto Perséfone ficaram tensas.
"Você tem certeza? Não há registros de alguém que tenha encontrado o Queixoso Celestial," disse Morrigan.
"Tenho certeza. Ele veio ao encontro de Neo. Mas eu também consegui vê-lo. Outros o viram também, mas parece que só Neo e eu nos lembramos dele. Neo nem sabe que eu vi o Queixoso Celestial."
A expressão de Perséfone ficou séria. "O que ele disse?"
"O Destino de Neo — esse Destino é diferente do Destino que conhecemos — é Transcendente Eterno / Inferno sem Fim / Assento da Virtude / Deus Louco."
A sala ficou em silêncio.
A mente de Morrigan trabalhou rápido, encaixando as peças.
"… Parece um aviso," Morrigan comentou.
"Sim," respondeu Elizabeth. "É o que eu também acredito. O Queixoso Celestial veio avisar Neo de que, a menos que ele pare de buscar força, sofrerá sem parar e enlouquecerá na sua busca interminável pela potência."
O silêncio caiu pesado na sala.
De repente, Perséfone levantou-se.
A cadeira riscou alto contra o chão, quebrando a quietude.
Elizabeth e Morrigan olharam para ela.
"Vou conversar com Hades. Ele não lembra muito, já que é apenas um fragmento de si mesmo, mas talvez saiba de algo. Pode não ser um aviso sobre o futuro de Neo, mas algo completamente diferente."
Antes que alguma pudesse responder, Perséfone desapareceu.
A sala parecia mais vazia sem a presença dela.
Elizabeth e Morrigan ficaram sentadas de frente uma para a outra, sem falar por um tempo.
A tensão agora era diferente.
"Então, você quer que Neo pare de buscar força," Morrigan disse finalmente, quebrando o silêncio.
"Sim," respondeu Elizabeth.
O olhar dela mudou no momento em que Perséfone saiu.
Ficou mais afiado.
Ela deu um gole no chá, colocou a xícara cuidadosamente na mesa e continuou.
"Antes de tudo, preciso te perguntar uma coisa. Você e o Supremo das Trevas são o mesmo… ou são diferentes? Não quero dividir isso entre três."
Morrigan respondeu imediatamente. "Somos iguais."
Os olhos de Elizabeth se estreitaram.
"Como assim? Você foi separada há muito tempo. Vocês viveram vidas diferentes."
"Sei que algumas pessoas na minha posição podem pensar que são seres separados. Mas, do meu ponto de vista — e do ponto do Supremo — somos uma só."
Elizabeth não relaxou.
"Tem certeza de que a Feiticeira da Gula pensa do mesmo jeito?"
"Sim. Caso contrário, ela não teria me deixado com Neo. Você sabe o quanto ela é possessiva. Se ela achasse que somos diferentes, nunca permitiria que um fragmento de si mesma ficasse com ele."
Elizabeth assentiu lentamente.
Então ela perguntou: "Última questão. Por que você escondeu tudo do Neo? Por que nunca tentou se aproximar dele?"
A expressão de Morrigan escureceu.
"Por causa daquela vadia possessiva," ela disse direta.
Sua calma começou a se romper pela primeira vez.
"Ela me deixou para ficar com Neo. Mas não queria que um fragmento dela recebesse mais amor do que ela. Ela me avisou. Se eu revelasse o passado, se me aproximasse de Neo, se tentasse tocá-lo primeiro… ela mataria ele."
Elizabeth ficou tensa. "Mataria ele?"
"Sim. Usando a Semente das Trevas dentro dele."
Elizabeth piscou, então assentiu lentamente.
Esse era exatamente o tipo de possessividade que as bruxas eram conhecidas por ter. Irracional. Extremada. Implacável.
O Supremo das Trevas não podia ficar com Neo, então deixou um fragmento para trás.
Mas mesmo esse fragmento não poderia estar realmente com ele.
Ciúmes tinha superado a razão.
Elizabeth exalou silenciosamente.
Em contraste, as ações de Morrigan se destacaram ainda mais.
Ela foi quem abriu mão primeiro.
Escolheu a felicidade de Neo acima de seus próprios sentimentos e ajudou-o a procurar por Elizabeth.
'Vendo assim, Morrigan e Moraine parecem bem diferentes,' Elizabeth pensou.
E então, surgiu uma outra preocupação.
Eles não iriam recusar-se a fundir-se depois, não é? Não insistiriam em permanecer separados e pedir para Neo dividir-se entre as duas? Certo?
Certo?
Ela justificou, pensando que o Supremo das Trevas amava Neo tanto quanto Morrigan. Por isso, ela permaneceu longe do universo, não vindo ao encontro de Neo, mesmo podendo.
Elizabeth reprimiu a preocupação antes que ela aparecesse em seu rosto.
Ela endireitou-se um pouco e fez a pergunta que vinha evitando.
"Aquela Semente das Trevas foi usada para salvar Neo. Isso quer dizer que agora você pode… se aproximar dele sem restrições?"