
Capítulo 818
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Neo e Paul trocaram olhares.
Paul engoliu em seco.
Ele podia ver que Elizabeth estava verdadeiramente irada.
Neo, por outro lado, forçava um sorriso tenso.
"Sim, Mestre da Seita," disse, tentando parecer obediente.
"Pfft."
De repente, uma risada ecoou atrás deles.
"Hahaha! Você já o tem na sua mão. Boa, boa," disse a mulher com uma voz animada. "Você precisa manter uma corda firme no seu marido, senão ele vai começar a se desviar do caminho. O Querido também é assim."
Neo virou-se, pronto para perguntar quem ousaria dizer algo daquele tipo.
Então, ele a viu.
"…Mãe."
Persephone estava lá, com um sorriso vibrante, os olhos brilhando de diversão.
Neo tossiu de forma constrangida e desviou o olhar.
Justamente então, algo preto e dourado disparou em sua direção a uma velocidade assustadora.
Chocou-se diretamente em seu peito.
Neo reagiu instinctivamente, agarrando a figura enquanto seus pés escorregavam para trás pelo chão.
Ele olhou para baixo, confuso, só para encontrar alguém agarrado a ele firmemente.
"N-Neo... sniff... sniff... seu Canalha. Por que você não entrou em contato comigo? Senti sua falta," disse uma voz familiar entre soluços.
"Moraine?" Neo disse, genuinamente surpreso.
Ela enterrava o rosto no peito dele, apertando-os com força.
Neo ficou lá, imóvel, com a mente lutando para acompanhar.
Moraine e Elizabeth tinham saído juntas.
De maneira pacífica.
Isso por si só levantava inúmeras perguntas.
Por enquanto, porém, ele acariciou suavemente a cabeça de Moraine.
"Desculpe. Estava ocupado," disse baixinho.
"Para de mentir, canalha!" exclamou Moraine irritada.
Ela pisou forte em seu pé.
Neo encolheu-se internamente enquanto a dor percorria sua perna, mas de alguma forma conseguiu manter o sorriso firme.
Nesse momento, ele percebeu que Paul o olhava fixamente.
O olhar era… desagradável.
'Uau. Ele está me encarando como se eu fosse um lixo literal.'
"Mãe," disse Paul, virando-se para Elizabeth e apontando para Neo e Moraine, que ainda se agarravam um ao outro. "O que é isso?"
"Venha para a casa. Vou explicar tudo lá."
Ninguém contestou.
Logo após, eles voltaram para a residência de Elizabeth.
Assim que entraram, Elizabeth explicou tudo. Sobre Morrigan. Sobre Moraine. Sobre o Suprema das Trevas.
Sobre por que tudo era daquele jeito.
E como planejavam seguir em frente.
Neo ouviu atentamente, com expressão indecifrável.
Durante toda a explicação, Moraine se recusou a deixar sua presença.
Ela se agarrou a ele como um coala que finalmente encontrou sua árvore de novo.
Depois de tantos anos sem poder tocá-lo, ela não tinha intenção de soltar agora.
Ela podia sentir o olhar frio de Elizabeth sobre ela.
Mas ignorou.
"Entendi," disse Paul finalmente, após tudo ser explicado. Ele assentiu uma vez e concluiu: "Resumindo, esse cara é um lixo."
A boca de Neo torceu-se levemente.
Paul calmamente serviu chá e entregou uma xícara para Persephone.
"Minha senhora," disse educadamente, com um tom suave e respeitoso, diferente do jeito com que falava com Neo, "o chá está do seu agrado?"
"Sim. Obrigada," respondeu Persephone com um sorriso.
Neo fixou o olhar.
'Esse idiota está paquerando minha mãe?' pensou.
Paul o olhou naquele exato momento e sorriu de maneira burlesca.
Neo revirou os olhos.
'Vamos ver se você consegue manter essa postura depois de encontrar Hades.'
Neo ansioso por isso. Poderia se juntar a Hades contra Paul.
O dia passou bem… ou pelo menos, era isso que Neo gostaria de dizer.
Na realidade, era um caos.
Entre Moraine e Elizabeth, problemas surgiam um após o outro.
Alguns eram pequenos. Outros, mal-entendidos. Alguns surgiam puramente por teimosia e orgulho.
Neo passava a maior parte do tempo mediando, desviando ou simplesmente ficando entre as duas sempre que a situação esquentava.
No final da semana, ele estava exausto.
Realmente exausto.
Por fim, conseguiu um breve momento de paz.
Deitou-se na cama, olhou para o teto, sem nem pensar em nada específico.
Seu corpo estava pesado, e sua mente se recusava a se mover mais rápido que uma lenta arrastada.
Naquele momento, alguém bateu na porta.
"Entre," disse Neo.
A porta se abriu e Persephone entrou.
Neo imediatamente sentou-se e fez um movimento para o lado.
"Entre. Devo preparar um pouco mais de chá antes de conversarmos?"
"Não, estou bem. Vim por outra razão," ela disse, dispensando o convite.
"Qual é?"
"É sobre sua primeira vida."
Neo parou de imediato.
Por um momento, a sala ficou estranhamente silenciosa.
Depois, ele forçou um sorriso constrangedor.
"Estou tentando conversar com Ha— Pai," corrigiu-se no meio, ao perceber as mãos de Persephone tremendo um pouco. "Você não precisa se preocupar com isso."
Persephone sorriu, com um brilho alegre e contagiante como sempre.
Mas Neo já sabia que era melhor não se iludir.
Por trás daquele sorriso, havia alguém sempre trabalhando para manter todos unidos.
Alguém que desesperadamente desejava uma família de verdade.
"Você acha que eu não percebo quanto 'conversas' estão acontecendo entre vocês dois? Nessa velocidade, nem mil anos seriam suficientes."
Neo coçou a bochecha, sem saber o que responder.
"Vou permitir que você acesse as memórias de Hades. Assim vai entender por que ele te tratou daquele jeito."
"…O quê?"
Neo piscou, realmente surpreso.
"Não, espera. Não é errado eu assistir às memórias do Ha— Pai sem a permissão dele?"
"Não se preocupe. Ele é apenas um fragmento, então você verá só uma parte. Mas deve ser suficiente. Quanto à permissão dele…"
Ela bufou com desdém.
"Essa é a punição dele por ter te tratado tão mal no Nono Éon."
Neo sorriu de forma desconcertada. "Mãe, eu sei que você está fazendo isso por mim, mas—"
Antes que pudesse terminar, Persephone tocou seu ombro.
Uma força estranha fluíu para dentro dele.
Sua visão girou e ele percebeu que estava começando a adormecer.
'Droga,' pensou. 'Pelo menos me avise para eu me preparar.'
Com seus últimos vestígios de clareza, Neo ativou a Ignition e mergulhou em seu Cosmos.
Ele puxou Severant, segurando com força a empunhadura fria na mão.
Os olhos de Persephone se arregalaram levemente ao ver sua ação.
No momento em que Neo sentiu o frio familiar da espada demoníaca, sua consciência sumiu.
…
[Memória de Hades]
[1º Éon]
"Mãe!"
Uma voz infantil ecoou, vibrante e cheia de vida.
O Jovem Hades corria atrás de sua mãe, um sorriso largo no rosto.
A Mãe dos Dragões segurava sua mão enquanto caminhavam pela cidade juntos.
Sua pegada era quente e reconfortante.
Os habitantes da cidade a cumprimentavam com sorrisos.
Entregavam cestos de produtos, frutas e pequenos presentes. Alguns se curvavam. Outros apenas acenavam.
Eles gostavam dela.
Todos gostavam.
Ela era gentil. Ajudava sempre que podia, nunca pedindo nada em troca. Por isso, ganhou um título.
[A Benevolente].
Ela era a Segunda Feiticeira, nascida após a Primeira Feiticeira—a Feiticeira da Ganância.
A mais forte das feiticeiras.
E, na época, a mais gentil de todas.