Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 802

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

"Bem maior, pensou Neo."

Uma risada vazia escapou dos seus lábios.

Apollyon acreditava na mesma coisa.

No fim, não existia um bem maior.

Apenas escolhas pessoais.

Apenas crenças às quais as pessoas se agarravam e impunham aos outros.

Todos lutavam pelo que julgavam estar certo.

"Então," disse Neo após um momento, "como você sabe tanto sobre o plano da Julie?"

"É uma história longa," respondeu Elizabeth. "Mas, resumidamente, um dos cúmplices do Ultris e da Julie trabalha no palácio que Apollyon mantém aqui."

Os olhos de Neo se estreitaram.

"Ele veio falar comigo," continuou Elizabeth. "Apollyon começou uma caça às bruxas. Contra você, contra mim e contra qualquer pessoa relacionada a você que esteja neste lugar."

Neo apertou a mandíbula.

O peso familiar da responsabilidade voltou a oprimir seus ombros.

"Desculpe," disse em voz baixa. "Por toda confusão que causei."

Ele baixou a cabeça.

Mas antes que pudesse abaixá-la completamente, Elizabeth deu um estalo em sua testa.

Ela não usou muita força.

Porém, ela era uma Artista Marcial (Deus Extremo).

Neo, neste momento, era um mortal.

O estalo acertou com uma precisão assustadora.

Uma dor aguda percorreu sua cabeça.

"Nossa—!"

Instantaneamente, sua testa inchou, sua reação foi instintiva.

Ele olhou para cima, desacreditado.

"Por que fez isso?"

Elizabeth olhou para ele de cima, com uma expressão tranquila e divertida.

"Esqueceu o que te falei na última vez?"

"Ah…!"

Neo congelou por um segundo, então lembrou das palavras dela em Tartarus.

Não é sua culpa. Não se culpe.

Ele respirou fundo, com uma expressão de resignação.

"Acho que sim," admitiu.

O sorriso de Elizabeth se curvou levemente.

"Temos muitos aliados. E podemos nos esconder de Apollyon com relativa facilidade. Basta recuperar suas forças. Depois, podemos enfrentá-lo adequadamente," ela disse.

Neo concordou sem hesitar.

"Parece uma boa ideia."

"Ah," acrescentou Elizabeth, num tom casual, "e não brigue com nossos 'aliados', ok?"

Ela sorriu com charme, de forma madura.

Neo engoliu em seco, um pouco atordoado pelo sorriso encantador.

Ele não percebeu que Elizabeth deliberadamente evitou nomear esses 'aliados'.

"Quando podemos encontrar a Amelia?" Neo perguntou após um instante. "A condição dela é grave. A mãe está ajudando, mas ela ainda entra em depressão com frequência."

O olhar de Elizabeth suavizou.

"Mas você não precisaria queimar sua Chama da Vida para que eu possa entrar no seu Cosmo?" ela questionou.

"Tudo bem," respondeu Neo. "Não precisarei queimar muito."

Elizabeth parecia pensativa, com um conflito interno visível.

Ela queria encontrar a filha.

Por outro lado, não queria sobrecarregar Neo, especialmente agora que ele estava tão frágil.

"Não se preocupe comigo," Neo continuou, como se estivesse lendo seus pensamentos. "Posso reencarnar de novo. Aliás, é até meio divertido pensar que quem está fornecendo energia para minha ressurreição é o próprio Apollyon."

Elizabeth observou cuidadosamente seu sorriso.

Ela sabia qual sorriso era aquele.

Neo já tinha tomado sua decisão.

Ele faria de tudo para que ela encontrasse Amelia, de uma forma ou de outra, mesmo que isso o afetasse.

Esse era o tipo de pessoa que ele era.

Ele jamais aceitaria uma recusa dela.

Então, ela suspirou.

"Obrigado—!"

Antes que pudesse terminar, Neo deu um estalo em sua testa.

Não foi tão forte quanto o dela, mas foi rápido o suficiente para surpreendê-la.

"Não precisa agradecer," disse, com uma expressão de brincadeira ofendida. "Somos uma família. Não deixe o clima ficar estranho."

Elizabeth piscou, depois concordou com a cabeça.

"…Tudo bem."

"Vamos agora. Você tem uma base, não é? Quero conhecer aquele moleque também. Por que ela ainda não veio me ver?"

"Moleque…?" Elizabeth franziu o cenho. "Você quer dizer a Vivi? Qual é a sua relação com ela?"

Os olhos de Elizabeth ficaram repentinamente afiados, adquirindo uma expressão perigosa.

"Por que ela é sua Avatar?"

"Huh? Ela é—"

Neo parou.

O que digo?

'Ela é minha filha?'

Não, de jeito nenhum.

'Se eu falar isso, ela vai me matar.'

Neo não sabia ao certo por que Vivi ainda não tinha revelado o relacionamento entre eles, mas, neste momento, era a sua salvação.

Ele começou a organizar seus pensamentos com cuidado.

Precisava deixar claro que a mãe de Vivi e ele não tinham ligação romântica alguma.

"Por que você está em silêncio?" Elizabeth perguntou.

"Uh… espera… deixa eu pensar…"

"O—"

"Neo!"

A cortina que servia como porta da cabana foi de repente puxada de lado.

A melhor amiga de infância de Neo, Sarah, entrou às pressas.

"Tomei o café da manhã—"

As palavras morreram na garganta dela.

Ela fixou o olhar na mulher dentro da cabana.

Elizabeth estava ali com a calma habitual, com os cabelos brancos caindo soltos, olhos vermelhos claros e afiados. Sua presença era imponente, como algo que não pertencia a uma cabana de vila pequena.

Sarah engoliu em seco.

A mulher parecia uma deidade.

A pele dela era impecável, sua postura elegante, e sua aura carregava um peso estranho que fazia Sarah baixar o olhar instintivamente.

Se alguém dissesse que aquela mulher era uma deidade caminhando entre mortais, ela acreditaria sem questionar.

Então, os olhos de Sarah se moveram.

Ela viu Neo.

Deitado no colo daquela mulher quase divina.

"Neo!?!" Sarah gritou. "O que você está fazendo!?"

Elizabeth virou a cabeça e olhou para Sarah.

Depois, olhou para Neo.

Depois, de volta para Sarah.

Depois, novamente para Neo.

Neo já conseguia ler seu olhar.

Por que uma garota tão jovem entrou sem permissão na sua casa?

Ele começou a balançar a cabeça rapidamente, insistindo silenciosamente que entre eles não havia nada.

"Neo?" Sarah chamou novamente, com a voz um pouco tremente.

"Ela é uma Mestre de Seita." Neo disparou, agarrando a primeira desculpa que veio à cabeça. "Ela comanda uma seita de artes marciais. Era amiga da minha mãe. Ela veio depois que soube da morte dos meus pais."

Sarah piscou.

"Uma Mestre de Seita…?"

Elizabeth rapidamente cobriu a boca de Neo antes que ele pudesse acrescentar mais alguma coisa.

"Ele começou a chorar quando perguntei o que tinha acontecido. Então, eu estava consolando ele," ela falou calmamente.

"Entendo—" respondeu Sarah, forçando um sorriso tenso.

Ela olhou novamente para Elizabeth, depois para Neo.

Algo não parecia certo.

Se o tio e a tia conheciam uma figura influente como uma Mestre de Seita, por que tinham vivido numa vila tão pobre assim?

E por que ninguém tinha mencionado antes esse relacionamento?

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