
Capítulo 801
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
A noite passou tranquilamente.
Neo não soube exatamente quando começou ou quanto tempo durou, mas em certo momento percebeu que estava deitado com a cabeça apoiada no colo de Elizabeth.
Ela não falou muito.
Ela também não o interrompeu.
Seus dedos moviam-se lentamente pelos cabelos dele, com calma e calor, como se tivesse todo o tempo do mundo. Neo falou baixinho, às vezes parando no meio de uma frase, às vezes alongando-se mais do que gostaria.
Ele falava sobre o Tartarus.
Falava sobre o que vinha após a morte dela.
Sobre como tudo parecia vazio quando os Eternos fizeram seu primeiro movimento, e como era horrível sentir-se aos poucos perder as memórias das pessoas.
Falou sobre o Site Voraka, sobre voltar para a Terra, sobre a luta contra a Aliança Universal e os Dragões Antigos. Mencionou Ultris, as escolhas irreversíveis, e por fim, Julie.
Algumas palavras saíram com raiva.
Outras, com arrependimento.
Algumas simplesmente foram ditas porque estavam enterradas há tempo demais.
Elizabeth ouviu tudo.
Quando sua voz se quebrou, ela não reagiu.
Quando ele fez uma pausa, ela não o apressou.
Ela apenas continuou acariciando seus cabelos, com um toque suave e constante.
Foi só quando uma luz tênue apareceu no horizonte que Neo percebeu que a manhã havia chegado.
A sensação de peso no peito dele estava... mais leve.
Já não o esmagava por dentro.
Com essa percepção, veio a vergonha.
Neo olhou para o céu por um instante, depois soltou um suspiro silencioso.
Era mais velho que todos os universos atuais do Cosmo.
E mesmo assim, estava ali.
Deprimido.
Precisando de alguém para ouvi-lo.
Elizabeth pareceu perceber seus pensamentos.
"Não há problema algum no que você fez," ela disse calmamente. "Expressar o que sente é uma coisa boa. E se você não contar tudo para mim, para quem mais você iria contar?"
Neo olhou para ela.
Ela o observava com uma expressão suave, como se o que ele tinha feito fosse a coisa mais natural do mundo.
Ele ficou olhando por alguns segundos.
Então sorriu.
De leve.
Relaxado.
Não se lembrava da última vez que havia sorrido assim, sem forçar.
"Nem sei quanto tempo faz que não me senti tão calmo assim," ele disse baixinho.
Os lábios de Elizabeth se curvaram um pouco, mas ela não disse nada.
Neo se mexeu um pouco, sentando-se direito.
"Então," ele falou, coçando a nuca, "o que vamos fazer agora?"
Ele tinha contado quase tudo para ela.
Desde Tartarus, até os Eternos, suas ações no Site Voraka. Sua volta à Terra, suas batalhas, Ultris, e finalmente, Julie.
Ao dizer o nome dela novamente, seu rosto escureceu.
"Desculpe," ele disse após uma pausa breve.
Elizabeth olhou para ele.
"Por quê?"
"Julie pode estar morta por minha culpa."
Um suspiro escapou dos seus lábios.
Elizabeth suspirou suavemente.
"Mhm. Não deve pensar tanto nisso."
Neo piscou.
"…O quê?"
Ele inclinou um pouco a cabeça.
"Você não está preocupada com sua irmã?"
Elizabeth parou de mover a mão.
O sorriso calmo em seu rosto desapareceu pouco a pouco, dando lugar a um olhar vazio e distante.
"Ela não é minha irmã," ela disse.
Neo franziu o sobrancelha.
"O quê?"
"Ela é alguém de outro universo," Elizabeth continuou tranquilamente. "Ou melhor, ela é 'mim' de outro universo."
O ar ao redor dela se distorceu levemente ao falar, como se a própria realidade estivesse reagindo às suas palavras.
"Ela veio ao nosso universo para dar à luz a Amelia, escondê-la e depois usá-la como arma."
Neo sentiu um calafrio subir pela espinha.
"Ela estava planejando lançar minha filha no desespero," disse Elizabeth. "E você também."
Neo percebeu como ela se referia a Amelia.
Minha filha.
Apesar do peso do assunto, uma pequena sorriso surgiu em seu rosto.
Elizabeth tinha mudado.
Ela estava mais tranquila agora, a expressão não mais tão dura ou gélida como ele lembrava.
Mas, no fundo, ela continuava a mesma.
Ainda se importava profundamente com sua família.
"Bem," Neo falou devagar, "era só Amelia. Ela não pretendia usar eu. Foi só que—"
"Não," Elizabeth interrompeu. "Ela planejava usar você. E todos os outros usuários de Arma de Alma Verdadeira."
Neo ficou tenso.
"O quê?"
Ele se inclinou um pouco para frente.
"O que você quer dizer com ela planejar usar Armas de Alma Verdadeira?"
Elizabeth cruzou o olhar com o dele.
"Você se lembra da réplica do tridente de Poseidon que eu tinha?"
"Sim," Neo respondeu. "Ela estava presa sob uma montanha. Depois, você me deu ela."
"Sob aquela montanha havia murais que retratavam os Quatro Cavaleiros do Apocalipse."
A expressão de Neo ficou séria.
Ele se lembrou do passado.
Também se lembrou do romance que achava ter entrado.
Aquele romance tinha os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.
"Eles eram um aviso deixado pelos meus antepassados. Um alerta sobre quatro demônios que surgiriam no futuro e trariam destruição em massa."
"Os Quatro Cavaleiros," murmurou Neo.
"Os Quatro Demônios eram uma cortina de fumaça," disse Elizabeth.
Neo levantou a cabeça.
"…Uma cortina de fumaça?"
"Serviam como uma cortina de fumaça," explicou ela. "Caso os Eternos investigassem a Terra. Os Quatro Demônios escondiam a existência do quinto Demônio. O verdadeiro perigo."
O maxilar de Neo se fechou com força.
"O Demônio da Crueldade."
Elizabeth assentiu.
"Quer dizer…?" Neo começou.
"Sim," ela respondeu. "O ancestral que desenhou aqueles murais foi Julie. Ela foi ao passado."
A expressão de Elizabeth se contorceu.
"Ela nunca viu minha família como família. Tudo o que fez fazia parte de um plano cuidadosamente elaborado para fazer Amelia sofrer e despertar como o Demônio da Crueldade."
Neo respirou lentamente.
A explicação dela fazia sentido.
Chegava a ser demais para ser verdade.
Mas algo ainda o incomodava.
"Espere," disse ele. "Meu Destino deveria ser impossível de Julie ler. Então, como ela soube que eu me tornaria um dos Quatro Cavaleiros?"
"Ela não soube," Elizabeth respondeu. "Tudo o que ela sabia era que quatro Demônios nasceriam no futuro. Ela torceu essa informação e criou a história dos Quatro Demônios. Para ela, nunca foram pessoas específicas. Era só uma narrativa."
Neo assentiu lentamente.
Seus sentimentos em relação à Julie eram complicados.
Parte dele a odiava.
Odiava o quanto sofrimentos as pessoas ao seu redor passaram por causa dos planos dela.
Outra parte, por mais que tentasse, não conseguia ignorar completamente o fato de ela realmente acreditar estar agindo pelo bem maior.