Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 785

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

A escuridão irrompia em todas as direções, engolindo os restos do campo de batalha dilacerado.

Neo sentiu-a pressionar de todos os lados, uma presença única e avassaladora que não parecia ter forma ou figura, mas sim uma fusão de incontáveis emoções incorporadas em uma só e com massa.

A dor irrompeu nele imediatamente, aguda a princípio e depois se espalhando como algo vivo sob a pele.

Seu fôlego ficou preso.

Seus pensamentos se dispersaram.

Tudo dentro dele parecia estendido entre queimar e congelar.

A Escuridão o envolvia.

Era estranhamente suave, como mãos puxando-o para um abraço quente.

Quente, mas errado.

Protetor, mas voraz.

Ela tentou acalmá-lo, mas não conseguiu evitar de aprofundar-se nele e consumi-lo.

Ele mal conseguia dizer se queria segurá-lo ou devorá-lo.

Em incontáveis universos, realidades inteiras tremiam.

A presença que descia sobre ele não estava sozinha.

A Mãe dos Horrores atravessava as fendas entre as realidades, seguida por seus filhos.

O Sábio Louco, a Feiticeira da Gula, o Grande Mal.

A chegada dela parecia como se alguém tivesse jogado o conceito de pavor na criação e deixado que se espalhasse.

Os Conquistadores responderam instantaneamente.

Seus Mundos se expandiram para fora — rios de poder que preenchiam o vazio entre os universos — e seus Espíritos Técnicos se elevaram em torrentes cegantes de energia.

Eles tentavam proteger tudo o que haviam construído, reparando as paredes de suas realidades com força bruta enquanto os Horrores pressionavam contra eles.

Depois, surgiram dois Eternos.

Eles se movimentaram mais rápido do que o colapso que já destruía o espaço.

Sua Autoridade da Uroboros se manifestou como duas serpentes, uma prateada e uma roxa.

No instante em que as serpentes se formaram, envolveram-se uma na outra e começaram a girar, torcer, fundir-se.

O tempo imediatamente mudou.

O fluxo dele se dobrou, quebrou e esticou.

Segundos se sobrepuseram.

Minutos inteiros desapareceram.

Arkan, o mais magro dos dois Eternos — aquele com corpo humanoide e cabeça de cristal em forma de lágrima — entregou o controle de sua Autoridade da Uroboros ao outro Eterno ao seu lado.

Ele não hesitou.

No momento em que entregou, fechou os olhos e alcançou através do vínculo que a própria Autoridade lhe proporcionava.

Ele buscava a origem da própria Autoridade.

Neo sentiu a mudança antes de ver qualquer coisa.

Era como se todo o Cosmos respirasse junto.

Então, algo na borda da eternidade se moveu.

O homem-pendurado — o cadáver suspenso acima dos Éons, cujo sangue alimentava os ramos do Infinito Nunca-nascido — avançou.

Seu corpo tinha ficado imóvel por eras, acorrentado como um criminoso.

Ele não deveria ter se mexido.

Não podia se mover.

No entanto, abriu os olhos.

Isto foi obra de Arkan.

A boca do homem-pendurado formou um som único, embora Neo não conseguisse ouvi-lo claramente.

E os elementais do tempo explodiram dele para fora.

Eles se espalharam pelo campo de batalha, uma maré de puro poder temporal sem forma definida, apenas movimento infinito.

Arkan segurou os elementais do tempo e os forçou a formar um padrão.

Usou-os como uma rede, puxando as linhas do tempo ao redor dos Horrores, desacelerando-os, erosionando o poder da Mãe dos Horrores pedaço por pedaço.

Sua expressão se contorceu enquanto se esforçava ainda mais.

Controlar o Homem-Pendurado, mesmo sendo ele morto, não era fácil.

Enquanto os outros Conquistadores e Eternos lutavam desesperadamente para manter os universos de pé, Veydran — o líder dos Eternos — permanecia imóvel.

Seus olhos seguiam Neo, calmos e inconstantes.

Ele nem lançava um olhar para as realidades em colapso ao redor deles.

Era como se nada ali fosse da sua responsabilidade.

Apollyon era diferente.

Ele observava o campo de batalha com mandíbula cerrada e braços tensos.

Seu olhar percorria a destruição, as mortes, os universos se desintegrando.

Parecia alguém tentando ponderar o custo de tudo que acontecia ao seu redor.

Então ele falou. Sua voz era profunda e antiga.

"Mandá-la de volta, Ceifador do Céu. A Escuridão já não está sã. Se seu corpo real aparecer aqui, tudo ao nosso redor será destruído."

Apenas os elementais das trevas haviam chegado até então, junto com os próprios Horrores.

O verdadeiro Mundo das Trevas — o corpo real do Sábio Supremo — ainda se esforçava para atravessar as fronteiras das realidades enquanto Apollyon tentava atrasar sua chegada.

Neo podia senti-la se aproximando.

Se ela chegasse inteira, nada próximo sobreviveria.

A expressão de Neo se tornou dura, embora grande parte de seu rosto estivesse escondida pela escuridão que devorava seus sentidos.

Seu ouvido ia e vinha, mas ele captou o suficiente da voz de Apollyon para entender o que ele perguntava.

"Mandá-la de volta?"

Neo conseguiu cuspir.

Mesmo que não tivesse chamado a Sábia Suprema, ela teria vindo de qualquer forma para salvá-lo.

Ele sabia disso, mas decidiu suportar a destruição que sua chegada causaria como se fosse própria.

"Está agindo como se realmente se importasse com as vidas aqui. E quanto às pessoas que matou tentando me capturar? E quanto a todos os universos e pessoas que os Eternos apagaram até agora?"

Apollyon não parecia ofendido.

Respondeu como se Neo tivesse feito uma pergunta normal.

"Isso foi feito pela integridade do Cosmos.

"As cinzas precisam ser apagadas.

"O Cosmos não consegue mais reiniciar. Nem os universos morrem normalmente hoje em dia. Eles decaem. Apodrecem até não restar nada.

"Usamos o sangue do Demônio Caído apenas para manter universos recém-nascidos e deixá-los crescer."

Fez uma pausa, com a voz firme, embora carregada de peso.

"Nessa condição caprichosa, a existência das Cinzas pode derrubar tudo. Um único paradoxo se espalhará como uma rachadura e destruirá a pouca estabilidade que ainda existe."

Apollyon tinha lido toda a tapeçaria do Destino assim que saiu das Terras Proibidas.

Naturalmente, ele sabia que Neo se referia ao Tártaro e às pessoas lá apagadas pelos Eternos.

"Então, todo esse sacrifício foi necessário?" perguntou Neo.

Sua voz tremia, mas a veemência era inconfundível.

Senti a escuridão se aprofundando, consumindo sua Intenção e atacando as bordas da sua consciência.

A dor o percorria em ondas.

Mas a raiva atravessou a dor.

Ver Apollyon agir com suposta retidão magoava profundamente Neo.

O olhar de Apollyon repousou sobre ele por um longo momento.

"Entendo por que está furioso. E não vou negar seus motivos."

O campo de batalha rugia ao redor deles.

Os Horrores destruíam mundos.

Os Conquistadores recuavam, derramando técnicas que rachavam o espaço.

Arkan continuava canalizando os elementais do tempo do cadáver, e a pressão sobre ele aumentava a cada segundo.

A escuridão se espalhava, a realidade desmoronava, e Apollyon permanecia imóveis, observando Neo como se fossem as duas únicas pessoas na cena.

Ele já deveria ter atacado.

Neo podia sentir isso.

Mesmo ferido, Apollyon tinha força suficiente para esmagar os Horrores e acabar com Neo facilmente.

Não era arrogância.

Era uma verdade simples.

Nem mesmo Ultris, em seu auge, poderia competir com Apollyon.

Por isso, a ideia de que uma Feiticeira que perdeu a sanidade pudesse impedir Apollyon de matar Neo era absurda.

No entanto, Apollyon não se moveu.

Pelo contrário, seu olhar se voltou para o homem pendurado ao longe, o cadáver de Uroboros.

"Aquele homem, é seu mestre, não é?"

A garganta de Neo se fechou.

"E ele?"

"Ele é meu pai."

Neo sentiu seus pensamentos pararem.

Sua mente ficou em branco por um momento.

Continuação de Apollyon, com voz firme, mas carregando algo mais profundo.

"Ele me enviou às Terras Bênçãos Verdadeiras. Queria me manter longe das guerras que vinham."

"Queria ajudar, mas ele insistiu para que eu permanecesse afastado."

"Disse que as tempestades engoliriam tudo."

"Ele me amava. E, no entanto, quando finalmente voltei das Terras Bênçãos Verdadeiras…"

Ele respirou fundo.

"A primeira coisa que fiz foi matá-lo. Sabe por quê?"

Neo o encarou, enquanto a escuridão pulsava ao seu redor.

Ao seu redor, batalhas atingiam o auge.

Conquistadores gritavam enquanto seus mundos eram dilacerados.

Horrores se multiplicavam.

Os Eternos sentiam a pressão de lutar contra a Mãe dos Horrores que parcialmente desceu.

Porém, Apollyon não desviava o olhar de Neo.

"Este Cosmos está nesse estado por causa dele. Falou de paz, de matar o Juiz Absoluto."

"Disse que iria deter o Demônio que queria destruir tudo."

"E, no entanto, não foi seu pai quem quebrou o universo, rompeu os ciclos dos Éons e o renovado contínuo do cosmos."

Seus olhos não carregavam raiva, apenas exaustão profunda e determinação.

"Foi ele. Uroboros."

Neo sentiu as palavras se instalarem nele, pesadas e geladas.

"Ele falou de esperança e deixou para trás só devastação."

Por isso, ele o matou."

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