
Capítulo 786
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Ouroboros estava certo sobre Hades?
Talvez.
As intenções de Ouroboros eram boas?
Talvez.
Mas no final, nada disso importou.
O que importava era o resultado das ações de Ouroboros, e esse resultado fora desastroso.
Por isso, Apollyon, apesar de toda sua raiva e contradições, respeitava Hades mesmo tendo-o visto como inimigo uma vez.
Hades queria destruir o Cosmos, mas era mais misericordioso do que qualquer outro.
Seu era uma bondade que só alguém pode desenvolver após testemunhar sofrimento por tempo demais.
A destruição, para ele, tinha sido uma misericórdia.
Ele queria destruir tudo porque era bondoso.
No entanto, até encontrar o método para realizar essa destruição, trabalhou mais do que qualquer um para trazer paz e estabilidade ao Cosmos.
Ele tinha força, mas nunca a usou indevidamente.
Hades esperava pela destruição, mas trouxe paz.
Ouroboros desejava paz, mas trouxe destruição.
"Agora me diga, Quebra-Céus. Eu errei ao matá-lo?"
"Em vez de matá-lo, você poderia ter ajudado a corrigir seus erros. Daniel jamais quis destruir o Cosmos. Sim, tudo terminou em ruínas, mas isso foi um erro. Você tinha força. Poderia ter ajudado a corrigir os erros dele," disse Neo.
A palavra erro atingiu Apollyon com mais força do que Neo esperava.
Seu maxilar ficou tenso, e pela primeira vez, ele parecia querer parar de falar completamente.
"Erro?" Apollyon repetiu baixinho.
A palavra tinha gosto amargo na língua dele.
"E daí se foi um erro? Você acha que chamar de erro é suficiente para as pessoas que agora morrem dolorosamente em universos em decomposição? Você tem ideia de o quanto de desespero nasceu daquele 'erro'?"
Neo queria responder, mas Apollyon não tinha terminado.
"Você disse que eu deveria usar minha força para ajudá-lo a consertar as coisas," disse Apollyon. "Foi exatamente isso que fiz. Eu o matei. E usei o sangue dele para nutrir os universos recém-nascidos."
"Aqueles universos teriam morrido antes de alcançar a adolescência por causa das ações dele."
"Agora, eles podem crescer. Podem viver mais tempo."
"Corrigi o erro."
As mãos de Neo se fecharam em punhos.
A escuridão ao seu redor pulsava, reagindo às suas emoções.
"E quanto a Ultris?" ele perguntou.
Apollyon balançou a cabeça. "Eu não matei Ultris. E ele foi quem—"
A realidade se rasgou antes que ele terminasse.
O Mundo das Trevas apareceu, rompendo a existência como uma ferida se abrindo no tecido da realidade.
Não era um universo. Nem mesmo um mundo coerente.
Era uma aberração feita de inúmeras consciências fundidas, todas gritando, todas desesperadas, nenhuma sob controle.
No momento em que surgiu, o campo de batalha cambaleou.
Tudo parecia mais pesado.
Respirar ficou mais difícil.
Até os pensamentos pareceram desacelerar.
A expressão de Apollyon endureceu instantaneamente.
Qualquer paciência que tivesse desapareceu.
Ele se moveu.
Tentou falar, mas o tempo havia acabado.
Se a Suprema Louca chegasse completamente, nada perto dela resistiria à tentativa que faria para salvar Neo.
Apollyon não podia permitir a destruição.
Fios dourados apareceram ao seu redor, tremendo de excitação.
Seu poder aumentou, e um Espírito de Técnica começou a se manifestar atrás dele, sua forma cegante e afiada.
Justo quando o conflito parecia iminente, uma voz tocou os ouvidos de Neo.
"Neo."
Seus olhos se arregalaram.
A voz era suave, familiar, e calmante.
"Moraine? Você pode—"
"Não consigo manter a sanidade por muito tempo," ela interrompeu. Seu tom carregava urgência, apesar da suavidade.
"Então ouça-me enquanto ainda posso falar. Se continuar usando meu poder, será completamente devorado. Até a Maldição de Apollyon não salvará você. Precisa sair."
"E você? Vai lutar—"
"Ele ainda está ferido. Não é forte o suficiente para me matar. E quem você deve se preocupar é com o bastardos que matou Ultris."
Neo ficou congelado.
Algo parecia errado. Profundamente errado.
Apollyon estava escondido nas Terras Proibidas para se recuperar.
De quem ele estava fugindo?
Provavelmente Ultris.
Quando Apollyon percebeu Neo, saiu rapidamente das Terras Proibidas.
Por quê?
Porque se um Quebra-Céus—Ultris—podia dar trabalho a ele, dois Quebra-Céus poderiam vencê-lo.
Por isso, Apollyon teve que sair antes mesmo de se recuperar de verdade.
Ele não podia permitir que Neo ficasse mais forte.
Claramente, um Quebra-Céus era um inimigo formidável para Apollyon.
Então, como conseguiu matar Ultris tão rapidamente e partir para cima de Neo?
A menos que… não fosse ele quem matou Ultris.
A ideia surgiu em menos de um suspiro.
Neo abriu a boca para perguntar a Moraine quem tinha sido—
— mas a escuridão o alcançou primeiro.
Elementais das Trevas enfiaram-se nele, escorregando pelas fissuras imperceptíveis de seu Cosmos como se pertencessem lá.
Pela segunda vez naquele dia, o Cosmos de Neo foi invadido sem esforço.
Num instante, estavam dentro do seu Cosmos, movendo-se rápido demais para serem acompanhados.
Eles mergulharam em direção a Morrigan, envolveram-se ao redor dela e arrancaram algo.
Todo o corpo de Neo se sacudiu.
"Espera—!" ele gritou, engasgando com a pressão que sentia por dentro.
Os elementais das Trevas recuaram imediatamente após puxar a 'coisa' de Morrigan.
Eles correram para fora do seu Cosmos como sombras fugindo do sol.
Tudo aconteceu rápido demais.
Neo não conseguiu impedi-los. Nem sequer compreendeu o movimento.
Tudo o que conseguiu foi ver a expressão de Morrigan ao perceber o que tinha sido levado.
Ela ficou pálida, e then se contorceu de raiva.
'SUA SEM-FEITO! Devolva isso!' ela gritou, amaldiçoando Moraine e suas nove gerações.
Neo piscou confuso. Será que realmente ouvi aquilo?
Os elementais das Trevas focaram na 'coisa' que trouxeram do Cosmos de Neo.
Um cavaleiro negro.
Neo conhecia aquela figura.
Já tinha visto o mesmo cavaleiro negro quando Morrigan lutou contra Zeus durante a emboscada.
A armadura, a postura, o peso de sua presença. Não havia erro: era ele.
"Essa vadia, quer ficar com todas as coisas boas pra si."
A expressão de Neo ficou estranha ao ouvir o sussurro.
Apesar do caos ao redor, apesar de Apollyon elevando seu poder, apesar do Mundo das Trevas invadindo a realidade, ele se surpreendeu momentaneamente.
Morrigan e Moraine estavam brigando uma com a outra por causa daquele cavaleiro negro.
Se elas vissem um ao outro como entidades diferentes, tudo bem.
Mas elas se viam como uma só.
E, na verdade, estavam se amaldiçoando mutuamente.
Moraine reprimiu a ganância que começava a explodir nela, tentando ficar com o cavaleiro negro sozinha.
Ela se forçou a se concentrar.
Depois, estendeu a mão e começou a fundir o cavaleiro negro à essência de Neo.
Ao mesmo tempo, seu corpo principal — o Mundo das Trevas — enfrentava Apollyon, usando todos os recursos ao seu alcance para atrasá-lo.
Neo arfou enquanto a fusão começava.
Sua existência se voltou de forma dolorosa, se curvando de maneiras que um ser vivo não deveria se curvar.
Porque o cavaleiro negro não era apenas uma arma.
Não era armadura.
Era um corpo.
O corpo dele.
O corpo do nono Éon.
Estava danificado, rachado, incompleto, escavado das Terras Proibidas e nunca totalmente cicatrizado.
Mas, ao se fundir com ele, sentiu sua existência se fortalecer.
Os pedaços quebrados de si próprio encontraram nova estrutura.
Poder ajustado, alinhado com as camadas mais profundas do que um dia foi.
Não era perfeito. Não era indolor. Estava longe de ser estável.
Mas a força dentro dele…
Estágio 8.
Neo ficou boquiaberto.
A sensação que percorreu seu novo corpo se estabeleceu como algo afiado e firme, como uma verdade que ele não esperava confrontar.
'Meu corpo físico nunca foi tão forte.'