Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 714

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Neo decidiu ir até lá e trazer o Jack.

Ele usou seu distintivo de Ceifador.

Um portal se formou diante dele e, num piscar de olhos, ele estava do outro lado dos imensos portões do Inferno.

A presença de Gremory permanecia levemente ao redor da área, como uma guardiã vigilante, como sempre.

O olhar de Neo se virou para um rosnado familiar que ecoava pelo chão escuro.

Cerberus estava lá, o grande cão de três cabeças, com olhos afiados e orelhas alertas.

Mas, ao invés de guardar o portão, ele latiu furiosamente para alguma coisa lá em cima.

Neo seguiu seu olhar.

No lustre pendurado no teto, equilibrado com uma graça desconcertante, havia um gato preto.

Ele não parecia nem um pouco ameaçado.

Na verdade, ele estava deitado espalhado sobre o metal frio, o rabo mexendo preguiçosamente de um lado para o outro, parecendo entediado com toda aquela situação.

No instante em que Neo apareceu, o latido de Cerberus parou.

A fera virou-se, e a mudança foi instantânea.

Suas três cabeças balançaram, os caudais abanando como chicotes, e com um estrondo pesado de patas robustas, ela se lançou direto em sua direção.

Neo se preparou para o impacto.

O cão gigante não o derrubou, mas aproximou-se de perto, esfregando o focinho com todas as três cabeças ao mesmo tempo.

— Beleza, beleza — murmurou Neo, rindo enquanto coçava por baixo de uma das queixadas. — Entendi. Você sentiu minha falta.

A cabeça do meio de Cerberus emitiu um ronronar profundo e satisfeito, claramente contente.

Então, um movimento voltou a chamar sua atenção.

O gato preto se alongou, bocejou como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo e, em seguida, pulou para baixo.

Ele aterrissou sem fazer som, caminhando com uma graça sem esforço até Neo, antes de pular em seu ombro.

Neo o encarou, esfregando distraidamente Cerberus enquanto voltava o olhar para o espírito felino.

— E o que você está fazendo aqui?

O gato moveu uma orelha e deu um ronronar baixo e divertido.

'Vim te dar as boas-vindas,' a voz do gato ecoou diretamente em sua mente.

Neo já tinha seus dons de volta, e um deles — A Trascedência Empática — permitia-lhe conversar com qualquer entidade.

Ele compreendia perfeitamente as palavras do espírito felino.

— Você foi enviado pela Leonora?

O gato lambeu sua pata, como se a pergunta não fosse grande coisa, e depois assentiu. 'Sim.'

Neo só conseguiu soltar um sorriso amargo.

Leonora nem se deu ao trabalho de vir pessoalmente.

Elas eram boas amigas, mas, fiel à sua natureza, ela passara o trabalho ao seu espírito.

A voz do gato voltou a falar, desta vez de modo mais calmo. 'A mestre disse para não se preocupar com seu problema. Ela vai ajudar assim que tiver um tempo.'

Neo inclinou a cabeça, confuso.

— ...Problema? Que problema?

Os olhos do gato se estreitaram com diversão, mas não explicou mais nada.

'Você vai descobrir mais tarde.'

Antes que Neo pudesse insistir, o felino pulou do seu ombro, girou no ar e, simplesmente, desapareceu como fumaça.

Cerberus latiu e imediatamente começou a farejar ao redor, tentando descobrir onde tinha ido.

Suas três narinas pressionaram contra o chão, depois contra o ar, mas nada restava.

Por um tempo, Neo deixou Cerberus circundar ele, o beast ainda ansioso e relutante em deixá-lo partir.

Por fim, Neo colocou as duas mãos sobre uma das grandes cabeças e falou com firmeza.

— Preciso ir — disse.

Cerberus choramingou.

Seus três pares de olhos se arregalaram, implorando com intensidade, e ele deu a maior olhada de filhote possível para um monstro do seu tamanho.

Neo suspirou e sorriu sutilmente.

Carinhosamente, deu uma palmada reconfortante no cachorro.

— Não se preocupe. Vou te visitar com frequência a partir de agora. É uma promessa.

Foi o bastante.

A fera se animou instantaneamente, os caudais abanando com força, como se Neo tivesse acabado de dar as melhores notícias do mundo.

Neo deu mais um passo para trás e seu entorno mudou novamente.

O portal do Inferno desapareceu, e ele apareceu perto do local onde Jack e Emma tinham estado por último.

Ele não entrou correndo na hora.

Era melhor esperar.

Podiam estar ocupados, e invadir sem aviso prévio não era exatamente educado.

Mas, como se Jack já tivesse previsto sua chegada, um dos mortos-vivos perto mexeu-se no exato momento em que Neo apareceu.

O morto-vivo se arrastou para mais perto, com olhos vazios fixando nele. "A mestre deve chegar aqui em breve."

De fato, Jack chegou poucos segundos depois.

Os olhos de Neo se estreitaram ao perceber algo que chamou sua atenção.

Expressão de Jack era calma, mas na sua bochecha havia uma marca de mão sutil, porém inconfundível.

Neo piscou, expandindo seus sentidos.

Emma não estava visível.

Ele olhou lentamente de volta para Jack.

— ...Você foi beijado por Emma e ela foi embora?

— ...Sim.

— O que você fez dessa vez para irritá-la?

Ele tinha uma curiosidade genuína.

Jack era de Level 4, Emma de Level 3.

Mesmo com os treinos e técnicas de discípula de Ceifadora, deixar uma marca assim na cara de Jack significava que ela tinha dado tudo de si.

O que, no mundo, ele poderia ter dito para deixá-la tão com raiva?

Jack suspirou, esfregando a leve vermelhidão na face.

— Ela perguntou quando íamos nos reunir de novo.

— E?

— Eu disse que não vamos mais ficar juntos.

Neo o encarou por um momento longo, sem palavras.

— ...Sério?

Jack fez um gesto de assentimento, sem responder.

A expressão de Neo mudou para algo entre descrença e exasperação.

Jack claramente ainda tinha sentimentos por Emma, então por que, naquele momento, ele a rejeitaria tão taxativamente?

Ele abriu a boca, pronto para discutir, mas parou.

As palavras antigas de Jack retornaram à sua mente.

“Estou cansado. Não quero mais ter relacionamento nenhum.”

Talvez Jack realmente precisasse de um tempo.

Muita coisa tinha acontecido.

A morte de Emma tinha destruído ele uma vez antes.

Perdera todos os poderes pelos quais tinha sangrado e lutado.

Levara milhares de anos para se reerguer, recuperar força suficiente para continuar.

E então, Layla apareceu, enganando-o, destruindo seu Núcleo, obrigando-o a viver como um fugitivo só para fugir de sua coleira.

E Ilyana.

Ela foi direta sobre seus sentimentos, ajudando-o de maneiras que poucos outros fizeram.

Jack não era do tipo de ignorar isso.

Mesmo que não sentisse o mesmo por ela, ele sentiria o peso desses sentimentos.

Neo respirou fundo e deu uma palmada no ombro de Jack. "Tome seu tempo para pensar com calma. Não precisa apressar."

Jack sorriu fracamente. "Achava que você ia zombar de mim por isso."

— Não sou tão sem coração assim.

O sorriso de Jack se torceu um pouco.

— Digo o mesmo de você, que disse que todo mundo achava que eu tinha dormido com minha ancestral.

— Isso não fui eu. Nyxtharion que fez isso.

— Ele foi mandado por você para fazer isso.

— O quê? Eu nunca mandei fazer isso.

O olhar de Jack ficou sério e sem graça.

— ...Ok, talvez eu tenha incentivado, mas isso ainda não faz com que eu tenha dito isso.

Todo esse esquema entre Jack e Emma nem mesmo foi culpa de Jack.

Ele gostava dela, sim, mas sempre respeitou limites.

Se fosse falar de alguém que mexeu com essa questão primeiro, certamente seriam Neo e Gaia, que interferiram na magia que os colocou juntos inicialmente.

Depois, Neo teve a audácia de fingir que não tinha nada a ver com isso.

Vendo o olhar acusador de Jack, Neo decidiu fazer o que sempre fazia melhor: agir sem vergonha.

— Então você pode mentir para os outros sobre mim, mas eu não posso dizer a verdade? Se você não queria que eu mencionasse a Emma, não deveria ter mentido dizendo que eu gostava do Felix.

— Hã? Quando eu teria dito isso? — perguntou Jack.

— Durante os tempos da academia — retrucou Neo.

Jack ficou realmente atônito.

Nem me lembro de ter dito uma coisa dessas.

Provavelmente foi uma brincadeira ou comentário sem sentido.

Você me enrolou só por uma piada?

Jack não sabia se ria ou chorava.

Será que Neo sabia mesmo dos olhares preocupados que a família de Jack costumava dar a ele depois que descobriam sobre a Emma e ele?

Aquilo tinha sido o momento mais embaraçoso da vida de Jack!

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