Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 715

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Perspectiva de Amelia de Beaufort

O dia de Amelia tinha sido longo.

Ela acabara de passar horas conversando com a delegação do Continente do Sul.

Negociações sempre a cansavam, especialmente agora, que ela ostentava a coroa do Continente Oriental.

Depois que Luminera conquistou a Terra, o mundo foi dividido sob o domínio de semideuses, muitos dos quais ascenderam à divindade desde então.

Quando Amelia deixou a câmara do conselho, seus passos estavam pesados.

Os corredores do palácio estavam silenciosos, iluminados apenas pelo brilho suave dos cristais de mana embutidos nas paredes.

Ela mantinha sua compostura habitual, mas, por dentro, o peito apertado por uma fadiga exaustiva.

Foi então que ela notou Layla.

A jovem mulher estava próxima à esquina do corredor, tentando e falhando em parecer tranquila.

Seus dedos puxavam o roxo da saia de seu vestido.

O olhar de Layla passava de um lado a outro do hall, como se estivesse esperando por algo.

Os olhos de Amelia repousaram nela por um momento antes de abrir a porta do seu escritório.

Layla hesitou, mas entrou atrás dela.

O escritório estava empilhado de documentos, relatórios, petições, registros — tudo exigindo sua atenção.

Amelia sentou-se atrás de sua mesa e logo começou a organizá-los.

O arranhar da sua caneta no pergaminho era o único som na sala.

Layla ficou próxima à porta, mexendo nervosamente as mãos.

Ela continuou a abrir a boca como se quisesse falar, mas depois fechava de novo.

Passaram-se minutos.

Amelia continuou trabalhando.

Finalmente, a voz de Layla quebrou o silêncio.

"Irmã mais velha... posso ir ver o irmão?"

A caneta de Amelia parou no meio do movimento.

Devagar, ela ergueu a cabeça e olhou para Layla.

O olhar dela era frio. Bastante afiado para fazer os ombros de Layla se tensionarem.

Layla mordeu o lábio, os olhos caíram para o chão.

"Entendo," sussurrou.

Depois, ela se virou e saiu do escritório.

Seus passos eram lentos, como se esperasse que Amelia a chamasse de volta e mudasse de ideia.

A porta se fechou. O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado do que antes.

Amelia inclinou-se na cadeira. A cabeça ergueu até encarar o teto.

Ela fechou os olhos e expirou lentamente.

Memórias invadiram sua mente sem aviso.

Neo.

Durante um tempo, ela tinha lhe devia tudo. Ele tinha salvado sua mãe quando ninguém mais conseguiu. Naquela época, sua gratidão não tinha limites. Ela o respeitava por sua força, por sua visão. Ele conquistava feitos que ninguém mais ousava tentar.

Mas o respeito virou algo mais. Preocupação.

Ele sempre foi distante, carregando fardos que se recusava a dividir. Ela quis ajudá-lo, mas ele nunca permitiu que a chegasse perto o suficiente. E então, tudo mudou.

Ele enviou sua mãe para lutar contra os Templários do Vazio.

Sua mãe quase morreu naquela batalha. A desculpa dele? Que não podia fornecer informações sobre os Templários do Vazio porque estava mexendo com o futuro. Se ela soubesse demais, o Destino poderia perceber e matá-la.

Os punhos de Amelia cerraram-se nos braços da cadeira. Sua mãe não estaria já às portas da morte? Se Neo realmente se importasse, por que mentiu para ela e a enviou lá mesmo assim? Era realmente necessário?

Naquele dia, Amelia passou a odiá-lo pela primeira vez.

Logo depois, sua mãe morreu.

E então vieram os sonhos.

Visões dela na inferno, lutando desesperadamente, ao lado de Neo. Morrendo de novo e de novo, tentando retornar, mas sem sucesso.

Aqueles pesadelos a destruíram. A voz da mãe, neles, dizia para ela viver feliz, evitar se envolver com emoções que a destruiriam. Mas como fazer isso? Como ignorar a visão de sua mãe sofrendo sem parar?

Por anos, Amelia viveu dilacerada entre a dúvida e o desespero. Seriam aqueles sonhos apenas alucinações dela ou fragmentos de uma verdade?

"Talvez foi naquela época que meu ódio começou a crescer", ela murmurou ao vazio. Talvez tenha sido ela mesma, quando passou a ser alguém distorcido, sob o nome de Amelia.

Mas naquela época, ela não se importava. Quanto mais distorcida se tornava, mais rápido ficava mais forte. E força era tudo o que ela queria.

Mesmo assim, ela não caiu na escuridão total. Ainda tinha sua família. Layla e Henry. Viver com eles, protegê-los, a impedia de desmoronar.

Até Henry adoecer.

O corpo dele definhou. A respiração ficou superficial. Ela viu nos olhos dele, embora nunca tivesse dito em voz alta. Ele queria ver Neo uma última vez antes de morrer.

Mas onde estava Neo?

Em lugar nenhum. Ninguém sabia onde ele estava.

Henry tinha entregue sua vida ao Neo de várias formas. Guiou-o, protegeu-o, até sacrificou sua própria paz para dar a Neo um futuro melhor. E, no momento em que Henry mais precisava dele, Neo não estava lá.

Foi aí que Amelia começou a desejar que Neo tivesse morrido em algum lugar. Pelo menos assim, a ausência dele faria sentido. Pelo menos assim, ela não o odiaria por deixar Henry morrer sem paz.

Sua mão pressionou a testa enquanto a memória queimava dentro dela.

Henry morreu. Como se fosse nada, as duas pessoas mais importantes para ela se foram. Sua mãe. Henry.

Uma perdida por causa das escolhas de Neo. A outra, incapaz de morrer em paz, porque Neo não apareceu.

As emoções de Amelia secaram. Ela treinou sem descanso, desesperada para manter a mente ocupada. Não podia descansar, porque descansar era lembrar, e lembrar era sentir dor.

E então apareceu Percival.

Ele tinha ficado forte o suficiente para ler o Destino em detalhes. A primeira coisa que fez foi procurá-la. Ele falou sobre Tártaro. Falou o que sua mãe suportou. Contou como ela morreu.

Foi pior do que Amelia imaginava. Os sonhos eram verdadeiros.

Ela sentiu o peito apertar ao lembrar das palavras dele.

"Por favor, não odeie Neo. Ele fez o melhor que pôde para salvar Elizabeth."

Salvá-la? Os lábios de Amelia torceram com amargura. Ele a salvou mandando-a para os Templários do Vazio? Salvando-a arrastando-a para o Tártaro? Se ele realmente a estivesse salvando, por que sua morte foi mais brutal, mais prolongada do que nunca?

Aquele dia, o ódio de Amelia por Neo se aprofundou. Mas ela também passou a odiar a si mesma.

Ela não foi forte o suficiente. Dependia sempre dos outros para proteger sua mãe. E, quando mais precisava, falhou de novo e de novo.

Seus pensamentos ficaram ainda mais sombrios. Para manter a sanidade, ela se agarrou ao negacionismo. Rejeitou as palavras de Percival. Era a única forma de continuar em frente.

O tempo passou assim.

Então, uma notícia se espalhou. A Aliança Universal estava caçando a Terra. Os líderes da Terra tremiam ao receber a descoberta. Sabiam que seu tempo estava curto. Logo, a Aliança poderia capturá-los.

E a própria Terra se fragmentou.

Traidores surgiram de dentro, desesperados por favores. Alguns tentaram vender a localização da Terra em troca de proteção. Outros buscavam riquezas, recursos, luxúrias com a Aliança. A ganância transformou o planeta numa zona de guerra. Uma guerra civil explodiu. Sangue tingiu os continentes.

Semideuses colidiram. Pessoas morreram em ondas, presas em batalhas que não compreendiam. O medo passou a fazer parte do cotidiano. Ninguém sabia quando a morte chegaria.

E então veio a última notícia.

Um Libertador do Céu da Terra. Era a razão de a Aliança Universal estar procurando pela Terra.

Todos já sabiam quem era.

Neo.

A respiração de Amelia tremeu enquanto suas mãos apertavam firmemente os braços da cadeira. Novamente, a causa de sofrimentos intermináveis, mortes sem fim, remetia a ele.

Sua mãe. Henry. Incontáveis outros.

A morte deles, a dor deles.

A causa de tudo.

Sempre ele.

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