Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 717

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

A sala de hóspedes para a qual foram levados era espaçosa, mas simples.

Paredes de pedra grossas, uma mesa de madeira polida, cadeiras alinhadas cuidadosamente.

Os guardas fizeram uma reverência sutil antes de saírem, deixando ambos sós.

Neo sentou-se com uma expressão tranquila, embora por dentro suas ideias fervessem.

O palácio. Os guardas. Amélia.

Cada detalhe apontava para a mesma verdade. Ela tinha mudado, talvez além do reconhecimento. Mas se ela tinha se tornado assim por causa dele, então ele não poderia simplesmente sair andando.

Jack recostou-se. "Você ainda tá firmemente decidido nisso, né?"

"Sim", respondeu Neo.

Jack soltou um suspiro longo, frustrado.

Neo sorriu de relance.

Apesar de como Jack estava agindo, ele veio com Neo para protegê-lo caso Amélia perdesse o controle.

A espera parecia durar mais do que o previsto.

Guarda atrás de guarda entrava e saía da sala de hóspedes.

A cada abertura de porta, eles vislumbravam servos nervosos passando apressados.

Todo o palácio parecia tenso, como se uma tempestade pudesse explodir a qualquer momento.

Finalmente, um dos homens de armadura retornou.

"A Rainha vai receber vocês agora", disse.

Neo se levantou imediatamente. Jack se moveu ao lado dele, mas o guarda levantou a mão. "Apenas ele pode entrar."

Jack abriu a boca para contestar, mas Neo colocou suavemente a mão sobre seu ombro.

Jack o encarou, frustrado, mas a expressão de Neo permaneceu calma.

Aquel gesto silencioso foi suficiente.

Jack engoliu o que ia dizer e recostou-se na parede, murmurando baixinho.

Neo acompanhou o guarda por corredores largos até pararem na porta pesada.

Ela se abriu sem fazer som, revelando Amélia sentada atrás de uma mesa.

O primeiro detalhe que Neo percebeu não foi ela.

Foi a montanha de papéis empilhados em pilhas desiguais sobre a mesa.

Alguns já assinados, outros aguardando, e alguns espalhados pelo chão.

Ela não olhou para cima imediatamente.

A mão dela se moveu rapidamente pela página, assinando e carimbando como se quisesse terminar antes de reconhecê-lo.

Quando finalmente falou, o tom foi monótono.

"O que você quer? Eu te falei pra não vir pro meu continente."

A voz dela não carregava uma agressividade imediata, o que indicava que ela estava mais calma do que antes.

Porém, a dureza por baixo fazia entender que sua hostilidade só se intensificara.

Neo a encarou em silêncio por alguns momentos, depois disse: "Quero pedir desculpas. Pelas questões relacionadas à Aliança Universal. Eu... deveria ter sido mais cuidadoso."

A caneta dela parou.

Ela não levantou a cabeça de imediato, mas após uma longa pausa, seu olhar se elevou.

A frieza nos olhos dela se quebrou, revelando a raiva fervendo por trás deles.

"Você queria pedir desculpas?" ela perguntou.

Ela empurrou a cadeira para trás, levantou-se e percorreu a mesa até ficar bem na frente dele.

Os saltos dela clicavam contra o piso, pesados com um ciúme reprimido.

"Sabe o que aconteceu de verdade depois que a Aliança Universal começou a procurar por Terra?"

"Posso imaginar."

"Essa não era minha pergunta."

O silêncio dele persistia.

"...Não sei exatamente o que aconteceu."

"Então por que está se desculpando?" A voz dela aumentou, e ela ranger os dentes. "Por que está se desculpando!?"

Ela se esforçou ao máximo para gritar, o peito arfando.

E mesmo ela não conseguia exatamente entender de onde vinha tanta raiva.

Seria por ele nunca ter confrontado seus pensamentos feios?

Porque, não importa o que dissesse, ele respondia calmamente, sem mostrar um pingo de amargura?

Ou seria porque, após tudo, ainda não explicou seus motivos?

Ele desapareceu por milhares de anos, deixou que eles carregassem fardos pesados demais, e voltou apenas para abaixar a cabeça e assumir a culpa.

Parecia que ele não se importava com a forma como eram tratados.

Como se sua dor, sua raiva, seu julgamento, nada realmente importasse para ele.

Ele sorriu. Pediu desculpas. Seguiu em frente.

E essa indiferença cortava mais fundo do que qualquer crueldade poderia alcançar.

Amélia o odiava, isso era verdade.

Mas as palavras atuais dele a faziam ferver ainda mais de emoções.

Suas mãos tremiam. O ódio que sentia por ele se torcia, crescendo cada vez mais pesado.

"Amélia…"

Amélia ignorou suas palavras.

Virou as costas, voltou à sua cadeira e se acomodou nela.

A mão se moveu novamente sobre os papéis, assinando com golpes firmes.

Ela sabia, na verdade, que continuaria odiando-o, independentemente de tudo.

Mesmo que ele retornasse com explicações.

Mesmo que entregasse cada detalhe de onde esteve.

Ela ainda reclamaria dele pelos estragos, pelos anos de sangue, e pelo sofrimento de Terra.

Mas, de modo estranho, ela mais o odiava por ele nunca se defender.

Ele simplesmente aceitava tudo como se fosse realmente sua culpa.

Neo permaneceu ali quieto.

Finalmente, falou novamente. "Vou procurá-la, Elizabeth."

A caneta dela congelou, mas ela não levantou a cabeça.

"Elizabeth virou bruxa. Então ela deve ter reencarnado. Não acredito que ela retornou ao passado. Isso significa que ela está fora do Domínio Dourado… ou no futuro."

O silêncio se estendeu.

Amélia não respondeu.

"Vou trazê-la de volta", disse Neo firme.

Ainda nada.

"Por favor", a voz de Neo vacilou pela primeira vez, "pare de chorar."

Isso finalmente a fez olhar para cima.

Ela encontrou o olhar dele.

Neo a encarava com os olhos cheios de dor, como se não pudesse suportar vê-la sofrer.

Ela levantou as mãos, quase inconscientemente, e tocou as bochechas. Estavam secas. Não tinha chorado.

"Não é sua culpa. Nada disso foi sua culpa. Então pare de se culpar."

Por um momento, ela ficou congelada.

O olhar dele a perturbou.

Ele não a repreendia.

Ele não a tinha piedade.

Ele olhava como se pudesse ver cada ferida dentro dela, e aquilo apertou seu peito.

Ela Rangeu os dentes e olhou para o lado de forma abrupta.

"Saia do meu continente, e não volte mais, Neo Hargraves."

"Amélia—"

"Nem tente encontrar a Layla também." Sua voz ficou mais áspera, quase desabando. "Já perdi demais por sua culpa. Não quero perdê-la também."

Neo ficou parado, fitando-a. Depois, acenou lentamente com a cabeça.

"...Ok."

Antes, ele tinha aberto discretamente seus sentidos, espreitando mmente na mente dela. Queria evitar, mas não conseguiu quando viu a dor nos olhos dela.

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