
Capítulo 718
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Ele queria encontrar uma maneira de ajudar ela.
Por isso, ele procurou.
E aquilo que viu dentro dela o congelou.
Uma garota se afogando nas profundezas do Mar do Sangue, arrastada por inúmeros cadáveres.
Toda vez que conseguia emergir, uma deusa gigante mergulhava uma lança nas ondas, obrigando-a a voltar para baixo.
De novo e de novo, ela era engolida, lutando incessantemente, sufocando.
Neo respirou fundo de repente.
Ela estava presa pelos fantasmas dos mortos.
Amélia não conseguia seguir em frente.
Ela não conseguia esquecer os rostos daqueles que havia perdido.
Sua natureza compassiva a prendia a cada uma delas.
Ela carregava dentro de si as mortes, culpando-se por cada uma delas.
Toda sua fúria contra Neo, todo o gritar era apenas uma forma de descarregar sua raiva, nada mais.
A verdade era mais simples e cruel.
Ela não o odiava.
Ela odiava a si mesma.
É impossível acalmar a mente dela em uma semana, pensou Neo de forma amarga.
Ele virou-se sem dizer mais nada e, assim que deixou o escritório, a voz de Amélia veio.
"Não confio que você traga minha mãe de volta."
"…"
"Sempre que confiei em você, só ganhei mais cicatrizes."
"…"
"Pare de fazer promessas vazias para os outros."
"Eu a trarei de volta", respondeu Neo, finalmente.
Neo saiu do escritório e a porta se fechou atrás dele.
Os guardas lá fora ficaram tensos ao vê-lo sair, mas ele os ignorou.
Passou por eles, seguiu pelo corredor até parar ao ar livre, na tranquila praça do palácio.
Jack aguardava.
Sua expressão endureceu ao ver o rosto de Neo, mas não perguntou o que havia acontecido.
"Vamos visitar o Felix", disse Neo.
Ele queria resolver tudo rapidamente e fazer seus avanços para poder procurar por Elizabeth.
Por um breve momento, Neo virou-se novamente.
Seus olhos foram até as janelas altas do palácio.
Né quando percebeu ela—Layla—de pé ao lado de uma delas.
Ela o observava, lá do alto.
Olhares se encontraram e algo não dito passou entre eles.
Ela abriu levemente a boca, como se ia pronunciar algo.
Mas, seja o que fosse que ela quisesse dizer, engoliu de volta.
Seus lábios se apertaram e ela abaixou a cabeça.
O peito de Neo apertou.
Jack seguiu sua linha de visão e também rapidamente percebeu a presença de Layla.
Sua voz cortou o silêncio. "Vamos."
Neo deu uma última olhada, acenando com cabeça.
Colocou uma mão no ombro de Jack, e os dois desapareceram, reaparecendo no céu aberto, lá do alto do continente.
O ar era rarefeito.
Nuves se estendiam abaixo deles, e o horizonte curvava suavemente, lembrando quão pequeno tinha sido o chão sob seus pés.
Por um momento, Neo ficou imóvel.
Simplesmente pairou ali, deixando o silêncio do céu envolvê-lo.
Então, soltou uma respiração profunda.
Céus, que vida miserável.
Gostaria que tivesse uma maneira fácil de ajudar a Amélia sem abrir suas feridas de novo. Algum jeito de encontrar Elizabeth rapidamente. Algum modo de falar com Layla sem agravar ainda mais a amargura de Amélia.
O peso parecia maior que a gravidade.
Outra sigh escapou de seus lábios, desta vez mais suave. Ele balançou a cabeça.
Vamos focar no que importa, disse a si mesmo.
Precisava encontrar o Felix.
Esse era o próximo passo.
Sua mente se voltou para o problema que o atormentava desde que Percival mencionou o trabalho de mercenário de Felix durante o café da manhã.
Felix tinha uma marca de dragão na mão. Neo tinha visto.
A marca tinha auras e uma presença sutil de Dragões Antigos.
E esse detalhe por si só era preocupante.
Neo esperava—verdadeiramente esperava—que a marca não fosse algo dado pessoalmente pelos Dragões Antigos a Felix.
Pois, no momento em que viu a marca, percebeu outra coisa.
Felix o reconheceu com aquela marca.
Não como Neo, nem como um Deus poderoso ou um Quebrador do Céu, mas como um Dragão Antigo.
Se a função da marca era localizar ele e o irmão...
Neo fiou os olhos para o infinito céu à sua frente.
Se a marca realmente tivesse sido dada pelos Dragões Antigos, eles devem ter colocado um rastreador nela.
Se Felix carregasse um rastreador embutido na marca, então seus movimentos poderiam ser rastreados a todo momento.
E se Neo ou Henry se aproximassem demais…
Os Dragões Antigos saberiam.
E se Felix deixasse de cumprir qualquer papel que eles tenham planejado para ele—seja para testar, enfraquecer ou capturar—então os verdadeiros predadores os seguiam.
Os próprios Dragões Antigos.
Eles podem já estar à espreita.
Neo respirou lentamente, com o olhar descendo em direção à Terra.
De onde pairava acima das nuvens, o planeta parecia frágil. Muito frágil.
Por um instante, considerou algo extremo.
Se puxasse a Terra para dentro de seu cosmos, ela não estaria mais vulnerável.
A ação garantiria segurança, pelo menos contra ataques repentinos.
Porém, logo se deteve.
A ideia foi descartada quase na hora.
Não acho que os Dragões Antigos atacariam tão cedo.
Isso não era só esperança.
Era lógica.
Se os Dragões Antigos já soubessem onde Neo está, se usaram Felix como rastreador, por que ainda não atacaram?
A resposta era simples.
Ilyana.
Ela estava lá.
A Deusa do Estágio 6, uma das lideranças dos Sorrisos Esquecidos.
A presença dela não podia ser ignorada.
Por mais poderosos que fossem, até mesmo os Dragões Antigos tinham que calcular risco.
Talvez eles estejam mantendo distância por causa dela.
As sobrancelhas de Neo se franziram ao pensar mais a fundo.
Eles não vão parar por muito tempo.
Podem estar reunindo força neste exato momento, convocando outros dragões antigos para atacar a Terra com força esmagadora.
Se for esse o caso, a presença de Ilyana só comprou tempo.
Ela poderia dissuadi-los temporariamente, mas não para sempre.
Neo massageou a têmpora.
Céus, que vida a minha.
Por que tudo só piora?
Parece que toda decisão vem acompanhada de uma tempestade. Não importa qual caminho ele considere, as sombras de resultados piores sempre se aproximam.
Atualmente, há duas possibilidades.
A pior delas é justamente aquela que já tinha pensado.
Mas há também um cenário melhor.
Talvez eu esteja errado. Talvez os Dragões Antigos não tenham nada a ver com isso ao todo.
Queria acreditar nisso.
Queria acreditar que Felix conseguiu aquela marca por outros meios.
Que não está relacionada a um plano maior.
Mas sabe que é melhor não confiar no seu estatístico de zero sorte.
"No que você está pensando?" a voz de Jack quebrou seu raciocínio.
Neo o olhou.
Jack parecia relaxado por fora, mas o modo como seus olhos se estreitaram um pouco mostrava que vinha observando Neo com atenção.
"Nada," disse Neo após uma pausa. "Onde o Felix mora?"
Jack o estudou por mais um instante, depois virou de ombros.
"Naquele continente." Apontou ao longe.
Neo puxou o ombro dele, e os dois avançaram, desaparecendo do céu.
O mundo ao redor deles mudou, e ao reaparecerem, a atmosfera se transformou instantaneamente.
O palácio à sua frente não tinha nada a ver com as salas severas e imponentes de Amélia.
Enquanto o domínio de Amélia transmitia a disciplina rígida de uma governante que carregava o peso da responsabilidade, o palácio de Felix gritou excentricidade.
As paredes brilhavam com mármore polido e detalhes em ouro.
Pilares esculpidos suportavam arcos que levavam a um complexo extenso.
Mas o que chamava atenção não era só o palácio.
Anexado a ele—quase como se fosse parte do projeto grandioso—estava um enorme cassino.
Lanternas brilhantes iluminavam sua entrada, com sinais em runas que chamavam atenção mesmo à luz do dia.
Uma música suave ecoava de lá de dentro, mistura de instrumentos de corda e dados batendo nas mesas.
Risos, gritos, discussões ocasionais ressoavam pelo pátio.
O local vivia, era caótico e luxuoso.
Neo olhou com um pouco de surpresa. "Ele construiu isso?"
Jack deu uma risada seca. "Felix sempre gostou de dinheiro."
As ruas ao redor do palácio fervilhavam de pessoas, maioria bem vestida.
Nobres, comerciantes e mercenários andavam lado a lado, os olhos voltados para o cassino.
Serventes em uniformes limpos carregavam bandejas com bebidas, enquanto guardas em armaduras pretas se posicionavam ao redor de cada arco.
O contraste era evidente.
O palácio tinha a imponência da realeza, mas o cassino puxava todos que queriam apostar, ricos ou desesperados.
Era quando um personagem se aproximou deles.
O homem vestia uniforme de guarda, escuro, com detalhes dourados nos ombros.
Seus movimentos eram precisos, mas a expressão não carregava arrogância, como costuma acontecer nesses postos.
Quando chegou perto, parou, fez uma reverência profunda e falou.
"Senhor Neo Hargraves," disse o guarda com uma calma surpreendente, "por favor, me siga. Meu mestre está esperando por você."
"Você quer dizer o Felix?"
"Senhor Felix, é," respondeu o guarda com firmeza.
Neo levantou uma sobrancelha.
Jack balançou a cabeça ao notar que Felix havia dito o nome de Neo para o guarda, mas sem revelar quem realmente era Neo.
Os dois seguiram o guarda.
Durante o caminho, Neo falou com Jack.
"Onde está o Mars? Não o vi em nenhum momento."
"Não sabemos. Depois que a questão da Aliança Universal se resolveu, ele foi embora, dizendo que tava deixando o trono. Queria treinar e lutar, e achou que ser rei não era pra ele."
"Pra onde ele foi?"
"Ninguém sabe. Partiu sem avisar. Disse que teríamos que ir atrás dele mais tarde, então saiu sem falar onde ia."
Neo deu um sorriso de canto. "E o Arthur?"
"Ele vive neste continente. Creio que deve estar esperando por nós, com o Felix."