
Capítulo 706
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Neo o observou por um longo momento, mas finalmente assentiu.
"Vamos fazer assim."
"Boa," disse Jack, com o tom mais descontraído novamente. "Tem um bar aqui perto que eu sempre quis experimentar as drinks de lá."
Neo levantou uma sobrancelha na sugestão, mas não contestou.
"Certo. Pode liderar o caminho."
Os lábios de Jack se curvaram numa leve expressão de sorriso enquanto ele se virava, o clima entre eles ainda tenso, mas mais calmo do que antes.
Neo o acompanhou.
As ruas lá fora estavam quietas o suficiente, mas o silêncio não durou muito.
"Você realmente pode entrar de boa num lugar cheio de gente normal?" Neo perguntou enquanto seguiam pela rua.
"Sim, tranquilo," respondeu Jack de forma casual. "Tô usando um dos meus mortos-vivos e me possuindo. Assim, posso me locomover sem causar problemas."
"…?"
Neo lançou-lhe um olhar de questionamento.
Jack percebeu e sorriu de lado.
"É uma técnica que inventei. Pense como a forma como os Supremos possuem seus Abençoados."
"Normalmente, só de ouvir ou ver um Supremo, alguém morreria, mas como eles usam um Abençoado como intermediário, isso não acontece."
"Tô fazendo a mesma coisa com os meus mortos-vivos. Meu verdadeiro eu não está aqui, é só a parte de mim que habita esse corpo," explicou Jack.
"Faz sentido." Neo assentiu lentamente.
Eles continuaram a caminhar em silêncio, sem falar muito mais.
Em breve, chegaram a um bar escondido na esquina de uma rua.
O lugar não era sofisticado, apenas uma luz quente escapando das janelas e o murmúrio abafado de vozes vindo de dentro.
Jack abriu a porta e entraram.
Dentro, o cheiro de álcool e comida grelhada enchia o ar.
Jack foi direto ao balcão, acenou para o barman e pediu uma bebida sem hesitar.
Neo, por sua vez, escolheu uma mesa e pediu algo simples.
"Só um suco," disse.
Jack olhou para ele. "Deveria beber. Não precisa ficar bêbado, mas pelo menos tentar."
Neo assentiu educadamente, mas quando o copo foi colocado na mesa, não o tocou.
Jack apenas riu e voltou seu foco ao próprio pedido.
Ele bebeu a primeira caneca com facilidade.
O álcool não fazia efeito em alguém de sua força.
Depois, pegou um pequeno recipiente ao lado e.serviu-se de outra rodada.
Neo observava silenciosamente, sem interferir, enquanto Jack continuava.
Depois de mais alguns canecos, Jack se recostou na cadeira, com as bochechas um pouco coradas.
"Onde você esteve?" Jack perguntou de repente. "Você sabia como eu fiquei preocupado?"
Neo sorriu de leve, quase divertido. "Para de falar como namoradinha grudenta."
"Cale a boca," murmurou Jack, com a fala um pouco arrastada. "Você está fugindo da questão. Sempre faz isso quando quer esconder alguma coisa."
Jack estreitou os olhos.
"Por onde você estava? Eu te conheço, Neo. Não tem como você não ter voltado pra Terra, a menos que algo importante estivesse te mantendo longe."
Neo apenas sorriu novamente, sem dizer nada.
Jack olhou pra ele, com os olhos semissentidos, recusando-se a deixar o assunto passar.
"Estava treinando," Neo finalmente falou.
Jack endireitou-se. "Treinando? Onde!?"
Neo hesitou por um momento, depois respondeu: "Foi em um lugar especial. Não consegui sair até recentemente."
Agora Neo podia perceber que Jack não sabia que ele tinha sido capturado pela Aliança.
Isso significava que a Aliança tinha escondido toda a situação.
Ou então, os espiões de Ilyana já saberiam de Neo.
"Treinando? Treinando? Treinando!"
A voz de Jack foi aumentando a cada palavra até acertar o copo na mesa com força.
"Por que diabos é tudo o que você pensa?"
Neo o olhou.
A face de Jack estava apoiada na mesa.
Uma mão descansava relaxadamente ao redor de outro copo de álcool.
Ele poderia ter eliminado o álcool do sistema na hora, se quisesse, mas manter isso em silêncio foi uma indicação de que ele queria usar a bebida para soltar a língua, dizer o que normalmente não diria.
"Droga…" murmurou Jack. Sua voz tremeu fracamente. "Por que temos que lutar e treinar tanto? Que crimes cometemos na nossa vida passada que nem um momento de felicidade podemos ter?"
A pergunta ficou pendurada entre eles, sem resposta.
Neo pegou silenciosamente a garrafa na mesa e encheu mais álcool no copo de Jack.
Esperou um instante e então perguntou: "E sobre Layla e você?"
Jack levantou um pouco a cabeça. "Sim?"
"Só uma coisa: você falou com ela quando era criança?"
Jack arregalou os olhos, congelado.
Espatifou-se na cadeira, de repente, com um movimento brusco.
"E–espere, que tipo de acusação é essa!?" Jack gaguejou, claramente assustado, mesmo com o álcool. "Eu mal conseguia encontrar alguém naquela época. Eu me mexia de um lado pra outro treinando. A primeira conversa decente que tive com a Layla foi quando ela tinha vinte e dois anos."
Neo olhou para ele, como se estivesse tentando determinar se sua fala era verdadeira ou não.
"Ei, para de me chamar de predador infantil!"
Ele falou alto o suficiente para o bar ficar em silêncio.
Cabeças se voltaram, e logo quase todo mundo na sala estava observando-o.
Sussurros começaram a surgir, falando sobre como tinham acabado de ouvir alguém gritando que tinha sido chamado de predador.
O rosto de Jack ficou vermelho de vergonha.
Ele tossiu forte, depois encarou a sala com irritação.
"O que vocês estão olhando!? Vão cuidar da vida de vocês!"
As pessoas rapidamente desviaram o olhar, fingindo que não tinham ouvido nada.
Jack arruinou a língua de irritação.
Ele pisou os dedos, e instantaneamente, uma bolha se formou ao redor da mesa, silenciando as vozes de saírem no ambiente.
Ele se recostou na cadeira, soltando um suspiro.
"E aí, o que aconteceu entre você e a Layla?" Neo perguntou com calma.
Jack não respondeu de imediato.
Ele apenas olhou para a caneca na mão, observando a superfície do álcool levemente agitar.
Ficou assim por um tempo, perdido em pensamentos, até finalmente falar.
"Vou te contar," disse, "mas só se você me prometer que vai me contar o que você realmente estava fazendo."
"Já te falei. Eu tava treinando—"
"Nós dois sabemos que é mentira."
"…"
A expressão de Jack ficou séria.
O álcool não era suficiente para esconder o olhar afiado em seus olhos.
Neo estudou-o por um momento.
Ele estava perguntando algo muito íntimo.
Se Jack e Layla realmente tiveram algo, Neo sabia que não era da alçada dele se intrometer.
Mas, ao mesmo tempo, a forma como Jack falou, a expressão dele... não era alguém escondendo culpa.
Era alguém de luto, alguém que queria que outra pessoa compartilhasse o peso.
Parece que ele está chorando, e precisa que alguém o escute, pensou Neo, ao observá-lo.
"Ok," Neo disse finalmente, soltando um longo suspiro. "Me conta sobre você e a Layla, e eu te conto o que eu realmente estava fazendo."
Jack recostou-se, com a caneca ainda na mão.
Não respondeu imediatamente.
Em vez disso, girou a bebida na mão, olhando para ela como se o líquido agitado pudesse organizar seus pensamentos.
Depois de um tempo, murmurou: "Sempre foi estranho entre mim e a Layla."
Neo permaneceu calado, esperando.
"Ela me pediu mais de uma vez pra termos um relacionamento," continuou Jack.
O tom dele era neutro, mas por baixo havia algo pesado.
"Mas eu nunca conseguia dizer sim. Uma razão era ela ser sua irmã. Outra..." ele hesitou, "…a outra era que eu não conseguia superar a Nyx. Por mais que o tempo passasse, eu não conseguia. Ainda não consigo."
Neo não interrompeu.
Jack claramente tinha muito mais a dizer.
"Assim o tempo foi passando. A Layla tentou diminuir a distância entre a gente várias vezes. Chegou a propor de novo e de novo. E aí—"
"E aí?" Neo perguntou quando Jack parou.
Jack abaixou a cabeça, cobrindo o rosto com as mãos.
Sua voz saiu abafada: "Ela usou isso."