
Capítulo 675
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
—Isso não é meu nome.
Ela não se virou imediatamente.
—Morraine, —ele disse suavemente.
As costas dela estavam voltadas para ele, e ele não conseguia ver o rosto dela.
Mas podia sentir seus ombros tremerem e suas mãos cerradas ao lado do corpo.
Um tossido tímido escapou dos seus lábios.
Ela enxugou as lágrimas rapidamente, e então se virou para encará-lo com um sorriso.
— Bem-vindo de volta.
As palavras saíram espontaneamente.
Ela costumava dizê-las o tempo todo quando ele voltava da caça, ou quando regressava de um longo dia no mercado.
— Voltei, —ele respondeu, sorrindo.
Depois disso, o tempo pareceu se fundir.
Nessa noite, Moraine pediu que sua refeição fosse trazida para o quarto dela.
Ela raramente jantava com a família, de qualquer forma.
Sua posição na casa era humilde, e ela não curtia muito ter que forçar conversas na hora do jantar.
Comer no quarto, com ele ao seu lado, era muito mais confortável.
Os dois sentavam-se à mesinha pequena. Ela comia devagar, às vezes lançando olhares furtivos para ele.
Ela estudava o rosto dele.
Ele parecia o mesmo, fisicamente.
Mas a maneira como se comportava tinha mudado.
Seus movimentos eram mais contidos. Seu olhar carregava peso.
Ele tinha crescido, e não apenas em força.
Quantos anos terão se passado desde a última morte dela?
Por quanto tempo ele a procurava?
Uma coisa era certa. Já havia passado o tempo suficiente para ele amadurecer, para se tornar um homem respeitável.
Porém, ele não havia esquecido dela.
Um calor, diferente do de antes, invadiu seu coração.
Ele levantou a cabeça e a viu encarando-o.
— …O que aconteceu? —ele perguntou, inclinando a cabeça um pouco.
Ela rapidamente desviou o olhar.
Conforme ele continuava a fixá-la, ela pensou em uma pergunta para distraí-lo.
— Como você me encontrou? —Ela questionou.
— Ah, isso? Com isto aqui. —Ele sorriu, pegando atrás de si e puxando uma espada longa e desgastada.
Sua lâmina escura brilhava levemente à luz.
— É o Demônio da Ruína, Vornaz.
— Ah.
— Parece que você conhece.
Ele assentiu e prosseguiu.
— A Autoridade de Vornaz que me permite localizar minha 'alvo'. Assim que defino alguém como alvo, o demônio me guia até ela. Mas, em troca, tenho que lutar com tudo o que tenho, e a outra pessoa também tem que dar o seu melhor. Até que ambos dêem o seu máximo, o demônio continua sugando minha força vital. —Ele riu suavemente.
— Claro que sou imortal, então tenho força vital ilimitada. Mas é chato ter minha energia sugada. Que tal uma disputa de culinária mais tarde? Você pode se soltar, e eu faço o mesmo. Assim, o demônio deve ficar satisfeito, né? E, certamente, isso resultará na minha vitória, e o contrato com o demônio—
Ele parou de falar.
Moraine estava chorando.
— Espere, por que você está chorando? —ele perguntou, com a expressão assustado.
— Você… hic… derrotou Vornaz… hic… para me encontrar…
Lágrimas escorriam pelo rosto dela.
Para fazer um contrato com Vornaz, era preciso derrotá-lo.
Entre os demônios conhecidos, Vornaz tinha uma classificação perigosamente alta.
Ele era implacável, astuto e poderoso.
— É assim que conseguiu a cicatriz? — ela perguntou, tocando lentamente na linha sutil na face dele.
— Você é um chorão, sabia? —Ele riu-se.
Apesar do sorriso, ela podia perceber.
Ele deve ter treinado incansavelmente, se esforçado ao máximo— tudo para poder vê-la novamente.
Os dias seguintes foram de felicidade plena para Moraine.
Ela continuava reincarnando, mas ele sempre a seguia.
Ela se lembrou vagamente de suas memórias de reencarnação por volta dos quinze a vinte anos de idade.
A partir daí, ela tinha que esperar.
A cada vez, dentro de cinco anos após sua lembrança retornar, ele a encontrava.
Isso a fazia sorrir sem parar.
Ela sentia que a demora de alguns anos até ele encontrá-la era dolorosamente lenta, mas tornava o momento de se encontrarem ainda mais doce.
Depois de se reencontrarem, começavam tudo de novo.
— Uau, esse mundo tem veículos voadores? O nível de tecnologia não é ruim. —
— É lindo. —
O fato de terem que ficar mudando de tavernas virou uma lembrança boa. Permitia que eles conhecessem o mundo.
— Ai, esse lugar é muito úmido. Meu cabelo fica todo armado. —
— Você não gosta de água? —
Moraine, que detestava a ideia de morrer e a incerteza que isso trazia, começou a ansiar por suas novas vidas.
Ela sempre se perguntava que coisas novas o mundo traria, e quais lugares ela veria com ele.
— Aqui tem uma vista linda de montanhas. Podemos montar uma taverna aconchegante e ganhar uma fortuna. —
— Devemos também renovar nosso cardápio. Pensei em um prato novo ontem. Quer que eu tente fazer pra você? —
Cada vez mais, ela se pegava olhando para ele, e não para o mundo ao redor.
— Aqui tem pessoas com asas? Então, devo agradecer ao mundo. Agora posso te ver com asas. —
— Não diga coisas embaraçosas! —
Ela se pegava muitas vezes sorrindo de forma lisonjeira para ele.
O vazio que ela carregava no peito—uma ferida que se acostumou a suportar ao longo de sua longa, solitária vida—começava a se preencher.
Mas…
Ela ainda não cruzara a linha com ele.
Mesmo depois de todos esses anos, ela mantinha uma barreira entre eles.
Ela não conseguia explicar ao certo, nem mesmo para si mesma.
Sempre que ele estendia a mão para ela, tentava entrelaçar os dedos, ou quando seus rostos ficavam próximos demais, ela instintivamente se afastava.
E, toda vez, havia uma tristeza momentânea em seus olhos.
Ele escondia rapidamente com um sorriso.
Ver uma expressão tão triste fazia com que ela quisesse segurá-lo, beijá-lo, dizer que o amava.
Ela sentia isso há muito tempo.
Mas não dizia.
Embora negasse compreender a razão de seu comportamento, no fundo ela sabia por quê fazia aquilo.
'Uma bruxa só pode amar uma vez.'
Diferente dos humanos ou outros seres, as bruxas eram imortais de uma forma estranha e cruel.
Não podiam morrer de forma definitiva, e seus corações comportavam espaço apenas para uma pessoa.
Por isso, as bruxas evitavam se apaixonar por alguém.
Elas amavam coisas abstratas: conhecimento, descanso, liberdade, viagens.
Temiam amar uma pessoa de verdade.
'Quando alguém que uma bruxa ama morre ou a abandona, ela se despedaça.'
Moraine ainda se lembrava dos olhos vazios das velhas bruxas.
'Bruxas são imortais.'
'Mesmo que a dor seja tão forte que queira nos destruir, não podemos morrer.'
'Temos que viver eons de dor e perda.'
Moraine sentia medo.
Temia o que faria se, no futuro, ele encontrasse alguém e quisesse partir dela.
Não era uma preocupação única.
A imortalidade não era invencível. Existiam seres capazes de matar imortais.
Moraine tinha medo de acordar em um mundo onde ele já não estivesse mais lá.
Por isso, manteve distância.
Essa era sua última defesa.
Achava que isso a protegeria.
Porque, se algum dia admitisse o que realmente sentia, se deixasse seu amor por ele vir à tona, ela temia que isso a consumisse.
Ela não conseguiria viver sem ele.
Mas então, o que ela mais temia aconteceu.
Se passaram oito anos desde sua reencarnação.
E ele ainda não apareceu.
Das centenas de ciclos que ela percorreu—de vidas diferentes, diferentes existências—esta foi a primeira vez que ele não a encontrou.