Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 664

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Visão de Zagreus

Zagreus permaneceu imóvel enquanto seu corpo se reformava na ausência de dimensões.

A terra sob seus pés se assemelhava a um tabuleiro de xadrez.

As peças pretas e brancas se estendiam infinitamente, como um piso que se prolonga até o infinito.

Acima dele, pairava um céu de sombras em constante mutação, vazio e sem estrelas.

Não havia vento nem calor neste lugar, apenas um silêncio gélido.

Para sua frente, estava F #4, a entidade semelhante a uma boneca que já o tinha guiado antes.

"Bem-vindo de volta, Zagreus Hargraves," ela disse calmamente.

Ela não elogiou nem reconheceu seu sucesso.

Zagreus não tinha feito nada que merecesse elogios.

Ele estava aqui, sim, mas apenas porque 'Morte Sem Nome' o tinha carregado até aqui.

Aquele homem assumira todo fardo, lutara todas as batalhas e abrira o caminho que Zagreus não podia.

A Prova das Sombras tinha o propósito de testá-lo, mas tudo o que tinha feito foi ser auxiliado por 'Morte Sem Nome' — não, por *Neo*.

"Por favor, diga-nos qual é seu desejo," perguntou a boneca, F #9.

Zagreus abriu a boca. Depois a fechou.

Ele tinha muitas ideias na cabeça.

Quereria voltar atrás, ajudar. Pelas informações de quão urgentemente 'Neo' o expulsara de Voraka, algo perigoso estava prestes a acontecer.

Queria perguntar se Morte Sem Nome realmente era Neo.

Mas não — não podia — fazer essas perguntas como recompensa.

As últimas palavras de Bael, pouco antes de empurrá-lo pelo portal, ecoaram na sua mente.

"Não esqueça a razão de ter começado esta Prova das Sombras, Príncipe. Essa é a base de tudo."

Seu peito apertou.

Sua boca ficou seca.

"Eu..." começou, mas parou novamente.

Sua garganta não cooperava.

Ele queria ajudar 'Neo', mas a ideia de não pedir para corrigir sua habilidade sanguínea aqui, e de que *Neo* pudesse morrer assim que tentasse despertar, rodava sua cabeça.

"Por favor, fale, Zagreus Hargraves. Nosso tempo não é ilimitado."

Zagreus mordeu o lábio até quase sangrar.

Depois, lentamente, forçando as palavras como se fossem facas, disse:

"Quero remover a habilidade da Morte da minha linhagem e substituí-la por algo mais útil."

Mesmo enquanto falava, seu coração estava sendo apertado.

Ele deixava 'Neo', que possivelmente enfrentava um perigo iminente, sozinho, sem ajudá-lo com sua recompensa pela Prova das Sombras.

Silêncio.

F #9 não respondeu imediatamente.

Ela o encarou, com a expressão inalterada, embora houvesse algo na sua quietude que tornava o ar mais pesado.

"A habilidade da Morte é uma maldição," ela finalmente disse. "Não pode ser removida."

As entranhas de Zagreus gelaram.

Mas ele inspirou fundo com força, controlando-se.

Já esperava por essa resposta.

O demônio tinha alertado sobre essa possibilidade.

O poder do Supremo das Sombras era vasto, mas não absoluto, e talvez ele não pudesse realizar seu desejo.

"Tudo bem," disse Zagreus em silêncio. "Então quero criar um método de ressurreição. Uma forma de trazer de volta qualquer descendente de Hargraves que morra por causa da habilidade da Morte. Todos os descendentes de Hargraves devem encontrar esse método antes de tentarem usar sua habilidade."

Novamente, as bonecas permaneceram em silêncio.

Os olhos de F #9 se moveram levemente, como se estivesse ouvindo algo — ou alguém — que Zagreus não conseguia ver.

Ele aguardou, com os dedos tremendo.

Por fim, ela assentiu.

"Podemos fazer isso. Será necessário criar contratos com todos os Reinos Infernais reconhecidos. O escopo é... difícil, mas não impossível."

Ao final, sua voz soou incerta.

"Você consegue ou não?" Zagreus questionou, percebendo a dúvida. "Se não consegue, diga ao Supremo das Sombras para se matar. Essa será minha vontade."

Houve uma pausa.

Então, F #9 abaixou a cabeça.

"...Podemos realizar seu desejo de ressurreição."

Um portal brilhou atrás dele, sua superfície ondulando como mercúrio.

Sem mais palavras, Zagreus atravessou.

Quando emergiu, toda a força que tinha emprestado do demônio desapareceu instantaneamente.

Foi como mergulhar em água gelada.

O poder saiu de seu corpo em ondas, cada vez mais fortes que a anterior.

Sentiu o retorno dos seus limites originais batendo forte.

Seu corpo tremeu levemente enquanto o eco do Estágio 5 o deixava completamente para trás.

Sua linhagem de Dragão Ancestral — já abafada pela intervenção de 'Neo' — permaneceu suprimida.

Ele voltara ao que era antes da Prova das Sombras.

O vento acariciou seu rosto suavemente.

Ele estava em uma ampla encosta de montanha, observando um mar calmo e infinito.

Costas dele, uma floresta densa se estendia.

Pássaros cantavam em algum lugar nas árvores.

Deveria estar tudo em paz.

Mas tudo que conseguiu fazer foi colocar uma mão no rosto e rir amargamente.

"Haha... Ainda não sei se foi você, Neo."

Ele sabia, lá no fundo.

Mas Morte Sem Nome nunca confirmou isso.

E a ausência dessa confirmação do seu irmão o deixava insano.

Se fosse mesmo Neo, por que ele havia negado tudo veementemente até o fim?

E se Bael não o atacou por ser um aliado que Bael conhecia de longas datas, e não por ele ser Neo?

Essa dúvida o estava enlouquecendo.

E se ele fosse Neo…

Zagreus temia imaginar que inimigo seria esse que 'Neo' não enfrentava ali. Tinha que ser alguém perigoso, pois mesmo criando seu Caminho, Neo não se sentia confiante de que poderia vencer.

"Hahaha…"

Uma risada profunda, desesperada.

Zagreus soltou seus cabelos para trás.

Ele tinha alcançado seu objetivo.

O método de ressurreição seria criado.

A maldição não seria quebrada, mas pelo menos agora eles tinham uma saída.

E, mesmo assim, não conseguia deixar de pensar que tinha fracassado.

"...Com isso, nosso contrato está finalizado," anunciou uma voz próxima ao seu rosto.

Zagreus olhou ao lado.

Um pequeno polvo, do tamanho de uma palma, flutuava ali. O demônio. A criatura tinha tom calmo e compassivo.

"Estou indo embora agora," disse o demônio.

Zagreus o olhou por um bom tempo antes de perguntar:

"Posso fazer outro contrato com você?"

Era uma pergunta desesperada.

Com a ajuda do demônio, talvez pudesse ir até Voraka e destruí-la de antemão, antes que 'Neo' chegasse lá como Morte Sem Nome.

Porém, o demônio balançou sua cabecinha pequena.

"Já te falei. Um contrato comigo só dá pra fazer uma vez."

Zagreus assentiu com dificuldade.

Mas o demônio não desapareceu imediatamente.

Ele ficou ali, como se percebesse o peso da decepção de Zagreus.

O demônio não sabia se era por empatia ou pena que o movia, mas falou novamente:

"Vazio."

"O quê?"

"Você esteve exposto ao meu poder tempo suficiente. Se um dia se tornar um Deus do Vazio… tente forjar uma Divindade baseada na sensação remanescente da minha essência dentro de você."

A expressão de Zagreus se contorceu.

Ele precisava ganhar força do poder do Vazio… o mesmo Vazio que havia causado toda essa dor?

O demônio não insistiu mais.

"Aure!ade, filho da Morte."

Zagreus ficou em silêncio, observando o pequeno polvo desaparecer no ar.

"Adeus," murmurou.

Depois ficou ali, parado.

A brisa balançou as árvores.

As ondas quebraram ao pé da encosta.

E ele permaneceu imóvel, sozinho.

Ninguém sabia, mas o demônio se movia rapidamente.

Seu objetivo era simples.

Encontrar o Supremo das Sombras da Era passada e descobrir o que tinha sido diferente durante a Criação do Universo nesta Era.

Porém, o demônio tinha uma sensação.

Essas mudanças desconhecidas e caóticas.

Essas Cinzas que não deveriam existir nesta Era.

Algo horrível aconteceu na Era da Criação do Universo.

'Espero que os Demônios não estejam envolvidos nessa confusão.'

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