
Capítulo 670
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Cada golpe fazia seus braços doerem menos.
Seu posicionamento melhorou.
Seu movimento dos pés ficou mais suave.
A espada começava a parecer cada vez mais parte de si.
Mas a fome começou a corroer seu interior.
No início, ele ignorou, achando que poderia continuar treinando.
Se ele evoluísse o suficiente, talvez o Soberano retornasse.
E aí, talvez, fosse reconhecido.
Mas ele ainda era uma criança.
Eventualmente, a fome ficou maior do que seu medo do Soberano.
Seu estômago revirou, torcendo-se de dor, e a solidão na sala ficou insuportável.
Ele saiu.
O corredor era escuro, com pedras rachadas e antigos padrões gravados nas paredes.
Várias portas alinhavam o corredor, mas ele passou por elas e seguiu em direção à escada no final.
Levaria um tempo para subir.
Suas pernas tremeram, e ele precisou parar e descansar mais de uma vez.
No topo das escadas, abriu uma porta pesada.
Uma luz quente o recebeu.
Ele entrou em um salão enorme do palácio.
O teto era alto, as paredes revestidas de pedra obsidiana e cristais de brilho avermelhado.
Ele avançou, tentando absorver tudo ao redor.
Vários funcionários e serventes moviam-se pelo espaço.
Eles pararam ao vê-lo.
Começaram a espalhar sussurros.
"Olhos vermelhos... cabelo preto..."
"...Será que ele é filho do Soberano...?"
Uma criada, talvez a mais corajosa entre elas, aproximou-se com cautela.
Ela se abaixou até ficar na altura dele e falou suavemente.
"Quem é você? Qual é o seu nome? Por que está andando sozinho pelo palácio?"
"A... sss..."
A criança abriu a boca, mas só saiu som estranho.
Falar era mais difícil do que ele imaginava.
Apesar de todo o conhecimento embutido em sua mente, a fala e outros saberes do dia a dia não faziam parte disso.
Ele sabia manejar uma espada com precisão sobrenatural, mas não sabia formar palavras.
O conhecimento só lhe ensinou a lutar e destruir.
Seu estômago roncou alto.
A criada piscou, surpresa, mas depois sorriu calorosamente.
"Está com fome?"
Ele assentiu rapidamente.
Ela se levantou e estendeu a mão para ele.
"Vem comigo."
Ela o conduziu por outro corredor até uma grande cozinha.
O aroma de comida fez seu boca salivar.
Dentro, cozinheiros preparavam uma refeição sofisticada.
Ao ver seus olhos vermelhos e cabelo preto, os cozinheiros pararam.
"Ele parece com ele..."
"Será que é...?"
Seus pensamentos, por mais diversos, não a impediram de deixá-lo sentar-se e começar a comer.
Colocaram prato após prato diante dele.
Ele comeu com voracidade, faminto.
Pela primeira vez desde que nasceu, sentiu-se confortável.
A criada ficou ao seu lado, conversando suavemente, mesmo que ele não conseguisse responder direito.
Ela riu e beliscou sua bochecha, fazendo-o sorrir um pouco.
Quando finalmente terminou de comer, levantou-se e começou a perambular pela cozinha.
Observava os cozinheiros, focado em como cortavam, mexiam e arrumavam os ingredientes.
O cozinheiro-chefe percebeu e fez uma cara fechada.
"Ei, garotinho. Não atrapalhe."
Mas não o expulsou.
Ao contrário, deixou que ele assistisse, apontou algumas coisas uma ou duas vezes.
A criança observava, fascinada.
Foi então que chegaram os guardas.
"Cadê ele?"
"Eu o vi sendo trazido aqui!"
Um membro da equipe que trouxe os guardas apontou na direção do menino.
Os guardas correram para dentro.
Suas espadas estavam desembainhadas, e as expressões eram tensas.
"É ele!"
Rodaram ao redor dele.
A criança não se moveu.
Seus instrumentos não o assustaram.
Não era tão assustador como o olhar frio do Soberano ou o silêncio do salão.
A criada avançou entre eles, confusa.
"O que está acontecendo? Ele não fez nada."
"Afaste-se. Essa criança é um demônio," disparou um dos soldados.
A criada recuou assustadamente.
A criança deu um passo em direção a ela, sem entender por que a reação da mulher fez seu peito doer.
Ela cambaleou para trás, impedindo que ele a tocasse.
O medo era evidente em seus olhos.
O menino congelou.
Então, o cozinheiro-chefe se aproximou, irritado.
"Que porra de gritaria é essa? É criança."
"É um demônio!"
"Assim como o Soberano."
O chefe dos guardas virou bruscamente.
"Como ousa comparar os imundos Demônios ao Soberano—"
"Ele se parece com ele. Por isso todo mundo achou que era filho dele. Mesmo que não seja, é uma criança. Para de gritar. Você está fazendo um escândalo."
Os guardas hesitaram.
Então, o líder deles avançou, puxou o menino pelo braço e o afastou com força.
Arrastaram-no de volta pelos corredores.
Jogaram-no de volta na câmara.
A porta bateu com força, e o som de uma corrente sendo trancada ecoou.
"Não saia sem permissão de novo," avisou o guarda pelo batente.
Silêncio se seguiu.
A criança se aproximou da porta e sentou-se ali mesmo.
Olhou para ela por um tempo, depois levantou a mão e arranhou a madeira fraco, pedindo para sair.
"Deixa... eu... sair..."
Sua voz rolou ao tentar falar pela primeira vez.
"Deixa eu sair... deixa..."
Sua garganta queimava.
Seus pedidos mal eram reconhecíveis.
Mas continuou chamando pelos guardas.
Gritou até não aguentar mais.
Depois, encolheu-se e adormeceu, exausto.
Quando acordou, não gritou novamente.
Pegou a espada.
Olhou para a porta.
Depois, golpeou.
A porta balançou.
Golpeou de novo.
E mais uma vez.
Não parou, repetidamente.
A cada impacto, a lâmina cortava mais fundo na madeira.
Ele não desistia.
A fome voltou.
Seu corpo gritava por comida, mas ele ignorou.
Recordou-se do calor da cozinha, da presença das pessoas, do food sizzling.
Queria voltar.
Queria cozinhar também.
Não queria mais estar sozinho, depois de perceber que havia algo muito mais quente do que o frio de sua câmara.
Quanto mais desesperado, mais preciso ficava seus golpes.
A espada parecia uma extensão do seu corpo.
Foi a primeira coisa que tocou na vida. Ele segurou assim que nasceu. Cada movimento parecia natural.
Por fim, a porta quebrou.
Ele saiu tropeçando, respirando pesado.
As mãos estavam doloridas.
O estômago revirava como se estivesse torcendo por dentro.
Mas ele conseguiu sair.
Virou-se para o corredor.
Foi então que viu o Soberano descendo as escadas.
O menino parou, congelado.