Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 671

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

O Soberano olhou para ele, depois para as mãos sangrentas do menino e finalmente para a porta quebrada coberta de marcas de espada sem conta.

Por trás do Soberano, os guardas solaram.

"Ele quebrou a porta?"

"Mas como—?"

As vozes deles calaram no instante em que o Soberano virou levemente a cabeça na direção deles.

Silêncio caiu.

Depois de um momento, o Soberano voltou o olhar para a criança novamente.

Embora anos tivessem passado, o menino agora parecia estar na faixa dos anos finais da adolescência.

Mesmo assim, ele tremia sob o olhar do homem.

"Você tentou fugir?"

O menino não respondeu.

Ele permaneceu lá, com os olhos baixos.

O Soberano deu um passo à frente.

O menino estremeciua.

Outro passo, e depois mais um.

Com cada movimento, o menino parecia encolher-se ainda mais.

Quando o homem colocou uma mão no ombro dele, tudo mudou.

Já não estavam mais no corredor escuro.

O cenário havia se transformado em uma estrada de terra ladeada por casas de barro mal construídas.

Perto dali, um prédio movimentado vibrava com barulho.

O menino olhou para o Soberano.

Seus chifres tinham desaparecido, seus olhos estavam negros, e ele vestia roupas simples e robustas.

O homem caminhou em direção ao prédio barulhento.

O menino hesitou.

O Soberano parou, olhou para trás e fez um gesto para que ele seguisse. O menino obedeceu, correndo para alcançar.

Dentro, era uma taverna.

As pessoas bebiam mais do que comiam.

Aqueles que comiam não pareciam muito felizes com isso.

"Que isso? Minha esposa cozinhasse melhor que isso."

"Você nem é casado."

"Exatamente."

O Soberano foi até o balcão.

O menino seguiu quieto.

Ao fundo do balcão, havia uma jovem mulher, um pouco além da adolescência.

Ela tinha cabelos deslumbrantes em preto e dourado, olhos dourados e uma presença imponente.

Sua beleza era inegável, mas sua expressão atual era de irritação.

Ela apoiava as mãos no balcão, batendo um dedo nele enquanto olhava furiosamente para os clientes reclamando de sua comida.

Ela claramente os amaldiçoava silenciosamente.

Quando notou o Soberano, sua carranca desapareceu.

Um olhar mais sério a substituiu.

"Siga-me", ela disse, caminhando para trás.

O Soberano e o menino a seguiram.

Dentro do cômodo nos fundos, ela ficou com os braços cruzados, batendo o pé impacientemente.

"O que foi? Diga logo. Não tenho tempo a perder. Meu negócio está sofrendo."

O Soberano sentou-se numa cadeira.

O menino permaneceu de pé, olhando ao redor do cômodo.

Ele estava nervoso, mas também curioso.

A mulher percebeu, franziu um pouco a testa e voltou a olhar para o Soberano.

"Você lembra do nosso contrato?" ele perguntou.

"Você queria o conhecimento para criar um Demônio artificial. Em troca, eu ficaria com seu primogênito", ela repetiu o contrato.

O Soberano assentiu.

"Na época, procurei você porque, apesar de ser chamado de a vergonha das bruxas, você também era reconhecida como a mais sábia. Acreditava que poderia te dar o que precisava. Por isso, ofereci algo tão importante quanto meu primogênito."

Apontou para o menino.

"Este é o Demônio que criei. Ele é um fracasso, assim como você."

"O quê?! Como ousa me chamar—"

"Não poderia esperar coisa melhor de alguém considerada a mais fraca entre as bruxas."

Ele se levantou antes que ela pudesse protestar.

"Este Demônio foi criado a partir do meu sangue. Ele é meu primogênito. Pode levá-lo."

Então, ele sumiu.

A jovem parecia pronta para gritar, mas, ao invés disso, rangeu a língua.

"Seu pai é uma droga de pessoa, muito irritante," ela mutterou.

O menino olhou para baixo, sem falar nada.

Ela o olhou.

"De qualquer forma, não preciso de você. Só pedi pelo filho dele para mantê-lo afastado. Nunca imaginei que ele aceitasse o contrato de verdade, muito menos que trouxesse você aqui. Pode ir embora."

O menino não se moveu.

Agarrava a orla da camisa com força.

Ela franziu o cenho.

"O quê?"

"Eu... não tenho para onde ir."

"E aí?"

Ele ficou em silêncio, sem saber o que dizer.

"Tá bom," ela suspirou. "Se conseguir provar que é útil, vou pensar em te manter. Caso contrário, vou te mandar embora."

Ele pensou rápido.

Era bom com a espada, mas o Soberano tinha ficado decepcionado com isso.

Provavelmente, essa mulher também ficaria.

Então, lembrou-se das pessoas na taverna reclamando da comida.

Talvez...

"Eu... posso cozinhar."

Ela piscou.

Surpreendentemente, ela não o expulsou na hora.

"... Ok. Vamos testar. Se você conseguir fazer algo decente, te contratarei."

"Então posso ficar com você?" ele perguntou, esperançoso.

Ela não respondeu.

Ao invés disso, levou-o até a cozinha.

Os ingredientes lá eram diferentes dos que ele tinha visto no palácio do Soberano.

Isso o alarmou, fazendo perceber que seus planos de copiar os cozinheiros do palácio não eram mais viáveis.

Ela ficou calada por um tempo, observando-o.

Depois, virou-se e saiu.

"Traga pra mim quando estiver pronto."

Sozinho na cozinha, o menino tentou lembrar o que tinha visto os cozinheiros do palácio fazerem.

Suas mãos se moveram quase automaticamente.

Ele picou, mexeu e ferveu.

Finalmente, ficou encarando uma panela com um líquido de cor estranha.

O cheiro... estranho.

Ele não tinha certeza se era comestível.

Antes que pudesse tentar novamente, a mulher chamou do front.

Ele hesitou, depois levou a panela ao balcão.

Ela franziu o cenho.

"Isso é comestível mesmo?" ela sussurrou.

Justamente ali, um cliente habitual veio reclamar.

"Essa comida é uma porcaria," resmungou.

Ela olhou para ele, depois para a panela do menino.

Um sorriso surgiu em seu rosto.

"Desculpe por isso. Aqui, experimente nosso prato especial. Considere isso uma compensação," ela disse docemente.

Ela trocou os pratos, dando ao homem a comida do menino e pegando o antigo de volta.

O cliente parecia cético, mas, após algumas insistências, deu uma mordida.

"Não está bom," ele murmurou, mastigando. "Mas é muito melhor do que o que você serviu antes."

A mulher congelou.

"É... melhor do que minha cozinha?"

O menino piscou.

Virou-se e olhou para o prato que tinha sido devolvido ao balcão.

Experimentou.

Era ruim.

Horrivelmente ruim.

De repente, entendeu por que o cliente tinha dito que sua comida era melhor.

O dele não era bom.

Só não era tão horrível assim.

Algo naquela realização o fez rir.

Começou com uma risada baixa, mas rapidamente cresceu, até que, em pouco tempo, lágrimas encheram seus olhos.

Ele as enxugou, exalando uma estranha sensação de alívio.

Depois, olhou para a mulher do outro lado, que parecia completamente impassível.

"Então, tô contratado?" ele perguntou, ainda sorrindo.

Ela lhe lançou um olhar que dizia que não achava graça, mas, após alguns segundos, assentiu, embora de má vontade.

O tempo passou rápido a partir daí.

O menino parou de envelhecer logo depois.

Fisicamente, continuava jovem.

Mas sua habilidade na cozinha melhorava constantemente.

Em poucos anos, ele ficou tão bom que as pessoas vinham à taverna só para experimentar sua comida.

"Moraine, quantas vezes vamos ter que ficar mudando de lugar? Vamos ficar em um só lugar, logo."

"Hm."

"Moraine, você está me ouvindo?"

"Hm."

Percebendo que ela claramente não estava, ele retirou o prato que tinha preparado para ela.

De imediato, seu semblante mudou.

Ela tentou pegar a comida, como se tivesse sequestrado seu filho.

"Me dá. Estou com fome."

"Você deve estar brincando. Quantas vezes você vai me acordar meia-noite porque estava com fome? Você faz isso toda hora agora."

"Não foi minha culpa! Foi sua. Por que você cozinha tão bem?"

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