Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 632

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

A voz de Asmodea era firme, mas havia uma tensão subjacente que antes não estava ali.

"Por todas essas razões, príncipe, peço que não desperte seu sangue de dragão," ela disse. "Está colocando a carroça na frente dos bois."

Zagreus não respondeu imediatamente.

Ele manteve o olhar fixo na pedra coberta de musgo próxima. A mata ao redor tinha silenciado, como se até os insetos estivessem ouvindo.

Ele expirou pelo nariz, não exatamente um suspiro. Seus dedos flexionaram uma vez antes de relaxar de novo.

"Certo."

Asmodea piscou. "Certo?"

"Não estou dizendo que concordo," disse Zagreus. "Estou dizendo que escuto você."

Ela o observou por um longo momento, mas ele não disse mais nada. Seus olhos permaneciam firmes. Após alguns segundos, ele acrescentou,

"Preciso de um tempo para pensar."

Asmodea hesitou, depois fez uma leve reverência. "Claro."

"Vá embora, Asmodea."

Ela não argumentou. Apenas virou-se e caminhou para longe, seus passos desaparecendo rapidamente na densa vegetação atrás dela.

Quando o último som de sua presença se foi, Zagreus permaneceu imóvel na clareira.

Ele não olhou para o céu nem para o chão.

Simplesmente ficou ali, absorto em pensamentos, enquanto o vento suavemente empurrava o dossel das árvores.

Um minuto se passou. Depois outro.

Finalmente, ele levantou a mão e chamou o demônio.

"Preciso saber de uma coisa," disse.

O demônio inclinou a cabeça bulbosa levemente, como se estivesse ouvindo.

"Quanto de força eu ainda tenho… no futuro?"

Não houve resposta imediata. O demônio permaneceu quieto, as pontas de seus tentáculos pairando bem acima da relva.

"Não fuja da questão. Preciso saber quanto posso emprestar."

"Não posso responder isso," disse ele. "É algo que me é proibido revelar."

Zagreus franziu a testa.

"Por quê?"

"Peço desculpas," disse o demônio, mais baixo desta vez. "Mas isso não é algo que possa dizer. Ainda não."

Zagreus não insistiu mais.

Ele apenas ficou ali, observando a lenta ondulação dos membros do demônio enquanto eles se enrolavam para dentro novamente.

Ponto de vista da Morte Sem Nome

A Morte Sem Nome e Berserker atravessaram várias Prisões de Espaço-Tempo.

Finalmente pararam sob as estrelas piscantes.

"Onde está o Ant?"

Berserker, que estava alguns passos à frente, não se virou. Apenas deu um pequeno encolher de ombros, claramente indiferente.

"Você não me ouviu?" perguntou a Morte Sem Nome. "Devemos estar trabalhando juntos. Se quer que eu ajude você, responda à pergunta."

Berserker riu, divertidamente.

"E eu estou trabalhando com você. Mas por que eu deveria contar isso?" Ele virou um pouco, sorrindo. "Você é livre para ir embora se essa parceria não te agradar."

A Morte Sem Nome fez uma careta.

Antes que pudesse falar, Berserker erguou a mão de maneira preguiçosa.

"Relaxe," disse. "Sei que está bravo. E talvez eu devesse provar minha sinceridade se quiser que me ajude. Então vamos lá. Não vou te dizer onde está o Karax, mas vou te mostrar outra coisa. Vem."

Ele não esperou por resposta.

Começou a caminhar na direção das colunas partidas ao longe, os pés levantando poeira pálida da areia branca sob eles.

A Morte Sem Nome hesitou por apenas um segundo antes de seguir mancando atrás dele.

O lugar era familiar.

Céu estrelado.

Areia branca.

Colunas brancas em ruínas.

Conforme caminhavam, Berserker falou novamente. "Gostou? Eu construi esse lugar. Ou melhor, construí com a ajuda de alguém."

"Ajuda de quem?"

"De uma Bruxa," disse Berserker, tocando uma das pedras antigas enquanto passavam. "Da Bruxa da Luxúria, na verdade. Bem, tecnicamente era a versão dela do futuro. Ela reencarnou no passado e deu uma mão."

A Morte Sem Nome olhou para ele de lado.

"Reencarnada no passado?"

"Sim. O tempo sempre foi uma confusão, desde que os Eternos se mexeram."

"Enfim, ela me contou que essas Prisões de Espaço-Tempo eram versões aprimoradas dos [Barreiras Celestiais]."

"As Barreiras Celestiais eram os protótipos que ela criou em um planeta que ela visitou uma vez."

"Depois, as aprimoramos e transformamos em algo mais útil. As Prisões de Espaço-Tempo."

"Barreiras Celestiais," repetiu a Morte Sem Nome, franzindo a testa.

O nome ecoou de forma estranha em sua mente.

Porém, ele não insistiu, sabendo que suas memórias estavam incompletas.

Continuaram a caminhada, o som da areia sob seus passos quebentando o silêncio.

O olhar de Berserker refletiu para a perna de Nameless Death.

"Você ainda está mancando."

"Sei."

"Consegue curar?"

"Consigo," respondeu a Morte Sem Nome. "Mas vai levar tempo."

"Quanto tempo?"

"Duzentos a trezentos anos. Se eu for rápido."

O ataque de Barbatos havia causado danos sérios em Nameless Death.

Berserker deu uma risada puxada. " Cure-se mais rápido. Caso contrário, vai morrer na nossa próxima batalha. Essa acontecerá em mil anos."

A Morte Sem Nome parou por um momento, voltando-se para ele com um olhar incrédulo. "Ainda estamos nisso?"

Berserker sorriu, sem se incomodar. "Claro. Se eu tiver a chance de colocar o universo em risco por uma boa luta, vou aproveitar. Além disso, até lá, seu caminho já deve estar meio formado. Vai ser empolgante."

A Morte Sem Nome revirou os olhos.

"Você não vai conseguir fazer nada contra mim mesmo assim. No máximo, chega ao Estágio 4 Grau 2 Nível 10—"

"Vou estar no Estágio 4 Grau 5 Nível 10."

A testa de Nameless Death se levantou.

"Pico de Estágio 4? Em mil anos? Pensei que tivéssemos mais uma luta depois disso. Não deveria ser quando você conseguir criar um corpo no pico do Estágio 4?"

Berserker apenas deu de ombros, o sorriso nunca desaparecendo.

Não ofereceu explicação.

Nameless Death não insistiu, mas seu rosto ficou mais sério.

Berserker não era apenas forte.

Ele era o Supremo do Vácuo.

Se realmente atingisse o pico do Estágio 4, a luta não seria fácil.

'Se quero sobreviver a isso, preciso começar a construir meu caminho.'

Os pensamentos pairaram enquanto eles se aproximavam de uma estrutura quase enterrada pelo chão.

Era um templo em ruínas, com degraus de pedra rachada levando a uma entrada escura e vazia.

Entraram.

Dentro, o ar era mais frio.

A poeira não se movia há séculos. No centro, havia uma estátua.

Ou talvez não fosse apenas uma estátua.

Uma mulher estava ali, metade do corpo esculpida em pedra branca, a outra metade com aspecto vívido, como se estivesse no meio de uma respiração.

Seus olhos estavam fechados, e sua expressão era cansada.

A Morte Sem Nome parou.

"Ela é…?"

"A avatar do Planeta Voraka," disse Berserker. "A vontade do planeta feita carne. Ela abriu mão de tudo para me invocar aqui. Para que eu pudesse proteger este lugar."

A Morte Sem Nome não respondeu. Simplesmente encarou.

O tom de Berserker havia mudado. Não havia mais diversão na voz. Sem sorrisos ou desafios, apenas seriedade.

"Ela sacrificou sua vida," continuou, "para me trazer aqui. Porque os Eternos estão lá fora. E, se eles encontrassem este lugar, teriam podado tudo."

Ficou imóvel por um longo momento, mãos ao lado do corpo.

Depois, olhou de volta para a Morte Sem Nome.

"Ela é o mediador que estou usando para invocar meus elementais neste lugar. Isso deve ser suficiente para provar que levo a sério essa parceria."

A expressão de Nameless Death permaneceu impassível.

Ele olhou para a mulher meio-viva, a sala construída ao seu redor, e o ar imóvel que sustentava tudo.

Berserker acrescentou, "Então, me ajude a cuidar das ameaças que vierem a este local. Os que querem eliminar meus elementais. Eu cuidarei deles, se for preciso, mas será bem mais fácil com você."

Silêncio se seguiu.

O olhar de Nameless Death foi lentamente subindo, para as inscrições quase invisíveis no teto acima da estátua. Pareciam estrelas, constelações. Ou talvez mapas.

Ele conseguiu perceber que a estátua da mulher foi transferida para aquele lugar por Berserker.

Tudo aqui fazia parte da Prisão de Espaço-Tempo, exceto a estátua da mulher.

Talvez, ela fosse alguém importante para ele.

"Não esperava sinceridade de você," ele disse após um tempo.

Berserker deu de ombros. "Eu também não. Mas aqui estamos."

Sem mais palavras, eles saíram do templo.

O vento lá fora levantava uma brisa tênue de areia pelo chão.

Berserker virou-se na direção do horizonte.

"Você deveria começar a construir seu Caminho. Precisaremos de toda força que pudermos reunir para enfrentar Barbatos."

A Morte Sem Nome parou de caminhar.

Ele olhou para o horizonte por um momento, depois virou lentamente na direção de Berserker.

"Você sabe como posso acessar meu Cosmo?"

Berserker ergueu a mão, com a palma aberta numa expressão preguiçosa.

"Parei. Não vou responder a isso."

"Por quê?"

"Porque, se eu te dissesse," Berserker riu, "você só colocaria todas as Cinzas no seu Cosmo, depois lutaria contra mim e ajudaria seu irmão. Por que eu iria ajudar meu inimigo a me derrotar?"

"Porque isso poderia nos ajudar a salvar o universo."

"Sim," disse Berserker, olhos brilhando. "Mas eu ainda vou lutar com você. Não vou deixar meu inimigo ficar mais forte. Ajudei você antes porque você era fraco, mas isso não é mais verdade."

A Morte Sem Nome soltou um suspiro.

Começava a entender Berserker um pouco mais agora.

Quando se tratava de qualquer coisa—conversar, compartilhar conhecimento, até cooperação—ele era direto. Sincero, até.

Mas, no momento que uma batalha entrava em cena, algo nele mudava.

Racionalidade se curvava diante do desejo de lutar.

Ele arriscaria tudo, até a sua vida, se isso significasse garantir uma luta melhor.

Ele era um maníaco por batalha, por completo.

'Acho que faz sentido chamar de maníacos aqueles que têm mania de batalha,' pensou a Morte Sem Nome.

Não continuou a discutir.

"Certo," disse. "Então, vou construir meu Caminho. Não me interrompa."

"Não farei."

Berserker acenou com a mão, já se afastando.

A Morte Sem Nome fechou os olhos.

Depois, mergulhou na própria sombra.

O mundo interior era completamente diferente.

A areia branca e as templos em ruínas da Prisão de Espaço-Tempo Sumiram.

Em seu lugar, ele se encontrava sobre uma relva macia e verde. O ar ali era calmo, com o aroma de folhas frescas e brisa suave.

Ele mesmo tinha criado esse lugar.

Não era grande, mas era tranquilo.

Havia colinas, árvores, flores estranhas que pulsavam sutilmente com mana, e um céu azul-claro com dois sóis pairando perto da linha do horizonte.

Um santuário.

Ele caminhou em silêncio adiante.

No centro do mundo, havia um lago. Em sua margem, sob uma grande árvore com folhas prateadas pendentes, alguém dormia.

Leonora.

Ela descansava calmamente, enrolada sob a árvore.

Sua respiração era lenta e constante.

"Acorde. Sei que você não está dormindo."

Ela não reagiu.

Nameless Death rangerou a língua. A razão de tê-la trazido era simples.

'Se Berserker não me disser como acessar meu Cosmo, então só preciso perguntar a outra pessoa.'

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