Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 607

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Barbatos o observava silenciosamente. Mas seu olhar não passou despercebido por muito tempo.

Zagreus se aproximou ao lado dele. Seguiu a linha de visão de Barbatos e então olhou de volta para a Roedora da Morte.

"Você o reconhece?"

Os martelos não pararam. O homem nem sequer olhou para cima. Estava concentrado, alheio aos olhares que agora se fixavam nele.

Barbatos demorou a responder. Então, lentamente, virou-se para Zagreus.

"É... ele mesmo?"

Zagreus respirou fundo. Os ombros relaxaram um pouco.

"Não sei," admitiu. "Parece com ele. Mas olhe para a alma."

Barbatos não respondeu imediatamente, apenas continuou observando.

Zagreus prosseguiu: "A alma dele é completamente diferente da dele. E, se fosse ele, não faria sentido ele não reconhecer algum de nós."

O formato de uma alma estava ligado à Semente da Existência. Mesmo se alguém fosse reencarnado, a alma retinha algumas semelhanças com sua forma original.

No entanto, como a Morte Sem Nome podia devorar outras almas e isso mudaria a forma da sua, ninguém sabia como era sua alma original.

"Não consigo sentir nenhuma Benção nele, nem mesmo uma não despertada," disse Asmodea. "Você chegou a perguntar sobre sua linhagem?"

O rosto de Zagreus se fechou. "Sim."

Asmodea levantou uma sobrancelha. "E aí?"

"Perguntei diretamente a ele, há seis anos," disse Zagreus. Sua voz ficou seca. "Não consegui descobrir se ele era Neo. Então, fiquei impaciente e perguntei: 'Você tem a linhagem Monarca da Morte, né? Eu também tenho.' Simples assim."

Barbatos esperou que ele continuasse.

"Se ele respondeu que sim, pelo menos era da linhagem de Hades. Teria sido um avanço."

"E aí?" perguntou Asmodea.

Zagreus passou a mão na testa. "Achou que eu estivesse lendo a mente dele."

Asmodea piscou. "O quê?"

"Ele é paranoico," murmurou Zagreus. "No momento em que eu disse isso, ele congelou. Olhos arregalados, a mão meio formando um feitiço. A partir daquele ponto, ele deixou de revelar qualquer coisa sobre si mesmo."

"E mesmo assim," disse Asmodea, "ele continua trabalhando com você."

"Quase nada," explicou Zagreus. "Se eu não tivesse conseguido curá-lo naquela época, ele teria ido embora. Tive de usar cada ponta de vantagem só para manter o acordo."

Silêncio se instaurou.

"A única coisa que consegui confirmar foi que ele tem linhagem Monarca da Morte, já que reagiu tão forte a isso," suspirou.

A atmosfera mudou instantaneamente.

A expressão de Asmodea ficou mais séria. Leonora se endireitou um pouco, olhando para seu mestre. Até mesmo Barbatos, sempre calmo, ficou rígido.

Cereberus ergueu suas cabeças uma a uma, observando a forja com renovado interesse.

Sem dizer uma palavra, Asmodea avançou, caminhando em direção à forja.

Cereberus a seguiu.

Barbatos permaneceu imóvel por mais um momento, então olhou para Zagreus.

"Ele usa uma espada com espírito?"

"Não," respondeu Zagreus. "Ele usa uma espada forjada a partir de Intenção."

Barbatos fez uma careta. "Então ele é um Quebra-Céus?"

"Sim."

Essa resposta deixou a expressão de Barbatos ainda mais tensa.

Como podia estar caminhando na Trilha do Quebra-Céus e na Trilha Elementar ao mesmo tempo?

Os martelos não pararam. O metal tinha sido moldado e remodelado umas doze vezes na última hora, camada por camadas com liga forjada no Caos e refinada sob calor infundido pelo Fogo do Inferno.

Finalmente, Barbatos falou novamente.

"Tenho um método para confirmar se ele é o Príncipe," disse. "Mas vai levar tempo."

Zagreus não perguntou qual método, já que Barbatos não explicou.

Ele apenas concordou com um gesto de cabeça.

Barbatos deu alguns passos para trás e começou a se aproximar da forja.

Zagreus soltou um suspiro lento.

Então, chamou:

"Ei! Maldito arruaceiro!"

A voz cortou o silêncio como um chicote.

A cabeça da Morte Sem Nome se virou abruptamente na direção dele.

Isso fez sua concentração vacilar o suficiente para que um dos martelos escorregasse. O metal torceu errado e estalou.

A Morte Sem Nome parou completamente.

Ele se virou para o metal partido e ficou encarando.

A peça tinha levado quatro anos.

Quatro malditos anos, e só faltava uma semana para a competição. Era por isso que a Morte Sem Nome tinha se dedicado tanto ao processo de forjamento.

E agora estava destruída porque o maldito Zagreus o interrompeu.

Ele respirou fundo. Depois, mais um.

Lentamente, virou-se na direção do grupo.

Suas olhos percorreram Barbatos, Asmodea, Leonora. Permaneceram por um instante em Cereberus, que tinha se aproximado dele.

"Quer dizer que vocês são os Ceifadores?"

Ele pulou de sua cadeira alta com um chute silencioso.

"Exatamente," respondeu Barbatos, fazendo uma leve reverência.

Asmodea fez o mesmo, e Leonora a seguiu na segunda depois. Até mesmo seu espírito felino ficou em silêncio, embora olhasse para a Morte Sem Nome com olhos arregalados.

"Ele é tão bonito…" murmurou o gato suavemente, balançando o rabo uma vez.

A Morte Sem Nome ignorou o comentário.

"Por que você está se curvando?"

Ele parecia mais irritado do que confuso.

Antes que alguém pudesse responder, Cereberus se aproximou.

O gigante cachorro de três cabeças farejou a Morte Sem Nome, circulando ao redor dele uma vez.

Então, lentamente, lambeu seu ombro.

Depois novamente.

A cabeça do meio soltou uma bufada confusa, seguida por um leve movimento de balanço do rabo.

Ele lambeu mais uma vez, e então parou, com a língua de fora, como se estivesse provando algo.

A Morte Sem Nome olhou para a fera, depois para os outros. "Por que o seu cachorro está lambendo eu?"

"Ele está verificando algo," respondeu Asmodea calmamente.

"Verificando o quê exatamente?" questionou a Morte Sem Nome.

Cereberus permaneceu confuso, lambendo-o de vez em quando.

Asmodea, observando-o, suspirou. Então até Cereberus não podia afirmar sua identidade.

Não, isso não importava.

Ele ainda era o Sangue do Senhor da Morte.

"Está confirmando se você é um dos príncipes anteriores ou um novo."

"E?"

"Parece incerto," ela respondeu.

Ele a encarou de forma séria. "Você tem um detector de mentiras mágico de três cabeças e ele está confuso?"

Cereberus grunhiu, suas orelhas caíram.

Ele continuou farejando e ocasionalmente lambendo seu lado, as sobrancelhas franzidas — ou, pelo menos, tão franzidas quanto um grande canino pode ficar.

O momento se alongou awkwardly até que a Morte Sem Nome se afastou, finalmente criando espaço entre si e o grande cão.

"Para de me lamber," murmurou.

Depois, olhou para cima, fixando o olhar em Barbatos.

"Por que você se curvou? O que tem essa história de 'príncipe'?"

"Pedimos desculpas se ofendemos você, Príncipe. Somos os Anjos do seu pai, o Monarca da Morte. É assim que devemos cumprimentá-lo."

A Morte Sem Nome não disse nada. Sua expressão permaneceu neutra, mas internamente, sua mente trabalhava rápido.

Príncipe? Essa parte não lhe agradou.

Sei que posso ser filho deste tal Monarca da Morte, mas essa história toda cheira a algo estranho.

Zagreus que afirmou ter a linhagem do Monarca da Morte, apareceu aqui, no mesmo lugar onde estava preso há aparentemente mais quinze mil anos, convenientemente justo ao começar a subir de poder?

E agora, descobri que ele poderia convocar Anjos aqui?

Tantos coincidências assim não acontecem por acaso.

Ele não confiava nisso. Nem um pouco.

Sabia que sua tela de status dizia que tinha a linhagem [Monarca da Morte]. Isso era fato. Mas só tornava tudo mais suspeito.

Ficou pensando naquela maldita conversa com Zagreus. O safado falou aleatoriamente que tinha a mesma linhagem, quase como se tentasse provocar uma reação.

Agora parecia uma armadilha.

Uma parte dele se perguntava se Zagreus tinha de alguma forma lido sua tela de status usando uma habilidade rara ou traço oculto.

Isso explicaria a mudança repentina de tom.

Não ficaria surpresa se os outros estivessem também envolvidos, fazendo esse show para extrair algo dele.

O que seria esse “algo”, ele não sabia.

Se não fosse Zagreus ter o curado naquela ocasião, ele já teria se separado.

A única razão de ter permanecido foi porque não lhe convinha romper o acordo após receber o benefício.

Mesmo assim, isso não significava que confiava no homem. Muito pelo contrário.

Ele revisava cada técnica que Zagreus tinha lhe ensinado sobre construir o Ventre da Morte. Até mesmo o processo de forja. Recusava-se a ser manipulado para criar algo poderoso que pudesse, depois, se voltar contra ele.

'Talvez tenha sido um erro conectar-se ao Código Universal,' pensou sombrio.

Na época, fez isso por desespero.

Mas agora, quanto mais pensava, mais problemas surgiam.

E se esse Código fosse exatamente aquilo que Zagreus acessou e, depois, descobriu sua linhagem?

'Preciso investigar como romper essa conexão,' pensou. 'Se eu conseguir cortá-la... talvez possa me mover sem ser rastreado.'

Podia parecer que ele estava paranoico demais.

Mas tinha uma grande razão para apoiar todas as suas suspeitas.

Zagreus estava no Julgamento das Sombras.

Os Julgamentos das Sombras eram quase impossíveis de passar.

Fazia sentido que Zagreus tivesse um demônio com uma habilidade poderosa, e pudesse invocar Ceifadores, todos bastante fortes, talvez no auge do Estágio 4…

Nameless Death olhou fixamente para Barbatos. Ou talvez ainda mais forte que o Estágio 4.

Com tudo que tinha em seu arsenal, parecia, a seus olhos, que o Julgamento das Sombras era pateticamente fácil.

Claro, Berserker era um fragmento do Supremo do Vazio, mas sua força ficava limitada ao Estágio 4.

'Será que estou do lado do cara certo?'

'E se tudo que Zagreus me disse sobre Berserker fosse mentira, e ele na verdade fosse um bom cara, só alguém com sede de sangue demais?'

É claro que a sede de sangue e massacre eram um problema, mas a Morte Sem Nome e Zagreus também não eram santos.

Enquanto Nameless permanecia ali, de braços cruzados, olhos semi cerrados, Asmodea o observava atentamente.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça e falou sem rodeios:

"Você não acredita na gente, não é?"

"Você o faria no meu lugar?"

Seguiu-se o silêncio. Até Cereberus, que tinha parado de lamber, agora se acomodava ao lado, observando Nameless Death com as orelhas um pouco tombadas.

Então, Gremory deu um passo à frente. Sua postura era rígida, como se estivesse esperando para falar há um tempo.

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