
Capítulo 608
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
"Preciso voltar ao Submundo", ela disse simplesmente. "Peço desculpas, mas não posso ficar aqui por muito tempo."
Zagreus acenou com a cabeça. "Entendido. Pode partir."
Cerberus soltou um resmungo suave e caminhou até ela. As três cabeças a cutucaram delicadamente ao lado dela antes de se voltarem para os demais.
A Morte Sem Nome os observava sem dizer uma palavra.
Gremory e Cerberus começaram a partir. A fera olhou uma vez para trás, repetidamente — não para os anjos ou Zagreus, mas para a Morte Sem Nome — e só pôde se afastar silenciosamente após ver os olhos frios da Morte Sem Nome.
Zagreus se aproximou dele logo em seguida.
"Vamos caçar agora o monstro de Nível 9", disse. "Vamos acelerar, e não se preocupe. Não me esqueci do nosso acordo."
A Morte Sem Nome o analisou.
Não havia confiança em seus olhos, mas também não havia resistência imediata. Apenas aquela mesma expressão de cálculo e silêncio.
"Caçar?" A voz de Asmodea veio de trás.
Ela soava divertida, com os lábios curvados numa leve e enigmática ponta de sorriso.
"É por isso que nos chamou, príncipe? Você precisa de ajuda em algo?"
"Sim. Preciso que o corpo permaneça intacto. É por isso que te chamei."
Asmodea inclinou a cabeça com uma expressão pensativa.
"Um monstro de Nível 9, você disse?"
"Exatamente."
Ela virou-se para Leonora, que estava um pouco deslocada ao lado, parecendo mais uma observadora do que uma participante. Depois, voltou-se para Zagreus.
"Príncipe", disse Asmodea, com voz calma, mas com um tom formal, "Gostaria de pedir que conceda à minha discípula a honra de completar sua missão."
Os olhos de Leonora se arregalaram.
"M-Master?" ela gaguejou. "Ele falou Nível 9... Isso significa pelo menos Estágio 4, Grau 5. Eu estou apenas no Estágio 2 Despertada. Não consigo—"
"Silêncio", retrucou Asmodea, lançando um olhar severo para Leonora.
O sorriso da Ceifadora parecia especialmente malévolo para sua discípula. Parecia que sua mestra finalmente estava se vingando por todas as vezes que Leonora a ignorou no passado.
Zagreus a olhou, depois para Asmodea.
Se uma Ceifadora fazia um pedido daquele tipo, certamente tinha um motivo. Tomara que ela não estivesse fazendo isso para acabar de vez com a discípula.
"Certo", disse ele. "Vou permitir."
Leonora piscou, sem ter certeza se tinha ouvido corretamente.
Sua boca se abriu como se fosse argumentar novamente, mas ela parou. Expirou silenciosamente e fez uma breve reverência.
"Obrigada, príncipe."
Ela não parecia feliz. Mais parecia alguém se voluntariando a entrar numa trituradora por dever.
Eles partiram logo após, atravessando uma extensão de terra árida.
Com Barbatos presente, usaram um espaço imitado para comprimir o tempo e percorrer grandes distâncias.
O que levaria anos pelos métodos tradicionais foi reduzido a seis meses.
Durante esse período, chegaram às bordas externas da Floresta do Silêncio Vermelho.
Transitar pela região exterior da floresta era gerenciável. A atmosfera era pesada, as árvores altas e estranhamente uniformes, mas nenhuma ameaça imediata apareceu. Isso mudou ao cruzar para o anel interno.
A Morte Sem Nome parou no meio do caminho. Asmodea estreitou os olhos. Leonora parou ao lado dela. Até Barbatos virou sério.
Zagreus, contudo, continuou andando como se nada tivesse acontecido.
"Isto..." murmurou Leonora. "Sinto... mais forte? Não, alguma coisa mudou."
"É o efeito de fusão do Tesouro Sagrado", disse Barbatos com tom sério. "Os deuses só podem subir de nível fundindo-se com Tesouros Sagrados. Se alguém quer ultrapassar seu limite genético ou evoluir além do que seu planeta permite, precisa de um Tesouro Sagrado. É isso que esse efeito simula."
A Morte Sem Nome olhou ao redor, cautelosa.
Árvores, solo, até o ar carregavam uma luz tênue, artificial.
Tudo dentro da floresta interior estava sendo gradualmente fundido com algo invisível.
'Então é por isso que os monstros infestam a região interna', pensou. 'É isso que os atrai aqui. Uma chance de ultrapassar seus limites e evoluir.'
Mesmo sem atingir uma ruptura completa, a exposição a esse tipo de energia poderia forçar o crescimento.
Porém, normalmente, fundir-se com um Tesouro Sagrado era perigoso.
O poder poderia despedaçar você de dentro para fora se seu corpo ainda não estivesse preparado.
Mas aqui, o próprio ar agia como um Tesouro Sagrado diluído, fortalecendo todos sem matá-los.
"Isso é estranho", disse Asmodea. "Tesouros Sagrados são únicos e raros, sim. Mas só podem fundir com uma única pessoa. Então, como é possível que um Tesouro Sagrado esteja se fundindo com tudo aqui?"
"Não sei", disse Zagreus, sem se virar. "Mas é exatamente por isso que quero chegar ao centro da floresta. A origem desse efeito — o que quer que esteja espalhando esse poder — acredito que seja onde está o meio de manifestação do Brado de Fúria."
Os demais não questionaram.
Ele já tinha explicado a eles a natureza do seu Desafio Sombrio.
Começaram a seguir em frente, agora mais adentro na essência da floresta.
A camada externa, por mais vasta que parecesse, era apenas uma fração do que ainda vinha pela frente.
A floresta interior se estendia infinitamente. Levaria dois meses inteiros atravessá-la, enfrentando terreno imprevisível, bestas hostis e constantes flutuações na aura sagrada.
Finalmente, chegaram a uma clareira diferente de todas as anteriores.
As árvores deram lugar a um crater de pedra queimada. O solo era preto, quase metálico. No centro, havia uma criatura singular.
Era um monstro feito de metal. Seu corpo era moldado por chapas soldadas, núcleos expostos e ossos de aço irregular.
Seus olhos brilhavam com uma luz derretida.
Seu hálito vinha em sussurros mecânicos rítmicos.
Zagreus parou bem na borda do crater. Asmodea virou-se para Leonora.
"Parece que quem você vai ter que enfrentar é esse aqui, Leonora", disse Asmodea.
Leonora olhou para a criatura, depois para sua mestra, e de volta para Zagreus.
Por um momento, quase parecia que ia chorar.
Quando Asmodea não mencionou que iria recuar, Leonora teve que caminhar até a borda do crater.
A cada passo, ela sentia que ficava mais pesado.
A criatura não se moveu até que ela passou da metade do caminho. Então, seus olhos se acenderam, e seus membros estremeceram com tensão mecânica.
Ele ganhou vida como uma máquina que retomava funcionamento após séculos de dormência.