
Capítulo 606
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Zagreus suspirou. "Mordeu a língua de novo?"
"…N-Não," gaguejou Gremory, envergonhada.
"Mande dois Ceifadores de Grau 4 para o meu local."
"Grau 4? Certo... entendido. Farei as providências."
Zagreus abaixou a insígnia e olhou para a Morte Sem Nome, que levantou uma sobrancelha.
"Ceifadores de Grau 4?" perguntou a Sem Nome.
"São mais fortes," disse Zagreus de forma simples. "Agora vocês podem voltar à forja."
"Você não disse que eles estavam vindo e que eu deveria cumprimentá-los?"
"Como eles viriam agora, idiota? Acha que tudo é de graça e não tem nada a fazer igual a você?"
Sem Nome o encarou por alguns segundos, depois decidiu que não valia a pena discutir.
Ele voltou a ajustar o equipamento da forja. Enquanto isso, no submundo, as coisas começaram a se mover.
…
Ponto de vista de Gremory
Gremory não perdeu tempo.
Seus dedos dançaram pelo relicário de comunicação, fazendo linhas de energia negra fluírem pelo ar como fios.
"O Príncipe Primeiro pediu Ceifadores de Grau 4, mas se ele precisa de alguém poderoso agora, talvez eu deva contatar..."
Ela tomou sua decisão.
Seus lábios pálidos se moveram rapidamente enquanto ela estendia a mão para Barbatos e Asmodea.
Ambos estavam entre os poucos Ceifadores que não estavam totalmente ocupados com a competição de discípulos de Ceifador.
A maior parte dos poderosos estavam supervisionando as disputas ou cuidando da avaliação.
A tarefa de Barbatos era proteger o submundo em caso de invasão.
Ele estava tecnicamente de prontidão, a não ser que algo urgente ameaçasse os limites do reino.
Já Asmodea, por sua vez, tinha visto sua discípula perder já na primeira rodada, liberando-a do restante do evento.
"Barbatos, Asmodea, o Primeiro Príncipe convocou Ceifadores de Grau 4 para o local dele. Posso contar com vocês dois?" ela disse, com tom urgente, mas calmo.
Um zumbido baixo ecoou pelo dispositivo de comunicação.
"Estarei lá em breve," respondeu Barbatos, com voz calma e firme, como sempre.
"Tenho tempo," respondeu Asmodea. "Preparem o portal. Partiremos assim que chegarmos."
Gremory exalou. Um suspiro de alívio passou por seu rosto.
Ela se apressou em montar o portal transdimensional, canalizando energia para o ritual gravado no chão do Nexus.
…
Ponto de vista de Asmodea
Asmodea encerrou a ligação com Gremory e se virou para encarar a jovem ajoelhada na sua frente.
Leonora tinha uma expressão serena, mesmo ajoelhada diante da ceifadora.
A armadura de batalha que usava parecia intacta, pois ela não tinha realmente lutado.
Os olhos dourados da Ceifadora estreitaram.
"Por que você desistiu na primeira rodada?" perguntou Asmodea, com os braços cruzados. Sua voz não era raivosa, mas havia uma rispidez visível.
Leonora sorriu como se fosse algo completamente natural.
"Eu teria sido derrotada de qualquer jeito, Mestre. Então decidi que era melhor desistir."
A testa de Asmodea se contraiu.
"Você ainda podia ter lutado com os discípulos mais fracos."
"Mestre," disse Leonora docemente, "vocês têm discípulos muito mais fortes do que eu. Minha derrota não prejudica sua reputação."
O canto dos lábios de Asmodea se ergueu numa expressão fria.
Um arrepio percorreu o ar, e o gato espiritual de Leonora — um pequeno felino preto com olhos de fogo azul — de repente eriçou-se.
Ele olhou para sua mestra com uma expressão de pura traição.
Sentimento ominoso já começava a se instalar.
"Então," disse Asmodea, "como você está tão livre, pode vir comigo."
"Hã?"
"Fomos convocados. O próprio Primeiro Príncipe está chamando."
Sorriso de Leonora endureceu. O gato soltou um miado baixo de desespero.
"Mas eu achava que era fraca demais..."
"Você é," respondeu Asmodea com um sorriso, "por isso vai carregar minhas coisas e ficar quieta."
…
Ponto de vista de Barbatos
Barbatos chegou primeiro.
Seu passo foi tranquilo ao entrar no castelo de Gremory.
Alguns momentos depois, Asmodea entrou, trazendo Leonora na ponta dos pés.
Ao contrário da sua elegância etérea habitual, hoje ela usava um manto de viagem, e seus passos eram rápidos.
Leonora arrastava os pés, segurando uma pequena bolsa preta que irradiava energia divina. Seu rosto estava neutro, e seu gato espiritual estava no ombro, como um soldado derrotado.
Barbatos acenou para os dois.
"Asmodea. Que bom te ver."
"Mhm," respondeu ela com um aceno. "Você parece igual de sempre."
"Você achava o quê?"
"Sim, os ceifadores fizeram uma aposta de que, como a moda está mudando no Submundo por causa do meu estúpido discípulo, vocês logo mudariam para algo melhor do que esses robes que escondem sua aparência."
Barbatos assentiu e avançou.
Asmodea soltou uma risada, vendo-o tão despreocupado como sempre.
Eles se voltaram para Gremory, que já estava diante do círculo ritual completo.
"O portal está pronto," disse Gremory. "É só entrar."
Barbatos olhou para a estrutura complexa e assentiu. "Não vamos fazer o Príncipe Primeiro esperar."
Depois de uma última checagem nas armas e itens, os três atravessaram o portal de energia giratório.
O portal pulsou uma vez, e no instante seguinte, desapareceram.
…
Ponto de vista de Zagreus
Zagreus estava sentado na pedra fria do parapeito, com uma perna cruzada sobre a outra, assistindo Nameless Death martelando.
Já fazia um ano desde que chamaram os Ceifadores, mas esse atraso era inevitável.
O submundo é enorme, levaria muito tempo para percorrer toda a distância.
O distintivo de discípulo de Ceifador dele vibrara de repente antes de uma voz soar por ele.
"Príncipe Primeiro?" A voz de Gremory soou hesitante, mas clara. "Desculpe pela demora. Os Ceifadores que você solicitou... finalmente estão vindo agora."
"Ok."
O distintivo começou a brilhar.
Tentáculos negros de luz se estenderam de suas bordas, pulsando uma vez antes de disparar em direção ao espaço aberto à sua frente.
Eles se enrolaram e torceram, tecendo pelo ar até formar um oval liso de energia negra.
Ele se levantou e observou.
O espaço ondulou.
Então, uma figura entrou por ele.
O primeiro Ceifador vestia uma túnica completa que escondia seu rosto, mãos, até mesmo a forma do corpo por baixo. Só se via o escorregar de botas.
Ele não tinha presença perceptível, e nem Zagreus conseguiu sentir seu grau.
Um momento depois, outra figura passou.
Ela era alta, elegante e bonita, com cabelos longos negros e olhos dourados que brilhavam como moedas polidas. Sua expressão tranquila mudou um pouco ao notar Zagreus.
Depois, veio uma mulher mais jovem, seguindo atrás.
Ela tinha cabelo azul, chifres curvados e carregava uma bolsa de viagem pendurada no ombro. Parecia resignada, como se tivesse aceitado seu destino e estivesse esperando pelo inevitável.
Zagreus inclinou a cabeça levemente. "Barbatos, Asmodea, e..."
"Leonora. Ela é minha discípula." Asmodea ofereceu um pequeno sorriso.
"Leonora," repetiu. "Prazer em conhecê-las."
Leonora fez uma reverência superficial, sem realmente olhar nos olhos dele.
O gato espiritual dela saiu do saco, com os olhos atentos, como se esperasse algo ruim acontecer a qualquer momento.
Antes que mais palavras fossem trocadas, o portal atrás deles ondulou novamente.
Gremory saiu às pressas, quase tropeçando de tanta pressa.
Seu robe roxo escuro estava meio aberto no ombro, e seu cabelo comprido parecia que tinha sido puxado por horas.
Seguindo atrás dela, vinha um cão de três cabeças enorme, Cérberus. Cada cabeça se movia de forma independente. Seus olhos brilhantes escaneavam tudo ao redor.
"Príncipe Primeiro!" Gremory se curvou uma, duas, várias vezes. "Desculpe, foi muito tempo para reuni-los—houve problemas na competição de discípulos e—"
"Não estou chateado," disse Zagreus, levantando a mão para interromper as desculpas incessantes dela.
De qualquer forma, Gremory se curvou mais uma vez, por respeito.
Asmodea, que estava por perto, soltou um suspiro silencioso.
"Ela ainda é a mesma," murmurou. "É como se esses Ceifadores nem tentassem mudar."
Barbatos ficou ao lado, silencioso como sempre. Não falou nada, embora sua cabeça sob o capuz tenha se mexido levemente quando Cérberus rosnou.
Zagreus percebeu também.
Ele virou-se para o animal.
Cérberus, normalmente empolgado em vê-lo, não latiu nem pulou como costumava fazer.
Nem uma das cabeças balançava o rabo.
Ao invés disso, eles olhavam ao redor, rosnando como se estivessem alertando algo para se afastar.
Estavam fixos no ar.
Ou melhor, nos Elementais do Caos que existiam por toda parte.
"Cérberus," falou Barbatos de forma calma ao animal, "Você não precisa ficar assustado."
A cabeça do meio parou de rosnar. As cabeças esquerda e direita movimentaram as orelhas, mas não desviaram o olhar da fumaça no ar.
"Este lugar pode abrigar uma entidade incômoda, mas não se esqueça que temos o sangue do Monarca. Qualquer morte, seja de origem Chaos ou de alguma fonte distorcida, mal nos afeta."
As palavras não eram uma jactância. Eram uma afirmação factual.
Cérberus não respondeu por um momento.
As cabeças trocaram olhares, depois voltaram para Barbatos. Lentamente, o rosnar foi diminuindo.
Então, como se alguém tivesse trocado um interruptor, Cérberus começou a trotinar alegremente.
As três cabeças latiam uma vez e correram direto para Zagreus.
Seus patas gigantes atingiam o chão ruidosamente, as caudas balançando como moinhos de vento. A cabeça do meio pulou, lambendo seu rosto, enquanto as outras duas esfregavam seu braço e peito.
Pela primeira vez em um bom tempo, Zagreus sorriu.
Ele coçou sob o queixo do animal, uma de cada vez, sorrindo também.
"Fico feliz em ver vocês também."
Enquanto tudo aquilo acontecia, a atenção de Barbatos estava em outro lugar.
Sua cabeça virou um pouco, não em direção ao príncipe, nem aos outros ao redor.
Sua visão estava fixa mais ao fundo, em uma figura solitária ao lado de um enorme machado.
Chamas baixas gorgolejavam sob ele. Eram azul-brancas e sem fumaça.
E, ao centro, totalmente absorto em seu trabalho, havia um homem manejando martelos maiores que ele mesmo.
Os dois martelos flutuavam no ar, sustentados por telecinese.