
Capítulo 167
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Neo a encarou, sem acreditar nas próprias palavras.
"A razão pela qual você não consegue controlar o Tempo é porque ainda não o manifestou."
"…?"
Um fino fio de água surgiu ao redor de Elizabeth.
Ele girou ao redor dela em um laço.
"A Morte se manifesta como relâmpagos vermelhos. E o que você acha que o Tempo se manifesta?"
"Rio."
Neo respondeu, enquanto observava o fluxo de água.
"O Tempo flui, assim como a água."
"É assim que a maioria das pessoas imagina o Tempo. Mas não é isso que quero saber.
"Estou perguntando qual imagem, na sua opinião, combina com o Tempo."
"…?"
Neo não conseguiu entender o que Elizabeth tentava dizer.
"Ao contrário da maioria dos elementos, o Tempo não possui uma forma fixa.
"Alguns Manipuladores de Tempo manifestam o Tempo como areia, outros como relâmpagos.
"Essa é a representação deles do Tempo."
Neo compreendeu um pouco mais após a explicação.
Lembrou que, antes de sua primeira regressão, o Professor Daniel lhe perguntou se ele possuía elemento água.
'Será que ele fez essa pergunta pensando em saber se eu poderia associar o Tempo à imagem da água?'
Neo achou que seu palpite estava correto.
"O Professor Daniel provavelmente não te ensinou sobre isso porque desconhecia o conceito de 'Manifestação'.
"É uma teoria relativamente nova sobre o despertar elemental."
Elizabeth explicou.
Após o despertar elemental, veio a manifestação do elemento.
A maioria dos elementos tinha formas fixas.
Fogo como chamas.
Água como água.
O Tempo era diferente.
Não tinha uma forma definida.
As pessoas precisavam dar uma forma a ele.
Maioria dos Manipuladores de Tempo seguiam os ensinamentos de Cronos e manifestavam o Tempo como um rio.
Após a explicação, Elizabeth olhou para Neo.
"O que você acha que o Tempo é?"
Era uma questão de natureza abstrata.
Elizabeth não acreditava que Neo pudesse responder de imediato.
Associar uma imagem ao Tempo poderia levar meses ou até anos.
Neo era jovem demais —
…!?
Elizabeth franziu a testa.
Os elementais do Tempo presentes no ar se agitaram.
Eles se reuniram em volta de Neo como se ele fosse o centro de uma tempestade e entraram em seu corpo.
'Ele já está manifestando…?'
Ela não podia acreditar no que via.
…
Neo percebeu os elementais do Tempo entrando em seu núcleo.
Como seu núcleo havia sido esvaziado por Elizabeth, ele tinha mais facilidade em absorver Energia Divina infusionada com o Tempo.
"O que é o Tempo para mim?"
Neo refletiu sobre as palavras de Elizabeth.
Ele fechou os olhos e lembrou-se dos anos que passou enquanto regressava.
Foi um período longo.
Porém, o significado do Tempo não veio desses anos para ele.
Embora tenham sido muitos, comparado às eras que passou na quarta visão da Esfinge, foram poucos.
"O Tempo é uma eternidade sem fim."
Na quarta visão, ele foi forçado a viver bilhões de anos, preso num corpo que não podia controlar.
"Tempo é…"
Ele quis morrer.
Ele entrou em fúria, chorou, implorou aos Deuses, aos Registros Akáshicos, para que o salvassem, para que o deixassem morrer, mas nada lhe deu a salvação que buscava.
Viveu, durante eras, contra sua vontade.
Continuou flutuando naquele vazio, onde incontáveis insetos tentavam comê-lo.
Era um inferno.
Era….
"Desespero."
A tempestade dos elementais do Tempo que invadiu o corpo de Neo fez a mansão tremer.
Neo era o centro da tempestade.
Os elementais fizeram o piso envelhecer em ritmo acelerado.
A sala de treinamento estava se desintegrando.
'Como ele consegue estar bem após absorver tanto Tempo?'
Elizabeth nunca tinha visto algo semelhante antes.
'É como se… ele estivesse devorando Tempo.'
A quantidade espessa de elementais do Tempo entrando em Neo começou a fazer seu corpo envelhecer.
Ele ficou mais velho.
E mais velho.
Seu corpo atingiu a idade física que tinha antes de ser Erodido pelas regressões.
Justo quando Elizabeth achou que ele continuaria envelhecendo, seu corpo parou de amadurecer.
O Tempo não conseguiu mais acelerar sua idade.
'Imunidade à idade? Será que isso é uma habilidade de sua linhagem?'
Ela observava maravilhada enquanto cada gota do elemental do Tempo entrava no corpo de Neo.
Ele abriu os olhos.
Seu olhar transmitia uma aura profunda.
"Você manifestou o Tempo?" ela perguntou com sarcasmo.
Neo sorriu.
Abriu a palma da mão e mostrou uma lagarta que estava ali.
"O que é isso? Um verme?"
"É minha manifestação do Tempo."
Para Neo, o Tempo era sinônimo de Desespero.
Era uma força imprevisível.
Quando pensou em uma imagem para relacionar ao Tempo, os vermes vieram à sua mente.
Eles eram sua única companhia na eternidade sem fim.
Ele os desprezava.
Mas também lhes era grato.
"Isso é uma forma… única."
Elizabeth sabia que Neo manifestaria uma forma única de Tempo.
Mas uma lagarta?
Isso era inédito na história.
"O que ela pode fazer?" Elizabeth questionou.
"…?"
"Diferentes formas de manifestação do Tempo possuem habilidades e fraquezas distintas.
"A manifestação do Rio facilita a regressão.
"Por outro lado, o manipulador de Tempo fica mais vulnerável a escorregamentos do Tempo."
"A manifestação da Areia consegue parar o Tempo com mais facilidade do que a do Rio."
"Porém, isso não funciona se o oponente tiver o mesmo ou maior domínio elemental — em qualquer elemento — do que ele no elemento Tempo."
Elizabeth apontou para a lagarta.
"O que o seu Tempo pode fazer?"
Neo tentou fazer a lagarta se mover.
A coisa verde abriu um olho, o encarou, bufou e voltou a dormir.
'Ela acabou de me insultsr?'
Axilou as sobrancelhas.
"Eu não consigo controlá-la."
'Por enquanto.'
"Parece que ela tem ego próprio," Elizabeth comentou.
Ela ficou mais confusa ao ver a manifestação de Neo agindo por conta própria.
Neo tentou forçá-la a fazer algo — qualquer coisa — mas a preguiçosa lagarta se recusou a se mexer.
"É bastante caprichosa."
Ele sorriu.
"Parabéns, você concluiu seu despertar."
"Obrigado."
Silêncio.
Os dois se encararam.
Elizabeth foi quem quebrou o silêncio primeiro,
"O que vai fazer agora? Vai regressar de novo? Ou vai continuar aqui?"
Neo sorriu com os lábios fechados.
Ele estava bem sem regressar.
Embora nunca reclamasse, odiava regressões.
Elas apagavam suas relações com as pessoas.
Por isso, parava de encontrar amigos e entrava na Masmorra assim que regressava.
"Eu—"
Mesmo com dúvidas, ele decidiria voltar ao passado.
Deixou coisas demais sem resolver.
Elizabeth falou antes que pudesse responder,
"É a decisão certa. Não se culpe tanto por isso."
"…."
Neo rangeu os dentes.
Poderia concordar e seguir em frente.
Mas falou as palavras que saíram involuntariamente.
"Por que você está tão calma? Você vai esquecer tudo o que aconteceu. Até mesmo este momento."
"Assim que eu regressar, todas as suas escolhas do último mês vão virar nada —"
"Neo."
A voz dela cortou seu discurso.
"Por que você não ficou triste quando estava para morrer na Masmorra?"
Neo não compreendia a intenção por trás dessa pergunta.
Mesmo assim, respondeu.
"Porque a Morte não é algo para se temer. Aceitei-a quando decidi dominar o elemento da Morte."
"Se eu morrer, morro. É só isso," afirmou.
"O mesmo vale para o Tempo. Se você quer dominá-lo, precisa aceitá-lo."
Elizabeth acrescentou.
"Você não pode ficar preso a questões pequenas, pensando se o seu regressar vai prejudicar os outros."
"Não há problema em usar seus poderes — os poderes que você trabalhou arduamente para conquistar — para suas próprias escolhas."
Neo fechou a mão em um punho apertado.
Elizabeth percebeu que Neo tinha dificuldade em aceitar sua resposta.
Ela se aproximou dele e o abraçou de forma um pouco constrangedora.
A ponta de suas orelhas ficou avermelhada.
Para garantir que Neo não visse seu rosto, falou baixo,
"Você não precisa se preocupar comigo.
"Desde que você esteja feliz, para mim já é suficiente."
Ela sorriu.
"Você é tão importante quanto a Amelia para mim."
"Prefiro te ver usando suas habilidades para você mesmo do que desperdiçá-las por minha causa."
"Agora vá. Tenho certeza de que você ainda tem coisas a fazer no passado."
Elizabeth o soltou e deu um passo para trás.
No momento exato, um portal prateado apareceu dentro da mansão.
O diretor e suas duas trabalhadoras poupudas estavam do outro lado do portal.
"Houve uma grande mudança nos elementais do Tempo ao redor da mansão. O que aconteceu?" questionou Charlotte.
"Neo manifestou o Tempo."
"Já?"
Elizabeth assentiu.
Charlotte o olhou intensamente.
Ela o chamou para perto.
"Se você manifestou o Tempo, vá até o Professor Daniel. Ele não tem muito tempo de vida."
"Ele logo irá escorregar no Tempo novamente, e duvido que consiga controlar isso."
Neo concordou.
Uma das bonecas do puppet entrou na sala de treinamento e criou outro portal.
"Tchau," disse Neo sem olhar para trás e entrou no portal.
Ele apareceu no corredor fora do escritório do Professor Daniel.
O portal se fechou atrás dele.
Uma voz veio do outro lado da porta.
"Entre."
Neo abriu a porta.
Encontrou o olhar do Professor Daniel.
O homem parecia tão jovem quanto sempre.
Mas, após manifestar o Tempo, ele conseguiu sentir os elementais instáveis do Tempo ao redor do professor.
"Você despertou o Tempo."
O Professor Daniel não elogiou; apenas reconheceu a conquista.
"Sente-se."
Neo obedeceu.
Os dois se encararam.
Neo quebrou o silêncio.
"Então a razão de você ter me dado um prazo foi porque não aguentava mais?"
"Sim."
Neo franziu os lábios.
"Você esteve me mandando de volta de propósito só para D-180 a D-120 dias?"
"Sim."
"Por quê?"
"Se eu te enviasse mais para trás, seria uma sobrecarga pra mim."
"Não fazer isso foi a razão de eu poder te mandar tantas vezes."
"Era ou te mandar mais cedo para o passado, só algumas vezes, ou te mandar várias vezes para uma data próxima."
Antes que Neo pudesse questionar novamente, o Professor Daniel falou:
"Não se preocupe. Depois desta, eu te envio de volta ao seu tempo original."
"E você?"
"Não importa."
O Professor Daniel balançou a cabeça.
"Importa pra mim."
"Apegos emocionais? Você deveria parar de dar importância a isso."
"É vergonhoso para um manipulador das Trevas."
O próprio Professor Daniel reclamou.
"Essa não foi a questão que perguntei." Neo se inclinou. "O que vai acontecer com você depois que me enviar de volta ao passado?"
O professor suspirou.
Ele massageou a testa.
"Vou escorregar no Tempo. Provavelmente acordarei alguns séculos depois."
Neo ficou sem palavras.
Ele nem conseguia imaginar como o Professor Daniel permanecia calmo, sabendo o que iria acontecer com ele.