
Capítulo 468
Um guia prático para o mal
“Pois embora os deuses do Alto tenham estabelecido o caminho da retidão para que todos pudessem ver, também os deuses do Inferno criaram centenas de outros que parecem exatamente com ele.”
– Trecho de ‘As Verdades da Costa’, uma coletânea dos ensinamentos de Arianna Galadon (considerado texto sagrado apenas em Procer)
Hanno precisaria ser muito cuidadoso para garantir que Christophe de Pavanie estivesse vivo até o final disso tudo.
Mesmo enquanto meia dúzia de gritos surgiam após o desafio do Cavaleiro do Espelho, o homem de pele escura questionava se deveria, primeiro, ter conversado com o outro cavaleiro sozinho. Não, decidiu. Isso também teria sido um erro. Seria tratar Christophe como uma doença a ser colocada em quarentena, e não como um camarada cujas dúvidas precisavam ser acalmadas. Hanno não era mais senhor dos heróis do que eles eram senhores da Criação, e embora as exigências da experiência frequentemente o levassem a caminhar na linha tênue entre liderança e autoridade, ele nunca deveria cruzá-la de forma voluntária.
“Sente-se, Christophe,” chamou o Viajante com a Lança, “isso é—”
- Pelas divindades, vou devolver o senso para dentro de você—
“Silêncio,” disse o Cavaleiro Branco.
A ondulação de poder em sua voz acabou com a cacofonia na sala, como se fosse magia. O Cavaleiro do Espelho ficara rígido, como se a explosão de raiva fosse indiferente a ele, mas a ligeira curva para frente em seus ombros revelava o contrário. Ainda assim, por mais que as bochechas de Christophe estivessem avermelhadas, ele não desistiu. O orgulho era a corrente ao redor do seu pescoço, e agora Hanno teria que encontrar uma maneira de garantir que ela não o afogasse. Mas, primeiro, o veneno precisava ser extraído. O Cavaleiro Branco não se levantou, nem reagiu além de virar a cabeça para falar apropriadamente com os outros Nominados. Christophe o encarou com olhos carregados de tensão, o cabelo castanho claro disperso.
O ângulo de seus braços fazia com que as braçadeiras polidas em seus pulsos refletissem apenas uma névoa confusa.
“Vamos evitar mal-entendidos,” Hanno falou com calma. “O que você quer dizer, Christophe, ao dizer ‘Eu não permito’?”
“Quantos de nós precisam morrer antes que você aceite a verdade do que fez nos envolver?” disse o Cavaleiro do Espelho. “O Poeta Exaltado foi atingido pelas costas por um dos Pés de Praga, e quem aqui falou alguma coisa a respeito?”
“Ele era um traidor,” declarou friamente a Artífice Abençoada. “Que bom que não está mais por aqui.”
Ela parecia mais confusa do que suas palavras indicavam, Hanno pensou, mas, aqui e agora, ela tinha escolhido a raiva em vez de dúvidas. Poucos na sala compartilhavam suas apreensões, dado que o homem tinha sido visto trabalhando com as fadas da Corte de Outono. Quaisquer que fossem seus motivos, ele havia se aliado às criaturas que assassinaram soldados e destruíram obras dedicadas ao fim do Morto. E, ao tentar trair dois heróis no processo, sua memória se tornou cada vez mais desprezada: o rosto do Viajante com a Lança ficou gélido à menção do Nome, pois ela também era Levantina e interpretava a traição como uma ofensa à honra de Levant como um todo.
“Traidor do quê, exatamente?” disse Christophe de Pavanie, quase gritando. “Das regras e dos planos de um Maldito? De ‘termos’ que nos fariam assassinar uma mulher por matar seu próprio estuprador?”
“Você não respondeu à pergunta do Cavaleiro Branco,” interrompeu o Príncipe Albatroz, com voz ponderada. “Está ameaçando pegar em armas para impor sua vontade, Christophe de Pavanie?”
A mão do príncipe loiro escorregou, um pouco, em direção à espada na cintura. Hanno confiava mais nos colegas do que esperar que eles lutassem como bêbados de taberna, mas, se houvesse luta, suspeitava que quem sairia vencedor ali não era o Príncipe de Brus. O papel do Príncipe Albatroz era marcial, mas também soldado de natureza. Ele podia transformar um grupo de cavaleiros em uma lança imbatível ou lutar como um campeão para seu anfitrião, mas não era páreo para o Cavaleiro do Espelho em um duelo.
“Deixe-o falar,” disse hesitante o Peregrino Arrependido. “Ou virou pecado até mesmo falar contra os Termos?”
“Pra quê? Isso não é uma votação,” respondeu a Ferreiro Amargo com franqueza. “Não adianta fingir que não, os Termos estão aqui pra ficar. Podemos reclamar o quanto quisermos, mas no final das contas, eu prefiro dividir um quarto com um vilão do que com um Revenant.”
“Com que frequência vamos ser obrigados a abaixar a cabeça usando esse argumento?” perguntou o Cavaleiro do Espelho, girando para ela e varrendo a sala com o olhar. “Aceite isso, ou o Rei Morto leva todo mundo. Primeiro acolhemos os vigaristas. Depois os ladrões, depois os estupradores, depois os assassinos— e só Deus sabe o que vem depois. Qual coisa única que não podemos engolir, quando colocada em contraste com o fim do mundo?”
“Falado como um filho do verão,” disse a Ferreiro Amargo, o tom ficando duro. “Não há negociação com a noite: faça o que deve ser feito ou desapareça.”
Ela não era a única ali com dúvidas, embora o apelo de Christophe não tivesse sido sem efeito. Tampouco era sem sentido, Hanno sabia. Era fácil justificar toda espécie de crueldade traçando uma linha invisível que ligasse a evasão delas à vitória de Keter. Mas isso não era desculpa para ignorar o que ainda estava por vir no horizonte, aguardando um deslize. Não surpreendia o Ashuran que fosse Roland quem desse uma resposta adicional, pois poucos entre eles entendiam melhor o que aguardava a todos.
“Nós contrastamos com o fim do mundo,” disse sutilmente o Mago Furtivo, “porque o fim do mundo se aproxima. Não é uma figura de retórica, Cavaleiro do Espelho. É o que acontecerá neste inverno se fizermos muitas bobagens.”
“Já vencemos guerras assim antes,” discordou a Artífice Abençoada. “E as vencemos sem destruir o que somos.”
“Não vencemos,” disse o Viajante com a Lança. “São tantas tropas, tantos Investidos, e tudo o que conseguimos é resistir? Não houve guerra como esta, talvez desde a Temível Imperatriz.”
Até em Levant a lembrança de Triunfante ainda não havia sumido completamente. Centenas de milhares morreram na criação do Lago do Titã, e a maioria não eram Gigantes. Tampouco eram exatamente levantinos, mas eram parentes dessas tribos que um dia se tornariam o Domínio de Levant. Era uma conversa importante, o que se dizia, e uma conversa necessária. Mas ela tinha se desviado das palavras que a iniciaram. Isso não era acaso.
“Medo, Christophe,” disse Hanno, com sua voz cortando a sala. “É isso que vejo agora. Você falou palavras, e agora as teme.”
O homem de olhos verdes virou um olhar ardente para ele.
“Você pode retirá-las,” continuou Hanno. “Faladas com calor, podem ser deixadas de lado quando o calor diminui. Ou você pode Mantê-las, se essa for sua escolha. Mas essa farsa de que elas não foram ditas é uma afronta a todos aqui. Termine logo com isso.”
Ele simplesmente não podia deixar que o veneno permanecesse na carne, por mais que fosse doloroso extrair. Pois Christophe sairia desta sala acreditando que poderia continuar desafiando o poder da Aliança Suprema sem consequências, que um Nome e uma espada o tornavam invencível. Ele não via o poder dos inimigos que criava, como até a opinião popular sobre sua fama poderia mudar com o vento. Se o Exército de Callow e os Primogênitos abandonassem os fronts por causa de suas ofensas e se isso fosse divulgado, quanto tempo levaria para que de Rhenia a Tenerife começaram a gritar por sangue de Christophe de Pavanie? Alguns acreditavam que a Bruxa Negra havia se acalmado, perdido seu ardor, mas o Cavaleiro Branco sabia melhor.
Havia um ditado, em Ashur, que dizia que uma leoa em sua toca era duas vezes mais perigosa do que no campo.
“Não permitirei que alguém mate o Machado Vermelho,” disse o Cavaleiro do Espelho, “não quando—”
“Isso é traição,” interrompeu o Príncipe Albatroz. “Você estaria se levantando contra o Primeiro Príncipe e a Assembleia Superior, sem falar no resto da Aliança.”
Era um sinal do respeito que lhe tinham na sala que ninguém tivesse sequer considerado reclamar que ele era os olhos e ouvidos do Primeiro Príncipe aqui, embora ele tivesse mencionado mais o conselho de Cordelia Hasenbach do que sua própria opinião. Claro, aqueles que não perceberiam tenderiam a interpretar isso como seu representante na Assembleia Superior compartilhando conhecimento com eles, e não o contrário. O que tornava ainda mais evidente que o Mago Furtivo, apenas por defender a moderação e os Termos, havia sido acusado de ser criatura de Catarina. A mancha associada à magia nestas terras, o White Knight pensava frequentemente, era um dos venenos mais insidiosos que já vira.
“Tomar as armas?” disse Roland calmamente. “Não. Tomar as armas é coisa de exército ou de um bando armado. Quando um único homem faz isso, é simplesmente considerado um crime.”
Ele quis reforçar o sentimento de inutilidade de uma postura assim, mas, por uma vez, o outro herói interpretou mal o ambiente. Isso foi tomado como desafio, e Nomados aprendem a responder a desafios de uma única maneira. Uma cadeira caiu com um estrondo.
“Ele não estaria sozinho,” disse a Espada de Compaixão.
O jovem parecia animado e aterrorizado ao mesmo tempo, posicionando-se ao lado de alguém que admirava, mas incerto quanto às consequências. O calor crescia na sala, e até aqueles que não concordariam totalmente com os argumentos de Christophe estavam sentindo uma inclinação misteriosa por ele agora. Adanna, Sidônia e até o Peregrino Arrependido pareciam perturbados com o que tinha acontecido. Estamos condicionados a isso, pensou Hanno. Condicionados. A ficar do lado do desfavorecido, do cavalo escuro. A maioria de nós já esteve nesse lugar, uma vez na vida, e aquilo ainda nos chama. Mas, desta vez, ele poderia e iria impedir essa escalada.
“Como,” disse calmamente o Cavaleiro Branco, “você vai impedir a execução do Machado Vermelho?”
Houve um momento de silêncio. Hanno olhou deliberadamente para o pomo da Sevíria, deixando seu olhar permanecer por um instante.
“É assim?” perguntou. “Vai me cortar, Christophe?”
“Não vou te matar,” disse o Cavaleiro do Espelho, “a menos que me obrigue a isso.”
E assim, ele perdeu a sala e a narrativa junto. Já não era mais o rebelde combatendo a tirania: era um homem ameaçando matar um camarada para obter o que queria.
“Você deseja tanto fazer parte da injustiça, Hanno de Arwad?” disse o Cavaleiro do Espelho. “Nem me deixaram falar com o Machado Vermelho, sabia? Ordem da Rainha Negra. Ela será brutalizada numa sala sombria—”
“Após uma audiência,” respondeu calmamente o Cavaleiro Branco. “Após ouvir as provas, determinar a culpa, proferir a sentença e executá-la. Que será, quase certamente, a morte. Que ela matou o Feiticeiro Malvado e tentou matar o Príncipe Albatroz, isso não há dúvida, é fato estabelecido.”
O último homem observava tudo atentamente, percebeu Hanno. Ele tinha falado pouco, mas não perdeu nada. Frederic Goethal, concluiu o Cavaleiro Branco, não tinha vindo hoje para orientar a conversa de uma maneira ou de outra, mas para determinar as posições e alianças dos demais heróis. E, embora fosse inteligente como qualquer príncipe de Procer, Hanno não duvidava que essa fosse uma estratégia de uma mente ainda mais astuta. Cordelia Hasenbach gostava de conhecer bem o quadro antes mesmo de lançar seus dados.
“Ela foi usada pelo Bardo Errante,” disse o Cavaleiro do Espelho, “como muitos de nós fomos. E, mesmo assim, os Escolhidos devem morrer por essa ofensa, enquanto a Rainha Negra deixará escapar seus Malditos com uma simples advertência. E esses são os termos que vocês querem que sigamos?”
Hanno inclinou a cabeça, pensativo. Ele achava inútil continuar argumentando que Catarina ainda não tinha proferido julgamento algum e que ela daria as sentenças por outros crimes também. Encher de detalhes não levaria a lugar algum, pois o Cavaleiro do Espelho não buscava debate de fato. Seus dedos buscavam uma pedra para lançar, não uma resposta para ponderar.
“Sim,” respondeu Hanno.
Christophe parou visivelmente, surpreendido pela resposta inesperada.
“Vou julgar o Machado Vermelho e executar a sentença,” declarou o Cavaleiro Branco, de forma definitiva. “Neste ponto, não posso ser persuadido nem barganhado. Será feito, ponto final. Agora você pretende me matar, Christophe? Não vou lutar com você, se essa for sua escolha, então atalhe sua vez.”
Os olhos de todos na sala se voltaram para o Cavaleiro do Espelho, cuja face ficou vermelha. Sua mão estava no pomo da espada, mas ele não a desenhara. Até a Espada de Compaixão recuou um passo dele. Antoine não era do tipo que deixaria a admiração se sobrepor à relutância de matar frio e calculadamente.
“Vamos supor que você me mate,” falou suavemente Hanno. “O que acha que vai acontecer? A Aliança Suprema vai libertar o Machado Vermelho?”
“Quem vai decidir a sentença será o representante dos Escolhidos,” respondeu duramente o Cavaleiro do Espelho. “Não finja que não.”
“E matar-me faria de você o representante?” perguntou Hanno.
O cavaleiro de cabelos escuros deu um passo para trás, como se fosse atingido.
“Teriam que,” disse, titubeando na palavra. “Seria óbvio que...”
“Você precisaria da concordância de todas as coroa consituintes da Aliança Suprema,” disse Hanno. “Se acha que a Rainha Negra está tramando contra nós, por que ela concordaria?”
O homem de pele escura se inclinou sobre a mesa.
“Se ela recusar,” perguntou Hanno, “você a mataria também?”
“Ela é Maldita,” defendeu o Cavaleiro do Espelho.
Ele recuou, no entanto. Já era impossível defender o terreno que havia se perde. Sentiria, a sala toda virando contra ele. Até aqueles que considerava seus aliados, por mais distorcida que fosse essa ideia de aliados.
“E se o Primeiro Príncipe recusar?” continuou Hanno. “E se o Santo Seljun fizer o mesmo, depois? O que fazer, Christophe? Quantas cabeças precisará cortar antes que ninguém reste para discordar de você?”
“Não matei ninguém,” disse o Cavaleiro do Espelho, com a voz enfraquecendo. “Não precisa ser eu, o representante. Pode ser qualquer um de nós, contanto que vejam o que vocês não querem mais ver. O que vocês não podem mais ver.”
Os dedos do cavaleiro de cabelos escuros apertaram o cabo da espada. Hanno não se tensionou. Por quê? No fim, ele simplesmente não acreditava que estivesse diante de alguém capaz de matar um homem desarmado sem misericórdia.
“Você não é mais a Espada do Julgamento, Cavaleiro Branco,” disse Christophe de Pavanie. “Os serafins ficaram em silêncio, você não fala mais com sua bênção. O que o diferencia de nós agora, Hanno de Arwad?”
E ali estava seu erro, exposto. A crença de que a justiça alguma vez esteve em Hanno, quando sempre esteve nos serafins. Hanno não tinha ficado mais cego, por virtude de sempre ter sido cego.
“O que nos diferencia,” respondeu Hanno de Arwad, “é que você está de pé, com a mão na espada.”
O Cavaleiro do Espelho se encolheu, os dedos deixando o cabo de Sevíria como se fossem queimados. Bastaria, Hanno rezou. Ser mostrado a si mesmo num espelho, despido de todas as pequenas mentiras que as pessoas contam para suavizar as arestas do mundo, seria suficiente. Christophe não era um homem ruim, mesmo em seus piores momentos. Seus erros eram moldados pelo orgulho e medo, mas derivados de uma base de boas intenções. E, se terminasse ali, se Hanno tivesse acertado mais uma vez, poderia tudo acabar sem sangue derramado. Catarina voltaria ao seu pragmatismo usual assim que não se sentisse mais acuada, o Primeiro Príncipe recuaria se ela achasse que a situação tinha sido resolvida, e não havia mais ninguém que quisesse enfrentá-lo por Christophe. Hanno virou seu olhar para o reflexo dele nas braceletes do Cavaleiro do Espelho, um reflexo fugaz, porém assustadoramente vívido por aquele instante. Parecia calmo, pensou o homem de pele escura, mas também distante. Quase indiferente.
Hanno sentiu a mudança na atmosfera, mesmo a milhares de léguas de qualquer mar.
“Você não é o único que pode ter princípios, Cavaleiro Branco,” disse Christophe. “Você está disposto a morrer por isso? Eu também. E se você não libertar o Machado Vermelho, eu o farei.”
Severance saiu do coldre com um som de assobio ascendente, como se cortasse o próprio ar do salão. A manga do Cavaleiro do Espelho rasgou-se com cortes finos que pareciam veias, mas as braçadeiras polidas permaneceram intactas. Ele já estava aprendendo a usar o artefato, pensou Hanno, embora, se não fosse pelo som do assobio, Severance dificilmente pareceria uma espada. A espada de armadura, por mais poderosa que fosse, não tinha aparência de armas de fantasia. Seu aço era fino, com pequenas padrões sombrios como trilhas de fumaça quase invisíveis ao olho nu, mas não brilhava nem reluzia, nem ostentava algum encantamento exótico. A guarda era reta, o pomo era uma esfera angular, e o cabo tinha uma empunhadura de ferro. A bainha era ornamentada, mas a espada? Não, ela não suportaria decorações. Ainda havia vestígios de Laurence de Montfort ali, que tal frivolidade teria sido gravada ali mesmo.
Três pessoas se levantaram rapidamente – Sidonia primeiro, depois o Príncipe Albatroz e, por último, Roland – mas Hanno não era um deles. Ele fixou seu olhar naqueles olhos verdes, firme.
“Nada do que você busca pode ser conseguido com isso,” disse, apontando para a lâmina.
“Você colocou aço contra aliados,” disse a Viajante com a Lança, com tom frio, enquanto empunhava uma faca. “Guarde a espada, ou será tratado como inimigo.”
O Príncipe Albatroz também sacou sua espada, que saiu com um som abafado, e Roland recuou sua cadeira para ter uma linha clara para suas magias. A Espada de Compaixão carregava apenas uma faca de caça na cintura, mas a puxou, ficando ao lado do Cavaleiro do Espelho e protegendo seu flanco.
“Isso é loucura,” disse o Cuca-Ferro. “Somos Escolhidos, não—”
“Guarde a espada, Cavaleiro do Espelho,” interrompeu calmamente o Príncipe Albatroz. “E coloque-a na mesa: você provou que não é mais digno de portá-la.”
“Chega,” disse finalmente o Cavaleiro Branco, levantando-se. “Christophe—”
Hanno viu, pelo canto do olho, os olhos de Helmgard se tornarem duros enquanto ela encarava o Cavaleiro do Espelho. Ele, por sua vez, estava, seu sempre, um pouco lento demais. A Ferreiro Amargo socou a mesa contra Christophe, quase virando-a, e o inferno estallou. Hanno tentou segurá-la, mas ela escorregou por entre seus dedos, e antes que pudesse fazer algo mais, Severance abriu um corte estranho, preciso, através da mesa. A Viajante com a Lança já ia dar um salto, faca erguida, mas a Espada de Compaixão tentou impedi-la enquanto o Cuca-Ferro tentava se desvencilhar. Helmgard já tinha puxado metade da mesa e a balançava com força suficiente para partir pedra— o Cavaleiro Branco, com luz envolvendo sua mão, quebrou a mesa na sua própria mão.
Antoine tentou evitar o velho cego entre ele e Sidônia, conseguiu, mas escorregou. O pé da Viajante com a Lança acertou-lhe o queixo, e ele caiu; mas, antes que Sidônia tentasse avançar contra o Cavaleiro do Espelho, um raio de luz lançado por Adanna passou na sua frente— atingiu a lateral da braçadeira esquerda de Christophe, e a maior parte dela voou para longe, embora o metal estivesse quente. O Príncipe Albatroz se moveu com a graça de um bailarino, abaixando-se por baixo de Helmgard e chegando até o flanco do Cavaleiro do Espelho. A espada se cruzou e o príncipe alemão defendeu-se com destreza suficiente para que sua lâmina não fosse apenas cortada ao meio, mas, em termos de força, era superado e teve que recuar.
Hanno não deixou que ele avançasse, agarrando-o pelo pescoço—o homem se assustou completamente—e o jogou para o fundo do salão de forma abrupta. A Espada de Compaixão tinha se levantado e tentou empurrar de volta a Viajante com a Lança, mas ela virou o golpe, segurou seu ombro e o fez ajoelhar. Passando a faca para a mão livre, ela a girou, preparando-se para atacar. De onde Hanno estava, podia ver que ela pretendia acertar a têmpora de Antoine com o pomo da faca, após girá-la; mas, de onde o Cavaleiro do Espelho via, tudo que se via era a Espada de Compaixão ajoelhada e a Viajante com a Lança recuando o braço para aplicar o golpe.
O Cavaleiro Branco viu tudo se encaixar, como se estivesse olhando de cima, de relance. O pulso de Christophe se levantando no momento em que se preparava para o golpe, avançando passo a passo por entre estilhaços de madeira voando pelo ar. Sidônia, ao perceber aquele movimento pela visão periférica e tentando reagir—perdeu o ritmo, e o que teria sido um golpe com a empunhadura, ao descer, virou um ataque com a ponta da faca. Ao virar-se para o golpe, o que teria sido um corte no pulso dela passou a atravessar a sua face frontal. Certamente a mataria, mesmo que não fosse intencional.
A janela de oportunidade seria curta, pois todos ali eram Nomados, mas ele não era o menos habilidoso do seu tipo. O Cavaleiro Branco moveu-se com propósito, equilibrando tudo em uma única respiração. Sua mão esquerda segurou o pulso de Sidônia antes que ele alcançasse completamente seu alvo, deixando apenas um leve arranhão na pele de Antoine, sem sangue. Com a outra, desviou a Severance, forçando a lâmina para o lado e impedindo que qualquer vida fosse ceifada. O fio da espada cortou as primeiras duas falanges do dedo médio, e também o anelar e o mindinho, antes de desviar, encerrando o golpe antes que tocasse o chão.
Hanno ainda não tinha sacado sua espada.
“Não,” gritou Christophe, puxando para trás.
Os dedos do Cavaleiro Branco caíram ao chão. O corte foi limpo, sem dor, mas poderia matar se—Hanno, com uma velha técnica, lançou uma onda de luz cegante, forçando a cura e a endurecimento da pele até que ficasse irremediável. Não haveria conserto para o que Severance cortou, de qualquer forma.
“Guarde suas lâminas,” disse Hanno, com seu tom impositivo, “todos vocês.”
Para isso, não era só Christophe de Pavanie. Para isso, tudo tinha chegado a esse ponto.
“Eu—” o Cavaleiro do Espelho gaguejou, “não quis ferir—”
E, antes que alguém pudesse dizer uma palavra, ele saiu correndo em direção à porta. Hanno quase amaldiçoou. Esperava angústia, não fuga. Isso poderia ser muito pior. A porta se abriu ao contrário, mas não resistiria a Nomados, e quebrou com quase nada, ao Christophe empurrar, quase virando a própria porta. O Cavaleiro Branco fez um olhar para trás, e a sombra da sala começou a se dispersar. “Por minha autoridade sob os Termos, ordeno que todos voltem às suasilhas e fiquem lá até serem chamados,” disse Hanno, com voz firme, porém calma.
Ele não ficou tempo suficiente para qualquer um começar a argumentar, e seguiu pelos corredores do Alcázar, avistando o Cavaleiro do Espelho dobrando a esquina. Christophe não teria destino, naquele momento, mas Hanno sabia que quanto mais ele corresse perseguindo pontes queimadas, mais o Cavaleiro do Espelho buscaria uma justificativa para tudo isso, qualquer coisa. E isso incluía a Machado Vermelho. Se Christophe ferisse ou até matasse por engano os guardas que tentavam resgatá-la, Hanno sabia que não haveria salvação para sua vida. Nenhum acordo, nenhuma barganha, quando tantos heróis haviam quebrado tantas regras. A tolerância da Aliança Suprema estaria no limite.
Da forma como estavam, só havia um jeito de resolver tudo.
O Cavaleiro Branco respirou fundo e deixou a Luz correr por suas veias, acelerando seus passos. Rasgou a pedra ao virar a esquina, com Christophe não muito à frente, e desprendeu a empunhadura de sua espada na cintura. O Cavaleiro do Espelho olhou para trás bem no momento em que sentiu o golpe vindo e virou-se para encarar o Cavaleiro Branco, escapando por pouco do golpe que lhe atingiria ao calcanhar e o faria tombar.
“Não precisava estar assim,” pediu Christophe desesperado. “Você poderia ter escutado, e ainda pode—”
“Desculpe,” respondeu Hanno. “Mas agora precisa terminar de um jeito ou de outro.”
Se eu não mostrar que sou capaz de te enfrentar fisicamente, isso só pode terminar na sua morte. Christophe realmente não queria lutar, mesmo que seu corpo tivesse uma reação instintiva ao ser atacado — por isso sua primeira tentativa foi desajeitada. Severance foi brandida rápida e vigorosamente, tentando cortar a própria bainha de Hanno, mas força sem precisão é inútil. O Cavaleiro Branco recuou meio passo, usou o calcanhar e uma lampejada de Luz na velha manobra do Flamante Lobo: a lateral de sua bainha atingiu o rosto esquerdo do Cavaleiro do Espelho, empurrando-o para o lado. A dor fez Christoph de Pavanie endurecer o olhar, e seus olhos ficaram duros.
“Perdeu uma mão,” disse o outro. “Aposente-se, ou terei que te machucar.”
Hanno já tinha vivido memórias demais para se lembrar se era canhoto ou destro originalmente, nem fazia diferença. Era perfeitamente capaz de manejar uma espada com qualquer uma das mãos.
“Sua preocupação o honra,” disse Hanno com equanimidade, “mas é desnecessária.”
Um lampejo de raiva passou pelo rosto do outro cavaleiro, e ele avançou. Um golpe simples obrigou o Cavaleiro Branco a recuar, e com um meio passo começou a fingir usar a mesma tática — mas, quando Christophe deu um soco no local do rosto, onde você estaria se reiterasse, o outro homem segurou seu pulso com a mão que tinha liberado ao largar a bainha. Luz escorrendo pelas veias, Hanno cerrava os dedos nas braçadeiras até elas amassarem, levantando o quadril e lançando Christophe de Pavanie ao chão como se fosse uma clava. A pedra rachou, não ele, e a vibração derrubou vários magelights pendurados acima. Eles tombaram, alguns trincaram, e a luz do salão começou a piscar. Christophe berrou, com Luz brilhando ao redor dele, mas Hanno também invocou essa Luz e a entrelaçou àquela do seu adversário.
Antes que o Cavaleiro do Espelho entendesse o que acontecia, ele usou a Luz agora unificada para fortalecer seus joelhos, como o monge Implacável gostava de fazer — e, sabedor que a força nos seus joelhos não mataria Christophe, colocou a sola da bota na sua garganta, sabendo que o outro era duro demais para isso. O outro homem se engasgou, e Hanno repetiu o movimento três vezes, aumentando a força a cada impacto enquanto a pedra se fraturava sob eles e o chão tremia. A mão do Cavaleiro do Espelho agarrou seu tornozelo na terceira vez, e ele empurrou a Severance para cima, quase cego. Hanno se inclinou, pegou a bainha, e deu uma chapuletada nos olhos do outro com o lado da bainha. Christophe gritou e soltou o pé, que voltou a chutar seu queixo com força total.
Infelizmente, Hanno não fortaleceu o joelho desta vez, assim a resistência na sua perna segurou bem, mas o osso do joelho rachou.
Forçando-se a suportar a dor, deu um passo para trás, esperando o Cavaleiro do Espelho se levantar e então varrer com o pé—e, desta vez, socar o pulso com a bainha da espada. Severance caiu no chão, e Christophe berrou de dor e raiva, segurando a bainha da espada e esmagando-a com facilidade. Hanno soltou a empunhadura, mas não rápido o suficiente: foi puxado para baixo até que o Cavaleiro do Espelho agarrou sua tanguinha e arrastou-o ainda mais para o chão. Ciente de que lutar com alguém que parecia de ferro seria loucura, usou sua mão ainda sangrando para enfiar um dedo na boca do outro, puxando a cara dele para o seu joelho.
O nariz de Christophe quebrou, mas também o dele, o joelho.
Porém, lhe deu tempo suficiente. Ajoelhando-se e segurando a parte de trás do pescoço do inimigo, Hanno deixou a Luz correr pelas suas veias até sentir que ela o preenchia por completo. Ele bateu repetidamente a cabeça do Cavaleiro do Espelho no chão, enquanto Christophe lutava contra a mão que tentava mantê-lo de costas para o combate. Sentiu vários ossos do adversário se partir, até que, na sexta pancada, Christophe de Pavanie caiu inconsciente. A Luz lentamente se esvaiu dele, deixando ondas de dor enquanto as luzes piscavam e o piso, agora fragmentado e ensanguentado, refletia ilustrações estranhas. Hanno respirou devagar por um tempo, até que o barulho de botas o obrigou a abrir os olhos novamente. Cuidadosamente, pegou a bainha da Severance ao lado do Cavaleiro do Espelho e a recolocou na espada, mesmo com alguns cortes superficiais nos dedos.
Soldados invadiram o corredor por ambos os lados, permanecendo sob a luz constante.
Os legionários do Exército de Callow eram os mais fáceis de reconhecer, com escudos pintados e tabardes vermelhos que identificavam alguns dos melhores soldados profissionais de Calernia, assim como a mistura única de orcs e humanos de diversas tonalidades. Mas havia também outros soldados, com cores menos óbvias, embora seus longos mantos de malha, coiffe e capacetes de aba larga os identificassem como proceranos. Espadas e lanças se mostraram em boa formação, enquanto os atiradores de Callow, agora infames por sua letalidade, se espalhavam na retaguarda. Muita confusão, pensou Hanno, por apenas dois homens—um deles consciente, além dele mesmo. Admitiu, com cansaço: fizeram bastante alvoroço.
Olhos hostis permaneciam fixos nele enquanto se levantava, com um gemido engolido de dor, mas o Cavaleiro Branco não foi saudado por nenhum oficial. Ele não esperava, na verdade. Havia só duas pessoas no Arsenal que teriam autoridade para mobilizar tropas assim, e não era comum o Primeiro Príncipe de Procer agir com tanta dureza. Com o som nítido de botas de aço no piso, os legionários se dividiram suavemente para os lados e uma silhueta sombria começou a mancar na direção dele. Mesmo com os capacetes, Hanno conseguiu vislumbrar a paixão ardente, a devoção violenta que esses soldados tinham por Catarina de Acham. Estava na maneira como eles a olhavam ao passar por ela, na altura que mantinham, na firmeza de suas costas por causa dela.
Alguns colegas de Hanno preocupavam-se com o poder da Rainha Negra, com seu domínio terrível da Noite, mas aquilo nunca tinha sido motivo de preocupação para ele. Era força, e força falha. Mas o olhar naqueles olhos, nos orcs, Taghreb, Soninke e Callowans? Aquilo era algo perigoso. Hanno reconhecia fé, afinal. Fé na sua santa de vitórias impossíveis, na deusa dura de sangue e lama. Aquele olhar, permaneceria muito tempo, mesmo quando a força desaparecesse na negligência.
Catarina de Acham limpou a percurso silenciosamente, as passos incertos formavam uma impressão estranha, mesmo sem o contraste forte do bastão contra a pedra. Para sua surpresa, ela usava um vestido. De manga longa, com delicado toque de fiado de prata, o veludo preto lhe cabia bem e até contrastava com umas pulseiras prateadas. O tecido escuro combinava com seu tom de pele, e a trança dela, mais elaborada que o simples rabo de cavalo de sempre, parecia uma novidade estranha, embora fosse algo temporário, pois ela logo voltaria ao padrão habitual.
O arqueiro, que às vezes ocupava a sombra de Catarina no lugar do Ajudante, surgiu de trás da rainha e acenou com a mão. Um pequeno pacote foi pego por ela, que, do nada, produziu um longo cachimbo, provavelmente feito de ossos de dragão, e começou a encher com folhas de tabaco de fogo. O Cavaleiro Branco observou o arqueiro, cujo arco ainda não estava armado, e decidiu que aquilo não iria se transformar em um confronto. Por mais mortal que fosse a destreza da pupila do Ranger, ela não se comparava ao perigo de uma arma na mão, e, ao seguir a Rainha Negra, o sorriso rígido da arqueira, ao acender o cachimbo, foi revelado pela faísca do fogo. Em poucos instantes, ela cuspiu uma fumaça forte e ácida, enquanto as brasas vermelhas iluminavam seu rosto.
Envolvida por sombras e fumaça, Catarina a Avaleix a observava com olhar frio enquanto se aproximava lentamente. Um momento de silêncio tomou conta entre elas, e foi ela quem quebrou,
“Noite agitada?” perguntou a Rainha de Callow, sorrindo como quem fala uma brincadeira só ela entende.