Um guia prático para o mal

Capítulo 412

Um guia prático para o mal

“E assim que a noite caía sobre a Ilha Abençoada, Sua Majestade Terrível enviou pelo rio o cadáver do príncipe Robert e a princesa Juliana, ainda algemados, pois quando libertados ela havia mordido a orelha do Senhor Supremo de Okoro. O rei Selwyn Fairfax cavalgou até a metade da ponte, onde assim se dirigiu a Sua Majestade Terrível: ‘Vocês lutaram essa guerra de forma implacável no campo e heroica além dele. Quem dera vocês tivessem nascido a oeste do rio, sob uma estrela virtuosa.’ E assim respondeu Sua Majestade Terrível: ‘Por ter nascido a leste do rio, tornei-me, ao invés disso, um homem capaz de arrancar estrelas do céu. Isso não não é uma virtude maior?’

— Extraído de ‘Comentários às Campanhas do Imperador Terrível, o Segundo’

Para enfrentar os Damned, o Escogido foi enviado buscar.

Porque a Criação era uma coisa estranha e irônica, ponderou Rozala Malanza, essa foi a sugestão de Catarina Foundling e largamente contrária de Cordélia Hasenbach. Não que o Primeiro Príncipe fosse tão descortês ao ponto de arriscar ofender a Dominação ao insinuar que seu filho favorito fosse algo além de um aliado prezado. Havia, ao contrário, a conversa de que a presença do Peregrino poderia incitar o Tirano a se comportar mal, que certamente o Cavaleiro Branco por si só seria suficiente. A princesa Rozala desconfiava que o Primeiro Príncipe sabia que isso fracassaria, e de fato fracassou, mas deixou-se ventilar uma fagulha de antipatia de forma tão inofensiva quanto possível. Que Hasenbach desprezas­sse o Peregrino não era surpresa, nem desde que ouvira toda a história do que acontecera em Saudant. A pacata vila de pescadores às margens do Lago Artoise havia sido massacrada para pôr a Cabeça de Corvo sob controle, deixando nenhum sobrevivente. Nem mesmo crianças.

Isso abalou a alta estima de Rozala pelo Escogido, ao ouvir isso. Um bem maior foi alcançado pelo ato, disso não se podia negar. Quantas dezenas de milhares de vidas teriam se perdido se as Legiões do Terror conseguissem escapar da forca em Iserre para devastar também os principados do oeste? Ainda assim, foi um grande mal, também impossível de negar, e infligido a um aliado jurado. A visão do Primeiro Príncipe sobre o assunto era sem nuances, mas a Princesa de Aquitânia não conseguia concordar completamente. Ainda lembrava do Peregrino Grey salvando milhares de vidas na Batalha dos Acampamentos, e quase tantas após, quando passou de ferido a ferido, trabalhando sua cura até o esgotamento. Foi uma escolha feia que o velho herói fez, e uma que não tinha direito de fazer. Mas eles não respiraram um pouco mais aliviados por isso? Não ficaram, por trás da indignação pelos vidas perdidas e pela brutalidade do ato, todos um pouco gratos pelo que dele resultou?

A princesa de cabelos negros não podia aceitar completamente a escolha que ele fez, as mortes que ela trouxe, mas também não poderia condená-la sem questionar. Seria uma hipocrisia das piores permitir que o Peregrino fizesse o trabalho sangrento de capturar o Senhor Corvo por eles e, na mesma respiração, queixa-se de sua interferência assassina.

— Princesa Rozala?

A general arlesita virou um sorriso cordial para a mulher que se aproximava dela, pois era uma relação que deveria ser cultivada por anos, caso todos sobrevivessem a esses tempos sombrios. Lady Vivienne Dartwick tinha uma postura amplamente mais régia quando fora das roupas de ladra usadas nas negociações de trégua no norte de Callow, embora Rozala achasse que o coque de leiteira coroado por uma tiara de prata ajudava bastante a esse efeito. Diziam que ela fora uma Escogida, antes que a Rainha Negra a torcesse para a vilania. Embora poucos acreditassem que a sucessora escolhida pela Rainha Negra fosse algo próximo de ‘redenção’ da condenação, ela ainda era vista como uma interlocutora diplomática menos inflamável. Nobreza de topo também, pois a Casa Dartwick figurava nas listas de nobreza callowense, o que aliviante ao orgulho de quem ainda relutava em negociar com uma órfã desconhecida como Catarina Foundling. Uma tolice, aquilo, quando a sombra da descontentamento daquela órfã tinha feito metade de Calernia tremer de medo, mas o orgulho muitas vezes é uma tolice.

— Lady Dartwick, — respondeu Rozala. — Como posso ajudar?

— O Lorde Ajudante está sendo enviado pela minha rainha e precisará de um guia, — disse Lady Vivienne. — Poderia fornecer um?

Uma questão de pouca importância para falar com o Primeiro Príncipe, pensou Rozala de forma distraída, mas que exigia a assistência e o consentimento de um alto-ranking de Procer. A nobre calowanesa havia navegado corretamente por esse protocolo ao abordá-la, o que era uma mudança refrescante em relação à sua mestra — que agia em grande parte como se estivesse acima dessas coisas. Ainda mais irritante, ela não estava errada em sua suposição.

— Meu secretário pessoal, Louis Rohanon, cuidará disso, — disse a Princesa de Aquitânia.

Ela discretamente indicou um dos acompanhantes para se aproximar, assim Louis poderia ser informado do pedido. Era uma ofensa que a abdicação de seu amigo do trono, por causa da Liga, significasse que ele não mais se qualificava a participar de conselhos como esse, mas, dada a recente… agitação em Sália, a princesa sabia que não era hora de testar a tolerância do Primeiro Príncipe.

— Então o Lorde Ajudante partirá conosco? — perguntou Rozala.

Ela não se importaria com isso, pois a observação quieta do orc no seu olhar indicava que nada lhe escapava. Ainda assim, não era bom perder um Damned sem antes saber para onde iria e com qual propósito.

— A Rainha Catarina pretende sondar as lealdades e interesses de Nicaea, — disse Lady Vivienne.

E ela enviou um orc para fazer isso? A princesa de Aquitânia não era um caipira para acreditar que orcs eram homens convertidos em formas corrompidas por algum pecado antigo e pela mão do Abismo, mas não se podia negar que os grandes caninos e a pele leathery do Deadhand contribuíam para uma presença inquietante. Embora o Lorde Ajudante fosse inteligente e metódico, dificilmente era um enviado prazerável. A não ser, claro, que a Rainha Negra quisesse usar a força como lembrete. Quem poderia realmente saber, com esse? 

— Então permitam-me oferecer os serviços do meu secretário como estudioso e tradutor, — sugeriu a Princesa Rozala.

A herdeira olhou pensativa. Isso significava que tudo o que fosse dito seria posteriormente relatorio a ela, sim, mas também daria peso à aprovação tácita de Procer naquilo que fosse falado. Além disso, Louis era fluente em linguagem diplomaticamente comum e tinha inclinações acadêmicas. Seria útil de qualquer jeito, independentemente do resto.

— Agradeço pelo favor, — disse Lady Vivienne, com tom formal. — Tenho certeza de que o Lorde Ajudante apreciará uma ajudante tão competente.

Ela discretamente pediu a um dos assistentes que se aproximasse para informar sobre seu pedido, pois a abdicação de seu amigo do trono por causa da Principado significava que ele não podia mais participar de conselhos assim, mas dada a recentes… agitações em Sália, ela sabia que não era hora de desafiar a tolerância do Primeiro Príncipe.

— O Lorde Ajudante partirá conosco, então? — perguntou Rozala.

Ela não se importava com isso, pois a vigilância silenciosa nos olhos do orc indicava que nada escapava. Ainda assim, não era bom perder um Damned sem primeiro saber para onde iria e com que intenção.

— A Rainha Catarina pretende sondar as lealdades e interesses de Nicaea, — disse Lady Vivienne.

E ela enviou um orc para fazer isso? A princesa de Aquitânia não era uma village girl, para acreditar que orcs eram homens transformados por pecados antigos e pelo Abismo, mas era inegável que seus caninos grandes e sua pele coriácea contribuíam para uma presença assustadora. Apesar de o Lorde Ajudante ser inteligente e metódico, dificilmente era um enviado agradável. A menos que a Rainha Negra quisesse usar a força como lembrete. Quem poderia realmente saber, com ela?

— Então, permitam-me oferecer os serviços do meu secretário como estudioso e tradutor, — sugeriu a Princesa Rozala.

A herdeira olhou de forma pensativa. Isso significava que tudo o que fosse dito ali seria posteriormente reportado a ela, e também dava peso à aprovação tácita de Procer naquilo que fosse falado. Além do mais, Louis era fluente em linguagem diplomática comum e tinha inclinações acadêmicas. Seria útil de qualquer modo, independentemente?

— Agradeço pela gentileza, — disse Lady Vivienne, com tom formal. — Tenho certeza de que o Lorde Ajudante ficará encantado com uma ajudante tão competente.

O segredo não era prioridade para o que a Rainha Negra planejara para a Liga, ou talvez para Nicaea em particular. Os arranjos foram feitos rapidamente, e tudo já estava em movimento antes que as últimas chegadas agitassem a sala. A entrada do Peregrino Grey foi recebida com entusiasmo pelos nobres do Sangue, embora de forma mais fria pelos callowenses e pelo Senhor Carrion. A própria Cordélia, Primeiro Príncipe, ofereceu as devidas cortesias e nada mais, pois mesmo com desprezo, a princesa Lycaonese raramente era pouco polida. A entrada do Cavaleiro Branco, por outro lado, foi mais calorosa. A disposição da Escogida de colaborar com a Assembleia Mais Alta — embora nunca sob ela, já que Hanno de Arward obedecia somente ao Tribunal — e as restrições da lei procerana tinham conquistado a amizade de Hasenbach e até de Rozala, ela admitiria. Nunca antes ouvira falar de uma Escogida que listasse e explicasse cada morte que cometera numa cidade em tumulto, para que os estudiosos da lei pudessem avaliar suas ações.

Pelo menos não sem insinuar que era mero divertimento de monarcas mortais, enquanto o Cavaleiro Branco parecia sério e até sério.

O próprio Cavaleiro Branco e sua companheira, a Bruxa da Floresta, também eram notavelmente fortes como Escogidos que vieram para proteger Sália e as negociações de paz, o que tranquilizava considerando quem participaria. A Rainha Negra, a Hierofante, o Tirano de Helike — e agora parecia, até mesmo o Horror Escondido. Na verdade, Rozala Malanza tinha se surpreendido com a sugestão de Catarina Foundling de que o Cavaleiro Branco fosse participar dessa assembleia, pois a espada do Julgamento era uma proteção tão clara contra ela que a general de cabelos negros acreditou que poderia se ofender. Aparentemente, pensou Rozala, alguém havia se esquecido de informar Catarina Foundling disso: ela recebeu a chegada do Cavaleiro Branco com um sorriso e uma reverência respeitosa, que o Escogido respondeu casualmente. Rozala não era a única a notar, os olhos de metade da sala repousaram na dupla em surpresa silenciosa.

— Kairos Theodosian está chegando, — de repente disse a Rainha Negra.

Já fazia mais de um ano que o Tirano de Helike jurara amizade eterna com Cordélia Hasenbach. Não que ela tivesse acreditado nisso. Nem agora pisaria muito na esperança de que ele dissesse a verdade, nem mesmo se os Escogidos insistissem que ele estava sob uma maldição de verdade. Se um louco achasse que o céu é verde, isso o tornaria de fato assim? Não, o Tirano fora uma dor de cabeça por tempo demais para ser considerado apenas uma ameaça.

Ela considerou o jovem rei uma dor de cabeça diplomática e militar desde o momento em que assumiu o trono, pois provou ser astuto e muito inclinado a voltá-lo contra Procer. A princesa loira acreditou uma vez que Helike e seu rei-rapaz poderiam ser contidos por correntes de tinta, tratados que vinculassem a Liga a uma trégua de dez anos com a Principado até que outras questões fossem resolvidas, mas esse foi provavelmente o segundo maior erro diplomático de seu reinado. Ela não podia garantir que a ascensão do Tirano fosse inteiramente sua culpa, pois ele talvez tivesse se lançado ao poder independentemente de suas ações. Ainda assim, o voto da Liga por uma trégua com Procer foi sem dúvida o gatilho da guerra civil que elevou o Tirano de Helike a alturas maiores. E possibilitou que Anaxares de Bellerophon fosse eleito Hierarca das Cidades Livres, embora, de certo modo, esse cargo ainda estivesse vazio.

Mesmo assim, por mais que Cordélia tenha manobrado e planejado contra Kairos Theodosian, ela nunca tinha visto o homem com seus próprios olhos até que chegou a Sália. Muito do que havia lido sobre ele confirmou-se, pensou a Primeira Príncipe, enquanto o Tirano avançava na sala de parlamento com passo confiante, mas isso não fazia justiça ao homem. A magreza doente, as vestes frouxas que quase não escondiam convulsões ou tremores, ou mesmo o olho vermelho sangue sob cachos castanhos esvoaçantes: Theodosian parecia mais uma ideia do que um homem, como se alguma mão divina tivesse pintado a malevolência sorridente na tela da Criação e coroado rei de Helike. Todos aqui detestavam-no, pensou a Primeira Príncipe. Alguns o odiavam tão profundamente que era como um veneno em suas veias. Mas, ao olhar para o jovem rei e os dois gárgulas levando-o ao lado, parecia que ele estava entre amigos.

— Ah, meu Deus, — disse Kairos Theodosian com um enrolar de palavras. — Que reunião de nomes grandes e poderosos. Meu coração vai ficar acelerado.

— Senhor Tirano, — disse Cordélia Hasenbach calmamente, — seja bem-vindo. Agradecemos por aceitar nosso convite.

— Não perderia por nada, — sorriu o vilão de olhos diferentes.

— Deus do céu, você é mesmo um filho da mãe, — disse a Rainha Negra de Callow, quase admirando. — Se eu não soubesse melhor, chamaria isso de uma faceta.

A loira Lycaonese mordeu a primeira onda de medo e irritação. Por mais que desaprovasse os modos do outro governante, não se podia negar que ninguém nesta sala tinha nem metade do entendimento da Tirana que ela tinha. Como prova de sua teoria, ela soltou uma risada zombeteira ao ver a provocação casual e a informalidade do vilão.

— Catarina, — respondeu ele alegremente. — Prazer em te ver, como sempre. É meu velho amigo Amadeus que vejo escondido na sua sombra?

O Senhor Carrion, que mantivera silêncio e falara com poucas palavras desde sua declaração de guerra contra a Torre, nunca perdeu o ar de frieza indiferente.

— É uma sombra bem grande, hoje em dia, — respondeu casualmente. — Dá pra se esconder bem nela.

O som de engasgar-se da sua parte foi, percebeu Cordélia, a maior parte do Sangue abafando a risada.

— Uma porção de império, hein? — zombou o Tirano. — Será que a coluna quebrada pegou o Nome ou foi o contrário?

Ela precisaria intervir agora, senão o vilão seguiria cutucando todos até o Último Crepúsculo. Embora fosse prazeroso ouvir o Senhor Carrion ser oprimido, isso nada ajudava a conquistar seu coração, nem a garantir a sobrevivência de Procer, deixando a coisa rolar no tempo.

— O Império Terrível de Praes, — disse a Primeira Príncipe, — não é por isso que lhe pedimos para vir a este conselho.

— Então, por todos os deuses, — sorriu Kairos Theodosian, — mostre-me essa revelação, Guardião do Oeste.

Ela deu um passo à frente, com as costas eretas. Mais próxima de um vilão cujo suposto número de corpos na conta passava de centenas, que uma vez arrasou um exército inteiro usando uma tempestade e, não há muito, arrancou milhares de cavaleiros de Arcádia e os esmagou na terra. Ela avançou com calma absoluta, pois esses eram seus territórios escolhidos e seu modo preferido de conflito.

— As circunstâncias fizeram com que nossos interesses se alinharem, Senhor Tirano, — falou Cordélia.

Pulsou um instante; o olho vermelho piscou.

— Chato, — disse o jovem rei, de forma solene, como alguém que condena uma sentença.

— Mas aqui está, entre nós, — continuou a Primeira Príncipe, tranquila. — Pronto a virar contra a Coroa e a Torre que o usaram melhor do que você os usou.

— Um pouco menos entediante, — admitiu o Tirano. — Ainda assim, não ouvi uma única razão para quebrar essa confiança profunda ou romper um laço singelo de irmandade.

— Você precisa de garantias, compreensivelmente, — disse Cordélia. — Isso pode ser arranjado. Você está, como disse, entre uma assembleia de nomes grandes e poderosos.

— E o que seria exigido de mim em troca dessas garantias? — sorriu o Tirano. — Pode falar, Guardião do Oeste. Não me decepcione.

— Você tem estado nos conselhos do Inimigo, Senhor Tirano, — disse Cordélia, — Revele seus planos para nós e-

— Nãããonão — interrompeu Kairos Theodosian, cada vez mais agudamente. — Isso não foi a coisa certa a pedir. Você está fazendo errado.

O vilão parecia realmente agitado, seu braço escapando das mangas espessas num espasmo. Seu olho castanho ficou leitoso, como se estivesse em dor ou tristeza. A Primeira Príncipe ficou surpresa, indecisa sobre como responder. Um ruído de passos cambaleantes atravessou o chão, a Rainha Negra mancando atrás do Tirano e só parando para lhe lançar o olhar mais insolente que Cordélia já vira. Ela corou.

— Às vezes, precisamos que nossos demônios falem as coisas feias, Kairos, você já devia saber disso, — disse a Rainha Catarina, de tom brincalhão.

O peso na tensão dos ombros do Tirano se aliviou em parte com as palavras, e Cordélia entendeu o jogo. Então, seda e aço. Ela estava mais acostumada a ficar na posição de seda do que de aço, mas não era inábil nesse exercício.

Diga— exigiu Kairos Theodosian.

— Dê uma boa razão para continuarmos a guerra contra Keter, — disse a Rainha Negra.

Como muitas vezes, a Rainha de Callow cortou direto ao ponto, pois era a verdade exata do que precisavam. Uma enorme bandeira de medo e indignação que uniria a Principado — e além — na busca pela guerra contra o Rei Morto, e se havia alguém que poderia dar isso a eles neste momento, era o Tirano de Helike.

— Ah, — disse o rei de olhos diferentes, saboreando o som. — Aí está. Agora, que a relíquia dilacerada no canto confirme minhas palavras — não você, Amadeus, pelo menos desta vez — e diga a verdade onde ela estiver. Eu tenho uma razão, e posso revelá-la a vocês.

Todos os olhares na sala se voltaram para o Grey Pilgrim, cujo olhar se estreitou.

— Verdade, — disse lentamente o Peregrino. — Em palavra e intenção.

— Então falemos do preço, Theodosian, — disse Cordélia. — Algumas ofensas ainda podem ser perdoadas, se você negociar de boa fé. Riqueza e honras poderiam cair sobre sua cabeça.

Ela, que era bem mais alta que o Tirano, fez questão de se impor enquanto falava. Uma inclinação de pescoço dava a ela a aparência de evitar olhá-lo de cima para baixo enquanto dizia suas palavras, com um leve sorriso de desdém nos lábios. O desgosto é uma emoção tão distraente quanto qualquer outra, e se fosse preciso usar sua reputação de alemã ao redor para conseguir o que queria, não hesitaria na indigna manobra.

— Ele não é do tipo rei que faz moeda, Hasenbach, — zombou a Rainha Negra. — Não, ele é do tipo tradicional. Quer seu lugar na mesa de volta. Não é, Kairos?

O que a Rainha Catarina também desejava, embora com o sorriso brincalhão nos olhos, parecendo desejar o contrário de forma ufanista.

— Catarina, — sorriu o Tirano, — que pena. Isso implicaria que atualmente eu não tenho mais assento. Não sou participante pleno desta conferência de paz?

— Helike pode ser poupada de retaliação por sua guerra imprudente e traição, — disse Cordélia, como uma grande concessão. — Mas sua renúncia pode ser necessária por paz.

— Agora sim, um ritmo familiar, — sorriu a Rainha Negra.

Era, pensou a princesinha de cabelos dourados, um sorriso um pouco muito afiado, para que essa afiação fosse totalmente fingida.

— Senhoras, — interveio o Tirano, com tom de pura alegria, — vamos lá, há mesmo necessidade de tanta linguagem dura? Agora, a não ser que eu esteja enganada, havia alguma conversa sobre pagamento.

A Rainha Catarina voltou a circular, e Cordélia respirou fundo. Era hora de ver até onde poderiam barganhar com ele.

— Vocês têm muitas exigências, — afirmou a Primeira Príncipe agradavelmente.

— A maior delas, na minha opinião, — sorriu Kairos Theodosian, — e Catarina sabe bem do que eu quero, ela sabe. Ela até trouxe pra mim.

A questão, pensou Cordélia, era o julgamento. Tudo parecia ir depender do julgamento do Cavaleiro Branco, como prometido no encruzilhado do Cemitério dos Príncipes. Ela tinha sido alertada por todos os Escogidos e Damned com quem tinha relação de que permitir que aquilo se desenrolasse seria extremamente perigoso, e agiu de acordo.

— Seu pedido de julgamento do Cavaleiro Branco está na pauta oficial, — disse a Primeira Príncipe de forma moderada.

— Bem lá no fim da lista, — respondeu o Tirano, de forma igualmente moderada. — E não pude deixar de notar alguns detalhes sobre os procedimentos de sua tramitação. Agora, se eu fosse um homem desconfiado, poderia suspeitar que eles iriam deixar um sujeito esperto fazer com que a discussão fosse adiada por semanas, se não meses.

— Justamente essa era a intenção. A Liga das Cidades Livres, como está, está aos pedaços, e a situação só iria piorar a menos que o próprio Hierarca interviesse. Mas é improvável que o faça, o que significa que esperar um pouco pode fazer com que o Tirano ganhe força na Liga ou até mesmo que ela mesma desabe — e, assim, qualquer demanda dele se tornaria completamente irrelevante, pois ele não teria mais a faca na garganta para extorquir.

— Então, vamos adiantar a pauta, — desacreditou a Rainha Negra.

— Não quero parecer excessivamente exigente, — disse o Tirano com sorriso. — Por isso, tenho uma sugestão que talvez não seja tão incômoda.

O sorriso dele se alargou, até que tudo o que Cordélia via fosse uma fina lâmina de dentes e um olho vermelho pulsante.

— Vamos realizar o julgamento agora

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