Um guia prático para o mal

Capítulo 351

Um guia prático para o mal

“É da natureza do jogo de azar que o grau de vitória de alguém seja proporcional ao grau de derrota de todos os outros. Assim é com o império, e quase tanto subordinado ao acaso.”

– Imperador Tenebroso Venal

Observava de perto o Feiticeiro Marginal enquanto ele manquitolava em nossa direção, não por algum grande apreço pelo homem, mas porque o estado dele era uma peça de informação que me ajudaria a compreender a jogada de Kairos Theodosian. Quando o Tirano se voltou contra nós, ele partiu para matar ou para uma traição mais amistosa? O rosto do Feiticeiro era uma tela de hematomas e arranhões, parecia que saiu rolando por um matagal de improvisos ramalhos, mas, além disso, e de um joelho ferido, não via dano grave algum. Enquanto o Peregrino cuidava da dor do outro herói, considerava a conversa particular que Kairos Theodosian e eu estávamos tendo, através dos detalhes da fuga e do retorno do Feiticeiro Marginal. Se ele quisesse se desligar de mim definitivamente, o Tyranr teria matado o homem – ou ao menos tentado seriamente, o que parecia não ter acontecido – para atrair a atenção da única ressurreição de aspecto do Peregrino. Ele pegou as coroas, isso era óbvio, e provavelmente qualquer artefato que o Feiticeiro estivesse carregando consigo. Que parecia incluir a haste de conjuração, e quem sabe a alma de Black também. Kairos usou a oportunidade que deixei na esperança de que ele a aproveitasse, sem queimar pontes comigo ou com os heróis de uma forma que não pudesse ser resolvida depois. O que significava que ainda estava disposto a virar o jogo contra o Rei Morto a nosso favor, se parecêssemos a aposta certa na última hora. A menos que ele virasse também contra nós e contra o Horror Oculto, por algum objetivo ainda inconfessável, o que, dado com quem estamos lidando, era muito provável.

“- ele me jogou de um balcão por gárgulas após declarar que essa seria a última vez que eu o veria,” disse o Feiticeiro Marginal, chamando minha atenção de volta.

Sério, Kairos? Isso é um pouco óbvio até para você, pensei. Se o Tirano andasse botando heróis pra rolarem de penhascos, então definitivamente não tentando matar ninguém. Fiz uma pausa por um instante e encarei a absurdo do que tinha acabado de pensar, embora ser absurdo não tornasse menos verdade. Bati a base da minha bengala contra o paralelepípedo quebrado, chamando a atenção do herói que retornava.

“Ele pegou as coroas,” disse.

“Pegou sim,” concordou o Feiticeiro. “E-”

O homem lançou um olhar hesitante para o Peregrino, que assentiu em concessão.

- meu mestre, a alma dele,” terminei. “Aquele gato já tinha saído do saco faz tempo, feiticeirinho.”

Ele me observou com cautela, como se a revelação de que andava por aí com meu pai numa garrafa fosse suficiente pra fazer eu atacá-lo do nada. Ainda hoje, às vezes, eu confiava em ser subestimado para escapar de ciladas, mas às vezes era irritante ser visto como uma segunda linha. Eu não era algum Imperador da Morte risonho da Era das Maravilhas, abençoadas sejam as Irmãs, e mesmo que eu tivesse intenção de trair essas pessoas, não seria um amador.

“Ele pretende coagir você com isso, desconfio,” disse solenemente o Peregrino Cinzento.

Havia compaixão em seu olhar, que eu não merecia nem queria. Não daquele homem que ordenou que a alma de Black fosse cortada e engarrafada para usá-la como forma de coerção. Posso ter mais estima por Tariq do que por Kairos, mas tenho que admitir: quando o Tirano enfincou a faca, não fingiu que era outra coisa.

“Ele vai tentar,” simplesmente respondi. “Feiticeiro, ele falou mais alguma coisa antes de te jogar do penhasco?”

“Balcão,” corrigiu.

“Ela está certa,” rosnou o Santo, quase com diversão. “Se um vilão te jogou pra baixo, é um penhasco de todas as formas que importam.”

Suspeitava que a velha assassina já tinha sido jogada ou pulado pra baixo mais de algumas vezes na vida. O homem de cabelos escuros ergueu uma sobrancelha, mas não discutiu.

“Ele lamentou alto a sua falta de precaução,” disse. “Em algum detalhe.”

Então Kairos tinha deixado uma mensagem pra mim. Ah, que gentil dele.

“De que jeito especificamente?” perguntei.

O Peregrino Cinzento sorriu de forma sombria.

“Você acha que ele revelou seu plano com um monólogo,” disse o velho.

Acho que se ele aceitou a isca que dei, foi por um motivo, pensei. Ele só deu uma oportunidade pra eu conseguir tudo que quero do jeito que quero. Ele não faria isso sem uma razão, e se continuarmos negociando por você, então ele precisa fazer seu contra-ataque conhecido. Se o Peregrino pensava que aquilo era Kairos cometendo um erro por causa de uma Nome, em vez de algo que tinha a forma de um erro, então essa era sua falha de avaliação. Inclinei a cabeça levemente, silenciosamente convidando o Feiticeiro a continuar.

“Ele condenou sua ignorância em relação ao precedente, Rainha Negra,” disse o herói quase com culpa. “E afirmou que há razões pelas quais as pessoas não ‘sacaram espadas de pedras, se me permite a expressão’.”

Demorei embaraçosamente quatro batimentos pra juntar as peças. Caramba. Caramba, aquele pequeno miserável. Não era possível que ele soubesse de algo – não, céus, ele vinha conversando com Neshamah há meses, não vinha? E Neshamah podia consultar o cérebro do Masego sempre que quisesse. É bem provável que o Tirano soubesse que, quando tirei a espada da pedra em First Liesse, fiz isso me apresentando como a herdeira do rei tácito de Callow por duas décadas: Amadeus da Esticada Verde. Aquela é uma coroa, que eu não tinha considerado até agora e que não posso me dar ao luxo de perder. Se meu mestre foi amaldiçoado a perder esse ‘direito de governar’, quem iria consertar Praes, transformando-a numa nação razoável? Passei a confiar em Akua mais do que acharia possível anos atrás, mas não confiaria de jeito algum nela perto da Torre: seria como trancar um bêbado recém-desmamado numa adega. E Malícia, bem, independentemente das questões políticas que impediam ela de permanecer ali, se a Imperatriz queria que tudo terminasse de um jeito diferente de ter nossas cabeças empalhadas, ela não deveria ter começado a assassinar meus amigos. Eu precisava de Black – se não como Imperador da Morte, ao menos alguém capaz de resolver a confusão na Planície antes que o caldeirão transbordasse e nos destruísse enquanto ficávamos olhando pra norte.

“Ele está ameaçando fazer Black o responsável, para cortar o campo sob nossos pés e dar seu merecido à Larat,” disse. “Possivelmente em meu nome, possivelmente sozinho — difícil dizer neste momento. Não preciso te lembrar de que isso seria um desastre.”

“Quer dizer, a melhor maneira de terminar isso, salvo você jogar seu próprio trono fora,” respondeu de forma direta o Santo das Espadas.

“Laurence,” repreendeu o Peregrino.

Ele, notei, não disse discordar. Claro que não. Tariq considerava Black uma ameaça suficiente para ter disposto a liberar uma praga contra ele, mesmo eu tendo razão e ele tendo ido atrás do meu mestre com a intenção maior de provocar um padrão de três entre nós. O Peregrino não era do tipo de homem a recorrer a esses meios se não achasse o inimigo perigosíssimo. Os heróis conheciam meu mestre como a mão direita do Império do Medo, o monstro que queimou as terras centrais de Procer para afundar um império na miséria ao julgar que não podia derrotar seus exércitos no campo. E ele realmente era isso, é verdade. Mas era muito mais: o arquiteto das Reformas, o responsável por conter os piores impulsos do Wasteland por quase quarenta anos, um velho louco obstinado que lutou uma batalha amarga e ingrata para acabar com o ciclo de morte que uniu Callow e Praes por milênios.

Se eu quisesse paz no leste na minha vida, e uma paz que durasse além, Black era uma das pedras angulares disso. Como Warlock me disse uma vez, por mais que o homem se visse como uma engrenagem substituível numa grande máquina, era na verdade o coração pulsante do sonho de um império diferente. Se eu o perdesse, não sobraria ninguém fazendo seu trabalho com a mesma eficiência, além de suas relações. Quem mais tinha influência sobre as Legiões, as Clãs e as Tribos? Será que Kairos percebeu isso, eu me perguntava? Se sim, era ainda mais perigoso do que eu suspeitava, porque talvez fosse o primeiro dos meus inimigos a realmente entender o mundo que eu queria criar. Ou talvez fosse mais simples, uma estratégia tão direta quanto eficaz: eu queria preservar meu pai, os heróis queriam destruí-lo. O conflito era inevitável, como o nascer do sol.

“O Theodosian não pode levar a melhor,” falou o Feiticeiro Marginal. “Principalmente se o que sugere a Rainha Negra for verdade.”

“Você andou pelas mesmas cidades vazias que a gente, garoto,” disse duramente o Santo. “Quanto mais longe estiver desse trono-“

“Não queremos que o homem que arquitetou tudo isso transforme este reino,” rebateu o Feiticeiro, sibilando. “Esse é o propósito da última coroa, pelos céus, e trocar uma afronta mesquinha contra uma mulher tentando ser nossa aliada por um desastre sangrento?”

Huh. Não tinha visto aquilo chegar.

“Roland,” interveio o Peregrino, com tom calmo. “Nenhuma decisão foi tomada. Não há motivo para intrigas entre nós.”

“Há sim, Peregrino,” afirmou o herói com fúria. “Fiquei calado durante as baixas – e foram muitas, desde o começo dessa maldita cruzada – mas que loucura negra é essa que só quem tentou salvar vidas nos últimos meses foi a maldita Rainha Negra?”

Fiquei pensando no que isso dizia sobre mim, que ao invés de me sentir tocada, logo suspectava. Se você ficava muito tempo numa cadeira alta, pensei, a confiança murchava e morria, sobrando apenas uma estranha versão dela que Malicia tornou famosa: confiar nas pessoas para agirem de acordo com sua natureza. E não conhecia o suficiente a natureza do Feiticeiro Marginal – Roland, para dar nome a ele, que Tariq tinha dito – para confiar em qualquer coisa que saísse de seus lábios. Céus, mesmo que ele estivesse jogando comigo, era bom ouvir alguém dizer isso.

“Ela está enganando você, Feiticeiro,” disse o Santo.

A ironia, pensei, era das piores. Meu pai teria rido até chorar e seus músculos doerem.

“Não me interessa, Santo,” respondeu o herói. “Isto é… é abaixo de nós. De todos nós. Que mesmo diante do apocalipse, a gente se veja como inimigos ao invés de ter uma conversa direta para proteger os milhares de soldados que depositam suas vidas em nossas mãos.”

“Ainda há uma conversa a ter,” concedeu o Peregrino cansado. “Mas não é o momento agora.”

“Com todo respeito, Peregrine, discordo,” disse o Feiticeiro Marginal.

Embora seu joelho estivesse cicatrizado pelo Peregrino, devia ainda estar sensível, pelo jeito cuidadoso com que virou-se na minha direção.

“Você tem um plano,” disse o homem de cabelo escuro. “Isso está claro desde que immobilizou dois exércitos em trégua e tirou o controle de um terço da Maior Assembleia. O que você quer que façamos, Rainha Catarina, e como posso ajudar?”

E talvez, pensei, ele fosse sincero. Que estivesse falando de um lugar de genuína repulsa às estratégias de engodo e traição, mesmo quando, como ele disse, centenas de milhares de vidas estavam em jogo. Se fosse verdade, se o Feiticeiro realmente estivesse tão horrorizado quanto o brilho nos olhos dele indicava, então aquele era o primeiro sinal dos Acordos de Liesse em gestação. Uma convenção, mesmo que implícita, de que há monstruosidades contra as quais até inimigos deveriam e combatariam juntos. Que algum tipo de contenção pudesse ser imposível, pelo medo de oposição total se nada mais, por exemplo. Era algo que eu ansiava ouvir mais do que qualquer reconhecimento ou aplauso pelos meus esforços amargos de evitar derramamento de sangue, e mesmo assim, por mais que fosse, desconfiava imediatamente. Porque tinha visto ele mancar até nós e se apoiar no Santo numa conversa suspeita. Porque pouco sabia sobre o que havia por baixo daquele caos de cabelos escuros, e se tentasse enganar a Catarina Foundling, faria exatamente como essa hipótese. Partindo com os outros por princípio, não por compaixão pelo vilão, mas por desprezo pelos atos do meu lado. Que ele estivesse um pouco muito severo, um pouco mais amargo, só tornava tudo mais crível: aprendi com os Lordes Supremos que algo excessivamente liso provavelmente é falso. Pode ser, pensei, que tudo ali seja uma jogada dos heróis pra entender melhor minhas intenções.

Importa? pensei, olhando com frieza para as possibilidades práticas. No final, eu estaria entregando pouco do que não precisasse revelar depois. E se eu estivesse errado, se fosse uma fala séria, essa entrega precoce valeria o investimento de encorajamento. Respirei fundo, lentamente, e então levei dois dedos aos lábios pra assobiar. O som agudo ecoou alto e distante, seguido de silêncio e olhares desconfiados.

“Preciso de um grupo para invadir a porta principal do Palácio Ducal, alto e forte, chamando atenção da lâmina,” disse. “E que entre por um caminho escondido para chegar direto ao Hierofante e despertá-lo da influência do Rei Morto.”

“Eu me aproximo do palácio,” disse o Feiticeiro Marginal. “É uma fortaleza de encantamentos e defesas. Força bruta vai falhar, mas tenho meios de abrir as fechaduras com finesse.”

“Ótimo,” assenti. “Estarei lá, pois assim que entrarmos precisaremos agir contra o Tirano e tenho uma ideia de como enfrentá-lo.”

“Essa lâmina de que fala,” disse o Peregrino Cinzento, “se você não a guiar pelo caminho escondido, como ela saberá do percurso?”

“Quem acha que foi quem contou isso pra ela, desde o começo?”

A lâmina do Santo saiu de sua bainha antes mesmo da primeira palavra e até o Peregrino mudou sua postura pra facilitar lançar Luz caso fosse necessário, o que parecia, se pensasse bem, divertir ainda mais a Indrani. Chegando tão logo após eu assobiar, ela devia estar nos acompanhando de perto. O sobretudo de couro comprido sussurrava no chão enquanto ela se apoiava em uma coluna meio quebrada, olhos de aveleira brilhando na penumbra dessa cidade que ela viu tanto ser destruída quanto construída. A postura descontraída de suas mãos nos cabos das longas facas era falsa, não havia medo algum nela ao pensar em enfrentar qualquer um dos heróis.

“Archer,” disse o Peregrino, inclinando a cabeça em cumprimento. “Quanto tempo acha que estamos sendo seguidos, hein?”

Indrani sorriu, afiada e antipática.

“Só estou aqui pra ajudar vocês, almas perdidas, a atravessarem esse pesadelo de cidade,” disse ela. “Nada além disso, não interprete nada errado.”

“Devo ficar horrorizada, mesmo após tudo isso, por ainda ter uma carta na manga?” perguntou o velho. “Quantas mais sobram, Majestade?”

“Uma só, Tariq,” respondi, com um sorriso torto. “Essa é a jogada: sempre uma a mais.”

“Paciência,” disse o Santo das Espadas. “Se precisar de gente de confiança pra equipe da lâmina, eu topo.”

“Você seria mais útil na equipe de invasão,” eu respondi gentilmente. “O Peregrino cairia melhor nisso.”

“Não confiamos em você pra não acabar cortando a goela do nosso menino na primeira oportunidade, sua velha bruxa malvada,” traduziu Indrani brincando. “Você não vai sair perto dele sem a Catarina de olho em você, entende?”

Olhei para o Peregrino. Afinal, havíamos fechado um acordo. A razão de ele hesitar em deixar a Santo sozinha comigo — ela tentaria acabar comigo e se jogaria nos passos que preparei para matá-la — deveria ser resolvida agora.

“Tenho certeza de que o jovem Archer será uma força suficiente para nós dois,” disse Tariq de forma agradável. “Sabemos, Laurence, que seus talentos servem melhor a tarefas menos sutis.”

“Conseguindo seu objetivo em tudo isso, hein?” disse a Santo com um olhar sério.

“Nem precisava, se seu jeito fosse menos insuportável,” respondi.

“Você deve ser o pior aliado que já tivemos,” disse Indrani, meio impressionada. “E conto a malícia secreta também, pois ao menos ela tinha um toque de estilo quando nos provocava.”

“Malícia secreta não conta, ela só fingia ser aliada,” afirmei sem hesitar.

“Então esse é o Lamento,” disse a Santo, olhos pulando entre nós, com um sorriso duro e sem graça. “Assassinos e semeadores de desastre, mas tudo bem, porque vocês são esperto e engraçado. Como se isso fosse só uma maquiagem para a obscenidade do que vocês são.”

“Senhor dos Céus, Regicida,” disse o Feiticeiro, “quanto tempo vamos perder com grosserias diante do apocalipse?”

“Quer fala civilizada, hã?” ela bufou. “Tá bom. Encontrada, o que te faz tão convencida de que o velho mendigo que acabou de revelar pode fazer alguma coisa pra acordar o Hierofante? Ele vai colocar uma seta nele de um jeito amigável?”

Nem mesmo isso. Há uma história antiga entre os dois, desgastada, que poderia ser usada para algum propósito, mas seria como expor a Indrani na frente de estranhos que ainda são semi-inimigos. Não via necessidade de satisfazer a curiosidade de Laurence de Montfort às custas de alguém da minha confiança.

“Há um método,” eu disse flatamente. “Você não precisa-“

“São duas pessoas próximas o suficiente ao Masego pra puxá-lo de sua beira,” interrompeu o Arqueiro sem hesitação, “e das duas, sou eu quem está apaixonado por ele.”

Ah. Bem. Mantive um olho atento na Santo, pois, se ela risse agora, achava que Indrani tentaria matá-la. Ela era orgulhosa, minha amiga, e zombar de algo tão frágil doeria ainda mais. Em silêncio, a velha confirmou com um aceno, o rosto fechado.

“Para o golpe ter chance de chegar ao fundo sem resistência, a equipe de ataque precisará causar um estrago que simplesmente não pode ser ignorado,” expliquei, controlando a inquietação com uma compostura forçada. “Feiticeiro, você disse que tem um método para passar pelos encantamentos?”

“Posso derrubá-los,” concordou o herói.

“Então, dado quem comporá essa equipe, acho que o momento de sutileza passou,” declarei abertamente. “Vamos atravessar a porta principal e enfrentar todos os combates necessários.”

Além de tudo, isso atrairia o Tirano como mel atrai moscas. Ele jamais perderia a chance de se intrometer em uma briga dessas, nem que fosse para seu próprio benefício, e eu tinha uma conversa a concluir com ele. Eu colocaria as coroas e a alma na mão do Feiticeiro, e ele tinha dito que faria isso. Era a semente de uma história, Kairos nos traindo e eu recuperando minha coroa e meu pai de suas mãos enquanto lutamos. Ele tinha oferecido a resposta mordaz de levá-las, deixando claro que estaria pronto a gastar tudo antes que eu pudesse resgatar alguma coisa. Se a intenção dele fosse realmente fazer isso, então não teria me dado um aviso prévio. O que significava que ele, de certa forma, me convidava a fazer uma contraproposta na próxima vez que nos encontrássemos. E eu tinha até lá para descobrir o que o Rei Morto tinha lhe oferecido além do prazer de nos trair — e montar minha própria jogada para vencer.

“Agora você fala minha língua, Rainha Negra,” disse o Santo das Espadas, com os dentes à mostra. “Vamos à falha, empunhando a lâmina e deixando a escuridão recuar diante do que vem.”

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