Um guia prático para o mal

Capítulo 277

Um guia prático para o mal

“E assim Sinistra disse: ‘Aquilo que não podemos cultivar, tomaremos pelo medo, e que a perdição recairá sobre todos que negarem tal decisão.’”

– Trecho do Pergaminho das Desgraças, décimo terceiro das Histórias Secretas de Praes

O Salão SemVento era um luxo.

Não era originalmente dela, mas do Imperador Sombrio e Feiticeiro. O infame feiticeiro-imperador era fã de experimentos ambiciosos que mostravam a superioridade da magia praesiana sobre todas as demais. A sua, em particular, e ele nunca foi de esconder os gastos para bancar suas últimas loucuras. O Salão foi um dos seus projetos iniciais: um andar inteiro da Torre, bem acima das nuvens, transformado em uma única sala. As pedras das paredes e do teto foram encantadas para parecer que estava ao ar livre, revelando uma vista deslumbrante em todas as direções. Nefarious odiava aquilo, pois quase dez anos dedicara a desvendar seus segredos, com apenas fracassos no saldo. Na verdade, poucos além de Sorcerous chegaram a usar o Salão SemVento. Alaya e seus predecessores não gostavam de permitir que os lordes e damas de Praes tivessem acesso tão alto na Torre, e não faltava outras maravilhas dentro das muralhas para causar uma impressão ao receber visitantes. A Imperatriz, ao invés disso, transformou a vaidade dispendiosa de Sorcerous em uma espécie de escritório.

Os assentos e sofás foram removidos, poupando seu próprio confortável e luxuoso acento de descanso, e as mesas de banquete ornamentadas foram trocadas por dois bufês e uma escrivaninha. O acesso aqui era restrito apenas àqueles a quem ela concedia alguma espécie de autorização, e com bons motivos. As paredes transparentes do Salão SemVento estavam adornadas com um labirinto de segredos e rostos. Mosaicos pintados que representavam todos os nobres importantes de Praes pendiam sobre o ar aparente, com marcas de giz anotando suas últimas conspirações, objetivos e alianças. Linhas conectavam conspiradores e inimigos, tecendo uma tapeçaria de traições e interesses que cobriam todo o seu império. Claro que nem tudo era exato. Acreditar que aquele santuário era intocável só porque havia uma busca aleatória pelas mentes com acesso seria arrogância. Os mosaicos estavam incompletos, às vezes com informações incorretas para enganar um possível espião. A única versão completa e verdadeira estava na própria mente de Alaya.

Anos de prática permitiam que ela visse tudo de cabeça, fechando os olhos. Mas havia algo de estranho calmante em ver as maquinações do Deserto expostas contra o céu de Ater. Nos últimos anos, uma seção nova tinha surgido. Um pequeno agrupamento de nomes sob uma coroa desenhada a giz. Uma representação tão modesta de um grupo que tinha feito tremer os alicerces de Calernia. Com uma taça de vinho meio cheia na mão, a Dread Empress Malícia permitiu que seu olhar permanecesse nas principais figuras do Reino de Callow. Alguns nomes tinham apenas umas poucas palavras ao lado. Hakram, dos Lobos Uivantes, o Ajudante, permanecia obscuro em intenções e motivações, apesar de seus melhores esforços. Era tentador analisar a Ruína sob a ótica do que ela sabia que seriam as Calamidades, mas isso seria uma visão simplista demais. Ah, grande parte delas tinha ligações com a antiga guarda: Masego era filho de Wekesa, o Arqueiro tinha sido o pupilo favorito daquele cachorro raivoso em Refúgio, e Catherine tinha sido a única aprendiz que Amadeus aceitou. O próprio Ajudante era frequentemente visto como uma herança do Capitão, sempre lhe divertindo Malícia.

O rapaz tinha mais semelhanças com o Escriba do que com Sabah, que ainda era lembrada com pesar, e até isso era uma visão simplificada demais. Pelo que ela podia perceber, seu Nome tinha sido moldado desde o início para servir como escudo e empoderamento para o papel de Catherine Foundling. As Calamidades não eram seus predecessores, e era uma pena: Alaya passou décadas aprendendo as melhores formas de trabalhar com elas e ao seu redor. Enfrentar uma versão mais jovem e crua delas teria sido, na prática, fácil. Não, ela tinha sido forçada a aprender a navegar por um rio de desejos e atitudes totalmente diferente. Coisas mutáveis, especialmente em indivíduos tão jovens. A garota que agora era chamada de Rainha Negra tinha pouco em comum com a criança que perseguira a sombra de Black como sua Escudeira. Ainda assim, começara a entender seus movimentos. Onde pressionar para conseguir o efeito desejado. Vivienne Dartwick era a ligação mais fraca. Archer era a resposta óbvia, mas, como Hye, a garota era simplesmente apática demais para ser influenciada. É difícil tirar vantagem de alguém que não se importa com nada além de alguns prazeres terrenos que praticamente qualquer grande cidade na superfície de Calernia poderia oferecer.

Rouba, então? Ela era uma patriota callowana, do tipo que o reino formava aos milhares. Essa era uma velha inimiga de Praes, quase previsível – embora, não menos perigosa por isso. Pessoas como Vivienne Dartwick derrotaram invasões na Wasteland por mil e quinhentos anos, com apenas duas grandes falhas no saldo. Patriotismo é um olho fechado, Malícia diria, mas por mais estreito que fosse, tinha uma habilidade tremenda de frustrar os esforços praesianos. Felizmente, seus princípios centrais iam na contramão do tipo de nação que Catherine tentava construir. A Rainha Negra muitas vezes pensava, sem perceber, o quanto tinha herdado fortemente da cultura praesiana. Callowans tendem a considerar seu próprio grupo étnico e sua nação como uma coisa só, ao contrário de Praes. Desde a Declaração, o Império Sombrio era feito de forças díspares e frequentemente opostas. Liderar os refugiados do saque de Nok até o território callowano foi uma estratégia de matar dois coelhos com uma cajadada só, sob essa perspectiva.

Isso aliviava a pressão nas próprias glebas de Malícia, deslocando indivíduos que, se não fossem alimentados, voltariam a agir como bandidos ou provocariam levantes. Ao mesmo tempo, colocava em Callow um problema que não poderia ser resolvido com uma espada. Bem, ela reconhecia, isso não era exatamente verdade. Se Thief e o Ajudante enviassem soldados para matar cada refugiado que atravessasse as fronteiras do reino, o fluxo acabaria de repente, e a Emperatriz pouco poderia fazer sem soltar a imprensa sobre os Senhores Altos – o que seria desaconselhável naquele momento. Por outro lado, se as Calamidades fossem mesmo tão implacáveis assim, esse seria um cenário totalmente diferente. Como as coisas estavam, Vivienne Dartwick deveria estar debatendo internamente o conflito entre fazer algo bom, como evitar a matança de camponeses desesperados, e os custos imediatos dessa boa ação, que afetariam seus compatriotas. Isso iria apodrecer, pensou Alaya. Na dela mesma e nos fazendeiros deslocados por ordem de Catherine. A Rainha Negra talvez veja sua terra como mais do que território de tribos transformadas em reino, mas poucos no seu círculo mais próximo compartilhavam dessa visão.

A semente tinha sido plantada e o conflito cresceria a partir dela. Chegaria um ponto em que um acordo seria feito, sem agradar a ninguém, lentamente recolocando Catherine Foundling na posição que Malícia preferia: uma inimiga impopular, mas necessária, sem oposição. Se esse conflito pudesse chegar ao coração das Calamidades, tanto melhor. Aquela turma de crianças já tinha mostrado que podia desfechar os planos de impérios, se deixada à vontade. Era um prazer particular da Emperatriz imaginar que o resultado de sua ofensiva fazia Cordelia Hasenbach virar uma úlcera latejante.

“E, no entanto,” disse a Dread Empress Malícia, observando as paredes que não existiam.

Ela saboreou seu vinho. Sob a expressão de Catherine Foundling, um espaço vazio tinha sido criado. Não que os planos da garota fossem desconhecidos: Malícia tinha conhecimento aprofundado do que se desenrolava no reino, apesar dos esforços de Amadeus para esconder. Mas havia uma questão, ela pensava, que devia pesar sobre a mente de todo governante neste continente.

Onde estaria a Rainha Negra?

Callow poderia estar relativamente estável, mas a qualquer momento uma inverno ruim poderia destruí-lo de vez. Se Alaya mandasse que a maioria das granarias reais fosse queimada, metade do reino passaria fome assim que a neve chegasse. E, no entanto, logo após seu fracasso em Keter, Catherine tinha desaparecido no ar. O Ajudante e a Ladra tinham sido enviados de volta a Laure para resolver assuntos, mas nenhum dos dois tinha legitimidade suficiente para manter as coisas sob controle de verdade. Seria mera negligência? Alaya tinha consciência suficiente de si mesma para admitir que não gostava da garota, por razões pessoais, e tendia a associar erros percebidos a falhas de personalidade. Mas a Rainha Negra tinha mostrado ser surpreendentemente hábil no jogo diplomático. Subornar os cruzados do Norte para que saíssem através de tratado, ao invés de risco de extinção, tinha sido uma jogada brilhante, assim como a solicitação para integrar a Grande Aliança. Se o Primeiro Príncipe tivesse um controle maior sobre Procer na hora de fazer a oferta, talvez Hasenbach até aceitasse. Não sem perder alguns penachos no processo, mas ele já tinha demonstrado ser capaz de um pragmatismo frio quando necessário.

No final, não teria feito diferença. O Rei Morto certamente viraria o jogo de qualquer jeito. Mas a habilidade estava ali, mesmo que bruta, e isso significava que a garota tinha aprendido. Se ela fosse capaz de conduzir uma campanha militar que resultasse na paz que desejava, poderia reconhecer Callow sem a presença dela. Algo teria forçado esse caminho, e a única verdadeira candidata era o que tinha acontecido em Keter. No fundo, a Rainha Negra ainda era uma soldada. Em tempos difíceis, ela buscava força militar. Era a solução que ela dominava melhor. No entanto, suas opções seriam poucas. A Liga recusaria de imediato, já que o Hierarca era o louco fantoche do Tirano de Helike – que tinha enviado uma carta de amizade eterna, mas feita de um molde bastante familiar aos Praesianos. Os Everdark eram um caos de tribos primitivas em guerra, praticamente impossíveis de mobilizar rapidamente e aliados pouco desejáveis, o que deixava apenas duas opções reais: o Reino Submerso ou as fadas. Malícia tinha conhecimento de que os anões estavam em mais uma fase de expansão, então eles provavelmente se recusariam a se envolver com assuntos do mundo mortal.

Restava, então, apenas a Corte de Arcádia, à qual a Rainha Negra já tinha laços.

Havia uma chance real, admitiu Alaya, de que dentro de seis meses uma horda de fadas emergisse pelos portões após Catherine fechar acordo com elas. Era uma loucura, claro. Dar às suas criaturas uma posição mais forte na Criação seria um erro que todos pagariam caro. Mas lutar fogo com fogo era uma marca de Catherine, e a entrada do Rei Morto na confusão talvez fosse suficiente para acalmar suas dúvidas. Entre as nações envolvidas na Décima Cruzada, o Império seria quem teria mais facilidade em defender-se, graças às suas cidades altamente protegidas e ao grande número de magos habilidosos, mas Praes já estava sob ataque dos Ashurans. Invasões profundas na Wasteland, deixando as forças dos Senhores Altos intocadas, poderiam se transformar em uma tragédia, e ninguém duvidava de que os conselheiros da Rainha Negra tinham conhecimento suficiente sobre os assuntos Praesianos para perceber isso, mesmo que ela própria talvez não estivesse inteiramente ciente. Thalassina, então, se tornara o desafio fundamental sobre o qual seu reinado seria decidido. Se Ashur fosse removido da equação, um ataque ao Império se tornaria algo bem diferente. Os preparativos de Wekesa e de seu filho eram de importância máxima.

Poderia ser necessário arquitetar uma falha para proteger o Hierofante de nobres vingativos após o ocorrido, mesmo que as consequências fossem graves. Ela pensaria sobre isso. Gostava do jovem, por razões pessoais, e tinha achado que ele era uma lufada de ar fresco nas poucas ocasiões em que se encontraram. Ele também era, infelizmente, um dos ativos militares mais perigosos do Reino de Callow. Talvez um compromisso pudesse ser feito com o Feiticeiro, ela pensava, que preferiria ver seu único filho preso por alguns anos do que envolvido numa luta brutal entre as Calamidades e o Império, onde a morte era uma possibilidade real. Wekesa tinha deixado claro que estava disposto a quebrar alguns vasos, desde que isso significasse que a normalidade retornaria. Como ela, sabia que eliminar elementos contenciosos geraria recriminações de curto prazo e reconciliação após a tempestade passar. Seria a pior briga quehaddo entre eles, e uma que marcaria a relação por décadas, mas Alaya era, acima de tudo, paciente.

Não houve batida na porta. Qualquer um que precisasse de anúncio assim teria sido destruído pelas defesas no corredor. Contudo, o som dos passos permitia que Malícia discernisse a identidade da visitante. Os quatro serventes que tinham acesso aqui tinham passos diferentes, assim como a única outra pessoa com uma autorização.

“Ime,” disse a Imperatriz, sem se virar. “Uma surpresa inesperada.”

A espiã observou as formalidades, vindo até ela para ajoelhar e depois levantar-se. Não com a mesma fluidez de outrora, Alaya notou com tristeza, o que a surpreendeu um pouco. Ime havia envelhecido, embora sua aparência exterior não traísse isso. Mas rituais só podiam fazer muito, e, eventualmente, uma veste excessivamente esticada partiria. Ainda poderia demorar vinte anos, talvez, mas era inevitável como o nascer do sol.

“Minha Emperatriz,” disse Ime.

Ela permaneceu de pé. Não havia outro assento por aqui, por pura questão de projeto. Nenhum além dela deveria permanecer.

“Imagino que haja um novo relatório dos Olhos,” disse Malícia, franzindo a testa.

Seus pequenos retiros no Salão SemVento, embora não completamente proibidos de interrupções, não deveriam ser invadidos à toa.

“Nossos agentes no Principado conseguiram transmitir uma notícia urgente pelos scrying relays,” disse a espia, hesitando. “As legiões do Senhor Black estão em retirada total por terras que já pilharam. Os exércitos do Domínio estão na perseguição.”

Alaya escondeu a surpresa. Achara que compreendia a intenção de Maddie ao ver quais principados ele mirava — sobretudo, sua oposição mais barulhenta na Assembleia Superior. Mas ele deveria estar indo para o sul ou para as ilhas, não voltando na direção contrária. Foi a hesitação que deu a pista.

“Ime,” disse Alaya em voz baixa. “Conte-me.”

“Não temos certeza do que aconteceu,” admitiu a espia. “Mas há uma cidade cheia de cadáveres onde ele supostamente roubou a frota de Procer e há ordens de Salia para recuperar as bórgans.”

Sua boca, percebeu, tinha ficado seca.

“Ele não teria roubado a frota sozinho,” disse Alaya. “E os legionários com ele?”

“As ordens de Salia não mencionaram oposição,” fechou a expressão Ime.

Sua garganta apertou.

“Não acredito que ele esteja morto, Malícia,” disse suavemente a espia. “Sei que não é muita coisa, mas Hasenbach enviou pessoas para falar com os mercadores na avenida central de Salia.”

Asfixiou-se. Seus dentes cerraram-se tanto que parecia que iam partir.

“Uma homenagem aos heróis,” forçou ela a dizer. “Celebrando a morte dele.”

“Um triunfo,” contrapôs Ime. “Como os Miezans já fizeram. Mostrando um inimigo capturado. Ele seria uma troca muito útil de refém. Tem influência com todas as forças na frente leste deles.”

“Não,” disse Malícia em voz baixa. “Engraçar-me.”

“Essa é a minha opinião profissional,” assegurou sua espia. “Eles têm que entender que matá-lo de verdade faria o Ranger reagir com força.”

Ela rangeu os dentes. Por mais desagradável que fosse para ela, não era uma mentira. A questão era se eles se importariam, dado o número de heróis no campo. Hye era perigosa, mas não invencível, e seu confronto com a Rainha do Verão tinha causado ferimentos graves que ela ainda não havia se recuperado.

“Mobilize os Olhos com força,” disse Alaya. “Quero respostas.”

O sorriso de Ime se afinou.

“Minha Emperatriz, agir tão abertamente poderia—”

“Não me interessa se temos que expor todos os agentes naquele buraco maldito que chamam de país,” retrucou Malícia, com firmeza. “Descubra se ele está vivo.

Ime acenou lentamente e a Imperatriz forçou as mãos ao colo, onde seus dedos não poderiam tremer visivelmente.

“E passe essa mensagem para Wekesa,” acrescentou cansada.

Ime hesitou mais uma vez. A fúria de Malícia aumentou, embora ela a controlasse.

“Ele pode deixar Thalassina,” disse ela.

“Se Maddie…” começou, mas hesitou. “Warlock saberia. Eles têm arranjos. E ele saberia que eu escondi isso dele. Além do mais, seja por vingança ou resgate, ele não agirá até que o Escriba entre em contato. Fique de olho nisso, ela deve saber algo que nós não.”

“Estarei de olho,” respondeu Ime.

Um instante passou.

“E, ainda assim, aqui está você,” disse Malícia.

“Precisamos nos preparar,” disse Ime. “Para todas as eventualidades. Se ele estiver realmente morto, o equilíbrio com Callow mudou. Se foi capturado, talvez algumas questões devessem ser revistas com olhos novos.”

Calma, pensou. Um espelho sem uma única ondulação, para que só vejam seu próprio reflexo.

“A situação de Callow já mudou, só pelo que você me contou,” disse Malícia. “Entre em contato com nosso enviado em Laure. Os termos completos do meu pacto com Keter devem ser revelados.”

“O plano inicial,” sua espia disse com cuidado, “era esperar pelo retorno da Rainha Negra.”

“Também dependia dela ser uma influência moderadora contra a ideia de guerra ao Império,” disse Malícia. “Isso não podemos mais contar. Precisamos de uma nova garantia de que ela não abrirá portões e destruirá alguns quilômetros de terra toda vez que for provocada.”

Ime concordou.

“Se ela tiver sido capturada, talvez seja melhor deixá-la lá,” sugeriu. “Pelo menos por enquanto. Seria uma chance de trazer suas legiões de volta ao caminho certo, e ela poderia ser libertada quando a situação na Wasteland estiver menos volátil.”

Malícia se obrigou a pensar friamente. Embora as legiões que acompanharam Amadeus até as fronteiras e impediram a invasão nos Vales não estivessem exatamente insurgentes, era inegável que agiram contra sua vontade. Ela há muito sabia que, se chegasse o dia de questionar a lealdade da antiga guarda, a maioria deles escolheria não ficar com ela. A tentação de colocar o problema como uma mera hipótese nunca desaparecera, mas uma Emperatriz Sombria de Praes não podia se dar a esse luxo de esperança. Tinha planos há décadas, dizendo a si mesma que eles nunca precisariam ser usados. Ainda não tinham sido, e só seriam se não houvesse outra saída. Mas muito podia ser conquistado com uma vantagem mais mundana — apresentada como um fait accompli após a libertação dele, Black provavelmente seria forçado a abandonar seus projetos mais recentes. Apesar de perigoso, sem exército ele era apenas um homem.

“Não,” disse Alaya.

“Minha Emperatriz—”

“Não vou me repetir,” disse ela. “Os riscos são altos demais para que ele fique sob a mão deles por muito tempo. Deve ser libertado assim que possível.”

“Você não está pensando claramente, Malícia,” sussurrou Ime. “Sei que você sente que lhe deve. Eu também. Mas chega um momento em que dívidas precisam ser pesadas. Uma vida poupada — ou salva — não é uma dívida a pagar.”

A risada que saiu de sua garganta foi sem humor.

“É isso que você acha que isto é?” zombou Alaya. “Ele poupou sua vida depois que você ajudou a assassinar seus parentes com os deuses-herdeiro, e porque reteve a lâmina, você nos entende.”

A espia ficou rígida, mas não discordou.

“Gostaria que isso fosse algo tão insignificante quanto dívida,” murmurou Alaya, sabendo que era mentira. “Quão fácil seria isso.”

Como ela poderia dizer a essa estranha familiar que eles eram um só há tanto tempo que, em alguns dias, mal conseguia distinguir onde ela começava e ele terminava? Talvez dívida fosse a soma de tudo isso, se depois da guerra civil ele a tivesse tratado como uma mera imagem, dentro de seu poder. Se ele a tivesse aprisionado, uma cela mais suave que a anterior, mas uma prisão ainda assim. Mas ela tinha entendido: aquilo não era conforto nem uma vingança liberada. Era bondade, consolo, todas as palavras doces que seu idioma poderia oferecer. Essas coisas ela poderia medir e reembolsar. Mas, ao invés disso, ela recebeu algo inestimável: um mundo de caminhos sem fim, e alguém para trilhá-los com ela. Dívida? Ela poderia tão bem tentar pesar o valor do ar que respira, do sangue em suas veias. Ela não era Catherine Foundling, de modo que não poderia simplesmente rasgar pedaços de sua própria alma por capricho.

“Tenho suas ordens, Lady Ime,” disse Malícia na quietude posterior. “Cumpra-as.”

Sua espia não foi tão tola de demonstrar qualquer sinal de reprovação após ser dispensada, embora certamente estivesse chateada. Não importava. Ela fora ensinada a não extrapolar limites.

“Vossa Majestade Mais Temível,” disse Ime, fazendo uma reverência profunda.

Seus passos saíram sussurrando do cômodo, deixando a Emperatriz Sombria de Praes sozinha com seus pensamentos. Seus arredores cuidadosamente construídos agora pareciam uma zombaria, uma lembrança de que, por mais ordenado que fosse seu mundo, o caos sempre escapava pelas rachaduras.

“Eu avisei,” falou Alaya ao salão vazio. “Deuses, eu avisei. Que não era sustentável, que um dia você cometeria um erro, e isso bastaria.”

E, mesmo assim, ela não agiu. Porque ele tinha tanta certeza, porque teria destruído seu coração fazer com que ele se ajoelhasse aos seus pés. Enjaulado. E ele tinha vencido, não tinha? De novo, e de novo, e de novo. Assim, ela não falou as palavras. Deveria ter. Melhor feri-lo do que ficar do outro lado do continente, perguntando-se se seu cadáver flutuava de bruços em algum lago estranho. Erro, pensou. Era uma palavra amarga demais para ser chamada de arrependimento.

“Vamos sobreviver,” falou a Emperatriz Malícia, Primeira do Seu Nome. “Você, eu e os demais. Este império que levantamos. Sobreviviremos a esta tormenta, como sobrevivemos às demais desgraças.”

Mas e se Cordelia Hasenbach e sua turma de assassinos pálidos tivessem feito isso? Ah, ela não tinha mais dezessete anos. Não sangrava mais pela boca, incapaz de se erguer enquanto os Sentinelas pregavam seu pai ao chão.

Se eles o tivessem matado, Alaya o transformaria em um império para um funeral.

Comentários