Um guia prático para o mal

Capítulo 230

Um guia prático para o mal

“Não seja absurdo, Cavaleiro Negro. Se eu tivesse perdido, isso teria sido chamado de traição – isso é apenas sucessão.”

— Imperador Vile, o Primeiro

Era uma cena impressionante.

A própria tumba, decidi, era a parte que mais inspirava temor. O teto arqueado coberto de prata com joias cintilantes onde, no céu noturno, haveriam estrelas. Dentro, não havia luz além do brilho das joias e de um anel de espíritos vinculados que serviam como luzes mágicas. O rei falecido estava sendo colocado em um túmulo, com sua semelhança moldada na tampa, homens e mulheres com diademas de cobre na testa o abaixando suavemente. Havia sussurros baixos em línguas que não conhecia, mas o funeral era silencioso. Não fiquei para assistir o começo das orações após a tampa ser fechada; ao invés disso, aproximei-me da cena que fez meu sangue gelar. A Bardo Errante parecia mais bonita do que eu já tinha visto antes. Bronzeada e cheia de vida, ela usava vestes vermelhas e prateadas, ao invés das peles manchadas de sempre. O alaúde repousava no seu colo, na alcova onde se sentava, e ela puxava o cantil entre trocas de palavras com o jovem ao seu lado. Eu observei-o com calma. Com que frequência se consegue vislumbrar o Rei Morto antes de ele ganhar esse nome?

Esperava que ele fosse encantadoramente bonito ou grotescamente feio, mas nada disso. Pálido, até mesmo comparado aos outros Keteranos, mas não tão cadáver quanto Black. Parecia mais um estudioso que não via muito sol. Tinha sobrancelhas espessas e lábios cheios, num rosto comum, sendo os olhos castanho-claro o único destaque, quase dourados à luz magica. Parecia um estudioso, pensei. Um pouquinho mais alto do que eu, embora poucos dos Keteranos fossem altos. Sem músculos aparentes, embora suas mãos fossem surpreendentemente calejadas. O círculo de cobre na testa era ainda mais fino do que os que eu tinha visto em outros membros da realeza. Um símbolo de status? Talvez. Os outros pareciam mais velhos, provavelmente mais altos na linha de sucessão. Ou ele poderia ser de outro ramo da família real. Difícil dizer, pois eu não entendia como o reino era governado. Mesmo sem compreender as palavras dele, sua voz tinha um tom envolvente. Calma e profunda, quase reconfortante. Era difícil captar a entonação em uma língua estrangeira – tudo o que se falava em Kharsum soava como ameaça, por exemplo – mas ele não parecia surpreso ou preocupado com a presença da Bard.

Ele a conhecia? Ela tinha participado da queda de Keter desde o começo?

— Você tem certeza de que é ela? — Hakram perguntou baixinho.

Estava tão absorta em meus pensamentos que nem percebi a aproximação do orc. Assenti sem dizer uma palavra.

— O alaúde e o cantil, — continuei. — É ela.

— Ambos parecem diferentes de Summerholm, — observou o Adjutor.

Clinquei os olhos e olhei de novo para a Bard. Ele tinha razão, percebi de repente. O cantil ainda tinha aquela forma curva estranha, mas, em vez de ferro antigo e riscado, era de cobre recém-polido. O alaúde não era feito da mesma madeira, era mais pálido, e as cordas pareciam diferentes. Tênias de algum animal.

— O material mudou — murmurei. — Mas a forma não. Há algo nisso.

— Pessoas nomeadas costumam ter símbolos e artefatos associados a elas, — observou Hakram. — Exceto pelo Senhor Carniçal, embora a perda pareça ter sido compensada em epítetos. O alaúde e o cantil podem ser dela.

— Malícia avisou que eles colocaram a Bard na lista oficial de eliminados do Império, após a guerra nas Cidades Livres, — expliquei. — Pensei que Black estivesse exagerando ao falar dela porque ela deu um golpe nele, mas começo a entender seu ponto, se ela já vinha puxando cordas há tanto tempo.

— Não sabemos com certeza se a consciência dela foi ininterrupta todo esse tempo, — advertiu o Adjutor.

— Você leu as transcrições que Black nos enviou, — resmunguei. — Maldade, tive que carregar a avaliação de ameaças que ele entregou ao palácio — metade de um livro de pergaminhos, com registros e teorias. Ela fez referências a eventos muito antes de aparecer como Aoede de Nicae. Isso pelo menos duas ou três encarnações. É uma suposição dizer que ela está nisso há todo esse tempo, certo, mas não é uma hipótese.

— Sim, — concordou Hakram em voz baixa. — E compartilhar esse segredo de forma voluntária me preocupa, Cat. Teria sido uma lâmina afiada se mantida escondida. Por que ela não deixou a lâmina na escuridão?

Sim, havia isso. Se uma imortal que muda de rosto andasse pelo continente, por que ninguém nunca escreveu nada a respeito? Os nomes tendem a ficar mais fortes – embora também mais restritivos – quanto mais histórias estiverem ligados a eles. Ela teria tido milhares de anos para se tornar uma entidade praticamente intocável. E, mesmo que ela quisesse ficar quieta e ficar atrás das cortinas, parecia duvidoso que toda heroína que ela ajudou tivesse se mantido em silêncio. Com o passar dos anos, certamente teria uma ou outra boca solta que estragasse tudo. A menos que Acima ordenasse que ficassem quietos, refletia eu. Isso era… plausível. Não explicava por que nenhum Imperador do Medo tentou divulgar que havia um adversário desse calibre no campo, depois de ser derrotado ou descoberto. Estava desconfiando dela.

— Isso, — falei lentamente, — é uma ótima pergunta. Se ela esteve sob nossos pés o tempo todo e ninguém notou, por que revelou isso agora? O que mudou?

O alto orc ao meu lado pensou nas duas lendas que falavam antes de nós e rangeu os dentes desconfortavelmente.

— Suspeito, — disse Hakram, — que o conhecimento das palavras deles traria mais perguntas do que respostas.

— Isso é grande demais para passar despercebido, — avisei. — Masego terá horas. Informe aos outros que estamos montando acampamento.

Fiquei lá mais um pouco, observando a Bard Errante rir de algo que o maior monstro nascente de Calernia tinha dito. Estremeci ao ver aquilo. Sentia como se eles estivessem trocando uma piada que ninguém mais entenderia.

Começava a odiar muito essa sensação.

— Não podemos ficar aqui por muito tempo, Catherine, — disse Vivienne. — Entendo o fascínio de descobrir um segredo assim, mas isso não ajudará Callow a resistir a uma invasão.

Bebi do odre. Por mais que nossos suprimentos começassem a diminuir, ao menos não precisávamos nos preocupar em ficar sem água. Eu poderia encher o odre de gelo com um pensamento e deixá-lo derreter ao longo das horas. Indrani insistia para que eu usasse os poderes eldritch e terríveis do Inverno para resfriar o vinho dela, surpreendentemente. A indignidade era um pouco amenizada pelo fato de que a primeira coisa que Juniper me disse após eu assumir meu manto foi que minha habilidade de congelar coisas facilitaria a vida da Fifteenth com suprimentos, ao menos. Ninguém além de Masego parecia tratar minha usurpação de poder de um semi-deus como algo além de uma fonte de gelo grátis e diversão, a menos que estivesse matando alguém com ela.

— Estamos apostando toda nossa fé no Rei Morto, Vivienne, — discordei. — Uma entidade que sabemos quase nada. Carregamos a melhor oferta que nossos diplomatas conseguiram montar, mas estamos entrando nisso às cegas.

— Seja o que for que ele foi enquanto vivo, milênios se passaram, — respondeu a mulher de cabelo escuro. — Qualquer entendimento obtido estará datado demais.

— Mortos-vivos não mudam tanto quanto os vivos, — apontei. — Acho que ainda muita coisa se aplica.

— Então trocamos achismos por horas, — disse o Ladrão de forma seca. — Isso é um jogo de azar, não vamos fingir que não. A decisão foi baseada na suposição de que não saberíamos muito sobre nosso interlocutor. Podemos tentar mudar isso, se Masego conseguir passar por isso. Em certa medida. Mas todos concordamos com a premissa inicial por algum motivo. O tempo é atualmente nosso inimigo mais perigoso.

— Não quero dizer que devamos passar uma semana aqui, — disse eu. — Mas alguns dias? O retorno compensa o atraso.

— Se houver retorno, — suspirou Vivienne.

Olhei para ela com atenção. De todas as Dores, ela provavelmente era quem lidava melhor com a inquietação da nossa jornada. Mesmo Hakram, tão calmo, tinha por vezes um ar de irritação, como se esperasse ter trabalho a fazer e estivesse um pouco irritado por não estar fazendo. Thief tinha ficado quieta, até então, quase contida. Mas evitou puxar minhas orelhas metafóricas como Archer fazia e mantinha os olhos na linha do horizonte, diferente de Hierophant. A irritação que ela demonstrava agora fazia eu desconfiar que ela escondia melhor do que as outras. Certamente era a mais difícil de entender entre as Dores. Para os outros, essa coroa poderia ser de Adjutant, mas eu o conhecia como conhecia meus próprios membros.

— Você está preocupada, — observei.

Ela me lançou um olhar que implicava menos do que palavras elogiosas sobre minha inteligência.

— Não só o de sempre, — dispensei. — É sobre todos nós partindo.

— O Peregrino Cinzento está sem supervisão, — ela disse.

— O Peregrino está em prisão domiciliar, só podendo falar com goblins e Príncipe Amadis, — respondi de forma direta. — Se ele conseguir convencer Robber a virar bom, eu diria que ele merece mesmo vencer essa guerra.

— Parece negligência não manter um olho mais atento a eles, — suspirou Vivienne.

Na maior parte do tempo, com Thief, o segredo para entender ela não era ouvir o que dizia, mas perceber os motivos por trás do que fala. Talvez por causa de seu Nome, ela tendia a abordar as questões de forma indireta. A única forma de entender o que ela tinha por trás da testa, se ela não estivesse disposta a falar claramente, era descobrir as razões por trás das coisas que dizia. Nesse caso, ela falava de Callow, mas eu desconfiava que o ponto não era exatamente Callow em si.

— Você foi cortada dos Jacks, — declarei de repente.

Ela desviou o olhar. Ah. Lá estava. Possivelmente além de mim, Vivienne Dartwick era a pessoa no Reino de Callow com mais informações ao alcance das mãos. Hakram era quem reunia os relatórios das suas Jacks, as Guildas Sombrias sob Ratface e a teia de parentes de Aisha para enviar as informações mais importantes, mas isso mais pelo lado administrativo do que por autoridade. Eu simplesmente não tinha tempo de ler tudo e ainda cuidar dos meus outros deveres, nem agora que não havia mais necessidade de dormir. Mas Thief também tinha acesso a tudo e, como chefe da minha teia de informantes, tinha poder de mandar agentes descobrir qualquer segredo que quisesse. Devia ser uma coceira que ela não podia arranhar, afastada do centro da rede para ficar perambulando por Arcádia.

— Entendo a necessidade de dedicar-se a isso, — disse Vivienne. — E os riscos de trazer qualquer pessoa que não seja Nomeado para Keter, além da vulnerabilidade de deixar apenas um conosco. Mas estamos cegos para tudo o que acontece na Criação até que a questão seja resolvida.

Realmente seria difícil fazer scrying de volta para casa a partir de Keter, convenhamos. Ao contrário de Malícia e Black, eu não tinha dezenas de magos treinados em scrying espalhados pelo continente, criando conexões que entregassem relatórios em horas. Meu número limitado tinha que ser muito bem planejado, e principalmente focado em Praes e Procer. Mover tudo isso para alcançar o Observatório próximo às barreiras naturais ao redor de Callow não seria impossível, mas prejudicaria nossos olhos no exterior por meses. Meses em que não podíamos nos dar ao luxo de ficar às cegas em relação aos movimentos perto de nossos vizinhos mais perigosos. Algo que só se usaria em caso de emergência extrema.

— Não é um risco se estivermos no controle o tempo todo, — afirmei suavemente.

— Eu sei, — ela disse, frustrada, passando a mão pelo cabelo curto.

Pensei que o corte tivesse sido um pouco rude na primeira vez que nos encontramos, mas com o tempo tinha me acostumado. Cabelos longos na Vivienne agora pareceriam estranho.

— Estamos assumindo tantos riscos, Catherine, — ela falou baixinho. — E cada um deles parece razoável quando a decisão é tomada, mas, ao olhar para trás, fico perguntando se tudo o que construímos não é uma casa de cartas.

— Realmente parece que todos querem nosso sangue, não é? — ri amargamente. — Deus, estamos na corda-bamba quando o Melhor Horror Escondido é o melhor aliado que temos.

— Ainda acho que não temos total noção do que essa decisão pode acarretar, — disse Vivienne. — São as pequenas coisas que me preocupam.

O olhar que ela lançou na gola do meu manto foi tudo o que precisei para entender. Não respondi de imediato. As duas estavam sentadas na tumba de uma rainha morta, observando Hierophant traçar runas ao longe. Ele já fazia isso há meia hora, e a descoberta que ele tanto buscava ainda não aparecia.

— Ela poderia acelerar o trabalho dele, — disse, mantendo o olhar em Hierophant. — Masego me disse que a fortaleza do apocalipse tinha semelhanças com a Brecha Maior em Keter. Não há muitos magos mais experientes por aí.

Não precisei dizer o nome da mulher em questão; ambas sabíamos quem eu me referia.

— Ela, — respondeu Vivienne com impressionante frieza, — não foi punida.

Minha sobrancelha se levantou.

— Eu arranquei o coração dela e注fee sua alma à capa, — expliquei. — Admito que não virou um tormento eterno de gritos, mas pelo menos é uma prisão com um pouco de tortura.

— E agora ela usa seus poderes a seu serviço, — disse Thief. — Protegida de antigos inimigos. Fez-se útil e, assim, a coleira afrouxou. Quanto tempo, Catherine, antes que a praticidade abra de vez a porta?

— Eu não me esqueci de Liesse, — respondi friamente.

— Paz, — a outra disse, levantando a mão. — Ajudei você a redigir os Acordos, Catherine. Conheço esse olhar nos seus olhos quando você pensa que está sozinha e lembra da carnificina. Sei que a vergonha do fracasso ainda te assombra. Já vi sua raiva contra o arquiteto do massacre.

— Não tenho certeza do que está dizendo, — admiti.

Além de admitir que às vezes ela me espionava sem que eu percebesse, o que eu já considerava inevitável. A ideia de privacidade tinha sido uma questão de perder antes mesmo de uma ladra invisível se juntar ao grupo.

— Uma vez te falei que cruzar a Criação de novo era uma linha, — disse Vivienne. — Uma hora desesperada após a outra, a atravessamos.

Farcendo o rosto, confirmei que poderia argumentar que na época falávamos da alma que ela colocou na criança como parte do plano de ressurreição, ou que tudo o que deixei a Diabolist fazer foi uma alma, mas seria mentira. Eu de fato tinha permitido que ela tivesse um pedacinho de criação, seja qual for o custo.

— Quer que eu destrua a alma, — suspeitei.

Vivienne riu, um brilho vil reluzindo em seus olhos azul-cinza. Era estranho admitir que ela ficava ainda mais atraente comigo assim. Como se eu esperasse alguma coisa dali. Mas não achava que fosse acontecer. Thief, tão reta, que dava até para usar como régua.

— Aprendi, — ela disse, — a usar o pragmatismo. Não, deixe que ela continue existindo. Deixe ela sair, até. Ela tem usos, e o momento só ficou mais desesperador. Outra face até faria a Indrani menos chatice por um tempo.

— Mas, — comecei.

— Pelo que ofensas pequenas e preços longos, — disse Vivienne Dartwick duramente. — Deixe que Akua Sahelian veja a luz e prove da liberdade. Que ela ache que escapou do laço, desde que continue útil.

Os dedos de Thief se cerraram.

— Mas haverá um dia em que o mundo que criamos não terá mais lugar para ela, — disse Vivienne. — Quando enfrentarmos todos os horrores à nossa frente. E, nesse dia, quando ela vislumbrar a vitória?

Vivienne olhou nos meus olhos, e havia algo neles que até mesmo a Neve hesitou.

— Dê um fim nela, Catherine, — ela disse. — Lentamente. Com dor. Sabendo exatamente o que está sendo tirado dela.

Tremeram-me os nervos, tanto por respeito à crueldade da proposta quanto por uma espécie de excitação. Deus, era uma tragédia que ela só estivesse montando um garanhão. Pensei em afastar esse pensamento culpado e encarei a seriedade do momento. Deveria hesitar ao simplesmente permitir que nossa Akua, com a intenção de matar, fosse eliminada lá na frente? Meu Deus, era preciso até mesmo perguntar. Na minha época de dezessete anos, eu não teria nuances a entender. Mas naquela época eu não tinha um reino nas costas. E não tinha olhado nos olhos de Akua Sahelian, quando ela disse de forma desinteressada que iria massacrar cem mil inocentes para usar como peões na sua ambição. Colocar uma faca nas costas dela não se tornou moral só porque Diabolist era uma massacradora, mas era uma maldade mesquinha que virou minha ferramenta de trabalho. Honestidade e misericórdia deixaram de ser aplicáveis a quem estivesse disposto a assassinar uma cidade inteira por seus interesses.

— Pode levar anos, — adverti. — Antes de termos que enfrentar mais adversários. Podemos morrer antes disso também.

— Eu sei, — respondeu Vivienne. — Que ela siga conosco na morte, se for o nosso destino. Caso contrário, minhas palavras permanecem.

Eu cuspi na palmada da mão e ofereci-a. Thief não era uma donzela bobinha que recuava ao ver cuspe, mesmo sendo aristocrata, então ela fez o mesmo sem hesitar.

— A aliança está feita, — falei, e entrelaçamos as mãos.

— A aliança está feita, — repetiu ela.

Levantamos. Eu pronunciei as palavras, e Akua Sahelian voltou ao mundo novamente.

Tinha dois dos maiores magos da nossa geração trabalhando numa solução, e nem meio dia depois, lá estava eu: com uma carranca, sendo informado de tudo o que eu não queria ouvir. Hierophant tinha pelo menos a decência de parecer tão frustrado quanto eu. Os lábios de Akua estavam levemente torcidos, o suficiente para não parecer um sorriso, mas suficiente para mostrar o quanto ela estava feliz por estar fora da caixa e conversando sobre magia com uma das poucas pessoas no mundo que ela considersse um igual.

— O problema foi o mesmo desde que você me interrompeu, — disse Masego, com um tom acusador. — Ainda não consegui explicar a discrepância na harmonia.

— Podemos ouvir o que eles dizem agora, — indiquei. — Você conseguiu contato por um pouco ontem.

— A fórmula foi um beco sem saída, — disse a Diabolista. — As runas envolvidas interrompiam qualquer tentativa de adição. Considerem como um minério que estragou a liga.

Fiquei irritada que minha rival falante fosse melhor em explicar feitiçaria sem parecer superior do que uma das minhas melhores amigas.

— Mas você estava alinhado, — insiste.

— Não do modo certo, — reclamou Masego irritado.

— A diferença era como ler um rio em uma folha de papel enquanto tenta nadar nele, — sorriu Akua. — O resultado foi alcançado, mas por um caminho diferente do desejado.

Sim, continuava me irritando. Eu já suspeitava que isso ia acontecer muitas vezes.

— Pode ser que seja impossível fazer isso dentro dos limites da magia de Trismegistan, — disse o Hierophant. — Estávamos discutindo perspectivas diferentes, mas a maioria delas é tão falha ou ineficaz para humanos que meus estudos do assunto foram superficiais.

— Temos apenas um pouco de tempo para gastar aqui, — admiti relutante.

— Você exige milagres no ritmo de quem faz feitiçaria de pouca fé, — murmuro Masego, e fez uma pausa.

A seguir, seu olho de vidro se virou, como se olhasse por trás dele.

— Pode ser que seja tão simples assim? — perguntou.

— Você já lidou com milagres antes, — encorajei.

— Eu os pratiquei e utilizei partes deles, — respondeu distraidamente. — Mas a diferença é de entendimento, e tenho um mecanismo para corrigir isso.

Senti ele reunir poder sem recitar uma palavra ou desenhar uma runa. Não formando um feitiço, pensei. Assimileando a energia. Abri a boca para perguntar, mas Akua discretamente balançou a cabeça.

— Uma questão, — murmurou Hierophant consigo mesmo. — No sentido técnico. Tolo, tolo. Vi, quando transmudei. A quantificação é um anátema às magias superiores.

De repente, sua mão se estendeu e ele agarrou meu pulso.

— Sim, — sorriu. — Eles não vão me negar, sejam Deuses ou pais. Eu vou Testemunhar.

Uma onda percorreu o mundo, e aquilo que deixou para trás não foi mais um eco.

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