
Capítulo 167
Um guia prático para o mal
"E na sua sepultura deixaremos inscrito: ele foi espirituoso até cair na cova do tigre."
– Imperador Temerário, Vindictive
Nauk tinha uma tenda só para ele, diferente dos demais feridos que permaneciam com o exército. Consciente ou não, ele mantinha seu posto. Seu Tenente Sênior tinha recebido, temporariamente, plena autoridade de legatário, mas ninguém tinha coragem de falar de promoção oficial na minha frente. Todos que podiam discutir o assunto me conheciam melhor do que isso. Não havia uma vela acesa lá dentro, mas isso já não fazia diferença pra mim há anos. Arrastei a única banqueta no canto, sobre a terra, e sentei, os olhos fixos na forma inerte do orc. Sua respiração ainda subia e descia fraquamente e as feridas tinham começado a cicatrizar, mas nada de bonito nisso. Seu olho esquerdo havia sumido, engolido pelas chamas de verão, junto com a orelha, a bochecha e um pedaço de cabelo escuro. Parecia que uma fogueira tinha devorado metade do seu rosto, e embora as queimaduras não fossem mais o horror de pele carbonizada, estavam encrustadas de crostas verdes e descascando. Isso, eu sabia, ele seria capaz de suportar. Esse tipo de cicatriz era quase uma questão de honra entre os orcs. Meus olhos se desviaram para o lado, permanecendo no esboço que terminava no ombro dele. A perda do braço de combate seria um golpe mais duro.
Eu sabia que próteses podiam ser feitas. O Feiticeiro fabricou uma mão para Hakram, após Summerholm, e não duvidava que Masego pudesse criar algo ainda mais funcional agora que havia se tornado Hierofante. Mas Nauk continuaria a ser um aleijado aos olhos dos seus, sem um Nome que compensasse sua deficiência. Há muito o que amar nos orcs — seja a lealdade de osso profundo ou a ferocidade diante do perigo — mas os Clãs não são conhecidos por serem bondosos com fracassados — e tenho certeza de que esse será o nome que irão dar a ele por isso.
“Nunca devia ter te levado pra aquela luta,” murmurei, afastando um fio de cabelo indisciplinado. “Nem a Gallowborne. Foi arrogância, achar que meu poder era suficiente para te manter vivo.”
No fim das contas, eu era uma vilã. Meu poder não devia ser uma proteção para quem amava. Tudo que posso fazer é eliminar o inimigo antes que ele te mate, pensei. Mas isso também falharia com o tempo, assim como Black falhou com o Capitão. A morte só pode ser enganada por tanto tempo, por mais que você seja astuto, impiedoso e forte —
“Disseram que a Pickler te visita toda noite, depois de terminar o expediente,” informei ao orc. “Os outros também vieram, até o Robber. Você não foi esquecido.”
Não havia feitiços ou proteções ao redor da tenda, mas havia guardas. Quando os ouvi dar passagem sem comentários, meu pensamento passou pela lista das poucas pessoas com autoridade para tal. Não seria a Juniper, nem qualquer membro do Estado-Maior, — a maioria deles tinha organizado uma fogueira distante de olhares curiosos e já estavam aparecendo com garrafas quando a Campainha Ao Escurecer tocou. Eu tinha a intenção de me juntar a eles, eventualmente, mas tinha vindo primeiro visitar meu erro. Não o Black. Ele passara o dia espiando generais e oficiais de corte, e provavelmente continuaria até partirmos para Liesse. Restavam apenas três: Hakram, mas os passos que se aproximavam eram leves demais. Archer nem sequer viria aqui. E isso significava…
“Senhor Feiticeiro,” falei tranquilamente, retirando a mão da testa de Nauk.
O Senhor do Céu Vermelho não se incomodava mais com a escuridão do que eu. Caminou casualmente até o lado do meu legatário, deixando o corpo entre nós, e franziu o cenho para o inanimado orc. Estudei o vilão em silêncio, olhos traçando o rosto esculpido e a forma justamente moldada por sua túnica sob medida. Sempre havia vestígios de prata em seu cabelo curto, e sal com pimenta em sua barba, mas acho que agora percebi um pouco mais de ambos. Ainda imóvel, pensei, talvez um dos homens mais bonitos que já vi. Um homem mais velho, certamente, mas isso só aumentava seu charme: não tinha nada de juvenil nele. Admiti isso antes, como posso admitir que Akua também é bonita. Parte de mim ainda o considerava inimigo, e inimigos não devem ser admirados. Ele não respondeu ao meu cumprimento nem chamou por magia. Simplesmente ficou ali, olhando.
“Desculpe,” eu disse. “Sobre a Sabah.”
Olhos escuros finalmente se voltaram para mim.
“Sua simpatia é uma coisa rasa de pouco significado, Escudeiro,” respondeu ele. “Você a conheceu por pouco mais de três anos, talvez um mês de convivência. Sua dor é uma imitação pálida da nossa.”
“E ainda assim, luto por ela,” retruquei.
Seu rosto tremeu, mesclando tristeza e ódio. Em minhas veias, fluía o Inverno, o brilho no ambiente ficando mais denso. Meu manto ansiava por combate, como alguém sedento pela água.
“Ela foi sempre a melhor entre nós,” disse o Feiticeiro. “Tudo o que quis foi que estivéssemos vivos e felizes. Por isso, era muito fácil de amar.”
Não respondi. Proceda com cautela aqui, Catherine. O Inverno já sentiu o cheiro de guerra, e raramente se engana nisso. O homem alto continuou me observando, e o silêncio crescia com cada batida do coração.
“Estou tentando,” disse o Senhor do Céu Vermelho, “pensar numa razão para não te matar aqui e agora.”
“Você pode não conseguir tão facilmente,” respondi calmamente.
Eu tinha ido longe demais para recuar diante de alguém como ele. Um sorriso lento surgiu no rosto do Soninke.
“Você fala de problemas enquanto sua alma está a um feitiço de se virar contra si mesma,” disse ele. “Orgulhosa pequena Escudeira, aprendendo todas as lições erradas. Você realmente achou que um manto era tão fácil de conquistar? Que não haveria consequências ao usurpar um semi-deus?”
Meus olhos se fixaram na forma silenciosa de Nauk.
“Tenho plena consciência das minhas limitações,” declarei.
“Você é um altar levantado para sua própria ambição, criança, e as bases estão estremecendo,” zombou ele. “Encobriu-se de mentiras e assassinatos em assuntos que vão além do seu entendimento. Ainda consegue suportar o toque do ferro frio?”
Ele riu de forma aguda, seus dentes como marfim brilhando na escuridão.
“Talvez ainda seja cedo demais para isso,” disse. “Mas os limiares já devem estar se tornando difíceis, não? Proteções se tornam pedra onde antes eram pergaminho, seu poder é instável onde antes era firme. Você não é mais que humana, Catherine Foundling, apenas outro.”
Meus dedos tremeram, escondidos sob o cobertor de Nauk, na posição de ataque. Sentia vontade de pegar minha espada, mesmo com as palavras surgindo na minha cabeça. Uma desagradável sensação de verdade pairava sobre elas. As arestas sendo apontadas contra mim não doíam muito, mas minha paciência já esgotava diante de uma repreensão que não tinha merecido. Ou, pelo menos, não dele próprio.
“Você uma vez me alertou sobre limites que eu não deveria ultrapassar,” falei friamente. “Respeitei esses limites. E, ainda assim, aqui está você, com uma lâmina na língua, como se fosse um verdadeiro homem, Feiticeiro.”
A tenda ao redor tremeu, não como uma magia ou ataque — o Senhor do Céu Vermelho simplesmente deixou de esconder a feitiçaria que sempre pulsava dentro dele. Com apenas estar ali, apenas existir, ele se tornara uma tempestade encarnada. Meu Nome se arrepiou de resposta, o frio tocando meus ombros e minha sombra aprofundando-se numa caverna sem fim. Fica de pé perante Hashmallim, inabalável, Wastelander. Você não vai me assustar com truques baratos.