
Capítulo 24
Poder das Runas
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Ash deu um passo à frente.
Os murmúrios no salão não cessaram.
Se é que algo disso acontecia de fato, tornou-se um som suave, porém persistente, ao fundo, vozes se misturando numa massa indistinta de sussurros.
Algumas foram caladas, quase inaudíveis, enquanto outras carregavam uma ponta sutil de empolgação.
Mas nada daquilo tinha como alvo ele.
Não, a atenção deles estava totalmente voltada para alguém mais.
Ray Dawson.
O usuário de "Todo-Afilição".
A lenda em ascensão.
Um nome que já começava a marcar sua presença na história da academia. O tipo de pessoa que seria assunto de todas as conversas sussurradas, olhares de ciúmes e admiração esperançosa.
E ainda assim—apesar do foco massivo em Ray—havia alguns olhares que não desviavam de Ash.
Olhos que observavam.
Olhos que julgavam.
Olhos que questionavam.
Elva.
Elysia.
Melissia.
A expressão de Elva permanecia indecifrável, uma máscara impassível de controle.
Porém, seus olhos contavam outra história totalmente diferente. Havia atenção minuciosa em seu olhar, uma nitidez que atravessava o ruído, observando cada movimento dele com uma intensidade quase sufocante.
Os olhos de Elysia brilharam por uma fração de segundo, uma mudança sutil que a maioria provavelmente nem notaria.
Ela claramente tinha pensado algo, embora o que fosse permanecesse um mistério.
E, então, estava Melissa. Diferente das outras duas, sua expressão carregava uma mistura incomum—uma curiosidade e uma reflexão entrelaçadas.
Porém, Ash não se incomodava com nenhuma delas.
Ele exalou lentamente, forçando-se a permanecer indiferente, e deu um passo adiante.
Seus dedos tocaram a superfície do orbe.
Era liso e frio. Quase de uma forma anormal.
No instante em que sua mão fez contato completo, um sussurro tênue vibrou sob sua pele, uma vibração tão sutil que ele quase a ignorou.
E então—
Um brilho violeta profundo pulsou do orbe.
A luz brilhou por um breve momento antes de se estabilizar em uma tonalidade constante, firme. Forte, mas não avassaladora. Decidida, porém controlada.
Raio.
Ash não reagiu. Sua expressão permaneceu neutra, sua postura, inabalável. Mas, sob a superfície, uma sensação silenciosa de alívio tomou conta dele.
Apenas relâmpago.
Sem anormalidades.
Sem revelações chocantes.
Sem atenções indesejadas.
Ele tinha se preparado para o pior, para a possibilidade de algo incomum se manifestar, de se tornar um espetáculo diante de toda a academia.
Mas nada aconteceu.
Simples, sem complicações e ordinário.
Ótimo.
Ele deixou seus dedos relaxarem ligeiramente antes de retrair a mão, afastando-se da superfície do orbe como se toda a experiência fosse algo banal para ele.
Porém, assim que virou-se para se afastar, uma sensação estranha lhe invadiu.
Algo no ar parecia errado.
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[ELVA QUILL]
Elva vinha observando Ash muito antes daquele momento.
Desde o primeiro dia dos testes de admissão, ela tinha notado ele—não porque ele se destacasse, mas porque era completamente esquecível.
A primeira vista, era apenas mais um participante qualquer, alguém sem nada de especial em todos os sentidos.
Ele se misturou de forma tão perfeita à multidão que ela quase o descartou sem dar a mínima atenção.
Mas então—
Algo chamou sua atenção.
O primeiro teste.
Enquanto os outros lutavam contra seus pensamentos internos, ele conseguiu focar quase que instantaneamente.
E não foi só a rapidez que se destacou—foi a maneira como se comportava.
Ele nem mesmo mostrou o menor sinal de tensão, não desperdiçou tempo duvidando de si mesmo.
Ela já tinha visto esse tipo de comportamento antes.
Um certo nível de distanciamento.
Um grau de força de vontade que só vem com a experiência ou uma compreensão muito além da idade.
E ela gostava disso.
Depois veio o segundo teste.
Quando ela analisou as respostas do aluno que tinha conquistado o topo, por um momento, ficou surpreso.
O nível de maturidade naquelas respostas, a clareza absoluta de raciocínio, era coisa de alguém muito mais velho que doze anos.
E, no entanto, quando ela finalmente olhou para o menino responsável por aquilo, sentiu apenas desapontamento.
O corpo dele era fraco, sem graça. Sua constituição física não tinha a força de alguém realmente forte.
Mas então, havia a mana dele.
Era pura.
Verdadeiramente pura demais para alguém considerado sem destaque. Ele tentava segurar tudo dentro de si, mas seus olhos conseguiam perceber isso de inmediato.
Acreditava que ele poderia se tornar um bom mago algum dia, mas, após ver seu potencial, sentiu-se decepcionada.
Mesmo assim, deixou pra lá. Pensou que era só um garoto inteligente, mas sem força de verdade.
E então—
O terceiro teste aconteceu.
Nele, ele foi severamente derrotado e,
No instante em que perdeu a consciência, achou que aquilo fosse o fim. Que seu julgamento inicial estivesse certo, ele era fraco, nada mais.
Porém, após meia hora, ele acordou.
E saiu como se nada tivesse acontecido.
Isto a desconcertou.
Até ela, que se orgulhava de sua capacidade de enxergar além das pessoas, foi surpreendida por um instante.
E ela odiava sentir-se confusa.
Por isso, decidiu ficar de olho nele.
Depois de rever sua gravação, concluiu que ele manipulava todos.
Ele manipulara a percepção dela—ela, alguém de nível Mítico.
De alguma forma, ele tinha convencido milhões de espectadores de que era apenas comum.
E isso, por si só, não era algo que uma criança comum pudesse fazer.
Até enganar tantas pessoas exige um nível de inteligência que está longe do normal.
Por isso, tomou sua decisão.
Foi ela quem o colocou pessoalmente na Classe 1S.
Foi ela quem escolheu ser a professora deles.
Porque seus instintos nunca tinham errado antes.
E seus instintos lhe diziam—
Ash Burn não era nada comum.
Então, quando ele deu um passo à frente e colocou a mão no orbe, ela observou.
Esperava algo.
Algo a mais.
Mais afiliações.
Algo como Ray.
Algo que finalmente confirmasse, lá no fundo, o que ela já tinha percebido.
Mas—
Nada aconteceu.
A luminária permaneceu inalterada, um violeta único e constante.
Passaram-se segundos.
E então, ele afastou a mão.
Elva prendeu a respiração.
Pela primeira vez em muito tempo, a dúvida invadiu sua mente.
Ela tinha certeza.
Absoluta.
Mas talvez—
Talvez ela estivesse errada.
O pensamento lhe deu um arrepio desagradável na espinha.
Tão absorta em seus pensamentos que quase não percebeu a voz dele.
"Professora, devo ir embora?"
Seus olhos se prenderam aos dele.
Por um instante, tudo que ela viu foi um olhar comum.
Mas algo parecia errado.
Ela se forçou a responder.
"Sim", disse, sua voz quase distante.
Ela mal percebeu quando ele virou-se e se afastou.
Sua mente ainda rodava em círculos.
'Se ele não está escondendo a afinidade, então o que será?'
Uma ideia nova surgiu.
A classe dele… sim, essa deve ser a resposta.
A tensão no seu peito diminuiu um pouco.
Sim. Faz sentido.
Quem sabe a afinidade dele seja normal.
Mas a classe?
Isso ainda pode ser algo totalmente diferente.
E ela descobriria.
De um jeito ou de outro.
Ela respirou fundo.
Mandando embora os pensamentos persistentes, endireitou a postura e voltou sua atenção aos estudantes.
Seu momento de dúvida tinha passado. Agora, ela estava no controle.
"Tudo bem," ela disse, com sua autoridade habitual de voz firme. "Agora, podem ir."
Os alunos começaram a se mexer imediatamente, alguns trocando olhares antes de recolher suas coisas.
"Hoje é o primeiro dia, então aproveitem para explorar o campus," ela continuou, olhando para o horário. "E—preencham o formulário com as matérias que desejam fazer. O documento será enviado às suas smartwatches da academia em breve."
Uma breve pausa.
Então, com firmeza, acrescentou—
"Pode ir."
A atmosfera no ambiente mudou à medida que os estudantes começaram a se dispersar. Alguns sussurravam entre si, outros discutiam animados sobre as aulas. Mas, no meio de tudo isso, havia uma mudança inconfundível no foco.
Um nome que agora estava nos lábios de todos.
Ray Dawson.
O primeiro humano na história a possuir todas as afiliações.
O peso dessa conquista não passou despercebido por Elva.
Mesmo tendo estado concentrada em Ash antes, não dava para negar—Ray Dawson era uma existência de geração única.
Talvez até de humanidade única.
E ela sabia exatamente o que isso significava.
Se o diretor não agir logo, aqueles covardes vão se jogar nele como uma matilha de hienas.
Não havia tempo a perder. Ela tinha que avisá-lo antes que as coisas saíssem do controle.
Enquanto isso, como esperado—
Ray foi imediatamente cercado pelos colegas assim que a sessão terminou.
O ar vibrava com admiração, inveja e reverência.
Vozes animadas enchiam o espaço.
"Você é incrível, Ray!"
"Um usuário de todo-afilição… Não acredito que estou vendo isso na minha vida."
"Você é solteiro?"
Ele era o centro das atenções.
A luz mais forte da sala.
E quando os alunos começaram a sair, ela também desapareceu.
**
Fora do Salão
Os corredores ainda tinham um burburinho de empolgação, mas Ash não se interessava por nada daquilo.
Ele tinha apenas uma coisa a fazer.
Ele chamou, sem hesitar.
"Melissa."
Sua voz era calma, mas o efeito foi imediato.
Ela virou-se para ele, franzindo as sobrancelhas com irritação.
Ao redor, os demais alunos pararam no ato.
Seus olhares se voltaram rapidamente para a origem da voz.
O interesse deles era evidente.
Ash Burn chamando Melissa Ravencroft?
Um espetáculo se desenrolava diante de seus olhos.
E eles queriam assistir a isso.
Ah, droga! regionalmente, Ash gemeu internamente, por que diabos eles estão só de pé olhando?
Ele tinha se concentrado tanto em terminar logo que não havia considerado toda a atenção que estaria recebendo.
Deveria ter esperado ela ficar sozinha?
Ele pensou por um breve instante.
Não. Isso demoraria demais.
Sem perder tempo, ele se aproximou dela e falou em voz baixa.
"Tem muita gente. Vamos trocar de lugar."
Ele não esperou pela resposta.
Virando-se rapidamente, começou a caminhar em direção aos jardins da academia.
Melissa, por um momento, hesitou.
Mas, no fim, seu orgulho não permitiu que ela desistisse da aposta.
Com um bufar, ela seguiu atrás.
Assim que saíram da vista, os murmúrios reprimidos se transformaram em conversas baixas.
"Eles… se conhecem?"
"Quem sabe? Mas Melissa foi atrás dele sem dizer uma palavra."
"Estranho, né? Melissa nunca costuma seguir alguém assim."
"Ei, cala a boca... Ethan está aqui."
Nessa, os sussurros cessaram instantaneamente.
Ethan ficou a alguns passos, com as mãos cerradas ao lado do corpo.
Sua expressão era difícil de entender.
Mas a firmeza nos olhos enquanto observava eles partir era inconfundível.
***
Jardins da Academia
A caminhada foi curta.
Assim que chegaram ao espaço isolado, Ash encostou casualmente contra uma árvore, cruzando os braços.
Melissa, por outro lado, parecia irritada.
"Ganhei a aposta," lembrou ele, com voz calma, mas firme. "Então, você me deve um favor. Lembra, né?"
Ela fez uma careta. "Sim, sim, sei. O que quer? Fala logo e acabou."
Ash não perdeu tempo.
"Eu quero um item do seu cofre da família."
Assim que as palavras saíram, a expressão de Melissa escureceu.
"Só me manda uma lista do que tem lá dentro," continuou ele, indiferente à reação dela. "Eu escolho um. Não se preocupe, sei o meu lugar—não vou pegar nada muito valioso."
Melissa bufou,
"Você sabe mesmo o que está pedindo?" ela disse, incredula. "Isso não é possível."
Ash exalou lentamente, seus olhos encontrando os dela.
Então, com tom completamente neutro, falou—
"Quer que eu diga para todo mundo que Melissa Ravencroft é uma chorona? Que ela dá birra por não receber respeito?"
A respiração de Melissa ficou presa.
Ash deu um passo à frente, baixando um pouco a voz.
"Ou… prefere que seu pai descubra do seu amor por Ray Dawson?"
Seus olhos se arregalaram.
Todo o corpo dela ficou rígido.
"V-Você—!" ela gaguejou, com o rosto distorcido de raiva.
Seu dedo apontou furiosamente para ele.
"Nem pense nisso—!"
Ash permaneceu completamente impassível.
"Se for usar magia, vá em frente," ele disse numa voz seca. "Mas só pra avisar… estamos no território da academia. E se o Delegado da Classe quiser perder alguns pontos, paciência—finja que não ouviu nada."
A mandíbula de Melissa travou.
A mão dela tremeu um pouco antes de, relutantemente, abaixá-la.
Um longo silêncio pairou entre eles.
Depois—
"…Beleza," ela cuspiu. "Vai levar até 2 dias no máximo," ela falou, encarando-o com irritação. "Mas não encha o saco de novo. Se fizer, a coisa não vai acabar bem pra você."
Ash levantou as mãos em sinal de rendição, com um sorriso quase divertido.
"Prometo," disse, de maneira suave. "Nem vou falar com você depois disso."
Ela bufou, virando as costas.
Sem mais palavras, ela partiu furiosa.
Ash permaneceu onde estava, com as costas encostadas na árvore.
Depois, fechou os olhos por um instante, respirando lentamente.
Pronto, isso também ficou resolvido.
Com esse pensamento, levantou-se da árvore e começou a caminhar.
Hora de ir para a biblioteca.