
Capítulo 285
Verme (Parahumanos #1)
As luzes piscavam enquanto trafegávamos para dentro do local.
Parecia um hospital, mas não um hospital abandonado. As coisas estavam impecáveis, as paredes e o piso de azulejo, um branco limpo, intocado. Não era um local que tivesse sido deixado a deteriorar-se. A aparência austera e limpa do lugar criava um contraste com os danos visíveis. Havia argolas nas paredes, objetos arrancados de paredes e tetos, marcas de queimado, tanto por ácido quanto por fogo, além de cadeiras, armários e vestiários danificados.
Observei o conteúdo dos armários e gavetas que haviam sido arrombados. Frascos de vidro, líquidos transparentes, ferramentas médicas ainda embaladas em plástico com capas de papel que poderiam ser rasgadas. Apesar da desorganização, tudo estava em excelente estado, parecendo nem ter sido tocado.
Quanto mais eu olhava, menos aquilo parecia um hospital — e mais parecia algo fabricado. Era mais como se alguém tivesse separado partes de um hospital, removendo tudo como as estações de enfermagem e as salas de pacientes, deixando só os corredores e as portas embutidas no chão, seladas e a prova de ar. Eu até pensaria que tudo aquilo tinha sido armado, mas uma verificação com meus insetos confirmou que havia o mínimo de poeira, até mesmo em locais onde as pessoas não poderiam ver.
Por que gastar tanto tempo limpando áreas que nunca seriam usadas?
“Tattletale?” perguntei. “Como está a conexão?”
“A Libélula está retransmitindo a conexão das torres, que estão enviando de Gimel. Bem impressionante, quando você pensa bem.”
“Penso que essas coisas contam uma história. Pode nos atualizar? Informação vence batalhas.”
Ouvi um barulho atrás de mim. Um estalido ou uma bufada de desprezo. Olhei para trás, mas não consegui ver quem tinha sido. Lung? Shadow Stalker? Golem? Cuff? Todos eram possíveis, em diferentes níveis. Lung poderia ter sido desdenhoso, Cuff lamentando o fato de eu estar insistindo nisso mais uma vez. Eu tinha reforçado aquilo umas dezenas de vezes ao justificar os patrulhamentos e alguns casos de infiltração.
“Consigo ver o caminho que eles seguiram,” disse Tattletale. “Você está voltado na direção dos Irregulares. Eles ficaram mais agitados à medida que avançavam. Excitação, raiva, uma confusão de emoções negativas, acumuladas por anos, finalmente libertadas.”
Eu acenei com a cabeça. Quase podia imaginar, quase ver eles no corredor.
“Quarenta e três deles. Caso cinquenta e três. O grupo todo do Weld.”
“Temos dados sobre eles?” perguntei. Meu olhar caiu sobre uma das portas. Tinha um aspecto tão comum, mas alguém tinha batido nela, e ela estava amassada. Metal, aparentemente reforçado, com uma grande seção da porta encaixada na parede.
“Já temos os arquivos abertos. Não há muitos detalhes na maioria, mas eles não estão exatamente na mídia. Você só consegue avistamentos e, aparentemente, documentos do PPE[1] onde os membros do Protetorado vão verificar como estão de tempos em tempos, para garantir que estão bem. Os demais, bem, você conhece o Weld, Gully e o Gigante Gentil. Posso fazer um resumo pra quem não conhece.”
“Sei o suficiente,” disse Lung. “Prefiro não ter voz praguejando no meu ouvido enquanto procuro por problemas.”
“Ah, ei,” disse Imp. Pelos meus bugs, senti Lung reagindo à sua aparição repentina. “Não me importaria de ouvir essa informação. Resumidão?”
“Você faz isso para me irritar,” disse Lung.
Ele é afiado, de algumas maneiras, pensei.
“Não encha seus ovários. Quero só entender com o que estamos entrando.”
Ouvi um rosnado, e minha primeira hipótese foi que Imp tinha apertado o botão errado. Virei-me, minha mão indo em direção à minha faca.
Mas era o cachorro da Rachel, Huntress, com o focinho contra uma porta.
Observei cada um preparar-se para uma luta. Ou não se preparar, como era o caso. Lung permanecia muito casual, quase calmo, enquanto Canary recuava, mantendo o máximo de distância possível da porta. Ela estava em uma armadura melhor que a maioria de nós, com uma das roupas do Dragão Matador do Saint, mas ainda se via como vulnerável.
Puta que pariu, eu a via como vulnerável.
Meus insetos rodearam o perímetro da porta, mas só consegui detectar danos ao redor da maçaneta. Por mais que fosse uma porta à prova de ar.
Tirei minha faca, então assenti para Rachel partir.
Ela chutou a maçaneta, e a porta se abriu com um rangido.
Sangue, mortos. Três casos cinquenta e três mortos. Dois homens e uma mulher. Um homem-macaco com dentes demais na boca, cobrindo o céu da boca e o espaço sob sua longa, estreita língua, algo que parecia teclados nos antebraços. Um réptil, nada muito diferente do Nascente, mas sem boca ou nariz. Apenas dois olhos grandes demais. A última era uma garota, pedaços de carne entremeados com retalhos de tecido. Sua boca era apenas um rasgo no tecido.
Seus pescoços haviam sido cortados limpos — a garota de retalhos sangrava como qualquer outra — e eles tinham sido arrastados para essa sala. Era evidente pelo rastro de sangue que de repente parou que alguém tinha limpo aquilo tudo.
“Retardatários. Os Irregulares estavam se movendo como grupo fechado, bem próximos uns dos outros, mas Satyrical e sua equipe surpreenderam os que estavam no final. Os mataram, arrastaram-os embora, e um deles limpou as evidências. Provavelmente a Floret,” disse.
“E Satyr provavelmente se disfarçou como esses três,” segundos depois, falei. “Ele está no grupo do Weld.”
“Provavelmente.”
“Então, temos que nos apressar,” continuei. “Ótimo trabalho, Rachel, Huntress.”
Rachel apenas deu uma grunhido de reconhecimento.
“Você está agradecendo ao cachorro?” perguntou Shadow Stalker, incrédula.
“Agradeço às pessoas que estão sendo úteis,” respondi, com a voz dura. “Se vocês quiserem ser uma delas, talvez façam uma varredura nos cômodos pelos quais passamos.”
Ela não obedeceu imediatamente, mas obedeceu. Sumiu por uma porta.
As luzes se apagaram por um instante. Por um momento, achei que Shadow Stalker tinha levado um choque, ao caminhar direto em uma fiação. Elas piscavam novamente.
Não havia janelas, nem fontes de luz além da iluminação que deveria brilhar de modo uniforme do teto alto. Quando as luzes piscavam de novo, a escuridão era total, consumidora. À medida que segundos passavam e a luz não voltava, eu me perguntava se seguiríamos nesse escuro.
Lung usou seu poder, criando uma chama na mão. Não iluminava muito — só suficiente para iluminar nossos grupos. Golem levantou a mão em direção ao capacete, então hesitou.
“Pode seguir,” disse eu.
As luzes do capacete de Golem se acenderam, seguidas logo pelas luzes do Cuff. Eu via as cabeças deles, tentando cobrir ambos os extremos do corredor.
“Não sinto ninguém,” disse.
Não. Espera. Havia alguém.
Algo.
Eu tinha sentido isso na reunião que o Doutor tinha organizado. O espírito, o fantasma. Tão sutil que era quase impossível perceber. As correntes de ar, o traço mais fraco na poeira que marcava onde ela tinha passado… tudo coisas que eu tinha descartado mentalmente. O ar tende a se mover. O único motivo de essas vibrações serem curiosas é que o espaço fosse fechado, sem ar-condicionado ou diferenças de temperatura.
Prestando atenção, podia perceber um padrão, uma repetição constante nas correntes de ar tão fracas que poderiam nem mover uma pena.
As luzes se acenderam novamente, apagaram-se, e então se estabeleceram numa solução intermediária: uma camada de luz opaca na parte superior do teto, composta por um mosaico de talvez dois terços escuros e um terço claro.
“Estamos aqui pra ajudar,” gritei.
Minha voz ecoou pelo corredor.
“Pensei que você não sentia ninguém,” disse Canary.
“ Não sinto,” respondi.
“Então, com quem você está falando?”
“Não acho que seja uma pessoa,” disse Imp. “Tente ‘com o que você está falando?’”
“Silêncio,” pedi, fazendo com que se calassem.
Considerei mais movimentos no ar, próximos… não. Isso era consequência do fogo de Lung aquecendo o ar.
Mais adiante no corredor. Se eu usar bugs o bastante, consigo sentir dimensões…
Uma cabeça, parte de um torso. Eu percebia os contornos de ombros estreitos, a cintura. Mulher.
Ela desapareceu, ou ficou menos coerente, os movimentos no ar continuando, mas sem indicar uma forma humana geral. Outro apareceu atrás de nós, a uma distância quase equivalente. Sem braços, sem pernas. Só uma figura quebrada.
“Me ajuda aqui, Tattletale?” perguntei.
“Ajuda com o quê?”
“A Guardiã.”
“Não estou conseguindo pegar nada útil,” ela respondeu. “Câmeras de vídeo são ruins assim.”
“Certo,” disse eu. Mais alto, gritei, “Estamos aqui para ajudar o Doutor! Vocês têm dois grupos aqui dentro, um que é definitivamente hostil, raivoso e destrutivo, e outro pelo qual suspeito.”
Um movimento, uma reação àquela última frase.
Expliquei: “Talvez pareçam amigáveis, mas têm um histórico ruim de apunhalar pelas costas, de manipulação sutil pelo poder. Acho que o Doutor concordaria comigo. Se ela estiver cooperando com eles, é com o conhecimento de que eles vão explorar qualquer fraqueza que ela mostrar… e ela nunca foi tão vulnerável quanto agora.”
A figura virou-se, desaparecendo brevemente, como se fosse parar de existir por um instante.
Ela reapareceu de uma forma que me fez questionar há quanto tempo ela estava ali, a um pé de mim.
“Nós não somos seus inimigos,” disse eu, mantendo minha posição. “Quero acabar com o Scion, e a melhor forma — mais fácil — de fazer isso é colocar tudo de novo em ordem aqui.”
Por um instante, ela pareceu estar em quatro lugares ao mesmo tempo. Depois, ficou em três.
Percebi que nunca tinha me saído muito bem contra poderes de classes mais estranhas.
“Se ajudar,” disse eu, “é que estou puto. A Doutora chamou você de Guardiã, o que provavelmente significa que você cuida desse lugar. Se você não for completamente sem emoções, isso dói, ver eles destruindo tudo. Se você se importa com a doutora, aposto que está preocupado. Talvez sinta o mesmo que eu. Você quer retaliar, mas algo está atrapalhando —”
E então ela desapareceu.
“Então. Uh. Você está meio tensa aí, chefe,” disse Imp.
“Ela desapareceu,” respondi. “Tenho quase certeza.”
“A questão é, existe realmente uma louca que faz faxina?” perguntou Imp. “Ou a Skitter já está ficando maluca?”
“Se não houver mais obstáculos, devemos seguir em frente,” disse Lung.
Assenti. Comecei a andar com passo firme, reorganizando meu enxame para verificar as áreas próximas às esquinas.
Uma série de umas oito portas à nossa direita estavam abertas agora. Shadow Stalker se escondia ao final do corredor. Ela devia ter atravessado as paredes enquanto a energia estava desligada, abrindo todas as portas ao passar.
“Só estou dizendo,” continuou Imp, “Guardiã? Conhecendo o que sabemos sobre suas origens… é de se questionar. A Doutora, se pensar bem… e se todos nós formos —”
“Imp,” interrompi, ciente da presença de Lung e Shadow Stalker, “Não agora, aqui.”
“Certo.”
Ela está nervosa, pensei comigo mesmo, antes que pudesse ficar mais irritado. Mas a maneira como ela lida com isso acaba me afetando. Não preciso lembrar meus momentos mais fracos.
Eu realmente não precisava de jogos mentais, intencionais ou não.
Com as portas abertas, dava para ver o interior dos cômodos. Escritórios, perfeitamente arrumados e vazios de pessoas. Mesas, suportes de arquivo para organizar papéis, estantes com livros. Tudo em ordem, tudo no lugar. Sem páginas soltas ou livros faltando nas estantes.
“Ainda quer aquela atualização, Imp?” perguntou Tattletale.
“Huh? Atualização?”
“Sobre os Irregulares.”
“Ah. Certo.”
“Entendi, então, que não.”
Enviei meus insetos para coletar alguns objetos. Dois livretos, o material mais substancial que meus bugs conseguiam carregar.
“Eles não deveriam ter conseguido fazer isso,” disse Tattletale.
Pensei na Contessa, e na Guardiã.
“Conseguiram, porém,” disse eu. “Na hora pior, possível.”
“Weld não é bobo,” disse Shadow Stalker, saindo de uma sala e atravessando o corredor. “Exceto com as pessoas. Acho que meteu o pé na boca, bem grande, com aquele metal todo. Mas não é burro quando se trata de poderes ou estratégia. Teve alguns anos pra descobrir isso.”
“Ei,” disse Imp. “Você não tem permissão pra falar bem das pessoas. Você atirou uma flecha no meu irmão, mexeu com gente que respeito. Estava esperando aquele momento cinematográfico em que ficamos a sós, e eu me vingo. Não manche tudo com ‘ser legal’.”
Shadow Stalker olhou para Imp, firme, enquanto todos nós — inclusive Imp — avançávamos pelo corredor até onde ela estava.
“Você é irritante,” disse Shadow Stalker, com a voz carregada de condescendência, desdenhosa. Depois, desapareceu pela porta mais próxima.
“Melhor,” murmurou Imp.
Utilizei os braços do meu jetpack para pegar os livretos que meus bugs trouxeram. Os conteúdos de cada um estavam encadernados em livros.
Passeei pelos livros, lendo as capas. A primeira dizia: ‘ASDEC01 Responsabilidades do funcionário, contingência C-2-6’. A segunda: ‘ASDEC01 Responsabilidades do funcionário, contingência F-4-7’. Ambas, numa olhada rápida, eram muito semelhantes por dentro.
Olhei na contracapa. Contingência C-2-6. Transmigração.
Depois, página após página de jargões. Referências a outros arquivos, a organizações e lugares de que eu não fazia ideia, e coisas que eu conhecia, mas fora de contexto. Supervisores, termo final, e novamente, a palavra transmigração.
Faltava fluidez na escrita. Mais parecia um manual técnico, no final. Eu percebi que tudo havia sido feito por computador, de modo que informações específicas do funcionário e seu papel pudessem ser inseridas nos pontos certos.
Continuei folheando, enquanto meus bugs vasculhavam o ambiente em busca de possíveis ameaças. Só corredores intermináveis.
“Você está de olho na minha esquerda, Tattletale?” perguntei, com a câmera no meu máscara.
“Estou,” respondeu.
“Pensando o que eu estou pensando?”
“Acordo estava nos enganando,” disse ela. “Dupla operação, pra ter força suficiente pra executar os planos, o que quer que aconteça.”
“Exceto, sabe, a parte de morrer,” acrescentou Imp.
“Você está entendendo, Tattletale?” perguntei.
“Acumulo partes. Queria você scanear a coisa e me deixar acessar tudo, mas não é exatamente razoável, né?”
“Só a assinatura.”
“Um plano caso os Endbringers ganhem. Um plano se o Scion vencer. Um plano se vencermos os dois. Temas recorrentes em todas as estratégias.”
“Nenhum plano sobrevive ao contato com o inimigo,” roncou Lung. “Ingênuo.”
“A Acordo faz planos bem feitos,” disse Tattletale.
“Não conheço esse Acordo, e só confio no que experimento, então pra mim é só papo furado.”
“Como tudo isso vai terminar?” perguntei. “O Cauldron governando o mundo?”
“Quer um palpite? Acho que não. O principal objetivo do Cauldron parece ser a humanidade. Mantê-la em andamento, reduzir ao máximo as chances de guerra e conflito. Todo esse esforço é voltado pra isso. Preparar as coisas para que não sejamos destruídos, independente do que aconteça.”
“Certo,” disse eu. “E como entram os poderes nisso?”
“Acho que... bem, eu não tenho informações suficientes pra dizer com certeza. Mas a hipótese principal é que os parahumanos vão assumir a liderança, de uma forma ou de outra, então eles estão preparando tudo para que isso aconteça naturalmente. Estão selecionando os candidatos, encontrando os melhores. Não os identificam por nome, só por número, mas… acho que o Coil foi um caso de teste.”
Assenti.
“Também fomos nós,” disse eu.
“Tínhamos uma ideia,” continuei.
“Sim. Mas há mais... Ainda não sei quanto mais. Ainda. Pode virar a página? Talvez uns três quartos do material, deve ter uma seção sobre os Supervisores e o Termina. Vá folheando… mais devagar… mostre mais páginas… Eu vou revisitar o vídeo e ver cada página na minha própria velocidade pra entender o restante.”
Mais adiante pelo corredor, Shadow Stalker saiu de uma sala. Olhei, mantendo a cabeça na mesma posição geral para que a câmera continuasse vendo a página, ainda girando.
Ela estava apontando.
Meus insetos acompanham-na, entrando na sala.
Olhei para dentro à medida que passávamos. Mais dois corpos. Dois homens, grandes, ambos repletos de chifres. Um com chifres curvos, como de carneiro, o outro com chifres de touro.
“Satyr,” confirmou Tattletale. “De novo.”
“Hmm,” murmurou Shadow Stalker. Ela estava encostada na moldura da porta, com os braços cruzados. “Ele é eficiente.”
Ela acabou parecendo aprovar? Fiquei com a cabeça baixa, encarando ela seriamente.
Ela apenas fez um som pequeno, de satisfação, como se estivesse satisfeita, ou satisfeita consigo mesma, e então virou-se, sua capa esvoaçando antes de desaparecer pela parede.
“Essa vingança que demora a acontecer vai ficando mais fácil a cada rodada,” comentou Imp.
“Nada de vingança,” disse eu. “Para ser bem franco, você está parecendo bem menos Imp e bem mais… bem mais…”
“Regent,” ela respondeu.
Assenti. O desejo de vingança, a maneira como as provocações estavam escapando do controle, ficando desconfortáveis ou perigosas…
“Seria ótimo se ele estivesse aqui,” foi tudo que ela disse.
Assenti novamente.
O corredor terminou em uma tena em T, com um caminho à esquerda e uma escada à direita que descia, mais fundo na instalação. Percebi o quão espessa era a estrutura. A maioria dos prédios tem apenas alguns metros entre os pisos, mas aqui tinha material sólido quase tão espesso quanto as áreas abertas.
Uma fortaleza? Uma fortaleza tem soldados.
Um abrigo? Não faz sentido que eles tentem se refugiar em um lugar assim.
Além disso, a descida até o andar inferior demorou o suficiente para parecer que algo estava errado. Descendo devagar.
“Existem planos de backup se toda essa história de parahumanos como líderes não deu certo. Como lavagem cerebral nos líderes, do jeito que fizeram com os casos cinquenta e três. Assim, os líderes seriam absolutas e confiáveis. Eu acho. Organização e distribuição para recomeçar, dependendo de quantas ameaças ainda tiverem depois que passarmos por isso. Não sabiam exatamente como tudo acabaria, com o que iríamos nos deparar, só podiam fazer estimativas aqui. Os escritórios? O Cauldron vai equipar esse lugar. Vai ser um centro, polícia, muito mais, até que a humanidade esteja de novo com o controle da situação.”
“Isso não vai durar muito,” disse Golem.
Assenti um pouco.
“O poder estraga tudo, não é?” ele perguntou.
“Falando em desgraça. Você devia saber, o Scion acabou de atingir Dalet. Está feio. Ficando pior com cada ataque. Mais cruel, brincando com pessoas específicas, destruindo-as antes de acabar com os amigos. Ele vai atacar nossa colônia de novo se o padrão continuar. Dentro de meia hora, uma hora.”
Suspiro. Não tínhamos nada a fazer além de torcer para que os defensores se mantivessem firmes. Olhei para Lung.
“O quê?” perguntou.
“Você queria vir conosco. Escolha estranha.”
Assenti. Comecei a caminhar com passo firme, reorganizando minha frota para verificar os arredores das esquinas.
Um conjunto de cerca de oito portas à nossa direita estavam abertas agora. Shadow Stalker se escondia no final do corredor. Deve ter atravessado as paredes enquanto a energia estava desligada, abrindo todas elas ao passar.
“Só estou falando,” continuou Imp, “Guardiã? Conhecendo o que sabemos sobre suas origens… vira uma questão. A Doutora, se você pensar bem… e se todos nós -”
“Imp,” interrompi, atento à presença de Lung e Shadow Stalker, “Não agora, aqui.”
“Certo.”
Ela está nervosa, pensei, antes que pudesse ficar mais irritado. Mas a forma como ela lida com isso acabou me afetando. Não preciso relembrar meus momentos mais fracos.
Eu realmente não precisava de nenhum jogo mental, intencional ou não.
Com as portas abertas, dava para ver o interior dos cômodos. Escritórios, todos impecavelmente organizados e vazios de pessoas. Mesas, suportes de arquivo para papéis, estantes com livros. Tudo em ordem, nada fora do lugar, sem páginas soltas ou livros desaparecidos das estantes.
“Ainda quer aquela atualização, Imp?” perguntou Tattletale.
“Huh? Atualização?”
“Sobre os Irregulares.”
“Ah. Certo.”
“Vou entender isso como um não.”
Enviei meus bugs para coletar alguns objetos. Dois livretos, o material mais substancial que consegui carregar.
“Eles não deveriam ter conseguido fazer isso,” disse Tattletale.
Pensei na Contessa e na Guardiã.
“Mas conseguiram,” disse eu. “Na hora mais difícil.”
“Weld não é bobo,” disse Shadow Stalker, saindo de uma sala e atravessando o corredor. “Exceto com as pessoas. Acho que meteu o pé na boca, bem grande, com aquele metal todo. Mas ele não é burro em relação a poderes ou estratégia. Algumas décadas para descobrir isso.”
“Ei,” disse Imp. “Você não pode falar bem das pessoas. Você atirou uma flecha no meu irmão, mexeu com pessoas que respeito. Estava esperando aquela hora em que a gente fica a sós e eu posso me vingar. Não estrague tudo pra ficar ‘legal’.”
Shadow Stalker olhou para Imp, mantendo a postura enquanto avançávamos pelo corredor até ela.
“Você é irritante,” disse Shadow Stalker, com uma expressão de condescendência, desdenhosa. Depois, desapareceu pela porta mais próxima.
“Melhor assim,” murmurou Imp.
Usei os braços do meu jetpack para pegar os livretos que meus bugs trouxeram. Os conteúdos estavam encadernados em livros.
Passeei pelos livros, lendo as capas. A primeira dizia: ‘ASDEC01 Responsabilidades do funcionário, contingência C-2-6’. A segunda: ‘ASDEC01 Responsabilidades do funcionário, contingência F-4-7’. Ambas, numa olhada rápida, pareciam muito semelhantes por dentro.
Olhei na contracapa. Contingência C-2-6. Transmigração.
Depois, página após página de jargões. Referências a outros arquivos, organizações e lugares que eu não conhecia, e coisas que eu sabia, mas fora de contexto. Supervisores, termos finais, e de novo, a palavra transmigração.
A escrita não tinha fluxo. Mais parecia um manual técnico, no final das contas. Percebi, ao analisar a estrutura, que tudo tinha sido feito por computador, para que informações específicas do funcionário pudessem ser inseridas nos pontos certos.
Continuei folheando, usando meus bugs para vasculhar ao redor em busca de possíveis ameaças. Só corredores intermináveis.
“Você está de olho na minha esquerda, Tattletale?” perguntei, com a câmera na máscara.
“Estou,” respondeu.
“Pensando o que eu estou pensando?”
“Acordo estava nos enganando,” disse ela. “Duplicando recursos pra criar uma base de poder forte o suficiente pra executar os planos dele, seja o que for.”
“Além de, você sabe, morrer,” acrescentou Imp.
“Você está entendendo, Tattletale?” perguntei.
“Vou juntando pedaços. Gostaria que você escaneasse tudo e me liberasse acesso, mas não dá pra ser justo, né?”
“Só a assinatura.”
“Um plano para se os Endbringers ganharem. Um plano se o Scion vencer. Um plano se vencermos ambos. Temáticas recorrentes em toda estratégia.”
“Nenhum plano sobrevive ao contato com o inimigo,” roncou Lung. “Ingênuo.”
“A Acordo faz planos muito bons,” disse Tattletale.
“Não conheço esse Acordo, e só confio naquilo que vivo e vejo, então pra mim é só papo furado.”
“Como tudo isso vai terminar?” perguntei. “O Cauldron vai comandar o mundo?”
“Honestamente? Acho que não. O foco principal do Cauldron parece ser a humanidade. Mantê-la em marcha, minimizar chances de guerra e conflito. Tudo nisso parece voltado pra isso. Preparar tudo pra que não sejamos destruídos, não importa o que aconteça.”
“Certo,” disse eu. “E os poderes? Como entram na história?”
“Acho que... bem, não tenho informações suficientes pra dizer com certeza. Mas o pressuposto principal é que os parahumanos vão assumir a liderança, uma maneira ou de outra, então querem preparar o caminho pra isso acontecer naturalmente. Estão selecionando os candidatos, procurando os mais adequados. Não os identificam por nome, só por número, mas… acho que o Coil foi um teste.”
Assenti.
“Também fomos nós,” falei.
“Tínhamos uma ideia,” continuei.
“Sim. Mas há mais... Ainda não sei o quanto mais. Talvez umas três quartos do material, deve ter uma seção sobre os Supervisores e o Termina. Folheie devagar… mostre mais páginas… Vou rever cada página sozinho na gravação e tentar entender o resto.”
Mais adiante no corredor, Shadow Stalker saiu de uma sala. Olhei, mantendo a cabeça na mesma posição, para que a câmera continuasse vendo a página, ainda girando.
Ela estava apontando.
Meus insetos a acompanharam, entrando na sala.
Olhei para dentro enquanto passávamos. Mais dois corpos. Dois homens, grandes, ambos cheios de chifres. Um com chifres curvos, como de carneiro, o outro com chifres de touro.
“Satyr,” confirmou Tattletale. “De novo.”
“Hmm,” murmurou Shadow Stalker. Ela estava encostada na moldura, com os braços cruzados. “Ele é eficiente.”
Ela parecia aprovar? Baixei a cabeça, encarando ela seriamente.
Ela apenas fez um som discreto, de satisfação, como se estivesse contente ou orgulhosa de si mesma, e então virou-se, sua capa esvoaçando antes de desaparecer pela parede.
“Esse tipo de vingança que demora a acontecer fica mais fácil a cada vez,” comentou Imp.
“Nada de vingança,” disse eu. “Pra ser bem frontal, você está parecendo menos Imp e mais… mais de uma coisa que prefiro nem mencionar.”
“Regente,” ela respondeu.
Assenti. O desejo de vingança, o jeito de ela provocar, desviando para um nível desconfortável ou perigoso…
“Seria bom se ele estivesse aqui,” ela disse simplesmente.
Eu assenti novamente.
O corredor terminava em uma cruz em T, com um caminho à esquerda e uma escadaria à direita, que descia mais fundo na instalação. Percebi o quão grosso era o piso. A maioria dos prédios tem apenas alguns metros de altura entre os pisos, mas aqui tinha material sólido quase tão espesso quanto o espaço aberto.
Uma fortaleza? Uma fortaleza tem soldados.
Um abrigo? Não faz sentido que tentem se esconder em um lugar assim.
Além disso, a descida para o andar inferior demorou o suficiente para parecer que algo estava errado. Descendo lentamente.
“Existem planos de contingência se essa história de líderes parahumanos não der certo. Como lavagem cerebral nos líderes, igual fizeram com os casos cinquenta e três. Assim, os líderes seriam absolutas e confiáveis. Eu acho. Organização e distribuição pra recomeçar, dependendo de quão ameaçados ficariam depois que passarmos por isso. Eles não sabiam exatamente como tudo acabaria, com o quê iríamos nos deparar, só podiam fazer apostas aqui. Essa é a razão de tantos escritórios? O Cauldron vai liderar tudo aqui. Vai ser um centro, polícia, um monte de coisa, até a humanidade se reerguer.”
“Isso vai ruir logo,” disse Golem.
Assenti um pouco.
“O poder estraga tudo, né?” ele perguntou.
“Falando nisso, o Scion acabou de atacar Dalet. Tá feio. Fica pior a cada ataque. Um pouco mais cruel, brincando com gente específica, destruindo-os antes de aniquilar os amigos. Vai atacar nossa colônia de novo se esse padrão continuar. Dentro de meia hora, uma hora.”
Suspiro. Nada que pudéssemos fazer além de torcer para os defensores se segurarem. Olhei para Lung.
“O quê?” ele perguntou.
“Você queria vir com a gente. Escolha estranha.”
“Tentei, e acabei não fazendo nada. Não gosto de ser...”
“Impotente?” sugeriu Imp.
Lung rosnou sua resposta: “Um mero espectador.”
Chegamos a um conjunto de portas duplas. Uma camada de um pé de espessura, sólida, sobreposta uma à outra, dificultando que se encaixassem, reforçando a estrutura com o peso de ambas. Elas haviam sido destruídas, forçadas a abrir. Uma façanha impressionante, considerando que pareciam feitas para resistir a elefantes em carga.
Ou parahumanos.
É uma prisão, percebi ao passar, contemplando o andar abaixo.
Fileiras e colunas de celas, conectadas em grupos de umas dez. A maioria ocupada.
Não eram os casos cinquenta e três, pelo que meus insetos disseram. Os casos cinquenta e três eram exceções aqui. Eram pessoas que eu poderia ter visto na rua, em Brockton Bay, todas uniformizadas. Homens, mulheres, crianças. Jovens, de até vinte e cinco anos. Todas mais ou menos em boa saúde, só um pouco magras. Meu enxame tocou cada um deles enquanto tentava contabilizar:
“Estão aqui!” alguém gritou.
Não podem nos ver desse ângulo, pensei.
Depois percebi que todos ali tinham poderes. Alguns tinham habilidades que poderiam perceber nossa presença.
“Deu certo?” perguntou a mulher da outra vez. “Ei! Funcionou?”
“São diferentes das de antes,” disse um homem.
Precisávamos seguir em frente. As portas duplas que levavam ao próximo nível também estavam destruídas, o que significava que os Irregulares, Revel, Exalt, Vantage — e possivelmente a Doutora — estavam no andar de baixo.
Mas o barulho aumentava a cada segundo. Aclamações, gritos, ameaças, tudo em várias línguas, talvez mais de uma. O barulho crescia, a ponto de outros se juntar à gritaria. Pessoas gritando ao máximo de suas vozes.
E ameaçavam chamar atenção para nós nesse processo. Ativei meus bugs de retransmissão, enviando a nuvem de insetos para o andar inferior, tentando descobrir se havíamos alertado Weld e os demais.
“Acham que viemos resgatá-los,” disse Golem.
“Não estamos?” perguntou Cuff. “Quer dizer, não foi por isso que viemos, mas não podemos sair sem eles. Não somos ingratos?”
Ela fazer uma pergunta assim diz muito.
Ela me dirigiu a pergunta, e isso também.
“Sim,” respondi. “Sim, com certeza.”
“Seresdermos eles, é que vai dar treta. Muita gente pra cuidar,” disse Lung.
“O caos pode ajudar,” observou Shadow Stalker.
“Vamos resgatá-los,” eu disse. “Só depende de quando e como.”
Fui até poder ver as celas e seus ocupantes.
Células de centenas de pessoas, abertas, sem impedimentos. Portas abertas, nenhuma trancada, nada visível a impedir a saída. A maioria tinha apenas três paredes e uma linha branca no chão. Ao lado de cada uma, uma plaquinha metálica, com um número.
“Meu Deus,” a voz de Cuff tremia de horror contido, quase se perdendo no ruído crescente. “Olhe quão pálidos eles estão. Faz tempo que estão aqui.”
“Esses ainda não estão aqui há tanto tempo,” disse Tattletale. “Ou são os mais recentes. Acho que duas mil e cinquenta celas, talvez metade ocupada. Todas com reforços estruturais, portas pesadas, armadilhas no teto, tudo para manter os prisioneiros lá dentro. Mas não precisa de portas de segurança pra descer se não há saída. Tem mais celas lá embaixo, com internos mais antigos. Além disso, acho que o centro das operações do Cauldron.”
“Isso não deve ser pra humanidade,” disse Golem.
“É,” afirmou ela. “Tudo que eles fazem é pelo nosso bem. Produzindo fórmulas melhores pra criar mais soldados, eliminar as ruins pra ninguém pegar, e por aí vai…”
“E os casos cinquenta e três?” perguntei. “Descartados como fórmulas ruins?”
“No começo, talvez. Mas eles têm uma utilidade. Geralmente, são mais fortes, resistentes. Se precisarmos sair às pressas, dispersar a humanidade, sobreviver com os remanescentes, os casos cinquenta e três podem se estabelecer em lugares que nós não poderíamos. Acho que tem mais alguma coisa, mas não vejo agora… vou continuar procurando. Deve haver uma dica. Talvez precise que você suba rápido pegar um arquivo ou algo assim…”
Tattletale silenciou-se, murmurando de vez em quando.
Seria essa a tropa que o Cauldron queria lançar? Homens e mulheres com poderes que não pediram, liberados com restrições ou simplesmente jogados numa batalha e deixados para lutar ou fugir?
Pareceu-me fraco demais. Mesmo com tantas cape Active, eles estavam inaptos, os poderes presumivelmente não treinados. Não passariam de mero mosquiteiro.
Parei. Percebi a escala de tudo. Centenas de celas, centenas de vozes…
“Silêncio!” gritei.
Minha voz se perdeu no barulho.
“Silêncio!” Usei minha nuvem para transmitir minha mensagem.
Alguns ouviram, como se esperassem que eu dissesse algo mais.
Não sabia bem o que dizer. Olhei para meus colegas, procurando uma ideia, até que algo veio à minha cabeça. “Economizem energia. Não gritem à toa.”
Ouviram e ficaram quietos, a princípio.
Mas a empolgação falou mais alto. Não havia outra forma de expressar suas emoções além de conversar com seus colegas de cela, ou com as pessoas do lado oposto. E, à medida que o volume geral subia, precisavam elevar as vozes para serem ouvidos. Além disso, o espaço todo era uma espécie de palco acústico gigante.
“Eu posso cantar,” disse Canary, elevando a voz, “mas acho que acabaria acalmando vocês também.”
Rachel assobiou, um som agudo que quase fez meus bugs estremecerem de dor. Não era uma canção relaxante.
No silêncio que se seguiu, Bastard balançou a cabeça, depois deu um soco no ar, num movimento brusco — talvez demais para seus sentidos de lobo?
“Ótimo,” disse Lung. Rachel apenas fez uma careta de aprovação. Ele completou: “Você precisa seguir isso com algo que faça a mensagem passar.”
“Deixá-los com medo de nós?” perguntei. Lembrei do comentário da Bakuda sobre suas lições com Lung.
“Medo? Respeito,” disse Lung.
“A mesma coisa,” disse Shadow Stalker.
Lung deu de ombros.
Eu não tinha vontade de discutir o ponto, e o grupo aguardava pacientemente. Quase sem fazer barulho agora.
O que era bom, mas... havia alguma garantia de que eles não ficariam desnorteados enquanto descíamos para o próximo andar?
Bastard balançou a cabeça novamente. Rachel e eu olhamos na mesma hora, trocando olhares.
Espalhei meus insetos pela área. Senti a Guardiã passando pelo ar, um pouco mais rápida que antes.
Ela voou em minha direção, e eu recuei, dando um passo para trás.
Ela repetiu o movimento, voltando, então avançou em mim.
Dessa vez, quando dei um passo atrás, foi de propósito. Ela fez isso uma segunda vez para que eu desse um segundo passo. E um terceiro, um quarto…
“Vai,” disse eu. “Por aqui. Movimente-se!”
Corrermos. Foquei na minha nuvem, espalhando os bugs o máximo possível atrás de nós e na frente.
Diversas celas ao final do corredor. Mais espaçadas, voltadas na direção oposta, com caminhos chegando até elas, depois virando à direita, depois de volta para dentro do quarto.
Duas-nove-tres. Uma cela vazia e sem rótulo. Duas-seis-cinco. Mais duas celas vazias, sem rótulo.
Bastard balançou a cabeça, abriu a boca num bocejo quase preguiçoso, e eu senti a Guardiã passando ao lado dele, quase tocando seu rosto.
Movei o enxame para bloquear a visão de outra prisioneira.
“Cabeça—” comecei, mas Rachel já estava entrando numa cela vazia. Ela tinha juntado as peças. “…direita.”
Fiquei para trás, vigiando por cima do ombro enquanto os outros entravam nas celas. Corri pelo corredor, atingi a porta e a empurrei. Dei uma espiada na escada, idêntica à que usamos no final do cômodo.
Recuando, fui para o mesmo corredor por onde os outros tinham passado. Assim, eles pensariam que havíamos partido.
Não tinha certeza se era inteligente escolher um beco sem saída, ao invés de uma saída aberta. Mas a Guardiã sugeriu isso.
Senti uma pontada de receio. Por quê?
“Vocês estão sendo seguidos,” disse Tattletale.
Revirei um pouco a cabeça. Consegui perceber meus bugs. Nada.
Era uma armadilha? A Guardiã fecharia uma porta qualquer, trancando-nos lá dentro?
Não. Ela não tinha motivo. Tão difícil de definir quanto ela é.
Puxei a câmera do meu máscara e pressionei contra a lateral do suporte da placa de identificação da cela, que ficaria na porta. Entrei.
“Tattletale?”
“Entendi, entendi. Talvez precise pedir ajuda nisso. Aguarde.”
A cela estava vazia, mas tinha uma cama de casal, uma televisão, um computador, uma estante pequena com caixinhas de vídeos ou jogos, e uma janela de vidro dupla curiosa, que dava para uma parede de cascalho.
Juntei-me aos outros, pegando meu celular do bolso. Demorou um pouco até Tattletale conseguir estabelecer a conexão.
“E você tem vídeo. Sou um gênio. Admitindo?”
“Você é um gênio,” respondi.
Se tivesse pensado nisso antes, teria uma visão melhor do cenário. Como foi, assistíamos tudo de longe. Mantinha o telefone na horizontal, para que nossa equipe pudesse se dividir e observar de diferentes ângulos.
O barulho da multidão virou um rugido, abafado pelas paredes da cela. Os internos dificilmente ouviriam os outros prisioneiros, a não ser em casos extremos. Vi os Irregulares entrando pela mesma direção que havíamos vindo. Podia perceber o grupo que os acompanhava.
Casos cinquenta e três. Mais ou menos?
Não. Diferentes. A maneira como se distribuíam, a aparência exausta, davam as melhores pistas — eram sombras vistas de trêscentos pés de distância. Mas eles se aproximavam, e eu podia perceber as diferenças. Não tinham traços de animais, nem mutações simples ou exageros. Havia um homem que queimava, que avançava cambaleando, como se **doísse**, mas não estava consumido. Uma mulher que flutuava, com cada parte do corpo em pedaços, separados por espaço vazio, parecendo duas vezes maior. Uma... coisa que avançava aos poucos, às vezes correndo para acompanhar o grupo, com mãos e pés como nadadeiras, mas com a face uma fenda aberta, de onde saíam vermes finos, que se espalhavam por toda a superfície, formando uma massa tão espessa que a carne por baixo era invisível.
Casos cinquenta e três que o Cauldron mantinha na reserva, pelo visto. Percebi a raiva, a tensão, a cautela que vinha do que deviam ser... quanto tempo? Com cabelos, barbas, talvez anos de confinamento. Talvez até solidão.
Na imagem da câmera, via tudo isso.
Não conseguia senti-los pelos meus bugs. Não via, não ouvia. Era uma imagem revisada, editada, como se toda a multidão tivesse sido apagada por uma edição de fotos ou de som. Touch editing?
“Ah, ei,” falou Tattletale. “Alguém mais está tendo dificuldade de identificar esses caras?”
“Estou dizendo pra mim mesmo que logo vamos lutar,” rugiu Lung, “mas meu poder não responde direito. Olhando pra eles, vendo que parecem adversários à altura, com pouca o que perder, deveria sentir essa força crescer dentro de mim, um peso.”
“Não consigo vê-los ou ouvi-los pelos meus bugs, quanto mais tocá-los,” digo a Tattletale.
“Sobre toda a área. Mantellum,” falou ela. “O cara com o manto integrado, bem no centro.”
Olhei, mas a multidão se mexia.
Eles conversavam. Não tínhamos áudio, apenas o vai-e-volta dos gritos, indicando quando as pessoas falavam ou reagiam às declarações.
Na câmera, as pessoas começaram a sair das celas.
“É uma habilidade com camadas. Cada camada reforça a proteção. Exceto que tudo nos registros diz que o alcance que bloqueia poderes é de cerca de quinze pés. Entrar a cinco pés faz todos os sentidos — nenhuma sensação funciona. Não deveria ser cem pés assim.”
“Seis vezes o alcance,” disse Cuff.
“De alguma forma.”
Franzi os lábios. “A Doutora?”
“Provavelmente lá embaixo. Veja como o grupo lá atrás está organizado. Eles estão de olho pra ninguém subir. Acho que a Doutora foi presa lá embaixo.”
Eles também nos prenderam aqui.
Não falei em voz alta. Canary parecia assustada, e tanto Lung quanto Rachel mostraram-se inquietos.
“Tem um cara que parece estar no comando. Você vê ele?”
Era uma voz pelo fone, mas não era Tattletale.
“Seu idiota,” disse Tattletale. “Admiro sua coragem, mas você é um idiota.”
“Quem?”, perguntei.
“Imp,” respondeu ela.
Imp? Demorou para entender.
Imp. Droga. O Grue ia me matar. Ela estava tão perto que podia escutar, e com tantos parahumanos... tantas maneiras de ser descoberta.
“Senhor Bonitão,” disse Imp. “Ele disse que estavam livres… opa, acabou.”
As celas esvaziam. Era como se a ordem de movimento fosse uma pedra jogada na água, fazendo ondas, e os que não ouviram o homem falar reagiram ao movimento dos outros, desencadeando uma reação em cadeia. Centenas de pessoas.
Centenas de vítimas.
O grito da multidão aumentou em volume. Eu sentia o chão vibrar. Nenhuma energia atuando ali — só um montão de gente, pisoteando e gritando.
A Guardiã moveu-se um pouco, então parou. Eu percebi ela mais claramente do que antes, uma perturbação, agitada.
Ela era quem vinha mantendo a ordem, obrigando as pessoas a ficarem presas em celas sem portas. Agora… seja Mantellum ou as anomalias cinquenta e três, ela parecia ser impedida, sem conseguir cumprir suas funções.
As luzes piscavam, um pouco pior do que antes.
“Eles vêm pra cá,” disse Shadow Stalker. “Fiquei na detenção, se alguém tivesse uma escova de dentes, biscoitos da mamãe, existia ciúmes, retaliação.”
Assenti um pouco.
E uma cela confortável assim…
“Eles vão vir,” disse Lung. As íris de seus olhos estavam laranja, e inchaços semelhantes a colmeias aparecem na pele, onde escamas ameaçam se projetar. “Posso vencer, mas vocês provavelmente vão morrer antes de eu conseguir.”
“Preciso de todos que possam perfurar aço sólido,” disse Imp, pelo comunicador.
“O plano do Lung pode ser o plano A. Vamos ouvir o plano B,” respondi.
“A gente corre,” disse Shadow Stalker. “A porta está bem ali.”
“Posso fazer barreiras,” sugeriu Golem.
O rugido diminui. O homem estava falando. A porta do armário sob a grande televisão parecia tremer com ainda mais intensidade.
“Guardiã diz… porta?”
Ela parou.
“Barreiras,” disse Tattletale. “Teríamos que passar por mais portas de segurança, que os Irregulares ainda não enfrentaram. Provável que haja outras medidas de segurança também.”
Imp falou: “O cara mais legal tá dizendo… que traidores da nossa raça. Que recebam a justiça que merecem. Ah… ei.”
Olhei para o telefone.
Weld, deformado a ponto de parecer mais sucata do que pessoa, foi arremessado pra frente, jogado ao chão.
Uma esfera rolou à frente. Algo se enroscando dentro, atrás do painel de vidro colorido. Uma pessoa na multidão pegou, e fez as mãos brilharem. Fogo? Aquecendo o material? Não consegui distinguir de longe, mas percebi o movimento acelerando, com intermitências.
Weld tentou alcançar a esfera, mas seu braço estava tão danificado que não suportaria seu peso. Ele quebrou na direção errada, se desprendendo. Quando rolou de costas, o antebraço ficou grudado ao braço, a mão ao ombro e ao pescoço.
Se fosse humano, ou se a metade daquela destruição tivesse acontecido com alguém, não estaria vivo.
“Não fica pior do que uma multidão tão louca,” disse Shadow Stalker baixinho. “Posso conseguir escapar, acho. Não costumo ser bonzinho, mas… quer que eu envie alguma mensagem? Últimas palavras? Minha memória é péssima, mas posso tentar.”
A multidão reagia, o prédio tremia com o barulho. Lá fora, seria ensurdecedor.
Depois, eles se moveram. Pessoas abrindo caminho. Criando uma passagem até o final do corredor.
A câmera nos mostrava o grupo principal. Um garoto com pele amarela pontiaguda. Um homem com feições exageradas, tanto masculinas quanto femininas, um caricatura, carregado de músculos. Gully, a garota forte com pá e tranças, com mordida severa, que ajudou contra a Echidna, parecia desconfortável. Um garoto de pele vermelha. Sanguíneo.
À medida que se aproximavam, senti meu poder mudando, como se fosse uma mentira. Nenhum deles na área. Uma abertura conspícua no meio, perceptível na distância. Havia gente suficiente para fazer meus insetos se movimentarem, onde quer que estivessem, mas minha mente os ajustava para entender a cena. Era estranho o suficiente para chamar atenção, embora não fosse preciso o bastante para confiar no que via.
“Quer tentar cantar?” perguntei para Canary.
“Eles iam me machucar antes que eu fosse longe,” respondeu. “Provavelmente. Vou tentar.”
Fechei os olhos. Podia sentir minha nuvem lá fora, dentro e fora do poder de Mantellum, mas não conseguiria fazer nada significativo contra a multidão com ela.
“Satyrical está lá fora,” disse. “O povo dele...”
Tattletale falou: “Provavelmente são os que ficaram para cavar para achar a Doutora. Ninguém ali do grupo do Satyrical vai conseguir lidar com essa multidão. Provavelmente ninguém do grupo da Doutora também.”
Assenti, puxando minha faca. A que o Defiant tinha me dado.
Não era suficiente para abrir caminho até a liberdade. Pela areia e cascalho lá fora, do lado de fora da janela dupla, estávamos ao lado de uma camada de rocha. A faca poderia nos abrir a próxima cela, talvez a seguinte, mas não o suficiente rápido para escapar do povo.
“Plano A, então,” disse Lung, sério. “Pela sua bravura, vou fazer um favor. Diga se quer que eu mate alguém, um inimigo que queira eliminar.”
“Não vamos morrer,” rosnei. Comecei a formar minha nuvem para criar um engodo.
Distração. Se eu conseguisse chamar atenção da multidão e levá-la para cima, talvez para o andar de cima—
O homem bonito lá fora falou, e eu vi seus lábios se moverem na câmera. Sem necessidade de tradução.
Vingança.
Dessa vez, a gritaria vinha do lado de fora da nossa cela. A multidão avançava.