
Capítulo 280
Verme (Parahumanos #1)
“Então é isso,” sussurrou Tattletale.
“Quase isso,” respondi.
“Tá pronto?” perguntou Tattletale.
Eu balancei a cabeça negativamente. Suspirei e olhei para os campos de grama. Tanta natureza linda. Tantos mundos para explorar, agora, cada um delicadamente diferente, cada um com seus tesouros escondidos. Mas até mesmo um campo de grama alta tinha sua arte.
Por um instante, senti um tipo de puxão. A mesma espécie de pensamento intrusivo que fazia alguém pensar: ‘e se eu pisasse na borda dessa falésia?’ ou ‘e se eu abrisse a porta do carro agora e jogasse na pista?’ Não eram pensamentos suicidas, mas pensamentos claros e assustadores o bastante para nos fazer medo de escutarmos — por vontade própria.
E se eu simplesmente fosse embora? Dissesse adeus?
Eu só precisava viajar uma curta distância por um tempo breve. Seria tão tranquilo. Sem som, sem pessoas ou luzes artificiais. Sem pressão, sem perigo iminente.
Não me lembrava da última vez que tinha realmente curtido o silêncio. Eu tinha sentido isso quando sobrevoei o oceano. Nunca fui uma pessoa de muita companhia, e tinha passado tanto tempo entre multidões. Já tinha estado perto dos Undersiders, depois na minha própria zona de controle. Daqui pra prisão, da prisão para os dormitórios.
Dos dormitórios para uma pequena guerra de repercussões globais.
A solidão tinha seu apelo. Por ser introvertida por natureza, eu me sentia tão esgotada. Um pouco de tempo sozinha, para recarregar as energias, para pensar. Eu, agora, com as nuvens de tempestade distantes, os campos de grama, árvores e água batendo contra as falésias lá embaixo.
O que me preocupava era a ideia de que eu pudesse ficar presa nessa gravidade. Isso aconteceu antes, quando eu voei sozinha. Se eu saísse para me recuperar, me centrar e tentar imaginar uma solução… poderia dizer com alguma segurança que voltaria? Falharia em encontrar alguma ideia, e simplesmente… permaneceria ali até que fosse tarde demais?
Seria covardia? Seria uma marca negativa se eu não pudesse afirmar com certeza? Ou seria como uma pessoa que consegue ser corajosa ao mesmo tempo em que está completamente apavorada? Eu não tinha medo, não ia fugir. Eu tinha razões para lutar… mas uma parte de mim, definitivamente, gostava da ideia de partir. De não lutar. De sobreviver até o momento em que Scion atravessasse a Terra e morrer num piscar de olhos, talvez sem perceber.
Eu forcei os dentes.
De qualquer forma, tudo não passava de uma fantasia. Existia uma amarra que me mantinha aqui. Várias amarras.
Rachel acariciava a nuca da Huntress enquanto se aproximava. Parou bem ao meu lado, depois me empurrou com o braço. Uma força suficiente para eu precisar mover meu pé e me equilibrar.
Permanecemos ali, meu braço contra o dela, a atenção dela focada na Huntress e no Bastard, enquanto os dois caninos disputavam sua atenção. Eu não conseguia explicar o quanto apreciava aquilo, não queria olhar pra ela ou fazer alguma coisa que pudesse ser mal interpretada como desconforto.
Uma amarra.
“Isso me lembra os filmes que eu costumava assistir,” comentou Imp. “Nos canais péssimos de crianças, ao meio-dia aos sábados. Minha mãe ficava tão derretida da noite anterior que nem queria ver TV, então eu tinha que assistir com o volume desligado e ficar, tipo, três metros longe da tela. Mas geralmente conseguia umas duas ou três horas de TV que deixava meu cérebro bem zonzo, antes de serem expulsas do apartamento. Melhor parte da minha semana, por anos.”
“Você tá viajando,” avisou Tattletale.
“Enfim, isso é como nos filmes onde a criança acha o cão de rua que ela encontrou, e o primeiro dono, e no final do filme eles chamam pra ver quem o cachorro prefere.”
“Isso é a coisa mais idiota que já ouvi,” repudiou Rachel.
Imp só sorriu de canto. “E o cachorro começa indo pra um lado, até que o dono malvado faz algo tipo tirar uma coleira de sua mochila, pegar o chicote que usava pra bater no cachorro no início do filme, ou soltar uma frase estúpida, tipo: ‘vem aqui, minha máquina de dinheiro preciosa.’ E o cachorro dá o último desprezo ao dono abusivo, urinando nele antes de voltar pro garoto, ou algo assim.”
“Minha preciosa máquina de dinheiro,” repeti Imp. “Sério?”
“Você sabe o que quero dizer. Só aquela frase que indica: ‘Sou tão malvado.’”
“Seria melhor se o cachorro arrancasse a garganta do idiota abusivo,” disse Rachel.
“Ia ser tão foda,” comentou Imp, sorrindo. “Passei por uma fase em que, sabe, eu meio que queria um filme diferente. Surpreender a criançada, mostrar que, olha só, o bonzão nem sempre ganha. Cheguei a ficar deprimida assistindo aqueles filmes felizes. Aí o namorado novo da minha mãe, o Lonnie, ‘arrumou’ ela, e ela começou a acordar às manhãs de sábado, e foi isso. Chega de filmes, pra Aisha. Nunca mais voltei a assistir.”
“Que pena,” murmurei. Pra onde ela quer chegar com isso?
Imp parou, fazendo cara de preocupado. “Foda do Lonnie. Enfim, eu queria que o cachorro voltasse pro primeiro dono, e fosse isso. Filme acabado. Final ruim. A vida nem sempre dá uma reviravolta feliz.”
“Não dá,” concordei. “Mas eu provavelmente pararia de assistir filmes se visse um final assim.”
“Estamos divagando,” repetiu Tattletale. “E de repente, tô sentindo a ausência do Grue. Ele nos manteria na linha, aqui.”
Imp olhou pra ela com uma expressão irritada. “Enfim, é mais ou menos isso, né? Como as crianças implorando pro cachorro seguir elas. Só que não.”
“O oposto,” respondeu Rachel.
“O contrário, sim,” corrigiu Tattletale. “Sim. Então, vamos acabar logo com isso.”
Rachel subiu nas costas da Huntress, e eu ativei meu propulsor de voo. Imp montou no Bastard, enquanto Tattletale subiu num cachorro que eu não conhecia. O mesmo que Bitch tinha me emprestado enquanto nos mobilizávamos pra caçar os Nove. Cada um foi pra uma direção diferente.
Bem lá em cima, a Simurgh virou. Com suas asas incontáveis estendidas atrás dela, ela tinha uma surpresa quantidade de finesse e expressão. Havia uma agressividade visível se suas asas estavam totalmente abertas, com só as pontas um pouco adiantadas, como uma garra com os dentes estendidos à frente. Quando ela flexionava as asas até o máximo, parecia que observava, monitorava. Por outro lado, tinha a capacidade de introspecção, de foco em uma única coisa, com as asas todas recolhidas. Enquanto isso, sua expressão permanecia neutra, o olhar frio.
Eu não ia subestimá-la, porém. Era fácil demais tudo aquilo ser uma tática de blefe.
Ao se mover, era quase negligente. Duas de suas três maiores asas se desenrolaram como se ela estivesse acenando com a mão de forma displicente, apontando aquele gesto para o mundo. Ela girou no ar, depois jogou todas as asas para trás, impulsionando-se pra frente.
Bom, sabíamos pra quem ela estava seguindo.
“Droga,” consegui ouvir Tattletale resmungando com os insetos que tinha plantado nela. A Simurgh parou bem acima dela. Ela repetiu a frase, como se fosse para dar ênfase. “Droga.”
Senti meu coração afundar.
Parte disso era responsabilidade minha também. É claro que a Simurgh tinha escolhido ela pra seguir. Tattletale tinha feito a conversa. Tattletale era uma pensadora, igual à própria Simurgh. Ela era a líder de fato dos Undersiders, em muitos aspectos.
Mas uma pouca parte de mim tinha esperança de que a Simurgh tivesse escolhido eu pra seguir. Essa mesma parte quase tinha acreditado nisso, dado como garantido. Era horrível, assustador e quase errado, ter uma Endbringer a seu alcance, mas eu estava pronta para suportar esse peso. Eu quero lidar com isso, para que as pessoas que eu amo não tenham que fazer isso.
Outra parte de mim? Talvez quisesse que ela estivesse grudada em mim, só para ter mais uma amarra me mantendo conectada, em um momento em que me sentia totalmente desconectada.
E, quem sabe, eu quisesse que ela estivesse com esse poder tão perto, para que eu pudesse me sentir relevante.
A humanidade estava sendo dizimada, assentamento por assentamento. Continentes tornados inabitáveis, ecossistemas destruídos, padrões climáticos mudando. Nosso adversário era quase intocável, capaz de atravessar entre diferentes Terras como atravessamos uma sala, e nós mal entendíamos ele.
E aqui estava eu. Tirando toda a fachada, a reputação, as conexões e a imagem, tirando a máscara, eu era só uma garota com o poder de controlar insetos. Cento e trinta libras.
Já tinha reclamado das minhas limitações inatas antes, mas nunca as tinha sentido como uma pressão esmagadora como agora.
A surpresa de ver a Simurgh escolher Tattletale tinha me abalado. Forcei-me a respirar fundo e me centrar. Usei as técnicas de relaxamento que Jessica Yamada tinha me ensinado.
Precisava de apoio, e não podia descartar a ideia de que aquilo tudo era apenas a Simurgh brincando com a nossa cabeça. Diretamente ou por instinto, evidentemente querendo nos atordoar.
Reunimos o grupo novamente. Os cães se viraram e lentamente retornaram.
Vi a expressão de Tattletale ao me olhar. As linhas de preocupação na testa, que ela tentou disfarçar com uma sobrancelha levantada, a falsa confiança, o sorriso torto.
Sei que ela me lê dez vezes melhor. As pequenas mudanças na expressão ao olhar para minhas mãos, para meu rosto. Não tinha dúvida de que ela me lia como um livro. Sabia cada pensamento que tinha acabado de passar por minha cabeça, as preocupações, as ansiedades, o fato vergonhoso de que eu tinha querido a Simurgh me seguir.
Seu sorriso torto se alargou um pouco mais, mas havia compaixão na expressão dela.
“Acho que vou ficar aqui de guarda,” disse ela. “Faz mais sentido, sinceramente. Vocês vão. Façam o que a Narwhal falou.”
Houve acenos de cabeça de Imp e Rachel.
“Tudo como de costume, Scotty,” disse Imp. “Me leva pra casa.”
“Foi,” acrescentou Rachel.
Duas portais se abriram.
Elas passaram. Eu fiquei no lugar.
“Posso ficar comigo?”
“Você poderia, sim,” disse Tattletale.
“Mas?”
“Acho melhor você não, e também acho que não pode. Vá,”
“Tattletale… Lisa—”
“Eu vou ficar bem. Tenho ela comigo.” Tattletale apontou para o céu. A Simurgh tinha reunido suas armas e construído várias outras. Seu halo de componentes individuais agora era quase todo formado por armas de diferentes tamanhos. Estavam organizadas cuidadosamente, de forma que as armas menores marcassem os espaços entre as maiores, e os canos e bocais das maiores radiassem como raios de uma estrela.
Eu olhei com desconfiança para Tattletale, ela só sorriu.
“Vou ficar aqui,” prometeu. “Vão. Como a Narwhal disse, coloquem a vida em ordem.”
Eu não me mexi. Em vez disso, olhei para os campos de grama novamente. Demorou um instante para perceber por que um trecho estava mais escuro que o resto. Então lembrei da Simurgh. Ela estava projetando uma sombra.
“Realista. Combinamos de lutar até o fim, certo?”
“Certo,” respondi, voltando meu olhar para Tattletale.
Ela deu de ombros. “Mas vamos cair. Não vamos fingir que não, porque essa autoenganação não vai segurar na hora H. Melhor focar na ideia de que vamos ser destruídos, mas também vamos derrubar esse filho da puta conosco.”
Nem é uma mensagem muito encorajadora.
“Não estou tão pessimista assim,” avisei. “Acho que podemos derrotá-lo, e podemos fazer isso sem sermos totalmente destruídas no processo.”
“Isso aí. Era isso que eu queria ouvir.”
Fiquei olhando pra ela, duvidando.
Ela tava blefando? Escondendo alguma coisa?
“Você sabe de alguma coisa,” soltei.
“Eu sei bastante,” respondeu ela.
“E está desviando o assunto. O que você tá escondendo de mim?”
“Não só de você,” ela falou. Tattletale suspirou. “Não ajuda.”
“Me conta.”
“Achava que você queria área de ignorância feliz.”
“Esse tempo já passou. Melhor compartilhar.”
Tattletale franziu a testa. “O poder da Contessa.”
“Quer dizer que ela acha que a vitória é impossível?” perguntei.
“Não. Bem, talvez. Não sei. Não tive uma conversa longa com ela. Não. Estou dizendo… bem… a habilidade do Scion. Aquela frase que ele soltou para o Eidolon? Foi calculada para devastar o cara no momento em que ele estivesse mais alto, assim a queda seria mais catastrófica. É algo que eu não conseguiria fazer. Assisti a umas imagens da luta, onde o poder do Scion não tirou as câmeras. Confirma a evidência. Ele não estava usando ativamente o poder, mas há confiança nisso.”
“Scion vê o caminho para a vitória?”
“Ou algo bem perto disso.”
“Tem certeza?”
“As provas, a postura dele, na medida em que ele tem alguma postura… é, acho que sim. Nenhuma limitação como as que a Contessa tem, na minha opinião. Sem pontos cegos. Só… sim.”
Assenti. O vento fazia um som magnífico enquanto passava pelas ervas, interrompido pelos estalos das ondas lá embaixo. Um bando de pequenos pássaros marrom levantou voo do meio dos campos. Evitavam deliberadamente a Simurgh, como se houvesse uma bolha ao redor dela que se recusavam a atravessar.
“Você tem toda a minha permissão,” disse Tattletale, “para xingar um pouco. Xingar bastante. Você tá ficando mentalmente distante. E não é como se sua linguagem corporal não fosse fácil de ler, mas você tá perdido nos pensamentos, e imaginei que você fosse pirar.”
“Eu, realmente, não fico pirada.”
“Você, hum—”
Eu sabia no que ela tava pensando. Foi quase um alívio descobrir que ainda estávamos na mesma sintonia, depois de tanto tempo separados. Eu a entendia, ela me entendia. Éramos amigas.
Os pensamentos dela estavam em Alexandria e Tagg. O momento em que eu as matei também foi o instante em que deixei os Undersiders. Mudei de lado.
“Eu não surto com ou perto dos meus amigos,” disse.
“Estou te dizendo que ele sabe como nos vencer. Basta ele ativar aquela única habilidade, e ele tem uma solução pra tudo que a gente jogar contra ele.”
“Toda habilidade tem uma fraqueza,” respondi.
“Uma que permite vencer automaticamente é difícil de contornar.”
“Difícil, mas não impossível,” afirmei. “É estranho eu me sentir mais otimista assim?”
“Sim. Excessivamente,” respondeu ela. Ela inclinou um pouco a cabeça de um lado. Era algo que eu já tinha visto nela antes — como um pássaro, tentando enxergar as coisas de um ângulo diferente. “O que você tá pensando?”
Balancei a cabeça. “Nada. Mas... algumas das melhores habilidades que enfrentamos tinham fraquezas bastante fatais. Quando enfrentamos a Butcher, ela ter quatorze consciências à disposição pode não ter ajudado muito na hora de lidar com a habilidade da Cherish. Usamos a habilidade da Echidna de absorver matéria morta e crescer, para prendê-la na base do Coil. Ganhar tempo.”
“Acho que o truque do Scion é que ele não tem falhas fatais. Conseguimos nossas habilidades porque elas foram distribuídas. Ele privou as habilidades, para que não pudéssemos reagir se fosse preciso. Privou a sua de análise, limitando minha capacidade de estudar os insetos. Começou tudo isso porque tinha certeza de que funcionaria, usando esse caminho para vitória para mapear tudo. Quis saber se lutaríamos, e então traçou uma rota onde ele teria força suficiente pra enfrentar a humanidade em todos os cenários possíveis.”
“Então criamos um cenário inconcebível,” falei.
“Como?”
Balanceei a cabeça. “Não sei. Mas quero acreditar que os Endbringers não caberiam no plano dele.”
“Não basta,” falou ela.
“Cauldron também,” completei.
Ela balançou a cabeça, um pouco forte demais. Fios do cabelo loiro caíram sobre o rosto dela. “Eles criaram tantos problemas quanto resolveram.”
Algo naquilo, na sua distração quase obsessiva com arrumar o cabelo, disparou um alarme na minha cabeça. Um sino de advertência. Eu já vinha me preparando para avançar.
“Tattletale,” interrompi antes que ela pudesse falar de novo. Segurei sua mão com as duas. “Para.”
Ela parou, como um cervo na cabeça de alguém com faro assustado.
“Para,” disse novamente. Dei um abraço nela.
A negatividade misturou-se à bravata… Eu não tinha percebido. Não tinha realmente entendido minha amiga. Ela estava assustada, e tinha escondido isso.
Ela ficou ali, a ponta do nariz colada ao meu colar, e eu me lembrei novamente de como ela era mais baixa que eu.
“Ataques que praticamente penetram qualquer defesa,” ela murmurou. “A gente ainda não conseguiu feri-lo de verdade. Está móvel. As percepções estão aí. E ele vence. Conquista a vitória como poder.”
“Existem opções. Sempre há opções. Maneiras de contornar habilidades, de derrubá-lo. Ele realmente não gostou quando criei múltiplos iscos com enxames de insetos. Quando qualquer um duplicava. Talvez haja uma pista nisso.”
“Talvez,” murmurou ela. Senti suas unhas contra o tecido do meu traje, nas minhas costas. “Droga nisso. Odeio me sentir tão burra. Tanta merda que não sei, coisas que não posso saber. Como essa maldita Ziz aqui. Droga, quase nunca dei bola pra alguém além de mim mesma e meus amigos, e agora tô me importando com o que acontece com todo mundo, quando não consigo fazer nada a respeito.”
Eu segurei firme. Poderia ter dito que existiam jeitos de trapacear. Que, com todas as habilidades no mundo, devia haver maneiras de burlar as habilidades. Mas ela não precisava de garantias.
Ela era uma mestre em blefar, usava uma máscara melhor do que qualquer pessoa que eu conhecia, e tinha adotado sua persona de uma forma que ninguém mais nos Undersiders ou nos Wards tinha. No meio de tudo isso, ela tinha sido uma coluna, uma fonte a quem todos recorriam quando tinham perguntas.
Mas pra quem uma pessoa assim deveria recorrer quando precisasse de apoio?
Um minuto se passou antes dela se afastar. Ela virou as costas antes que eu pudesse ver o rosto dela.
“Tudo bem?”
“Tudo ótimo,” respondeu ela, sem olhar na minha direção. Esticou-se, depois enxugou os olhos. “Moldei minha maquiagem, onde pintei as pálpebras de preto dentro da máscara, e espalhei tudo pelo seu ombro.”
Eu joguei pra ela. “Sempre gostei das lentes. Dos óculos, se quiser chamar assim.”
“Claro, mas vocês não podem ter muitas pessoas com lentes na mesma equipe, ou parece que tem um tema, e só equipes cafonas fazem isso.”
Sorrindo um pouco, respondi.
Ela olhou pra cima. “Você, não fala uma palavra sobre isso pra ninguém. Os idiotas vão pensar besteira se ouvirem que a gente se abraçou. Mentes muito ativas.”
Falando com a Simurgh?
Ela se virou, e fiquei momentaneamente confuso. A maquiagem estava borrada de uma maneira que parecia ter sido espalhada pelo meu traje. Sem sinais de maquiagem escorrendo na chuva na corte do Elite, nem lágrimas.
Ela sorriu um pouco, de forma conspiratória.
“Você e a Simurgh são uma boa combinação, afinal,” disse eu. “Fazendo as pessoas pensarem besteira.”
“Vamos ver. Agora, acho que é hora de você parar de ficar me cuidando.”
Franzi o cenho.
“Depois, venha conversar comigo, se não tiver nada mais urgente. Provavelmente terá, mas tudo bem. Agora, estou bem, acho que descobri algo. Algo a procurar. Além disso, preciso voltar a cuidar do que a Dragon deixou. Uma quantidade enorme de coisas para resolver.”
Assenti.
“Vai lá,” disse ela.
Eu fui. Havia uma gravidade própria aqui. Se eu não fosse agora, não iria nunca.
A introvertida procurando pessoas, e a extrovertida ficando só com uma Endbringer silenciosa por companhia.
Volto logo, pensei.
■
“Quero acariciar ela.”
“Minha vez!”
Percebi a presença deles com meus insetos antes mesmo de me aproximar. Um grupo de crianças, uma mulher adulta, uma área cercada, um animalzinho peludo.
Não queria invadir, então estendi a mão e juntei um enxame de borboletas.
Elas mexeram-se, formando uma pequena tempestade localizada.
“O quê? Ah. A Skit-Weaver está vindo,” disse Charlotte.
Segurei para não usar meu propulsor, andando mesmo. Não queria gastar muita carga, caso precisasse lutar de repente.
A cabana era um dos postos avançados que os times da Tattletale tinham montado. Norte da cidade, de frente para o que deveria ser o cemitério de barcos, a uma caminhada de quarenta minutos da colônia de Brockton Bay.
Com três andares, escondida por uma fileira de árvores e uma pequena colina, tinha uma área cercada ao lado. Três cães ficavam de guarda.
Eles rosnaram quando me aproximei. Não vacilei nem diminui o passo, e o aumento no rosnado ficou maior.
“Silêncio,” disse Charlotte. “Fica quieta.”
O rosnado parou.
Eu avancei, e Charlotte me deu um abraço. Ela parecia bem, talvez uns cinco anos mais velha do que a lembrava. Vestida de forma bem prática, mas não pude deixar de notar a arma na cinta dela.
As crianças, por sua parte, recuaram, cautelosas, encarando.
Eu tirei a máscara, depois esfreguei o rosto onde ela tinha ficado mais apertada. Coloquei meus óculos.
“Tá ruim?” perguntou Charlotte, numa voz baixa.
“Hm?” Por um instante, achei que ela fosse falar do meu pai.
“A situação.”
Ah. Era só isso. “O mundo vai acabar. O pior que pode acontecer.”
Ela assentiu. “Você lembra das crianças?”
Eu sim. Dois anos mais velhas. Mai, Ephraim, Mason e Katy. Aiden e Jessie tinham sumido. “Oi, gente. Faz tanto tempo.”
Eles remexeram os pés. Mai levantou a mão tímida em sinal de cumprimento, mas só isso.
“Não é nada pessoal,” disse Charlotte. “Vocês são famosos, e assistimos vídeos seus na internet. A do O.J. e—”
Eu gemi alto.
Charlotte sorriu de leve. “Todos os clipes. Queria que eles lembrassem de você de alguma forma.”
Com isso, as crianças pareciam ficar ainda mais envergonhadas, o que só me deixou ainda mais sem jeito. Meu olhar foi parar na cerca. Parecia feita de dois materiais diferentes, um sobre o outro, presos com corrente e corda. Três cabritos estavam lá dentro.
“Sim. A Tattletale organizou tudo pra quem montasse uma casa, conseguir cabras para criar e tirar leite. Se precisar, uma cabra só já ajuda bastante. Leite, iogurte, queijo…” Charlotte olhou por cima do ombro para as cinco crianças, e sussurrou: “Carne.”
“Faz muito sentido,” disse eu.
Parei na cerca e me abaixei, estendendo a mão para o cabrito. Quando ele não tentou morder nem recuar, passei a mão pelo pelo áspero dele. Cabelos grossos. Ele balançou as orelhas ao toque, mas não se afastou.
Queria saber se estavam bem. Se estavam indo bem. E estavam.
Agora, me sentia deslocada. Tão estranho, considerando que esse grupo já tinha sido uma presença constante na minha vida. Não podia simplesmente partir, mas não sabia o que fazer agora que tinha chegado.
“Muita fofoca sendo espalhada,” disse Charlotte.
“Acho que tudo é verdade, suspeito,” respondi, sem querer falar muito sobre isso. Não quero discutir esses assuntos.
“Tá bom.” Na voz dela não havia surpresa, nem perguntas.
“Reunimos nossas forças. Assustamos o pessoal que tava causando problemas. Os Yàngbǎn provavelmente não vão fazer mais merda. O Elite não vai controlar o acesso às principais colônias, nem impedir quem tem direito de estar lá.”
“Você fala de jeito tão natural,” ela comentou.
“Foi bem assim mesmo,” respondi. Levantei-me, tirando a mão da cerca, virei para ela.
“Tá bom,” ela disse, de novo.
De novo, sem perguntas, sem aquela fome de saber.
Seria injusto contar pra ela, sobrecarregá-la com isso.
Mas, quando deixei as questões de capa de lado, não tinha muito mais o que falar. Observei os cabritos brincando.
“Diana, Bruce e Habreham,” disse Charlotte.
“Habreham?”
“Foi nomeado pela Mai.”
“Entendi.” Olhei para as crianças, vi Mai com os braços cruzados, parecendo muito séria enquanto concordava comigo. Ela consegue ser muito séria, mesmo sendo bem boba às vezes, lembrei.
Eram todos mantendo distância, sem sorrisos, sem entusiasmo com minha chegada.
O que eu esperava? Para alguns, eu tinha desaparecido por um terço de suas vidas.
As crianças ficaram mais atentas quando a porta da cabana se abriu. Forrest saiu de dentro. Tinha trocado as calças justas por umas mais largas, e usava uma camiseta de flanela de manga curta. Mantinha a barba pesada.
Sorrindo ao se aproximar, estendeu a mão. “Você veio ver se a gente aceitou o acordo?”
“Acordo?”
Ele olhou para Charlotte. “Você não falou pra ela?”
Charlotte balançou a cabeça. “Tenho vergonha.”
Olhei para eles, procurando alguma pista. “Explica?”
“Chegaram um grupo oferecendo poderes à venda. Tinha caixas de frascos de vidro.”
“Quando?”
“Uma hora atrás?”
Depois da nossa conversa, achei. Rachel, Imp, Tattletale e eu paramos para comer, conversar sobre o próximo passo. A Cauldron já tinha começado a agir.
“Uma mulher negra, de jaleco?” perguntei. “Uma mulher branca com cabelo escuro, vestindo terno?”
Forrest assentiu.
“Não aceitamos o acordo,” disse Charlotte. “Ela parecia convincente, mas… Não consigo explicar por que não aceitei. Porque tinha que cuidar das crianças, e não sou lutadora.”
“Muita gente aceitou,” disse Forrest. “É uma chance de fazer alguma coisa, ao invés de ficar aí, sem fazer nada. Mas Charlotte e eu conversamos, e concordamos que não é pra gente.”
Ela disse que não sabe por que recusou, mas eles conversaram e concordaram?
As frases não batiam. Charlotte evitava meu olhar.
Eu?
Será que eu que fui o motivo da recusa?
Meu coração ficou pesado, mas consegui manter a compostura, soando confiante ao dizer: “Acho que é bem mais fácil aceitar um negócio assim quando você nunca viu de perto o que os capes enfrentam.”
“Sim,” respondeu Forrest, com uma ponta de alívio na voz, só confirmando meus pensamentos.
“Eu… Eu já imaginei ter poderes, quem nunca? Mas não conseguiria… ter eles e não ajudar… e acho que também não conseguiria ajudar,” disse Charlotte.
“Estava na vizinhança quando o grupo do Hookwolf atacou a loja de alguém, e só fui afetada pessoalmente anos depois, quando Leviathan atacou. Estive lá quando a Mannequin atacou a orla.”
“Lembro.”
Consigo lembrar do Forrest segurando o bloco de concreto, batendo na cabeça da Mannequin. Chegou até a rachar a estrutura, ajudando ela a desistir.
“Conversamos sobre isso, e nenhum de nós quer deixar as crianças sem uma figura. Sei lá, o que a gente devia chamar. Mas eu vejo o quanto melhor fica quando tudo dá errado. Eu quero ajudar, mas não tenho certeza se seria melhor que os outros na hora de conseguir poderes.”
Eu não tinha tanta certeza assim. Forrest tinha mais coragem que alguns capas que eu tinha encontrado. Tinha uma convicção que começava a conectar com alguns dos melhores. Uma convicção que eu queria imaginar que tinha.
Percebi que tinha ficado quieta por muito tempo, perdida em meus pensamentos.
“Ok. Não se preocupe com a fórmula. Talvez ela te transforme num monstro, de qualquer jeito.”
“Ela falou isso,” Charlotte confirmou.
“Sim. Isso é bom. Melhor você não pegar. Queria só conferir,” disse. “Tem tudo que precisa?”
“Mais que suficiente de dinheiro,” respondeu Charlotte. “Estamos bem de suprimentos também. Obrigada.”
Senti uma inquietação. Estava lá desde o começo, quando percebi que não me encaixava, que tinha invadido essa cena doméstica. Estava crescendo, piorando.
“Vai durar mais um tempo?” perguntei. “O dinheiro, as provisões?”
Forrest me olhou estranho. “Mais um tempo? Em que sentido?”
“Dez, vinte, trinta anos?”
Ele não respondeu. Em vez disso, me olhou com muita curiosidade. Quase pulei.
“Sim,” disse Forrest. Sua voz era suave, quase gentil. “Suficiente para durar o tempo que precisarmos.”
“Que bom,” falei.
Engraçado, o clima aqui tava tão bom. A mudança repentina de dia e noite, de bom tempo para mau, ia atrapalhar demais minha capacidade de me ajustar ou dormir. Tudo tinha sido tão caótico, ainda era.
Provavelmente, isso não ia acabar.
Solvei uma respiração profunda, percebendo que tinha ficado quase sem ar. “Ótimo. É só isso, realmente. Eu só…”
Preciso me lembrar do que estou lutando, antes da última batalha.
“…sim. É isso.”
Forrest estendeu a mão pra eu apertar. Eu segurei.
Charlotte me deu outro abraço. Eu me afastei, depois alcei voo.
Tão burro de voar com o combustível quase no fim, mas não tinha mais nada em mim.
Estava apenas fora do alcance do som quando meus insetos escutaram a voz da Mai, “Você disse que o dinheiro não valia nada.”
“Shh. Quieto,” mandou Charlotte.
“Você fez. Disse que ninguém ia pegar — só troca.”
“Shhh,” disse Charlotte.
“E você disse que, se não conseguirmos mais vegetais do jardim, vamos passar um inverno difícil, então por que disse que estamos indo bem?”
“Porque estamos,” respondeu Forrest. Os insetos que tinha plantado em sua manga rastrearam seus movimentos enquanto ele envolvia o braço nos ombros de Charlotte, puxando ela pra perto.
“Devemos tudo a ela,” disse Charlotte. “Isso é suficiente, no grande quadro.”
Sem dúvida, ela falou assim porque sabia que eu podia ouvir com meus insetos. Não era esperta, como as pessoas, mas eu acreditava que era mais pelo meu benefício do que pelo da Mai.
Mas ainda assim, pra mim, aquilo significava o mundo.
“Porta, por favor,” falei. “Faceti.”
A portal se abriu no ar.
■
“Sra. Hebert,” cumprimentou Glenn Chambers. Ele sorriu. “Deve ser o fim do mundo mesmo, meus antigos alunos visitando.”
“Alunos?” perguntei. Meu olhar percorreu a sala até o homem que estava do outro lado da mesa. Quinn Calle, meu antigo advogado. Ele tinha se levantado quando entrei.
O sr. Chambers, não. Ele se inclinou para frente. “Não era você? Gostaria de pensar que ensinei algo a todos com quem trabalhei. Pode parecer convencido.”
“Conceito é uma boa qualidade de se ter,” respondi. “Uma autoestima exagerada pode ser útil, se você estiver disposto a tentar corresponder a ela.”
O Sr. Calle levantou uma sobrancelha. Estava meio desarrumado, com o casaco e a gravata fora, a maquiagem que minimizava a cicatriz na bochecha já quase toda esvaída. Ele olhou para cima enquanto as luzes piscaram e esticou a mão.
Eu a apertei. “Não esperava te ver aqui.”
“Um esforço colaborativo,” disse ele. Calmado, sem se abalar, apesar da aparência. “Muita papelada para organizar sozinho, então procurei várias pessoas que já trabalharam com supervilões.”
“Ah,” respondi.
“Faço roupas para qualquer um,” disse Glenn. “Mas o PRT faz mais roupas para heróis, e desestimulou outros heróis a usarem meus serviços, por ressentimento. Acabei com uma clientela mais de um lado só. Bem, eu também trabalho com moda, mas é mais um hobby do que uma fonte de renda.”
“Moda e crime normalmente não combinam, mas o Glenn tem um conhecimento razoável da galeria de vilões do país,” explicou o Sr. Calle. “O PRT gosta que ele me impede de ser demais indulgente com antigos clientes.”
“O que exatamente você faz, de fato?” perguntei.
“Avaliado de capes,” respondeu ele. “Não é muito trabalho para um advogado criminal nessa situação. Encontraram outro trabalho pra mim, ajudando a decidir quem sai da prisão, quando não conseguem localizar testemunhas. Quem sai do Birdcage, quem sai das prisões convencionais, e assim por diante. Começando pelos com maiores capacidades, e indo até os menores.”
Construindo nossas forças, pensei. A Cauldron distribuindo fórmulas como doces, caras como o Calle soltando antigos presos.
O que os outros estavam fazendo?
“Eu só…”
“Você quis me agradecer,” disse Glenn. “Claro.”
“Claro,” respondi, com a voz seca.
O Sr. Calle falou, arqueando a sobrancelha. “Fique tranquilo, não estou nem um pouco magoado de você ter me agradecido antes dele. Afinal, eu era só o cara que ficou lá e te ajudou pelo sistema depois do assassinato fora de hora da Alexandria e do diretor Tagg, bem na minha frente, mas sim. O cara que dá conselho de moda é prioridade maior.”
Cruzei a sala, me curvei e dei um beijo no rosto dele. “Desculpe. Não tinha certeza se ele ia ficar com mágoa por isso. Obrigada por tudo.”
“De nada,” respondeu ele, quase distraído. A atenção dele estava no laptop à sua frente.
“É bom, admito,” falou Glenn. “Todos os outros que passaram por aqui dizem que tiveram uma epifania de última hora, que perceberam o real valor das coisas que tentei ensinar sobre imagem e autoimagem. Algumas até querer acreditar nisso.”
“Isso pode ser muito otimista,” comentou o Sr. Calle, sem tirar os olhos do seu laptop.
“Provavelmente. Mas essa jovem aqui levou minhas palavras a sério, antes do mundo acabar. Eu consegui perceber isso.”
“Tenho medo que eu não tenha sido um bom herói,” confessei.
“De algum jeito,” disse Glenn, inclinando-se na cadeira, “não me surpreendo.”
“Pois é, que coisa,” respondeu o Sr. Calle. “Pensaria que você ia ser um modelo de heroína.”
“Eu tentei com ela,” disse Glenn. “E, aliás, ela também tentou consigo mesma. Esforço excelente, mas...”
“Acho que este não é um mundo onde ações heroicas funcionam,” afirmei.
Glenn parecia realmente irritado. “Chevalier.”
“Ele tá comandando o Protegetório de uma cama de hospital,” falei. “E eles tão tentando impedir a Ingenue de visitar. Ele se recusa a ser curado até que os outros pacientes recebam tratamento.”
“Esperto,” comentou Glenn. “Só assim ele consegue ficar ali, na linha de frente. Os chefes não podem mandar ele ser um símbolo, se ele estiver confinado na cama. Assim que a batalha começar, ele aceita uma visita e vai pra linha de frente, tenho certeza.”
“Acho que era isso mesmo que ele tava querendo,” confirmei.
“Viu? Justificando ambos os meus argumentos. Você foi uma ótima aluna, e o Chevalier é exatamente o herói que precisamos,” disse Glenn. Ele olhou para uma funcionária entrando, deixando uma caixa de papéis. “Obrigada, Carol.”
Ela me olhou, e para o Calle. Ele, por sua vez, fez um gesto com o dedo indicador e polegar, simulando uma arma, piscando e tilintando a língua enquanto ‘atirava’ nela. Ela sorriu, balançando a cabeça.
“Sério?”
“Sou bem grosso quando não tô com cliente,” respondeu o Calle, sem tirar os olhos do laptop.
“Não há necessidade de grosseria nenhuma.”
“Funciona,” disse ela. “Tudo funciona quando você é bonito o bastante. E é por isso que não há necessidade de ser grosseiro.”
“Ah, mas é divertido,” declarou Calle. “Todos nós temos nossos vícios, não é mesmo?”
Glenn deu uma palmada na barriga, concordando sabiamente. “Admito que tenho uma quedinha por musicais.”
“Começo a me perguntar como vocês conseguem trabalhar direito,” comentei.
“Você precisa ficar atento de alguma forma,” respondeu Glenn. Ele virou o laptop pra mim. “Você conhece ele.”
Über.
“Mais ou menos. Não achava que ele fosse ser preso. O que o Über fez?”
O Calle respondeu por Glenn. “Tentativa de assassinato. Um pouco impulsivo, mas não tão solto ao ponto de colocá-lo no Birdcage. Ficou com a Circo por um tempo, mas deu errado. Quanto ao relacionamento ou parceria. Eles tinham mais a perder do que a ganhar se ele escapasse de novo, então fizeram uma instalação segura. Ele não escapou.”
“Aconteceu algo com o Leet,” conclui. “Só assim ele ficaria tão… perdido.”
“Partiu pra cima das pessoas erradas, foi morto,” contou Glenn.
Podíamos ter usado ele.
“Über—ele deveria ter sido melhor do que foi,” disse eu. “Lembro de achar que ele teria sido um herói brilhante, se o Leet não o tivesse segurado.”
“Aparentemente não,” respondeu Glenn. “Você aceitaria ou rejeitaria ele?”
“Aceitaria,” disse eu. “Mas sou tendenciosa. Eu aceitaria quase qualquer um. Já peguei Lung.”
“Você pegou a Simurgh,” disse o Calle, aparentemente impassível.
“Sim,” respondi.
“Chega de conversa,” replicou ele.
“Coloque o Über num hospital. Deixe que ele dê assistência médica. É fácil, passa pra próxima.”
Glenn suspirou. “Até que a gente solte por acaso alguém psicótico o suficiente pra botar em risco toda nossa defesa. Acho que lembro do Chevalier, da Tattletale, e de um….”
“Acord,”
“Sim,”
“Pois é, entendi seu ponto,” concluí.
Glenn sorriu. “Senti mesmo falta de conversar com você. Não dá pra parar e esperar você acompanhar a gente. Pessoas inteligentes são tão raras quanto ouro.”
“Verdade,” disse o Calle, se incluindo entre as pessoas inteligentes sem nem pensar duas vezes.
“O que significa,” disse Glenn, “que eu não devo agir como se fosse burro. Você veio aqui por um motivo, algo que não seja apenas me agradecer.”
“Eu só… acho que queria dizer… estou bem mais perto de descobrir quem sou, onde me encaixo. Há pouco tempo, eu dizia que tinha decidido, mas—”
“Dúvidas nos momentos finais,” disse Glenn. “Isso é algo que eu entendo.”
“Hm-hm,” concordou Calle.
“Já vi capes mudarem por fora para refletir uma nova essência, após momentos difíceis e eventos que mudam a vida. Você está se perguntando onde você está, agora que está à beira, não é? É natural,” disse Glenn.
“Totalmente antissocial,” disse Calle. “A maioria das mudanças acontece só após levar um pé na bunda e uma passagem só de ida pro Birdcage. Quem é a verdadeira pessoa, aquele que foi por vinte anos ou aquele que se torna depois que as algemas vão?”
Perguntei: “Quer dizer que esse aqui não é o verdadeiro eu, que é só reflexo da crise?”
“Você? Hmm…” Calle fez uma pausa.
“O comportamento dela após a prisão foi surpreendentemente semelhante ao antes,” comentou Glenn. “Incluindo o, como você descreve, atrasado assassinato de duas figuras muito relevantes, depois de provocada. Basicamente, idêntico ao que a Miss Militia colocou no arquivo dela.”
“Ponto aceito,” confirmou Calle.
“Não sei se é assim que quero ser definida,” admiti.
“Tome como for,” disse Glenn. “Você é muito assustadora quando fica brava. Talvez… agora seja a hora de ficar brava?”
“Ficar brava com o Scion é como brigar contra um desastre natural,” eu disse. “Ele não entende. Não reage. Meus gritos se perdem no caos.”
“Você não gritou quando atacou a Alexandria,” comentou Calle. “Na verdade, lembro que ficou bem quieta.”
Assenti.
“Se você já decidiu quem quer ser,” disse Glenn, “Aceite tudo. A parte boa, a ruim, a ambígua. Vulnerabilidades e forças. A raiva, faz parte. O medo das pessoas que você gosta, também é uma força. Não é muito bom de sentir enquanto acontece, mas é um poço que você pode extrair.”
“Certo,” concordei. Pensei na Charlotte e nas crianças.
Droga, eu não queria fracassar aqui, fazer eles perderem tudo que estavam construindo.
“E, com um pouco de sorte, saber quem você é evita que você desperdice tempo e esforço criando uma fachada. Talvez esse esforço extra que você tem ao seu dispor seja o que faça a diferença.”
Uma portal se abriu atrás de mim. Um membro dos Wards de Nova York. Um pouco desarrumado.
“Cuide-se, Srta. Hebert,” disse Calle, facilitando minha partida, para a nova chegada poder passar.
“Tchau,” falei. “Obrigada de novo.”
“Tchau, Taylor,” disse Glenn. “Vocês, Weaver, Skitter e o estrategista, botem pra quebrar, entendeu? Por todos que não podem estar na linha de frente.”
Assenti.
“Porta, pra Srta. Militia.”
■
A porta se abriu, e uma pequena multidão se afastou, distraída.
Demorei um pouco para entender o que tava vendo. Centenas de pessoas, sentadas em cadeiras dobráveis ou de pé na grama, de um lado e outro ou atrás do grupo. Assistiam a um filme projetado numa enorme folha branca, algumas com tigelas de papel com sopa, outras com cerveja.
Meus insetos passaram pela multidão, e localizei meus companheiros.
Parian e Foil, de roupas civis, sentados juntos, de mãos dadas. Poderia tê-los perdido, se não fosse pela lâmina que Foil tinha sempre à mão.
Aisha, ao lado da Rachel, com os cachorros debaixo das cadeiras, fora do caminho. Os Heartbroken preenchiam os assentos imediatamente ao redor deles. Distorções assustadoras do Alec, com quadros diferentes, cores de cabelo, gêneros e estilos, mas que eu reconhecia bem.
O filme mostrava um cachorro na tela, sendo perseguido por um grupo de crianças. Eu via a cara da Imp na escuridão, parecido com a irritação da Rachel.
“Não é o mesmo cachorro,” sussurrou Rachel. “Por que ninguém percebe? Mesmo raça, mas cachorros completamente diferentes.”
“Finge,” dizia Aisha, com um sorriso que não vacilava nem um pouco.
Uma das crianças mais novas dos Heartbroken mandou eles ficarem quietos.
Vi a Srta. Militia de um lado, com um grupo de capes crianças. Crucible, Kid Win, Vista, mais dois que eu não reconhecia, e Aiden. As crianças assistindo à tela, enquanto a Srta. Militia monitorava a galera, com boa parte da atenção voltada para a Aisha e a Rachel.
Não queria interromper, nem estragar a diversão das crianças.
Era uma distração. Uma merda de filme, aparentemente, mas uma distração. Para os capes, uma chance de não pensar no que vem depois. De não ficar remoendo o fato que, daqui a um minuto, uma hora, um dia ou uma semana, estaríamos lutando com tudo pelo tudo.
Peguei um caderno pequenino na minha cinta, e uma caneta.
Srta. Militia,
Era uma vez, eu queria ser heroína. Na noite em que mudei de ideia, na mesma noite em que atacamos a arrecadação, eu ia te escrever uma carta. Acho que chegou a hora de terminar...
Não foi uma carta fácil de escrever na época, e não ficou mais fácil agora, por motivos bem diferentes. Eu não era uma boa heroína, e uso o passado aí porque não posso me considerar genuinamente uma heroína neste momento. Estive visitando pessoas hoje, e suspeito que vou visitar outras amanhã, se as circunstâncias permitirem, agradecendo quem precisa ser agradecido, tentando deixar um legado, alguém que se lembre de mim, se todos conseguirmos passar por isso.
Quando eu era heroína, quando fiz certo, acho que estava te imitando. Pensando bem, acho que talvez as coisas tivessem dado certo se eu tivesse entrado nos Wards, porque você me apoiaria. Não posso dizer que me arrependo do que fiz, mas também não posso dizer que não...
Desculpa. Não me deixe perder seu tempo. O que eu queria mesmo era dizer obrigado. Obrigada por estar ao meu lado quando era importante.
– Taylor Hebert.
Enrolei, entreguei para meus insetos levarem.
Não esperei a reação dela, e sussurrei: “Porta. Tattletale.”
■
Quase uma hora, no total, cuidando de meus afazeres, das pessoas.
Nem todas as pessoas que eu deveria ter procurado. Deixei de fora umas das mais importantes.
A mais importante: meu pai.
Talvez eu fosse uma covarde, afinal. Eu sabia a resposta, só não queria ouvi-la.
Não podia ter certeza absoluta de que poderia escutá-la. Não queria ser atingida tão perto de uma batalha crucial.
Fiquei quase sem fala enquanto atravessava o prédio. Os soldados da Tattletale me reconheceram à medida que passei.
Não era o lugar dela. Em algum lugar afastado, seguro, talvez só acessível à Cauldron.
Descobri por quê ao entrar na sala da Tattletale. Ela dormia, encolhida no sofá, com um laptop de tela preta, que emitia uma luz tênue.
Ouvi um murmúrio. Tagarelando no sono?
Me curvei sobre ela, vi o rastro onde a maquiagem preta que usara para pintas ossoques tinha escorrido. Uma lágrima, no canto de um olho, descendo pelo rosto. Chorando um pouco durante o sono.
Encontrei um cobertor e cubri ela, depois sentei na ponta do sofá.
“Ninguém realmente saiu por mim, mas vocês,” falei. “Todo mundo seguiu adiante.”
Outro murmúrio.
Não veio da Tattletale.
Nem de nenhuma direção em particular.
Escutei, e quase imediato, desejei não ter ouvido.
Música. Uma canção de ninar, tão silenciosa que parecia quase imperceptível.
Não a escutava com meus ouvidos.
Cruci em direção ao vidro grosso, provavelmente à prova de balas. Podia ver homens de guarda lá fora, com viseiras de visão noturna brilhando.
A Simurgh estava lá fora.
A canção de ninar continuava enquanto ela expandia seu arsenal.
“Pare,” sussurrei.
Ela parou.
O silêncio foi ensurdecedor. Nenhum barulho na área, nem vento, nem pessoas.
Fiquei me perguntando se a canção de ninar tinha sido mais alta do que eu imaginei. Como eu deveria medir seu volume, sem nada além das minhas próprias ideias pra comparar?
Desculpa.
Essas palavras vieram na minha cabeça. E na minha voz.
Não minhas palavras.
A Simurgh virou, com os cabelos fluindo no vento. Ainda com as mãos erguidas, manipulando sua telecinese em outra arma que acrescentava ao seu arsenal. Seus olhos encontraram os meus.
Pus-me de volta ao sofá, ao lado de Tattletale.
Não consegui dormir naquela noite.