Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 177

Verme (Parahumanos #1)

Houve um toque no microfone. “Se pudermos ter silêncio, por favor?”

O murmúrio de conversas pelo auditório aos poucos foi morrendo. O local não estava cheio, mas quatro de cada cinco assentos estavam ocupados, e havia mais pessoas na parte de trás, principalmente repórteres, muitos de fora da cidade.

Meus olhos se moveram rapidamente pelo ambiente, tentando avaliar a situação. A mulher pesada na primeira fila, será que era a Piggot? Faz sentido que todas as pessoas que valesse a pena falar estivessem presentes. Os desastres e o ataque da Tattletale às torres de celular significavam que não havia TV, nem telefones, e a única forma dos interessados descobrirem o que os candidatos tinham a dizer era estar lá presencialmente.

Fora do auditório, os homens do Coil se reuniam no saguão e nas laterais do prédio. Alguns estavam em busca de ponto no telhado, formando duplas, trabalhando juntos para montar rifles de precisão. Preparando-se para uma luta. Para uma guerra.

Coil estava no saguão agora, acompanhado por outros. Reconheci a Circus pela marreta que carregava, com a cabeça de metal arrastando no chão. Coil disse algo e ela ergueu a arma. Seria sobre o barulho? Isso não importava. Estava acompanhada por mais dois que eu não conhecia. Um garoto adolescente e um homem maior, mais atlético, com uma estrutura de metal pesada.

“Obrigado a todos por virem. Hoje à noite teremos um debate de três candidatos. Vamos apresentar os seus nomes, começando pelo Sr. Roy Christner, nosso prefeito atual. Também temos a Sra. Carlene Padillo, vereadora de comunicação; e o Sr. Keith Grove, CEO da Eaststar Financial. Os temas da noite são crime, segurança pública e o estado da cidade. Pode começar, prefeito Christner? O que diferencia o senhor dos demais candidatos em relação às suas opiniões?”

Olhei por cima do ombro para confirmar o que via com meus insetos. Um jovem caminhava pelo corredor com uma criança pequena, indo direto para o Coil.

“Não vou mentir,” disse Christner. Me virei para ele, vendo o quanto parecia exausto. De certa forma, isso funcionava a seu favor, fazendo parecer decidido. “As coisas estão ruins. A situação melhorou em relação a semanas atrás, mas ainda estamos em uma situação feia. Pelo menos quarenta por cento da cidade já evacuou, hospitais estão abarrotados, e os vilões dizem que controlam as ruas...”

Voltei meu olhar para o pai e seu filho. Eles abriram a porta e passaram por ela, e dois soldados do Coil estavam em cima deles antes que pudessem abrir a boca e gritar algum aviso. Colocando as mãos na boca, os soldados recuaram da porta, separando pai de criança. Em segundos, ambos estavam sendo amordaçados e contidos.

A porta se fechou sozinha, deixando ninguém mais sábio sobre o que estava acontecendo.

“...envolvido na defesa o tempo todo. Conversei sobre o assunto com o Legend, com o Dragon e com o Diretor Costa-Brown, do PRT. Diariamente, tenho mantido contato com a Diretora Piggot para decidir quais ações devem ser tomadas para restaurar a cidade ao que ela já foi.”

“Esse padrão está bem baixo,” disse Grove, apertando as mãos na borda do seu púlpito.

“Sem interrupções, por favor,” falou o moderador. Christner acenou para ela, dispensando a atenção. “Quer começar, prefeito Christner?”

“Vamos ouvir o que Grove tem a dizer.”

“Muito bem. Sr. Grove. Dois minutos para falar.”

“Quer que a cidade volte ao que era? Acho que quer que a gente esqueça que metade da nossa cidade era um esgoto antes do Endbringer chegar. Muitos de vocês na plateia vivem no setor norte. Sabem o quão ruim era. Ou talvez o prefeito esteja falando do auge da cidade, quando os cais fervilhavam de movimento e todo mundo ouvia os navios entrando e saindo dos portos. Se ele está tentando convencer vocês de que vamos voltar a isso, está mentindo descaradamente. O Porto do Senhor, conhecido por muitos como o cemitério de navios, custaria dezenove milhões de reais só para remover as embarcações danificadas e descartá-las. Sem contar o custo de reformar a área, atualizá-la para os padrões modernos e a impossibilidade de se aproximar a uma milha e meia do local sem sentir uma desesperança suicida quase incontrolável. Eu visitei. Sei como é.”

Enviei uma mensagem para o Coil, traçando palavras com meus insetos.

‘Tô aqui. Para.’

Ele destruiu as palavras com um gesto casual, espalhando os insetos. Quase como desdém. Claro que ele não iria parar agora. Ele tinha feito pouco segredo de como seus planos eram importantes pra ele, e parar agora, num momento tão crucial?

“O prefeito quer nos levar de volta ao que éramos? Isso não é suficiente. Proponho que aproveitemos esta oportunidade. O cenário, de muitas formas, foi limpo. Vamos recomeçar. Existem fundos nacionais e internacionais destinados à recuperação de ataques do Endbringer e eventos de envolvimento parahumano em massa. Meu orçamento, detalhado nos panfletos que serão entregues no saguão, explica como usaremos nossos impostos e esses recursos de recuperação para revitalizar a cidade. A balsa, que virou uma piada local, será retomada. Planos de moradia de baixo custo e alta produtividade para o setor norte, demolição e reconstrução em grande escala para o centro e outras áreas destruídas, além de marketing para promover e vender Brockton Bay como símbolo de perseverança e espírito humano, atraindo novos moradores e turismo.”

“Vereadora Padillo,” falou o moderador. “Alguma resposta?”

“O Keith Grove não está respondendo à pergunta. Ele pinta uma imagem bonita, mas não menciona a presença dos supervilões locais ou as pressões que eles exercem sobre nós…”

Eu me mexi na cadeira. Poderia atacar? Deveria? Se eu saísse agora, talvez fosse pela passagem lateral, poderia evitar os soldados, chegar a um ponto de vantagem para contra-atacar o Coil.

Exceto que eu não sabia o que ele planejava, e meu pai estava ali. Eu poderia pegar meu pai, mas aí arriscava ter que explicar o que estava acontecendo, e isso significaria deixar Kurt, Alexander e Lacey para trás. Significaria deixar todos esses civis também.

Não era prático levar mais alguém. Mas eu não conseguia me convencer a fugir do meu pai aqui. Não podia explicar o porquê, como ou o que fosse, mas sentia que sair deixando meu pai aqui significaria que nunca mais voltaria. Que isso destruiria nosso vínculo, seja eu sendo exposta como supervilã, uma quebra na confiança que ainda sobrava, ou por um de nós morrer.

Costumava ser mais racional do que emocional. Mas, se fosse honesta comigo mesma, minhas justificativas eram bastante influenciadas pelos meus sentimentos. Eu podia criar uma justificativa para praticamente qualquer ação. Isso me trouxe até aqui. O que nem sempre é algo bom.

A vereadora Padillo continuava falando, mesmo enquanto minha mente corria. “…Indícios de má gestão dos recursos. O prefeito quer nos fazer acreditar que esteve envolvido em esforços genuínos para salvar a cidade. Não consigo acreditar que ele queira estar associado às ações recentes do PRT. Derrotas após derrotas dos nossos heróis. Essas perdas não são culpa dos heróis, é até compreensível, dado o poder absurdo exercido por Endbringer, pela Turma de Matadouros Nove e pelas várias outras ameaças na cidade…”

Coil começava a se mover, seus homens se posicionando ao redor dele, suas parahumanas de guarda de um lado, a tropa de elite de outro.

Eu tinha que tomar uma decisão. Enfrentá-lo e arriscar tudo pelo que vinha lutando? Aqui mesmo, agora, com Coil puxando seu poder, com três parahumanas e pelo menos vinte soldados de elite que eu sabia serem capazes de acertar o alvo, apoiando-o? Mesmo que eu me escondesse na multidão, não tinha certeza de que ele não pudesse me ver ou ao meu pai e ordenar que um de seus homens se movesse.

A alternativa era fazer o que me mandaram, evitar qualquer atividade mascarada; confiar no Coil e no seu poder para lidar com a situação. Eu o odiava, de certa forma, mas sabia que ele era inteligente. E sabia que ele sabia que eu estava ali; tinha perguntado para a Lisa e ela tinha perguntado a ele se tudo bem. Ele devia ter um plano para lidar comigo se eu tomasse alguma ação.

“…Começa o combate nas ruas. Não, a culpa é do PRT e da administração do prefeito, que admite ter participado das decisões. Decisões bastante questionáveis: recuar quando poderiam agir, forçar confrontos quando nossos heróis estavam em desvantagem grave.”

Vi Piggot se remexer desconfortável na cadeira. Isso tinha sido arranjado? Uma cena encenada?

Coil começou a caminhar em direção às portas duplas fechadas que levavam ao fundo do auditório, ao lado de Circus e da outra parahumana, com várias fileiras de soldados atrás deles.

Segurei a mão do meu pai, a apertei forte, e permaneci onde estava.

As portas se abriram com um estrondo. Coil, Circus e… Über estava com ele, num traje de metal pesado, Leet ao lado, segurando o que parecia uma arma de raio. Pessoas gritavam, iniciando uma reação em cadeia ao redor. Algumas corriam em direção às saídas, mas seus caminhos eram bloqueados por mais soldados que surgiam.

Meu pai e eu ficamos em nossas cadeiras, com eu me abaixando na frente de uma delas, puxando meu pai para ficar protegido.

“Que diabos?” — rosnou o prefeito no microfone. “Coil?”

“Senhor prefeito,” falou Coil.

“Isso é uma loucura,” disse Grove.

“Gênio às vezes parece assim para quem não enxerga o quadro completo.” Coil tinha avançado até uma parte do corredor onde eu conseguia vê-lo claramente. Ele virou para olhar a multidão, e por um instante de susto achei que fosse parar quando seus olhos caíram sobre mim. Sua cabeça continuou se movendo, e ele caminhou mais para frente, mais perto do palco.

Grove falou, “Os heróis locais—”

“Estão ocupados. Fogueiras começaram em locais estratégicos, áreas onde os danos não são imediatos, mas onde não podem ser deixadas se espalhar. Uma delas é no seu quartel-general. Me desculpe. Queria focar em áreas prioritárias. Os outros incêndios vão ocupar os membros dos Undersiders e Travelers e atrasar suas recuperações após a perda de suas bases.”

Senti um nó na garganta. Quanta coisa era mero blefe?

“Seu filho da puta,” rosnou o prefeito. “Primeiro minha sobrinha, agora isso?”

Sobrinha?

Claro. Ouvi dizer que a Dinah era sobrinha de um dos candidatos à prefeitura. Não tinha percebia que ela era sobrinha do próprio prefeito.

“Ela está segura,” disse Coil. “Assim como qualquer pessoa aqui sem título. Se você é prefeito, ou candidato a prefeito, se se chama chefe de polícia, tenente, diretor ou major, temo que não possa garantir sua segurança.”

“O que vai fazer?”

“Deixe-me demonstrar. Circus?”

Circus caminhava pelo meio da multidão como se estivesse num terreno firme, mas cada passo era sobre o encosto de uma cadeira do auditório. Ela estendeu os braços para os lados, com os dedos espalhados, depois fechou as mãos em punho. Facas saíram entre os dedos.

O Sr. Grove e a Sra. Padillo correram primeiro, e o prefeito Christner logo atrás. Não importava. Circus lançou os braços à frente, e cada uma das oito facas atingiu o alvo.

Pessoas se levantaram de suas cadeiras, e por longos momentos não consegui ver o que aconteceu no palco depois disso. Só senti os corpos caindo no chão pelas minhas bugigas. Não ousei mover os insetos para ver exatamente onde as facas tinham acertado.

Soldados do Coil estavam com os repórteres e cinegrafistas na mira das armas. Eu me levantei alto o suficiente para vê-lo se virar para encarar o maior grupo de câmeras. “Os outros vilões querem tomar a cidade debaixo dos panos. Começar nas ruas, fora de vista, para eliminar quem ameaçar seu domínio, e conquistar os distritos um a um. Ignoram o fato de que há outros no poder que não são superhumanos. Civis comuns com força para tomar decisões que afetam a cidade.”

“Eu prefiro um caminho mais direto. Brockton Bay é minha. Eu faço as decisões, reivindico e distribuo os impostos e decido quem ocupa os cargos de poder. Quem discordar enfrentará o mesmo destino do prefeito, do Grove e da Padillo.”

Levei um pouco mais minha cabeça para ter uma visão do palco. O prefeito jazia de costas, com o peito arfando com força demais, como se estivesse puxando ar a plenos pulmões e expulsando com ainda mais força. Tinha uma faca cravada no meio do torso, outra no ombro, e outra na perna. Meu pai me puxou para baixo antes que conseguisse ver os demais.

O prefeito não estava morto, mas parecia à beira de morrer. Eu estava aprovando isso ao ficar em silêncio? Tinha dito a mim mesma que deixaria o plano do Coil se desenrolar até ele fazer algo inaceitável e que isso ameaçava passar do limite. Era só o fato de o prefeito ainda estar vivo, e o fato de eu não conseguir pensar em nada que pudesse fazer para intervir, que me mantinham na calçada, escondida dos soldados e das armas de fogo que empunhavam.

“Você não pode esperar que isso dê certo,” a voz falou pelos alto-falos.

“Diretora Piggot,” falou Coil. “Tenho que admirar sua coragem, se colocando na linha de fogo logo após sua última escapada. Foi sequestrada pelos Undersiders, não foi?”

Pelas minhas bugigas, percebi como Piggot apoiava-se pesadamente numa mesa à frente do palco, usando o microfone do moderador do debate. “Esse seu plano já estava condenado desde o começo. Só pelo que você fez, ameaçando essas pessoas e ordenando a execução daqueles três no palco, você vai fazer com que toda a Proteção venha atrás de você. A América vai exigir. Ou você é tão louco que acha que vamos deixar você se coroar rei?”

“Louco? Não. Monstro? Talvez. Melhor dizer que sou uma aberração da natureza. Meu poder é controlar meu próprio destino, moldá-lo e cultivá-lo. O que vocês veem aqui é só a ponta do iceberg.”

“Então há um plano maior.”

“Exatamente. Uma pena que você não vá descobri-lo. Circus?”

Piggot recuou da mesa e abaixou a cabeça rapidamente. Mas não adiantou. Circus jogou uma faca de arremesso no ar, fazendo uma curva. Ela não tinha olhos na diretora, mas a faca foi bem alta, refletindo a luz ao atingir o pico da trajetória perto do teto alto do auditório. Ela despencou para atingir o alvo, e gritos surgiram na parte da frente.

“Alguém avisou os heróis,” falou Leet. “Minha U.I. diz que eles estão a caminho.”

“Ótimo,” respondeu Coil. “Circus, venha. Capitães de esquadrão, mantenham a ordem aqui. Voltaremos assim que isso acabar.”

“A vadia é grossa demais. Achando que não acertei nada vital,” disse Circus.

“Continue até o fim,” ordenou Coil, virando-se para sair, com Über e Leet ao lado. Circus virou para seguir, abanando o pulso com força por cima do ombro. Três facas cruzaram o ar, quase tocando o teto, convergindo juntas enquanto caíam na direção da Piggot.

Eu mal tive tempo de pensar nisso, levantando-me e chamando meus insetos. Sabia que eram poucos, tempo demais tinha passado, mas ficar parado enquanto alguém morria? Quatro ou cinco baratas, alguns moscas domésticas, não era suficiente. Eu tinha segurado os insetos, mantido-os em áreas afastadas, e agora não tinha o bastante para bloquear as facas ou desviá-las do caminho.

Um brilho de luz ao redor da Piggot, e por um instante pensei que ela pudesse ter poderes. Talvez tivesse passado por uma transformação, ou sempre os tivesse, mas guardava-os na reserva?

Mas não era ela. Weld pegou as facas, deixando-as afundar na palma da mão até as empunhaduras.

Era a Guarda. Weld e Vista estavam ao pé da sala. Vista levantava as mãos, formando barreiras ao longo das paredes para bloquear os soldados do Coil que não estavam mantendo os reféns. Kid Win estava num canto, disparando rajadas de impacto contra soldados e civis, um com cada mão, e as torres flutuantes de seus ombros acrescentando mais fogo ao combate. Ele desorientou os inimigos com a primeira salva, e o fogo subsequente parecia destinado a derrubar quem se levantasse ou levantasse uma arma. Os canhões de impacto eram armas não letais, usadas de maneira casual para atordoar ou incapacitar, não machucar.

Chariot tinha uma arma que disparava cargas elétricas, semelhante à que eu tinha emprestado do Kid Win, e sobrevoava os soldados, descarregando tiros neles. Seu traje era diferente da última vez que o vi, com patins de roda única nas pontas dos pés, um sistema de voo que não parecia preso a ele. Um disco do tamanho de um pneu de carro flutuava atrás de sua cabeça e ombros, quase luminiscente, com asas de energia dourada cintilando nas laterais.

Clockblocker formava o núcleo do ataque. Ele não lutava diretamente. Ficava próximo a um tecido branco que tinha sido congelado no tempo, cobrindo os soldados.

Eles estavam dando a volta por cima. A rapidez com que apareceram, suas posições, foi tudo planejado, avaliando a situação, decidindo onde precisariam estar para fazer um ataque decisivo e proteger a multidão, e provavelmente teleportaram-se para o local. Sabia que tinham tecnologia para teleportar objetos. Não tinha suspeitado que também usassem isso com pessoas.

“Venham por aqui!” — gritou Weld. “Evacuem pelo fundo do palco! Fiquem nas laterais! E preciso de ajuda médica para os feridos!”

O grupo deles estava um pouco machucado, sujo e com partes de traje substituídas. Onde pude ver pele, notei marcas de picadas de inseto ainda não cicatrizadas. Vista mesmo cobriu as marcas com maquiagem, mas estavam lá.

Fiquei congelada na dúvida. Senti uma esperança estranha, quase surreal. Se os bons conseguissem a vantagem, se realmente derrotassem o Coil, eu poderia resgatar a Dinah simplesmente visitando a base dele e abrindo a porta do quarto dela. Coil era implacável aqui. A seus ordens, quatro pessoas ficaram gravemente feridas, algumas talvez à beira da morte. Se eu interviesse…

Não, minha ajuda não seria bem-vinda. Poderia até ser perigoso, uma distração crucial no momento. Eu também precisaria escapar. Uma vitória clara poderia fazer com que eles fechassem a área para colher depoimentos ou garantir que nenhum soldado removesse a roupa e escapasse disfarçado entre a multidão. Ninguém tinha me visto reunir os insetos na tentativa inútil de ajudar a Piggot. Mas, se eles descobrissem que a Skitter estava no prédio, e ganhassem, seria uma questão de descobrir qual garota adolescente ali dentro encaixava-se no perfil.

E se eu tentasse ajudar e o Coil vencesse, bem, meu pai e eu estaríamos ferrados. Sem meias palavras. Ele estaria numa posição privilegiada para retaliar, talvez até sem perder o apoio dos meus colegas.

Se algo me mantinha no lugar, era o jeito que uma das mãos do meu pai segurava a minha, enquanto a outra segurava meu pulso, tentando me proteger com o corpo dele. O rosto dele tenso, o corpo rígido de medo.

“Guardiões!” — gritou Weld. “Tudo liberado!?”

“Liberados!” — responderam três vozes: Clockblocker, Kid Win e Chariot. Os soldados tinham sido dominados.

Meu pai puxou minha mão. Pessoas já haviam passado pelos corredores, e tínhamos espaço para nos mover. Eu o segui, deixando que ele me puxasse na direção do corredor.

“Reagrupem-se! Alcance ótimo, voltados para as portas!” — ordenou Weld. Vista, Clockblocker, Kid Win e Chariot correram para o centro da sala. Ele ficou onde estava, observando enquanto civis ajudavam os feridos. Todos, exceto o prefeito, pareciam vivos. O único que eu tinha dúvida era ele. Estava deitado, recebendo RCP de duas pessoas.

“Agora!” — gritou Weld.

Clockblocker se moveu, lançando um pulinho de três metros para sua esquerda para marcar Chariot. Chariot ficou congelado no ar.

Pareci parar, por um instante, confusa. Alguns dos Guardiões tinham se virado traidores? Não. Kid Win e Vista pareciam seguir tudo normalmente. Trabalhando juntos para amarrar Chariot.

Houve protestos na multidão. “O que vocês estão fazendo?” “Ele não fez nada!”

“Ele é um traidor,” falou Weld, com a voz carregada. “Trabalha pro Coil. Vão embora. Evacuem, saiam daqui. Temos tudo sob controle.”

Ele transmitia confiança. Droga, por todas as vezes que lutamos contra os Guardiões, por todas as vezes que xinguei os heróis por não fazerem o que precisava, comecei a ficar esperançosa.

Meu pai e eu estávamos descendo o corredor, passando pelos soldados que Chariot tinha derrotado. Chegamos às escadas que levavam ao palco quando as portas se abriram com estrondo.

Über liderava, seguido por Coil, Leet, Circus e uma tropa de soldados. Seu traje de metal suportou a maior parte do fogo incoming, e ele usou os braços para proteger a parte superior do corpo dos ataques elétricos e dos disparos de impacto das armas do Kid Win e das torres. Vista começou a diminuir os braços, mas o progresso parecia mais lento. Ela tinha dificuldade de usar seu poder com material vivo na frente, mas ainda assim funcionava.

Por estar tão perto do combate, do fogo e dos flashes de eletricidade, as pessoas reagiam mal. Gritavam, mandavam os outros se moverem mais rápido, empurrando e puxando. O pior era o barulho que faziam—não conseguia acompanhar tudo que acontecia. Coil dizia algo, suas palavras chegando até os heróis, mas eu perdi na confusão.

Não queria me mostrar presente, então limitei o número de insetos enviados. Alguns no Coil serviram para acompanhar seus movimentos. Ele tinha se ajoelhado atrás do Über, e Leet lhe entregou um controle remoto pequeno. Ele não perdeu tempo e apertou o botão.

O som dos disparos mudou. Meu corpo não foi o único que olhou para ver o que tinha acontecido.

Kid Win parou de disparar, e um zumbido agudo encheu o ar. Ele virou para o Weld, que começou a rasgar sua armadura.

Leet saiu de trás do Über e atirou em Vista. Ela foi jogada ao longo do corredor, batendo contra a base do palco. Ele deu mais um disparo em Clockblocker, que se congelou. Kid Win puxou outra arma de uma bainha lateral e atirou em Leet.

Weld terminou de desmontar a armadura do Kid Win, liberando o que parecia ser uma célula de energia.

Mal consegui entender as palavras, mas alguém na multidão gritou: “Disse que é uma bomba! Sabotagem! Corram!”

Naquele instante, a multidão virou uma massa de corpos, cada um tentando se levantar e passar pelo degrau, quase sem progresso. Über, Leet, Circus e Coil começaram a correr em direção ao saguão, Über chutando a porta, deixando os heróis lidarem com a bomba, que emitia um sibilo cada vez mais alto e agudo, brilhando com uma luz dourada radiante.

Kid Win apontou para Chariot. O garoto estava congelado, parado, mas as asas e o cinto no seu corpo ainda estavam ativos, não presos ao traje de Chariot, portanto, não afetados pelo poder do Clockblocker.

Weld pegou a bomba do ar, rasgando a capa externa assim que teve a mão. Kid Win alterou a fiação. Estavam gritando alguma coisa um para o outro, mas eu não consegui entender. Weld apontou para cima.

A bomba ou fonte de energia sabotada desapareceu, teleportando-se na mesma rede de linhas que Eu tinha visto Kid Win usar para invocar seu canhão gigante. Percebi o que eles tinham feito: teletransportar a bomba para o alto, onde não havia nada nem ninguém que pudesse ser atingido.

Ou era esse o plano deles. Não funcionou assim. Vi um clarão vindo do saguão, o brilho do dispositivo, e Coil dando a volta para nos encarar, seu grito se perdendo no meio do zumbido agudo e dos gritos dos outros.

Minha reação de estímulo-voz foi lenta demais para processar tudo que aconteceu em seguida. Vi em flashes: a energia crescendo da fonte sabotada, o corpo do Coil se despedaçando em pedaços, as cadeiras do auditório e fragmentos de piso sendo arremessados ao ar enquanto a explosão parecia lenta, quase em câmera lenta.

E então, nos atingiu. Só vi branco, senti dor apenas.

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