Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 180

Verme (Parahumanos #1)

“Estão realizando uma sessão?” perguntou Cinderhands.

“Já esperamos tempo suficiente,” respondeu Marquis. “A notícia correu, a demanda está alta, e isso tem afetado as pessoas ainda mais porque elas têm ficado pensando nisso. O momento é oportuno, se você estiver pronto, Amelia?”

Amelia olhou para suas mãos. “Eu não quero.”

“A vida é cheia de coisas que não queremos fazer. Não vou te obrigar, mas acho que você e eu nos sairíamos muito bem se encarasse a tarefa. Vai ser mais difícil te proteger se você não fizer.”

Amelia franziu a testa. “Quer dizer que você me jogaria de cabeça na boca do lobo.”

“Não. De jeito nenhum. Se você realmente decidir que não pode, se a situação for um ultimato, eu entregarei o poder que tenho como líder do Bloco W, se for preciso.”

“Não sei se você está falando sério.”

bom. No máximo, é uma virtude entre muitas que não consegui adquirir. Sou rude, independentemente do que finja, e isso está bem claro para quem presta atenção. Fui criado em condições difíceis, e levou um bom tempo para superar isso e conquistar o respeito que tenho. E eu entregaria tudo isso se você precisasse.”

“Você não me conhece.”

“Você é minha família, Amelia.” Ele se levantou, puxou o cigarro de entre os lábios e beijou sua testa. Ela não deixou de puxar a mão de susto e surpresa. “Seja o que for, isso é o mais importante no final das contas.”

Deixou as palavras com ela, virando-se de costas. Lung ficou à porta, de braços cruzados, e Marquis sorriu levemente para ele. Ele verá essa confissão como fraqueza, mas uma exibição adequada de confiança o fará se perguntar se é uma mentira, um truque.

Lung, como os outros prisioneiros, usava as roupas de algodão cinza fornecidas regularmente pelos carregamentos, junto com os itens essenciais. Ele havia rasgado as mangas da camisa, exibindo braços musculosos adornados com tatuagens até as pontas dos dedos. O castanho claro de seus olhos era cercado por um expanso de vermelho irritado, em vez de branco. Além de seu físico musculoso, essas eram as únicas coisas que o diferenciavam de qualquer homem comum na rua.

Lung era um assassino, um animal selvagem que fingia ser homem. Marquis tinha coletado detalhes suficientes para saber a história de Lung. Ele havia quebrado as regras, violado o código, achando que tinha poder suficiente para escapar ileso. Mas essa era uma força que ele não podia quantificar, uma mistura de força militar bruta, reputação e poder circunstancial.

Assim como há atletas que estudam seu esporte, treinam técnica e aprimoram seus corpos com objetivos específicos, havia outros que usavam talento natural e instinto. Lung construiu sua gangue conquistando outros um a um, usando o instinto para identificar quem poderia impedir seu avanço e, então, removendo-os violentamente do caminho. Seu instinto e um poder tenaz garantiram seu sucesso na rua, onde controlava o tráfico de drogas local e seus soldados, mas esses não tiveram tanta sorte no âmbito de uma guerra maior.

E assim, Lung se encontrava ali. Entre os caídos, por assim dizer.

Ele voltou sua atenção para Amelia. Sua filha. Ela estava sentada na beirada da cama, encurvando-se para frente. As roupas dela não estavam rasgadas ou modificadas, e seu moletom era um pouco grande demais para ela — ela tava no setor de celas dele, e as roupas eram feitas para homens. Por ora, ela estava sendo deixada em paz. Ele pediu aos homens do seu setor que cuidassem dela, e por causa disso, ela recebia certo respeito. As pessoas se afastavam dela, não porque soubessem algo sobre ela, mas porque conheciam ele.

Era uma situação precária e incomum. Uma garota nos setores masculinos. Não era exatamente novidade — alguns tinham se casado, tido namoradas ou pago por garotas para servi-los como prostitutas. Mas Amelia era alguém sem confiança, sem presença, mostrando sinais de que era mais uma vítima do que uma guerreira.

Isso não iria durar. Os homens na Gaiola ainda eram homens no final, pessoas que chegaram até aqui por desafiar o sistema. Alguns, como Lung, quebraram códigos não escritos; outros desafiaram a autoridade e perderam; outros ainda quebraram regras demais vezes. Era questão de tempo até cansarem de Amelia, depois de tanto tempo e esforço dedicados para protegê-la, sentindo que ela não tinha nada a oferecer. Ou eles poderiam desafiar Marquis; várias manobras, desde uma conspiração aberta até sabotagem sutil.

“Vai fazer uma sessão, então?” perguntou Cinderhands, novamente. O homem tinha um penteado de cabelo vermelho raspado dos lados, com furos no nariz e nas orelhas, indicando piercings antigos, alguns dos quais substituídos por argolas e barras feitas à mão com pedaços de metal aqui na ‘gaiola’. Suas mãos e braços estavam queimados até os cotovelos, mais parecendo uma tora usada e fria na lareira do que carne.

“Vou realizar uma sessão. A Amelia pode sentar-se.”

“Tem certeza?” perguntou Cinderhands.

Marquis virou-se para encará-lo, inspirando fundo o fumo do cigarro, “Você nunca questionou minhas decisões antes.”

“Suas decisões nunca levantaram questões antes.”

“Cuidado,” avisou Marquis.

Cinderhands estreitou os olhos e franziu os lábios, mas deu uma leve assentida em sinal de concordância.

“Vai passar a mensagem, avise os líderes das outras celas. Eu farei audiência por uma hora, começando uma hora após a próxima remessa chegar, até o toque de recolher. Primeiro a chegar, primeiro a ser atendido. Podem vir pessoalmente ou enviar um representante. Não vamos desafiar a passagem deles, mas máximo de dois por cela. Fiquem perto dos portões das celas e fiquem atentos a problemas.”

“Vou precisar de alguns guardas, se quiser que eu faça algo sobre essa confusão,” disse Cinderhands.

“Então encontre-os. Ou diga que não consegue, e eu arranjarei alguém que cuide do serviço,” soltou Marquis, com irritação na voz.

Cinderhands partiu de sua posição.

Quanto tempo até eles enfrentarem Marquis? Há uma diferença entre ser alguém forte o bastante para ser deixado em paz e ser líder de uma cela. Lung era o primeiro, ele era o segundo.

O verdadeiro medo de Marquis era que eles atacassem indiretamente, deixando passar enquanto Amelia fosse ferida, ou não o apoiassem num momento crucial.

Na verdade, ele pensava seriamente em provocar uma revolta entre seu povo. Uma vitória sólida e inequívoca lembraria a todos por que ele é o líder do Bloco W e ajudaria a eliminar os indivíduos mais sorrateiros que planejavam ataques mais sutis — ou seja, se tivessem paciência suficiente para capitalizar o caos que se seguiria.

Ser derrotado de verdade não era realmente uma possibilidade. Ele tinha perdido uma luta apenas uma vez, e aquelas circunstâncias eram excepcionais.

De qualquer modo, instigar uma rebelião serviria apenas como medida paliativa. O problema raiz era Amelia.

Ele olhou na direção dela. Ela ainda não se mexera, continuava olhando para as mãos.

Ela não era a primeira do seu tipo que ele via. Uma casca vazia. Tábula rasa. Um quadro em branco. Ela não dormia facilmente, e tinha pesadelos frequentes.

Ele tinha visto outras, duas na sua cela, enviadas por seu supervisor artesão. Mas ele não era um cuidador. Não tinha experiência nisso. Fez o que pôde para ver se conseguia despertá-las do neuroses que as dominava, e depois as trocava com outras celas quando não via melhorias após uma ou duas semanas. Pessoas danificadas nesse nível fundamental costumam seguir um de quatro caminhos. Recuperar-se, o que é raro; alguém enche o vazio com uma ideologia; usam-na como recurso, cuidando para explorar suas habilidades; ou esgotam tudo, consumindo o que têm a oferecer, seja criação ou violência.

Ele desejava ter tentado consertar as duas que Dragon trouxera para sua cela. Talvez teria uma ideia melhor de como lidar com Amelia se tivesse feito isso.

“Faltam vinte minutos até a chegada deles. Vá tomar banho, Amelia. Certifique-se de que seu cabelo esteja seco ao voltar, e não use um moletom. Eles te envolvem e parecem que você está escondida. Uma camiseta de manga curta serve.”

Ela se levantou e saiu, com passos de pantufas batendo ao caminhar.

Ele poderia ter ido acompanhando, mas não foi o caso. Seria melhor a curto prazo, mas pior para a imagem deles no final. Em vez disso, saiu de cela de sua filha, ficando na cabeceira do corrimão da área elevada que tinha vista para a sua cela.

Havia trinta pessoas no Bloco W, incluindo ele e Amelia. Essas trinta pessoas compartilhavam cinco televisions sem controle remoto, duas bancos de musculação, uma área aberta para exercícios gerais e esportes, e um espaço de convivência com mesas e bancos. As celas estavam organizadas em forma de ferradura, cercando a área, com duas rampas suaves que se encontravam na cela mais distante, a dele. Abaixo da sua cela havia um corredor que levava ao setor de entregas e aos chuveiros.

Com aparência organizada ao ponto de quase caricatura, Spruce ficava de guarda perto das televisões, ajudando a garantir que o Bloco W fosse o único com todos os aparelhos funcionando. Ele se certificava de que todos tinham a sua vez de escolher o canal. Whimper supervisionava o leilão. Todos já tinham recebido suas cotas de cigarros, usados como moeda para disputar os itens mais procurados do carregamento. Havia menos mantas novas do que pessoas no bloco, por exemplo, e cada carregamento trazia talvez três ou quatro livros; sempre um clássico e dois das listas de mais vendidos recentes. Bons livros, com cenas picantes, podiam ser revendidos para outros presos por um bom preço, e iam trocando de mãos até ficarem muito usados.

Da sua posição no corrimão, Marquis conseguia ver quase todas as celas do bloco. Somente as da extremidade estavam com o ângulo errado, e ele tinha seus tenentes ali. Seus tenentes e Lung.

Nem todo bloco funcionava da mesma forma, embora o layout e os carregamentos fossem iguais para todos. A vantagem da organização de Marquis era manter sua equipe relativamente satisfeita e no seu lugar. Os tenentes e Marquis tinham prioridade na escolha dos itens dos carregamentos, mas ninguém passava vontade, e tudo era discutido com o mínimo de reclamações.

Ele observou Amelia chegar ao ponto onde a rampa terminava, descer até o corredor abaixo que levava aos chuveiros. Podia ver os olhares voltados para ela, alguns quase animalescos, famintos. Outros, ainda mais alarmantes para aquela parte dele que associava à paternidade, eram frios, calculados e medidos. Mais de alguns olhos se voltaram nele após fixarem nela, como se estivessem avaliando se ele havia percebido que eles haviam notado.

Como resposta, invocou seu poder, criando dois picos de osso cruzando a extremidade do corredor formando um ‘x’. Amelia passou pela brecha, agachando-se ligeiramente, e ele preencheu o restante do espaço com galhos de ossos retorcidos.

Até as menores coisas eram um incômodo agora.

Ele quebrou o osso, mantendo a expressão neutra diante da dor que quase o quebrou. A dor passou rápido, e deixou o resto do osso cair ao chão, juntando-se a inúmeros outros estilhaços ao redor da boca da cela. Isso lhe trouxe à mente a imagem de uma alcateia de leões.

Era um jogo de risco. Amelia poderia ser a desculpa que seus inimigos ou subordinados mais ambiciosos precisassem para atacar. Na pior das hipóteses, morreria e ela… bem, ela seria uma recurso consumido, exausta de tudo que tinha a oferecer. Se conseguisse ganhar tempo suficiente, verificar que ela estava além de salvação, poderia devolvê-la às outras celas femininas, cortar perdas e aceitar o desgaste na sua reputação como o único custo de tentar.

Ele não queria nenhuma dessas opções. Tinha poucas memórias dela, desde que ela era uma criança, mas essas memórias permaneciam vivas. Lembra do brilho nos olhos dela ao ver o traje de princesa feito sob medida para ela. Recorda a expressão de espanto ao estar na mesa do seu salão, praticando a escrita das cartas. Essa frustração transformou-se em admiração ao mostrar o que ela podia realizar após dominar a arte, escrevendo letras floridas em cursiva com uma pena-tinteiro.

Mais de uma vez, ao preparar chá para Lung durante longas conversas, pensou na espécie de chá simulado que tinha com a filha.

Esses momentos pareciam mais distantes agora do que nos dias antes de reencontrá-la. Ele sabia que nunca poderia recuperá-los, mas talvez pudesse criar novas memórias com ela. Uma conversa profunda, um orgulho paterno pelas conquistas dela.

Antes que isso acontecesse, precisava resolver a situação. Consertar Amelia era um objetivo muito ambicioso. Consolidar sua própria base de poder seria suficiente por agora. Precisava mostrar para seus homens e para os demais blocos que havia uma razão pela qual ele investira tanta atenção e esforço na filha. Para isso, teria que decifrar o psicológico dela, descobrir uma forma de incitá-la a mostrar seus poderes.

Ele percebia que o tempo estava se esgotando, pelo jeito que seus seguidores estavam agindo.

“Você vai se decepcionar se esperar que eu ajude, Marquis,” veio a voz forte e carregada de sotaque de Lung de trás dele.

“Sei. Você é seu próprio homem.”

“Eu tinha mais respeito por você antes disso.”

Antes da minha filha.

“Você e todo mundo aqui. Uma pena. Eu esperava ter acumulado crédito suficiente para que você e os demais confiassem em mim para levar essa missão ao fim com sucesso.”

“Mmm,” resmungou Lung. “Você confia que vai completar tudo com sucesso?”

“Você tem um plano?” perguntou Lung.

“Você verá,” respondeu Marquis. “Vai participar da reunião?”

“Não sou um dos seus tenentes.”

“Mas conquistou uma reputação em pouco tempo. Isso é louvável.”

“Chega de bajulações. Vá direto ao ponto.”

“Ajuda ambos se você estiver lá.”

“Você parece mais poderoso se tiver o cão de guarda na corrente,” rangerou Lung.

“Alguns podem pensar assim. Eu não nego. Mas na minha perspectiva, você é perigoso, e as pessoas perceberão se eu não estiver preocupado em te ter solto na minha cela.”

“Você está me insultando. Dizendo que me despreza.”

“Não. Apenas estou falando a verdade. Sim, numa luta direta, talvez você me dê trabalho. Talvez não. Mas eu tenho meus subordinados, e isso me deixa completamente confiante de que venceria.”

“Você pode não ter esses subordinados por muito mais tempo se isso continuar.”

“Percebo que não está discordando.”

Lung deu um grunhido indiferente em resposta.

“Se ficar,” disse Marquis, apoiando os cotovelos no corrimão, “você pode conhecer os outros líderes de cela, começar a entendê-los, antes que me mate e tome conta do Bloco W.”

“Você não parece preocupado.”

“Alguém vai tentar, Lung. Alguém vai conseguir. Pode ser em dois anos, cinco, ou dez—”

“Ou hoje,” interrompeu Lung.

Marquis fez um gesto de desencorajamento. “Não hoje. Mas é fato que isso vai acontecer um dia. Prefiro que seja você, quando chegar esse dia.”

As sobrancelhas de Lung se levantaram, de surpresa incomum. “Por quê?”

Marquis se levantou, alongou-se e jogou seu restinho de cigarro no corredor abaixo.

“Você não consegue imaginar que eu seja um líder gentil ou generoso.”

“Não importa,” respondeu Lung. “Você estará morto de qualquer jeito.”

Marquis deu um tapinha no ombro do homem. Lung se tensionou, mais por surpresa com o gesto familiar e abrupto do que por outra coisa. Marquis suspirou. “Às vezes tenho vontade de te invejar.”

Virou-se para descer a rampa, indo em direção à área lotada onde os suprimentos estavam sendo classificados.

Whimper mostrou os livros. Um romance de investigação de assassinato, uma história juvenil com um pouco de romance com um fantasma, um livro com uma máscara de pássaro na capa e um romance de Dickens. Marquis escolheu o último.

Sentou-se numa banco onde tinha vista tanto do corredor quanto da entrada da cela. Enquanto outros se retiravam da área, Marquis olhou para Lung, que ainda observava do corrimão acima.

Voltou sua atenção para o livro, fingindo lê-lo enquanto refletia sobre a situação.

Ele olhou na direção da porta de ossos e viu a sombra de Amelia se aproximando. Controlar seus próprios ossos mortos era mais difícil, mas ele estava preparado para demolir a barreira, e a derrubou antes que ela chegasse.

“Você demorou um pouco,” disse.

Amelia abraçou os braços ao corpo. “Sentei para pensar e perdi a noção do tempo.”

“Somos preocupados, minha garota. É uma qualidade quando usada com moderação. Seu cabelo está seco?”

Amelia tocou o cabelo, mas não respondeu. Ele tocou nela, e mais uma vez viu ela estremecer. “Boa o suficiente. Vá se ajeitar. O último, o que era, um romance da série ‘Fade’? Estava para o leilão. Posso mandar alguém procurar se você quiser.”

Ela balançou a cabeça.

“Não quer ler, ou não quer ler isso?”

“Os dois. Principalmente o segundo.”

“Pelo menos tem bom gosto. Bem, a reunião começa em um ou dois minutos. Gostaria que você participasse, claro. Melhor se não falar, a não ser que seja diretamente questionada, e fale menos em vez de mais. É uma tática que uso também, assim você fica com menos chance de dizer coisa errada.”

“Vão pedir que eu use meus poderes. Eu não posso.”

“Entendo. Provavelmente vão querer uma demonstração. Eu só sei o que Lung me contou, que não é muito, e o que você disse, que é ainda menos. Mas, mesmo assim, acho que uma demonstração ajudaria bastante a consolidar nossa posição.”

“Não posso,” sua voz foi pequena.

Então, provavelmente, vamos morrer, minha filha.

“Vamos encontrar outra maneira, então,” disse ele. “Enquanto isso, para passar a imagem certa, é melhor se você fizer contato visual e falar claramente. Sente-se.”

“Ok.”

Ele se levantou, foi até a mesa e se acomodou nela, com os pés na bancada ao lado de Amelia.

Deu sinal a Spruce e Whimper, que se retiraram da entrada do Bloco W.

Ao todo, havia doze blocos com líderes. Ou seja, onze líderes com onze tenentes vindo na mesma leva. Acidbath, Galvanate, Teacher, Lab Rat e Gavel eram os chefes das celas masculinas. Lustrum, Black Kaze, Glaistig Uaine, String Theory, Crane e Ingenue eram as lideranças femininas. Havia outros blocos, mas doze era um número considerado ideal. Proporcionava espaço para negociações sem criar caos demais, e ainda deixava celas sem liderança, para alguma manobra de poder ou negócios em outros locais.

“Essa é a curandeira?” perguntou Gavel.

“Amelia, sim.”

“Meus homens dizem que você está provocando eles, Marquis, mantendo essa garota na ala masculina sem um namorado.”

“Não é minha intenção, garanto. Aposto que algumas pessoas estão procurando uma razão para reclamar.” Marquis olhou de forma direta para Gavel enquanto respondia.

“Não perca meu tempo com fingimento de alguém tenso demais,” interveio Lustrum. “Tenho mulheres para cuidar. Entreguei sua filha porque você prometeu retribuir e porque ela pediu. Gostaria de ver essa recompensa.”

“Deixei implícito que te pagaria nas próximas semanas ou meses, não em uma semana.”

“E se eu pedir em um ou dois meses, vai adiar a dívida mais uma vez?”

“Não acho que farei isso, mas talvez poderia esclarecer qual pagamento está procurando?”

“Ela é uma curandeira. Uma cura adequada ajudaria.”

Puta que pariu, pensou Marquis. Tinha que pedir.

“Amelia não está curando ninguém agora,” disse Marquis.

“Ambíguo,” a voz de Crane era suave, vibrante, “Será que ela não consegue ou é que você está usando isso como refém?”

Marquis apenas sorriu.

“Você deixou claro que estava aberto a uma reunião,” disse Teacher. Ele não parecia nem um pouco um herói com poderes. Era gordo, feio, com rosto vermelho e calvície na cabeça. “Não jogo de descarado, não é?”

“Descarado? Não, estamos apenas avaliando nossas opções e tendo uma ideia do terreno. Cura é algo raro. Mais de uma pessoa percebeu que o nome dela significava ‘cura universal’.”

Teacher sorriu, cheio de orgulho.

“Mas há muita demanda, e me desculpe por parecer um pai protetor, mas não vou esgotar os recursos mentais ou físicos da minha filha para distribuir suas habilidades de cura. Vamos discutir condições, propostas e contrapropostas nos próximos dias ou semanas, e aí informaremos nossa decisão.”

“Você está mantendo o poder dela como refém,” falou Lustrum.

Um poder que ela não quer usar, e cujos detalhes acho que nem você conhece. Ainda pior, está ligado a uma trauma mais profundo que de alguma forma envolve a perda de uma irmã, e isso não se resolve em poucas semanas.

“Acho que sim,” respondeu Marquis.

Glaistig Uaine mudou de posição, e Marquis não foi o único a prestar atenção nela. O que podia ver dela sob os retalhos negros de seus trajes de prisão transformados em sudário sugeria que ela tinha pouco mais de uma adolescente, mas isso era mais causado pelo seu poder do que por outra coisa. Ela foi uma das primeiras prisioneiras da Gaiola, e suspeitava-se que continuaria assim mesmo depois da morte dele. Não que sua ilusão de grandeza fosse verdadeira. Mas sim pelo fato de que ninguém ousava desafiar ela.

Quando Glaistig Uaine falou, sua voz era assustadora, uma mistura fragmentada de uma dúzia de pessoas falando em harmonia. “Cuidado, Marquis. Você pagará mil vezes por sua arrogância quando os exércitos das fadas se despertarem e se reunirem para a última guerra.

“Fique tranquilo, Glaistig Uaine, você é terrível por si só,” respondeu Marquis, sorrindo, “não preciso de um exército inteiro de sua raça me caçando.”

Não haverá caçada, pois eles já estão na posição para te derrubar ao despertar, daqui a trezentos anos. Você não passa de um sonho das fadas. Eu vejo isso, tão vívido, tão criativo em seus movimentos, até mesmo enquanto dorme. Acho que foi uma artista. Quero para minha coleção.

Ele ficou feliz por Amelia não desafiar a ideia de ‘trezentos anos’ e a noção de que ainda estariam vivos até lá. A ‘fada’ não reagia bem a esses pensamentos.

“Você já disse isso antes, nobre Faerie,” falou Marquis, “Fique tranquila, pode me ter quando eu estiver morto. Enquanto isso, vou manter seu aviso na minha cabeça.”

Sua filha também. Sua fada é parente daquela que dorme dentro da menina. Não tenho dúvida de que Amelia é uma curandeira, mas isso é apenas uma faceta do verdadeiro potencial dela. Decidi que não farei negócios com você, Marquis.

Recolherei-os à medida que caírem. Mas você está enganado, Marquis. Não estou demonstrando desinteresse por suas habilidades. Digo que só tratarei dela como uma igual.

Ao longo dos anos usando seu poder, quebrando seus próprios ossos e sentindo a dor a cada vez, Marquis se tornou mestre em esconder suas emoções por trás de uma máscara. Ainda assim, mal conseguiu conter sua surpresa.

“Muito bem,” disse. Pegou um cigarro no bolso e acendeu com jeito. “Vamos manter contato, então.”

Combinado,” respondeu Glaistig Uaine. Ela estendeu a mão para Amelia, e Marquis ficou tenso.

Devo impedi-la?

Toda parte racional de sua psique dizia que a líder do Bloco C não tinha motivo para fazer mal à filha dele, que ela não estaria em perigo. Mas toda restante parte gritava para que ele impedisse.

Amelia pegou a mão de Glaistig Uaine, hesitou, e depois fez uma reverência.

Ensinei a fazer isso há mais de uma década.

Glaistig Uaine retribuiu a reverência, virou-se para sair, e os líderes das celas assistiram enquanto a autoproclamada fada ia embora.

Havia heróis que eram o bastante para pensar que seus poderes eram magia de verdade. Havia heróis neuróticos de uma forma que não os incapacitaria de funcionar. Glaistig Uaine era uma que se encaixava em ambas as categorias, e tinha força suficiente para fazer as pessoas a ouvirem. Ele nunca pensou que pudesse tirar proveito disso.

A loucura dela realmente joga a meu favor, pensou Marquis, mesmo com o coração batendo forte no peito. Planejava deixar a tensão aumentar até Amelia ser obrigada a usar seus poderes para me salvar. Pressionar, de certo modo, sem ser quem força a situação. Ele não gostava, mas precisava que ela se soltasse, por ela própria, e estava disposto a arriscar tudo para que isso acontecesse.

“Parece que o Bloco C vai colaborar conosco,” disse Marquis, e sorriu.

“Glaistig Uaine pode ver coisas, mas usualmente não erra,” disse Galvanate. “Ela diz que a garota tem poder? Então está bom. Nossas questões são as normais. O dentista do Bloco T cobra uma fortuna, e estamos com algumas dor de dente. Você consegue curar isso?”

Amelia ainda olhava para a entrada do setor do Marquis.

“Amelia,” pressionou ele.

“O quê?” Ela se mexeu.

“Consegue curar uma dor de dente?”

“Teoricamente,” disse ela.

Bom, pensou Marquis, vago, mas realista.

“Você está mexendo com o negócio do meu tenente,” disse Teacher. “Não vou gostar nada de ver isso.”

“A competição é o melhor no longo prazo,” respondeu Marquis. “Mas talvez possamos te oferecer um desconto pelos transtornos?”

“Hum,” Amelia falou, atraindo todos os olhares. “Uma pergunta boba, mas se meu pai aprovar, quem sabe podemos fazer um acordo, em troca de uma resposta?”

Marquis reprimiu o desejo de franzir a testa. “Acho que podemos.”

“Sei que a resposta é não, mas ninguém fala disso abertamente, e eu não entendo por quê… mas, com tudo que temos aqui, por que não conseguimos escapar?”

Marquis suspirou. Era um erro de iniciante ficar pensando em fugir, mas não tinha tido oportunidade de aconselhá-la. Era bom ela estar mais animada, interessada em algo além do arrependimento, mas isso não ajudava na imagem deles e não era bom deixar que as pessoas conhecessem todo o potencial dela ainda.

“É uma montanha escavada, sem saída,” disse Lab Rat. “Vácuo, espuma de contenção—”

“Não,” cortou Teacher. “Quer o verdadeiro motivo, curandeira? Vai custar.”

Amelia assentiu. Marquis reprimiu mais uma vontade de encolher-se.

“Fazemos medições aqui em baixa quantidade, então não temos a visão completa, mas há uma teoria consistente que explica porque não podemos simplesmente teleportar para fora ou voar através do vácuo e arrombar a montanha.”

“Conte,” pediu Marquis. No final, não importa, mas é a primeira vez que ouço falar nisso.

“Tecnologia de distorção de tamanho. O dispositivo pode ter pouco mais de um pé de diâmetro, escondido em algum lugar no meio das montanhas rochosas. A máquina de distorção seria maior, mas nada garante que esteja perto da prisão real. A razão de não escapar é porque estamos dentro de uma prisão do tamanho do seu punho. E se tudo isso for apenas tão pequeno,” Teacher levantou um punho e bateu na mesa mais próxima, “quantas escavações ou teletransporte você precisaria para atravessar uma superfície tão espessa? Ou passar por algo tão grosso quanto aquela parede ali? Ou um centena de pés de chumbo com litros de espuma de contenção por fora?”

“Ok,” disse Amelia. “Entendi. Obrigada.”

Isso poderia ter sido pior, pensou Marquis. É deprimente, mas poderia estar pior.

Teacher deu de ombros. “Agradeça usando sua cura pelo seu setor.”

“Um desconto,” disse Marquis.

Teacher assentiu. “Um desconto é possível. O que deseja?”

Com isso, a conversa recomeçou, e Marquis começou a manipular discretamente os líderes das outras celas, controlando a discussão sem fazer promessas.

Isso, ele dava conta. Sentiu uma tranquilidade silenciosa substituindo o medo.

“As fadas,” murmurou Amelia. Elas caminhavam em direção à área do refeitório comum.

“Não são reais,” respondeu Marquis. “Ela vê coisas que nós não vemos, as auroras que cercam aqueles com poderes. Ela as chamou de outra coisa.”

“Não,” respondeu Amelia. “Eu vi a fisiologia dela quando toquei nela. Não consegui enxergar o que ela vê, mas vejo como ela carrega elas dentro de si, extraindo energia delas. E havia mais três, bem ao lado dela, e ela usava essa energia para alimentá-las… mas elas não estavam ativas?”

“Ela coleta almas de heróis mortos e morrendo,” respondeu Marquis. “Ou as almas de qualquer ser vivo que cruza seu caminho. Mas elas não são exatamente almas. O Teacher diz que são imagens psíquicas, cópias da personalidade, memórias e poderes de uma única pessoa. Ela pode ter algumas ativas e fazendo o que quer, passeando por aí a qualquer momento.”

“Elas não são fadas. Nem almas, nem imagens psíquicas. Nossos poderes não fazem parte de nossos corpos, exatamente. Eu conseguiria alterá-los ou removê-los se fosse assim. O que vi quando toquei no vidro—”

“Glaistig Uaine.”

“Exatamente. Tenho a sensação de que acabei de pegar uma peça do quebra-cabeça que faltava. Elas são sencientes. Talvez estejam dormindo, como ela disse. Mas não são burras, e acho que tenho uma ideia do que acontece quando elas acordam.”

“É algo que podemos usar?”

“Não aqui. Nem na Gaiola.”

“Que pena.”

“Deus,” murmurou Amelia. “Por que eu pedi para vir aqui? Se eu tivesse percebido mais cedo—”

“Por que você pediu para vir aqui?”

As palavras a atingiram como um golpe físico. Ela abraçou os braços ao corpo, e o cabelo caiu ao redor do rosto. “Minha irmã. Usei meus poderes nela. Desfaí ela.”

“Desculpe. Foi por rivalidade de irmãos? Uma briga?”

“Amor,” a voz de Amelia foi pequena. Os ombros dela se ergueram para frente. Ele segurou sua mão e a levou para um recanto, onde menos pessoas poderiam vê-la chorando.

“Ai de você, amor. A emoção mais cruel de todas. Sinto muito.”

Marquis pensou em abraçá-la, mas não o fez. Parte disso era por ela ter recuado ao seu toque antes. Ele deixaria que ela se aproximasse do jeito dela. Outra parte, uma pequena parte, era a ideia de que Glaistig Uaine parecia considerar que a garota estava ao seu nível.

Demorou um pouco até ela falar. “Você disse, antes, que família era o mais importante.”

“Algo assim.”

“Eu… você entenderia se eu dissesse que não te considero minha família? Eu — fiquei feliz por você estar aqui, conversar com você, mas Victoria era minha família.”

“Entendo, sim.” Sua experiência lhe permitia disfarçar a dor nas palavras dela. Trasquejei você para eles porque era prta demais para parar de ser Marquis de Brockton Bay. Deveria entender que você se apegou mais a eles do que a mim, mas não consigo.

“Sinto que tenho que fazer alguma coisa. Parece importante. Se pudesse explicar, contar para alguém que entende…”

“Infelizmente, não há saída,” respondeu ele.

“E,” Amelia piscou, com lágrimas nos olhos, “Já sinto que estou traindo Victoria, que estou esquecendo ela. Por um momento, ao pensar na descoberta que acabei de fazer com aquela garota, parei de pensar em Victoria. É minha culpa ela não estar mais aqui, que só existe aquela coisa que criei. Se paro de pensar nela, se paro de sofrer, sinto que estou injuriando ela.”

“Acredito que a dor não vai parar ou se curar tão rápido quanto você pensa. Afinal, não faz muito tempo.

“Mas… e se ela parar, de fato? Se eu esquecer, então estou subtraindo alguma coisa do quadro geral. Não que ela fosse perfeita, mas…”

“Mas você precisa manter a memória. Venha.”

Ainda assim, ficou feliz ao ver que seu rosto tinha mais clareza até chegarem ao destino. Um tinker estava sentado no canto do refeitório com ferramentas espalhadas ao redor. Dispositivos improvisados feitos com materiais do ambiente.

“Quanto custa uma tatuagem?” perguntou Marquis, “Para ela?”

Amelia o encarou.

“Cinco livros e cinco cigarros,” respondeu o tinker.

“Livros novos ou velhos?”

“Qualquer um.”

Marquis voltou para a filha. “Se decidir fazer, aconselho um símbolo, ao invés de um rosto. Ele não vai descrever exatamente, e a imagem vai distorcer sua ideia na cabeça.”

“Não me lembro do rosto dela como era na hora importante, de qualquer forma,” disse Amelia, com uma expressão sombria.

“Vai ter a lembrança da sua irmã em forma física, então nunca vai esquecer enquanto viver. Quando terminar, vamos te levar de volta para sua cela. Você pode falar com o quarto vazio, dizer o que precisa, e a vigilância do Dragon vai captar.”

“É como rezar,” disse Amelia.

“Exceto que há chance alguém ouvir e agir,” respondeu Marquis.

Amelia assentiu e sentou-se na bancada, começando a explicar ao tatuador o que desejava.

O programa doméstico que monitora a Gaiola seguiu a garota enquanto ela se despedia do pai e entrava na cela no Bloco W.

Quando falou, dirigiu-se ao Dragon. O programa começou a transcrever a mensagem, como faz com cada palavra dita dentro do Centro de Contenção de Parahumanos Baumann.

Programas de rastreamento começaram a revisar a mensagem. Bandeiras foram levantadas à medida que palavras-chave apareciam com frequência, descrições eram comparadas a registros do estudo de parahumanos e várias outras sinalizações eram ativadas.

Setenta e duas milhas acima da Terra, a Simurgh mudou o rumo de sua viagem.

Seguindo o protocolo de quando o Dragon era enviado em missão, o sistema encaminhou a mensagem para um dos satélites do Dragon. A mensagem resultante foi embaralhada pela assinatura densa do Endbringer a caminho de Dragon.

Ao receber a transmissão confusa do satélite, um subsystema da inteligência artificial do Dragon começou a organizá-la. Uma varredura pela mensagem, por uma subrotina adicional, a classificou como não relevante, e uma falha no código devido às alterações improvisadas de Defiant em seu programa fez com que ela passasse por várias salvaguardas e subrotinas. A mensagem foi arquivada junto com outras anotações e dados, incluindo sinais de radiação atmosférica e sinais errantes do planeta abaixo; ruído de fundo, no melhor das hipóteses.

Considerando que seu trabalho estava feito, o programa doméstico arquivou a transcrição entre quinze anos de conversas e registros do Centro de Contenção de Parahumanos Baumann.

A Simurgh seguiu seu voo.

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